“A secularização cria espaço para a liberdade.” Entrevista com Arturo Sosa

21 Mai 2021

 

A Companhia de Jesus iniciou um “Ano Inaciano” para marcar o 500º aniversário da conversão que mudou a vida de seu fundador, Inácio de Loyola.

Foi no dia 20 de maio de 1521 que Inácio, então soldado, foi ferido por uma bala de canhão e iniciou uma recuperação hospitalar que o levou a se tornar um peregrino religioso e fundador dos jesuítas.

O Ano Inaciano foi lançado nessa quinta-feira e continuará até julho de 2022.

Para saber mais, Loup Besmond de Senneville, do La Croix, 20-05-2021, fez esta entrevista exclusiva com o superior geral dos jesuítas, Arturo Sosa Abascal.

O venezuelano de 72 anos de idade, eleito padre geral em 2016, falou sobre as prioridades da Companhia de Jesus em todo o mundo, assim como a sua relação com o seu coirmão jesuíta mais famoso, o Papa Francisco.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

Por que o lançamento de um Ano Inaciano?

O Ano Inaciano, que começou por ocasião do 500º aniversário do ferimento de Inácio de Loyola na batalha de Pamplona, não é, na minha opinião, um ano comemorativo. Ele faz parte de um processo que começou há cinco anos. Em 2016, nós prometemos participar de um grande ministério de reconciliação baseado na justiça, na fé e na solidariedade com os pobres. E devo dizer que a pandemia da Covid-19 reforçou essa necessidade. Assim como Inácio teve sua vida mudada pelo ferimento, porque Deus irrompeu nele naquele momento, nós podemos dizer que o nosso ferimento é a pandemia. É uma oportunidade que Deus está aproveitando para nos alcançar e abrir um caminho que jamais havíamos pensado.

 

Logo do Ano Inaciano.

 

Quais são as prioridades da Companhia de Jesus hoje?

São aquelas indicadas pelo Papa Francisco em 2019. Em primeiro lugar, promover o discernimento e os Exercícios Espirituais, ajudando cada um a encontrar Jesus Cristo. Segundo, caminhar ao lado dos marginalizados deste mundo, estando presente junto daqueles que deixam as suas casas, a sua pátria ou que não têm direitos. Temos o dever de participar com eles na luta pela justiça. Aqui, novamente, esse objetivo torna-se ainda mais urgente devido à pandemia, que tem acentuado as desigualdades em todo o mundo. Terceira prioridade: devemos acompanhar os jovens, para os ajudar a construir um futuro cheio de esperança. Nos últimos meses, eles viram seus projetos, seus sonhos, seu mundo desmoronarem... Devemos estar à escuta deles. Enfim, devemos trabalhar pela proteção da criação de Deus e responder ao grande desafio da humanidade que é a resposta às mudanças climáticas.

 

Como os jesuítas enfrentam a secularização das várias sociedades ocidentais?

Do meu ponto de vista, a secularização é uma oportunidade. Ele cria um espaço de liberdade, porque encoraja o surgimento de sociedades plurais. Isso significa que elas aceitam melhor as diferenças culturais, ideológicas e também religiosas. Para os jesuítas, é também uma sociedade na qual podemos propor os Exercícios Espirituais, porque é um instrumento que visa a ajudar as pessoas a fazerem escolhas livres. Outro ponto positivo, a meu ver, é que esse processo rompe o vínculo entre cultura e religião, que obrigou os fiéis das gerações passadas a não escolherem livremente a sua fé. Mas a religião não é um dado cultural. É uma escolha que se enraíza na liberdade humana, um encontro com Deus, que nasce tanto da sua liberdade quanto de uma experiência pessoal. Para a Igreja Católica, é uma mudança profunda, porque agora ela será composta por fiéis conscientes da sua escolha. As comunidades cristãs serão muito mais vivazes. Nesse sentido, ela pode ser uma oportunidade.

