Cooperativismo de crédito. Entrevista especial com Édio Spier

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15 Abril 2009

“Os princípios e objetivos idealizados pelo padre Theodor Amstad, à época, eram captar dinheiro de quem sobrava e emprestar para quem precisava a preços justos, para fomentar a economia e desenvolvimento local. Estes princípios continuam presentes ainda hoje no cooperativismo de crédito como um todo.” Este relato foi feito pelo presidente da Sicredi Pioneira, Édio Spier. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, ele relembra um pouco da história do cooperativismo de crédito, sobre sua experiência a frente da Sicredi e sobre a crise financeira.

Édio Spier está há 35 anos na presidência do Sicredi Pioneira RS, considerada a 5º maior cooperativa de crédito do país. Pela Universidade Federal de Santa Catarina, formou-se cirurgião-dentista. Hoje, dia 16-04, ele reinaugura a unidade do Sicredi na Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor pode fazer um breve resgate histórico do processo de origem do Cooperativismo de Crédito, relacionando-o com a atuação do Pe. Theodor Amstad e com o surgimento do Sistema Sicredi no Rio Grande do Sul, bem como do Sicredi Pioneira?

Édio Spier – Em suas memórias, o padre jesuíta conta que desde a sua chegada ao Brasil, em 1885, ele percebeu que não era só de assistência eclesiástica que o povo sofrido desta terra necessitava. Faltavam-lhes, também, escolas, segurança, saúde, assistência financeira e técnica rural. Com a fundação da primeira cooperativa de crédito da América Latina, o padre resolveu, diretamente, o problema financeiro e indiretamente os demais, organizando os colonos em associações.

As cooperativas de crédito foram se multiplicando ao longo do eixo de colonização germânica do Rio Grande do Sul, chegando, mesmo, ao oeste catarinense. Os objetivos vislumbrados desde a fundação da primeira cooperativa foram amplamente superados, uma vez que no rastro das cooperativas de crédito surgiram importantes projetos fundiários que resultaram em núcleos gerando importantes municípios na região noroeste do Estado.

IHU On-Line – Quando do surgimento do cooperativismo de crédito e do Sistema Sicredi, quais os principais objetivos e princípios eram vislumbrados a época? A partir destes princípios e objetivos iniciais, pode-se dizer que o Sicredi hoje mantém e pratica os princípios iniciais e consegue responder as expectativas da sua fundação?

Édio Spier – Os princípios e objetivos idealizados pelo padre Theodor Amstad, à época, eram captar dinheiro de quem sobrava e emprestar para quem precisava a preços justos, para fomentar a economia e desenvolvimento local. Estes princípios continuam presentes ainda hoje no cooperativismo de crédito como um todo, e, especialmente, no Sistema Sicredi, que tem como objetivo valorizar o relacionamento, oferecer soluções financeiras e contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos associados e da comunidade. Norteado pelos objetivos, o Sicredi leva aos seus associados todos os benefícios de uma instituição financeira local, da qual a comunidade utiliza seus produtos e serviços e recebe seus dividendos proporcionais a rentabilidade gerada. Em 2008, a Sicredi Pioneira gerou R$ 10,8 milhões de sobras (lucros), sendo que devolverá R$ 5,4 milhões aos associados, por decisão dos próprios na assembléia geral ordinária. Isso é cooperativismo! Isso é a solução da desigualdade no mundo!

IHU On-Line – É possível hoje equilibrar a expansão necessária para a sustentabilidade econômico-financeira do sistema no mercado essencialmente capitalista, com a manutenção da sua essência cooperativista? Como ocorre este processo, quais os principais tensionamentos e avanços?

