As igrejas vazias e o álibi da secularização. Artigo de Massimo Borghesi

Foto: Dave Hrbacek/The Catholic Spirit via CNS

20 Mai 2021

 

"Conformismo e maniqueísmo, esses são os dois polos do catolicismo atual. Diante dessa perspectiva, não é surpreendente o progressivo esvaziamento das igrejas e a distância que separa os jovens da fé".

A opinião é de Massimo Borghesi, professor de Filosofia Moral na Universidade de Perugia, na Itália, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 15-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O debate suscitado por Giorgio Gawronski no L’Osservatore Romano, com o seu artigo do dia 22 de fevereiro, intitulado “As igrejas vazias e o humanismo integral”, é uma das poucas discussões interessantes que agitam atualmente o pensamento católico.

Retomado por outras intervenções (G. De Rita, “Le sfide della Chiesa di fronte all’era dello Spirito”, 13-03; L. Brunelli, “Le chiese vuote e la fantasia di Dio”, 10-04; A. Piva, “Vuote le piazze, vuote le chiese”, 24-04; M. Matzuzzi, “Cristiani senza Cristo”, Il Foglio, 01-05), ele levanta o problema evocado pelo título: por que as igrejas estão vazias e tendem a se tornar cada vez mais vazias?

“Na Itália – escreve Gawronski – os ‘praticantes’ caíram em 10 anos de 33% para 27%; entre os jovens (18-29 anos), os praticantes são apenas 14% e continuam caindo quase 3% ao ano.”

Do que depende essa desafeição que atinge a Europa e o mundo economicamente desenvolvido, e muito menos a África, a América Latina, as Filipinas?

Conhecemos as motivações habituais: a secularização, o consumismo, o relativismo ético etc. A estas, os tradicionalistas e os setores conservadores da Igreja acrescentam as críticas ao Concílio Vaticano II e ao seu representante atual, o Papa Francisco, cujo pecado residiria em ter afastado a doutrina da reta tradição.

Do lado oposto, os progressistas culpam pelo afastamento dos fiéis a Igreja “imóvel”, firme no celibato dos padres, na moral sexual fechada, no machismo eclesiástico. Trata-se de assuntos que, tanto à direita quanto à esquerda, não convencem. São mais justificações do que explicações.

Como escreve Gawronski, “estatisticamente, nem as Igrejas mais ‘modernas’, nem as mais ‘conservadoras’ obtêm resultados satisfatórios”. Isso significa que a atual crise da fé no Ocidente certamente não pode ser imputada ao Concílio, nem se pode pensar que a sua resolução esteja em um Vaticano III.

Como bem escreve Lucio Brunelli, “a crise das ‘igrejas vazias’ vem de longe, começa quando as igrejas estavam cheias. (...) A Igreja dos anos 1950 era uma Igreja militante, dura na doutrina, influente na vida política. Porém, com exceção de um respeito exterior ainda pelas formas e convenções sociais, ela não capturava mais os corações e as mentes de grande parte das gerações mais jovens. A prática religiosa ainda se mantinha, mas era como um andaime sem ganchos sólidos no chão. Basta uma sacudida e ele cai. O vento de 1968 levou embora da Igreja, de um golpe só, uma geração de filhos inquietos. O advento de um novo poder consumista ‘que ri do Evangelho’ – como profetizava Pasolini nos anos 1970 – pareceu fazer desaparecer como neve ao sol, em pouco mais de uma década, todo um tecido popular cristão, ligado a uma Itália rural, que demorou séculos para se formar”.

Matzuzzi relata, a esse respeito, as palavras do cardeal Wimeijk, arcebispo de Utrecht: “Tínhamos um excesso de sacerdotes, ordens religiosas, congregações. Muitos missionários no mundo provinham da pequena Holanda. Mas logo se entendeu que os fundamentos daquela orgulhosa coluna católica eram muito menos sólidas do que pareciam”.

Isso significa que o cristianismotradicional” dos anos 1950 apresentava graves carências. Não se explica de outra forma a velocidade da sua liquidação diante do desafio da modernização que ocorreu na Europa principalmente a partir dos anos 1960.