 

 


Arturo Sosa em visita ao IHU | Foto: Cristina Guerini - IHU

 

Como vocês chamam as vocações hoje? Quem são os jovens jesuítas?

Não somos nós que chamamos, mas o Senhor! Nós rezamos. Hoje, o que mudou é a maneira pela qual os jovens descobrem os jesuítas: por meio de grandes encontros ou pela internet, por exemplo. É difícil estabelecer uma espécie de perfil típico dos 3.000 jovens jesuítas atualmente em formação. Eles são muito diversos, devido às suas origens culturais ou à sua idade. Na Europa e nos Estados Unidos, eles entram mais tarde na Companhia do que em outros países do mundo. Não estamos mais na época em que 70% dos jesuítas vinham das culturas ocidentais. Por exemplo, atualmente temos 1.000 jovens jesuítas na Índia, Sri Lanka e Bangladesh, e 600 jovens jesuítas são naturais da África.

 

Hoje, estamos em um momento histórico em que o papa é, assim como vocês, um jesuíta da América Latina. Isso cria uma proximidade particular entre a Companhia e ele?

Os jesuítas sempre tiveram uma relação muito próxima com o papa. A Companhia nasceu para se pôr a serviço do papa. Mas devo admitir que ninguém jamais previra que um jesuíta seria eleito papa! Entre nós, o papa e a Companhia, há relações ao mesmo tempo muito respeitosas e muito fraternas. Por um lado, o papa sabe que pode contar com os jesuítas. Mas ele deixa a Companhia totalmente livre para o seu governo. Não temos vínculos privilegiados. De minha parte, vou me encontrar com ele quando preciso lhe expor um problema particular, mas não há nenhum telefone vermelho (ou branco!) entre nós, que constitua uma linha direta. Para marcar um encontro com ele, eu passo, como todo mundo, pelos seus secretários.

 

Francisco tem um modo jesuíta de governar a Igreja?

Certamente, a sua maneira de fazer as coisas é semelhante à que se observa entre os jesuítas. Por exemplo, entre nós, a pessoa que toma uma decisão deve assumir total responsabilidade por ela. Mas, para chegar a esse ponto, ele deve passar por duas etapas importantes. Antes de tomar uma decisão, eu consulto os membros do Conselho Geral, levando em consideração a sua diversidade geográfica, de pensamento etc. Depois, também é preciso se pôr à escuta do Espírito Santo por meio da oração. Esse tipo de governo, inspirado na espiritualidade, é o exercido pelo Papa Francisco.

 

Ele está mudando a Igreja?

Sim, sem dúvida. Mas ele está fazendo isso abertamente. Ele criou grupos de trabalho, tomou medidas... Não sem dificuldades, ele começou a mudar a Cúria Romana, promovendo, por exemplo, o trabalho entre os dicastérios e uma reforma da comunicação. As três encíclicas que ele assinou mostram um apego à sinodalidade, ao discernimento... Certamente, esses são métodos que se baseiam na espiritualidade inaciana, mas também estão profundamente enraizados no Vaticano II.

 

O papa irá a Marselha, no sul da França, para a grande reunião da família inaciana no Dia de Todos os Santos?

Não sei. Ele foi convidado, e ficaríamos muito felizes em recebê-lo. Nós não temos nenhuma novidade sobre isso neste momento.

 

Os jesuítas às vezes têm uma reputação de serem homens de poder e influência. O que você acha dessa imagem?

É verdade que o adjetivo jesuíta é usado para muitas coisas, e às vezes até mesmo como sinônimo de hipócrita ou de maquiavélico. Às vezes, ele isso está ligado a uma trajetória particular ou a episódios históricos, mas, em grande parte, é um mito. A Companhia não é uma instituição que busca o poder, mas é uma colaboradora do papa. Na sua época, Santo Inácio dizia muitas vezes que os Jesuítas deviam ser uma “companhia mínima”, um pequeno rebanho. Acho que isso não mudou.

 

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