Casos de covid-19 em frigorífico da JBS ameaçam Reserva Indígena de Dourados, MS. Entrevista especial com Cássio Knapp

Os primeiros casos de covid-19 na Reserva Indígena de Dourados estão relacionados à contaminação no frigorífico da JBS, diz o historiador

Foto: Cimi/Egon Heck

Por: Patricia Fachin | 02 Junho 2020

Apesar do desejo de instaurar uma quarentena na Reserva Indígena de Dourados - RID, localizada em Mato Grosso do Sul, os indígenas Guarani-Kaiowá, assim como outros grupos vulneráveis no país, encontram dificuldades em manter o isolamento social para evitar o contágio de covid-19. Entre as razões, destaca-se o próprio confinamento da comunidade na aldeia, onde aproximadamente 15 mil indígenas dividem 3,5 mil hectares, e a necessidade de ir à área urbana trocar as mercadorias produzidas na aldeia ou fazer o que os Guarani chamam de “changa”, “o trabalho temporário realizado fora da reserva”, explica o professor e historiador Cássio Knapp à IHU On-Line. “Com a covid-19, a necessidade de alimentação dos moradores da RID não se alterou, então, apesar do desejo de que toda a população pudesse manter uma quarentena na RID, isso não significou grande mudança no cenário de trânsito dos indígenas, pelo menos até a confirmação dos primeiros casos chegarem nas áreas indígenas”, relata.
 
As primeiras ocorrências de coronavírus no município de Dourados e na reserva indígena foram registradas em meados de maio e, em quinze dias, o número de pessoas contaminadas passou de 21 para 236. O primeiro óbito na cidade ocorreu na sexta-feira, 29 de maio e, no dia seguinte, foi registrada a primeira morte de um indígena na Reserva. De acordo com Knapp, “as primeiras contaminações registradas tanto na RID, como em alguns pequenos municípios e nas áreas indígenas no entorno de Dourados, foram de trabalhadores do frigorífico da JBS ou pessoas que tiveram contato com esses trabalhadores. Ao que tudo indica, a explosão de casos de covid-19 na região se iniciou a partir desse frigorífico”.
 
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Knapp relata a situação dos Guarani-Kaiowá neste momento, explica as ações que estão sendo realizadas em Dourados para enfrentar a pandemia junto aos indígenas e pontua que o principal desafio para as comunidades indígenas não é a inclusão jurídica e o reconhecimento de direitos, mas “a real e efetiva aplicação dos direitos já consagrados”, porque “existe ainda um abismo muito grande entre o texto da lei e sua real aplicação”. 

Cássio Knapp (Foto: Arquivo pessoal)

Cássio Knapp é graduado em História pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, mestre e doutor em História pela Universidade Federal da Grande Dourados. Atualmente é professor do curso de graduação em Licenciatura Intercultural Teko Arandu, voltado, especificamente, às comunidades Guarani e Kaiowá, na Universidade Federal da Grande Dourados.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é a situação das comunidades indígenas em Dourados neste momento de pandemia de covid-19? 

Cássio Knapp - Dourados tem atualmente uma população indígena de mais de 18 mil pessoas. A imensa maioria, mais de 15 mil, vive na Reserva Indígena de Dourados - RID criada pelo antigo Serviço de Proteção ao Índio em 1917. Além dessa, a Terra Indígena Panambizinho, área homologada em 2004 com uma população de um pouco mais de 500 pessoas e o restante vivendo nas áreas de retomada que circundam a cidade de Dourados ou dentro da área urbana do município.

Com o crescimento da cidade, Dourados praticamente ficou colada na área da RID, assim a circulação de indígenas na cidade é muito intensa, embora esses sejam invisibilizados pelos citadinos. Os indígenas vêm para a cidade fazer compras, trocar o que produzem, como mandioca ou milho, trabalhar principalmente na construção civil ou como empregadas domésticas, fazendo o que os Guarani chamam de changa, que é o trabalho temporário realizado fora da Reserva.

Com a covid-19, a necessidade de alimentação dos moradores da RID não se alterou, então, apesar do desejo de que toda a população pudesse manter uma quarentena na RID, isso não significou grande mudança no cenário de trânsito dos indígenas, pelo menos até a confirmação dos primeiros casos chegarem nas áreas indígenas.