Édio Spier – Mesmo na conjuntura atual, onde impera o capitalismo neoliberal voraz, o cooperativismo de crédito cresce e se fortalece cada vez mais, tendo em vista que ele possui as partes positivas deste capitalismo e também do socialismo. Busca objetivamente resultados econômicos para se desenvolver e gerar sobras e, ao mesmo tempo, pratica o mais justo socialismo, retornando para os associados o resultado gerado na proporção exata do valor que cada associado gerou. O principal, em todo o processo, é conscientizar o associado de que ele é dono de sua cooperativa e que isso é uma grande vantagem para ele, pois se a cooperativa gera lucro, ele ganha. Mas o associado precisa exercer seu dever de participar das assembléias e saber dos números de sua cooperativa, pois isso é ser o dono do negócio. Para incentivar esta prática, em 2009 vamos implantar o Programa Crescer, um programa de formação cooperativa, e o Programa Pertencer, um programa de relacionamento com associados.

IHU On-Line – Com base nos princípios e valores do cooperativismo, quais são as principais diferenças do Sistema Sicredi em relação às instituições financeiras tradicionais, aos bancos capitalistas?

Édio Spier – As cooperativas são empresas de pessoas, democraticamente geridas e que dão aos seus associados o direito a participação econômica. As pessoas são todas iguais e valem pelo que são e não pelo que têm. Os bancos são sociedades de capital e, neles, manda mais e lucra mais quem mais tem. Os usuários de seus produtos e serviços que geram os lucros nunca serão convidados para participarem da distribuição destes lucros. Nas cooperativas, o ser humano é o centro do processo econômico, por isso, valorizar o relacionamento está em nossa missão.

IHU On-Line – Numa análise do cooperativismo de crédito em geral, quais os impactos da atual crise global em relação ao cooperativismo de crédito? O cooperativismo e o Sicredi são afetados de forma mais ou menos intensa que as instituições financeiras capitalistas, ou não há diferenciação neste sentido?

Édio Spier – A atual crise econômica tem reflexos sobre o setor financeiro por causa da redução da atividade econômica como um todo, o que, por sua vez, se deve à redução generalizada do consumo. O cooperativismo é menos afetado que os bancos, porque elas correm menos riscos de sofrerem o calote de seus associados, do que os bancos de seus clientes, justamente pela cumplicidade que o associado tem com a sua cooperativa, tendo em vista que é dono do negócio.

IHU On-Line – Mesmo em um momento de crise, a Sicredi Pioneira e o Sicredi como um todo parecem estar em forte processo de expansão. É nesta perspectiva que a Sicredi Pioneira está reinaugurando a sua Unidade de Atendimento no câmpus da Unisinos e que inaugurou recentemente a Unidade de Atendimento do centro de São Leopoldo?

Édio Spier – Mesmo com todas as dificuldades que o mercado impõem, o Sistema Sicredi e a Sicredi Pioneira RS, em particular, continuam crescendo em virtude de sua marca forte conquistada através da transparência na gestão, competência, envolvimento de seu quadro social e posicionamento de mercado. Prova disso é que, no final de 2007, inauguramos a unidade de atendimento em Portão. Em julho de 2008, inauguramos a unidade no centro de São Leopoldo. No dia 16 de abril, vamos reinaugurar nossa unidade na Unisinos. No dia 22 de abril, vamos inaugurar uma unidade no bairro de Canudos, em Novo Hamburgo, e no segundo semestre deste ano vamos inaugurar mais uma unidade na Serra gaúcha. Este crescimento refere-se somente à Sicredi Pioneira. Temos ainda o projeto de expansão do Sicredi na região metropolitana, que consiste na instalação de dez unidades de atendimento no prazo de um ano e meio, iniciado em 2007.

IHU On-Line – Para a Sicredi Pioneira, há uma ligação a ser resgatada e/ou fortalecida entre o cooperativismo, principalmente o cooperativismo de crédito e a cidade de São Leopoldo?

Édio Spier – São Leopoldo está historicamente ligado ao cooperativismo de crédito. Os primeiros serviços prestados pelo Padre Amstad, na região colonial alemã do Rio Grande do Sul, foram em São Leopoldo. Também nesta cidade, o padre passou seus últimos 15 anos de vida, depois de ficar paraplégico por causa de uma queda de seu meio de transporte, uma mula. Foi neste período, em cadeira de rodas, que ele escreveu seu livro “Memórias auto-biográficas”. E o padre foi o principal incentivador para a criação da Caixa de Economias e Empréstimos Amstad, atual Sicredi Pioneira.

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