Agora, efetivamente com a chegada do coronavírus nas áreas indígenas, têm aparecido movimentos de controle social com a implementação de barreiras sanitárias realizadas pelos próprios indígenas. No entanto, a dinâmica de relacionamento e interação social não teve significativo impacto, reflexo também das atuações das igrejas dentro da Reserva, e ainda há manutenção da circulação de indígenas entre a aldeia e a cidade. Comprovação disso é que, infelizmente, no dia 30 de maio, Dourados registou o primeiro óbito de indígena morador da RID causado pela covid-19.

Mapa Reserva Indígena Dourados (Foto: ISA)

IHU On-Line - Segundo notícias divulgadas na imprensa, os dez primeiros casos de contaminação por covid-19 na Reserva Indígena de Dourados ocorreram entre indígenas que trabalham na fábrica JBS. Que informações o senhor tem sobre isso? Como tem sido a rotina de trabalho nos frigoríficos da região?

Cássio Knapp - De fato, as primeiras contaminações registradas tanto na RID, como em alguns pequenos municípios e nas áreas indígenas no entorno de Dourados, foram de trabalhadores do frigorífico da JBS ou pessoas que tiveram contato com esses trabalhadores. Ao que tudo indica, a explosão de casos de covid-19 na região se iniciou a partir desse frigorífico. Em Dourados, no dia 13 de maio, data em que se confirmou o primeiro caso de indígena com covid-19, havia 21 casos confirmados. Já no boletim epidemiológico do dia 29 de maio, os casos já somavam 236 indivíduos, com o primeiro óbito de residente do município tendo sido registrado também na data de sexta-feira, dia 29 de maio, e a primeira indígena veio a óbito no dia 30 de maio.

Tenho acompanhado que infelizmente isso é recorrente, tanto no estado de Mato Grosso do Sul, na cidade de Guia Lopes da Laguna, que se tornou uma das cidades com mais incidência proporcional por número de moradores, como nas cidades de Lajeado, Marau e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul; Concórdia, em Santa Catarina; São Miguel do Guaporé, em Rondônia. Também nos Estados Unidos os frigoríficos foram indicados como focos de muitas contaminações da covid-19.

Em Dourados, após as primeiras contaminações, tanto o Ministério Público do Trabalho quanto o Ministério Público Federal têm agido para que as empresas adotem as medidas necessárias para a realização dos trabalhos e de amparo aos trabalhadores contaminados. Apenas a unidade da JBS, até a data do dia 29 de maio, registrava 168 casos de covid-19 entre os trabalhadores.

IHU On-Line - Há outros casos de contágio entre indígenas?

Cássio Knapp - Na quinta-feira, dia 28 de maio, a Secretaria Especial de Saúde Indígena em Dourados apontava 73 casos confirmados da covid-19 em Dourados, mas há casos também sendo registrados entre indígenas em outros municípios da região. Acredito que o foco inicial da transmissão possa ter sido mesmo a empresa da JBS, contudo, nos últimos dias têm explodido casos no estado, com várias cidades indicando transmissão comunitária. Assim é possível acreditar que os casos não estejam mais somente relacionados às famílias desses trabalhadores.

IHU On-Line - Como tem sido feita a assistência à saúde às comunidades na região, particularmente neste momento?

Cássio Knapp - A partir da ampliação dos testes rápidos para a covid-19, quando da instalação do serviço de drive-thru no município de Dourados, a Secretaria de Saúde Indígena também começou a receber quites de testagem rápida. Com a confirmação do primeiro caso, esses testes foram ampliados para a rede de contato das primeiras pessoas infectadas. A partir disso, também houve uma estratégia para isolar os casos confirmados e assintomáticos fora da Reserva Indígena de Dourados, na sede do cursilho pertencente à Diocese de Dourados.

Foi importante para isso a articulação entre o conselho local de saúde indígena e uma rede de instituições desde a Secretaria de Saúde, juntamente com o Ministério Público Federal, com a Secretaria Municipal de Saúde, com a Secretaria Especial de Saúde Indígena, com a Diocese Católica e a Universidade Federal da Grande Dourados, com a qual foi possível ampliar as ações. Para tratamento da população indígena em Dourados existe o Hospital da Missão Evangélica Caiuás e, nos casos de maior complexidade, os indígenas são levados para o Hospital Universitário da UFGD.

Importante ressaltar, nesse caso, as diversas ações de solidariedade para com os indígenas na região: o Comitê de Defesa Popular é uma entidade que reúne diferentes movimentos sociais e sindicais em Dourados, juntamente com a ADUFDourados Sindicato dos professores e professoras da UFGD e o Movimento dos Sem Terra, que atuaram na entrega de cestas básicas, máscaras e sementes, visando ações para a promoção da soberania alimentar.

IHU On-Line - Quais são as causas das recentes manifestações virtuais contra indígenas em Dourados? 

Cássio Knapp - Dourados é uma cidade muito preconceituosa. Digo que o racismo neste momento, demonstrado nas redes sociais, só tem escancarado um sentimento que já é presente, infelizmente, no cotidiano dos moradores de Dourados. O município cresceu em torno da Reserva de Dourados e de outras áreas tradicionalmente ocupadas pelos povos Guarani e Kaiowá a partir do movimento de interiorização no país, conhecido como ‘marcha para o oeste’. Nesse sentido, a mesma ignorância de frases vistas agora, como “são os indígenas que trazem o vírus”, são colocadas em outros momentos, como “os índios vieram para Dourados”. A presença do agronegócio é muito forte na região, cabe apontar que o lobby exercido pelas empresas do setor coloca os indígenas em oposição ao paradigma de desenvolvimento desses setores. Desse modo, o preconceito que já existia também tem sido legitimado em falas públicas do atual governo. Cabe lembrar que a frase “se eu assumir como presidente da República, não haverá um centímetro a mais para demarcação” foi dita em Dourados em fevereiro de 2018 pelo então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro.

IHU On-Line - Várias entidades de Manaus divulgaram uma nota pública denunciando o abandono e a invisibilidade das comunidades indígenas pelos governantes, especialmente daquelas que vivem na área urbana de Manaus. Pode nos dar um panorama sobre a situação dos indígenas que vivem em áreas urbanas e por quais razões eles migram para esses territórios?

Cássio Knapp - Em Mato Grosso do Sul temos duas situações diferentes. Enquanto Campo Grande possui uma população indígena bastante numerosa – dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE de 2010 apontavam cinco mil pessoas vivendo no tecido urbano da capital do estado, principalmente em uma área reconhecida como aldeia urbana Marçal de Souza –, em Dourados, ainda que exista uma parcela da população indígena que possa viver na cidade, a Reserva Indígena de Dourados é, do ponto de vista de distância, como se fosse um bairro da cidade de Dourados. Assim, se analisar a densidade populacional da RID e a possibilidade de deslocamento para o centro da cidade, podemos dizer que esses indígenas já vivem em um contexto bastante urbanizado, pelo menos na área da Reserva que faz divisa com a cidade conhecida como Jaguapiru. Agora, é claro que a procura por um contexto urbano tem a ver com a efetivação e criação de políticas públicas que contemplem as demandas que não são realizadas nas áreas indígenas.

Mapa Mato Grosso do Sul (Foto: Researchgate)

IHU On-Line - Na sua avaliação, em que aspectos as comunidades, tanto as que vivem nas aldeias quanto as que vivem na área urbana, são mais desassistidas e como essa situação poderia ser enfrentada via políticas públicas? 

Cássio Knapp - A luta dos povos Guarani e Kaiowá tem demonstrado que a ação primordial do poder público é a demarcação de suas terras tradicionais, seus tekoha, que significa para esses povos “lugar para se viver do jeito que se é” ou “o lugar onde somos o que somos”. Palavra formada a partir do prefixo teko, que tem sentido de cultura, conjunto de normas e costumes da comunidade, enquanto o sufixo ha tem conotação de lugar. Desse modo, sempre que conversamos e escutamos os Guarani e Kaiowá apresentarem suas demandas, elas são sobre uma educação específica e diferenciada que esteja pautada nos princípios do bilinguismo e da interculturalidade, ou sobre as necessidades de um atendimento que coloque os indígenas como sujeitos ativos na promoção de saúde, respeitando, portanto, o que seus saberes e sabedores entendem como adoecimento/cura. Em todos esses casos, os indígenas têm proclamado que só é possível sobreviver e reproduzir o seu modo de viver se tiverem seus territórios tradicionais respeitados, o que para eles tem se expressado pela frase “sem tekoha não tem teko”.

IHU On-Line - Como avalia a declaração do ministro Abraham Weintraub sobre os povos indígenas na reunião ministerial que veio a público recentemente, especificamente quando ele diz que “odeia o uso dos termos povos indígenas e povos ciganos” e afirma que os indígenas são privilegiados e que só existe o povo brasileiro?

Cássio Knapp - Bom, em um primeiro momento, faltam adjetivos para caracterizar o que esse senhor representa. Como professor de uma universidade pública, trabalhando em um curso que forma docentes indígenas, ele representa o que há de pior nesse desgoverno. Nem vou me estender o quanto é prejudicial sua gestão no Ministério da Educação. Avaliando apenas a frase, não tem outro elemento se não caracterizá-la como eugenista, e ao ser dita em uma reunião que não poderia ser publicada, demonstra o que pensa e como age esse governo. Querer reduzir a identidade brasileira a um só povo representa um retrocesso do paradigma da pluralidade cultural reconhecido pela Constituição Federal de 1988.

IHU On-Line - O que a declaração do ministro revela sobre a posição de parte da própria sociedade civil acerca das comunidades indígenas?

Cássio Knapp - Em primeiro lugar, ignorância no sentido de não conhecimento do que são, do que representam e quais são as contribuições que os povos indígenas oferecem à sociedade como um todo. Um exemplo bastante pontual é saber que a agora famosa cloroquina é uma sustância sintetizada da quina, árvore usada pelos indígenas da região amazônica para curar suas dores e febres bem antes do contato com os não indígenas. Antes, contudo, é preciso lembrar que isso não significa que ela é eficaz para tratar da covid-19.

Por outro lado, esse tipo de fala, partindo de um ministro de Estado, portanto figura pública, acaba legitimando o preconceito e o racismo. Sabemos que a, ou as, últimas eleições têm aflorado um radicalismo bastante racista que aparentemente estava adormecido na sociedade. Pelo menos existia um senso tácito de que era reprovável expressar certas opiniões. E isso não tem a ver com o que a extrema direita tentou naturalizar como liberdade de expressão para justificar uma luta contra o que eles adjetivam como o “politicamente correto”. Racismo é crime inafiançável e imprescritível.

IHU On-Line - Há muitas divergências na sociedade acerca de como a questão indígena deve ser tratada no país. Que tipo de resolução, na sua avaliação, poderia ser adotada?

Cássio Knapp - Como professor do componente curricular que debate políticas públicas para a Educação Escolar Indígena, tenho refletido com os e as estudantes indígenas de que o desafio atual não é a inclusão jurídica e o reconhecimento dos direitos indígenas, mas a real e efetiva aplicação dos direitos já consagrados. Existe ainda um abismo muito grande entre o texto da lei e sua real aplicação. Da mesma forma, uma saída para como refletir sobre a aplicação de políticas públicas, desde sua formulação até seu desenvolvimento, seria dar mais protagonismo para que os indígenas possam participar desse processo.

IHU On-Line - Como a crise econômica e o aumento da pobreza estimado para os próximos meses poderão impactar as comunidades indígenas no país? Quais são as projeções sobre esse cenário?

Cássio Knapp - Um cenário de preocupação que temos escutado dos indígenas aqui em Dourados é que, com o preconceito e a ignorância a partir do aumento de casos da covid-19 entre os indígenas, há o temor de que as empresas da região passem a recusar a contratação dessa população.

Sabemos que o aprofundamento da crise econômica que se avizinha, mas que também já estava colocada antes do coronavírus, tende a fortalecer o abismo entre a população mais vulnerável. A partir do que conhecemos na região, a falta de políticas públicas pode afetar ainda mais os indígenas que vivem em áreas de retomada, pois cada vez mais o Estado tem se recusado em prestar serviço para indígenas em área de conflito territorial.

Reserva Indígena Dourados (Foto: José César Dias/Último Segundo)

Portanto, tanto a crise econômica quanto a crise de saúde causadas pela pandemia global podem aprofundar a questão do déficit alimentar. Temos defendido, dentro de movimentos sindicais e sociais, que para um médio e longo prazo é preciso fortalecer os debates para a promoção da soberania alimentar. Isso passa claro pelo desejo de recuperação dos territórios tradicionais que os indígenas já demonstram, mas também pelo reconhecimento e valorização de redes locais de produção e distribuição de alimento.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Cássio Knapp - Bom, para quem gostaria de contribuir de alguma forma com a população indígena de Dourados e região, deixo aqui o contato da ADUFDourados, entidade sindical dos professores e professoras da UFGD que tem mediado um contato entre a Secretária de Saúde Indígena de Dourados, o conselho local de saúde indígena e o Comitê de Defesa Popular na tentativa de prestar solidariedade com essa população. O e-mail é Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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