Aquele cristianismo se fundamentava em dois pilares: a aceitação passiva do dogma e uma doutrina moral limitada, em sua maior parte, à questão sexual. Quando o american way of life irrompeu, com a sua visão liberal da vida, o mundo católico estava decisivamente despreparado.

Acostumado, desde a Contrarreforma, a se conceber em uma posição de defesa, em grande parte incapaz de desenvolver um debate crítico com o moderno, ele se encontrou deslocado pelo modernismo estadunidense, em relação ao qual a Igreja Católica pareceu repentinamente antiquada, um resquício de tempos passados.

La dolce vita, de Fellini, é de 1960 e representa bem o momento de passagem, o fosso geracional entre as duas Itálias, a do passado e a do futuro. Qual era o limite da Igreja e do cristianismo daquela época? Acima de tudo, o da sua cultura, a neoescolástica dominante nos seminários e nas faculdades pontifícias, um pensamento marcado por uma atitude antimoderna radical, hostil ao quadro das liberdades, acompanhado por uma teologia dogmática desprovida de uma antropologia teológica. Era o tempo em que a teologia olhava com desconfiança para as categorias de “experiência” e de “sentido religioso”.

Abaladas pela polêmica antimodernista, por causa da sua formulação inadequada, elas deixavam um vazio, o de uma visão do ser humano aberta ao sobrenatural. A neoescolástica, o neotomismo do século XX, concebia o humano, assim como o Iluminismo, como um bloco autônomo, fechado, ao qual a graça se somava como um meteorito.

A consequência era o temor diante do mundo secularizado, percebido como antropologicamente estranho e inimigo. A ponte entre o dogma e o humanismoateu” parecia impossível.

O resultado era que a psicologia “cristã” se mantinha de pé enquanto as portas da Igreja permaneciam fechadas. Toda saída era paga com crises internas, concessões, fugas.

A grande crise que se seguiu aos anos do pós-Concílio não depende de colapsos repentinos, mas sim dos limites da cultura católica. O progressismo pós-conciliar é o exato inverso do tradicionalismo anterior, é o seu molde invertido e só pode ser explicado a partir dos limites da cultura neoescolástica.

Diante do êxodo de centenas de milhares de cristãos, que encontraram no marxismo o seu ponto de desembarque, a resposta mais significativa por parte da Igreja não veio dos setores tradicionalistas, dos opositores ao Concílio, mas dos novos movimentos eclesiais que então demonstraram, em um clima fortemente hostil, que não desposavam a reação conservadora, mas interceptavam as esperanças e as expectativas dos jovens mais distantes, daqueles que não provinham das famílias católicas ou das paróquias.

Esse encontro foi possível não só graças às personalidades carismáticas dos fundadores, mas também porque a proposta cristã dirigida aos jovens recordava, como afirma Gawronski no seu artigo, a dinâmica da Igreja dos primeiros séculos: a do testemunho pessoal e comunitário, da participação em uma experiência de humanidade renovada, capaz de investir sobre a realidade e a história. “Como ocorria nos primeiros séculos”, escreve Brunelli.

De fato, os movimentos eclesiais representaram, pelo menos até os anos 1990. uma grande esperança, um sinal de vitalidade e de juventude para um cristianismo à deriva, rejeitado pelo messianismo político e sectário do pensamento de 1968. Depois, o vento da restauração, após 1989 e a queda do comunismo, novamente deu um nó no novelo. A Igreja como um todo voltou a se blindar, amedrontada diante de uma secularização cada vez mais arrogante, a fechar novamente as portas.

Evangelização e promoção humana, os dois polos da Evangelii nuntiandi, de Paulo VI, se perderam pelo caminho. No lugar da evangelização, encontramos as “batalhas” éticas centradas na luta contra o aborto, a eutanásia, o casamento gay, enquanto, no lugar da promoção humana, encontramos uma aquiescência total ao modelo capitalista e um esquecimento profundo da doutrina social da Igreja. Conformismo e maniqueísmo, esses são os dois polos do catolicismo atual.

Diante dessa perspectiva, não é surpreendente o progressivo esvaziamento das igrejas e a distância que separa os jovens da fé. Por que um jovem de hoje deveria se sentir atraído por uma posição que se qualifica apenas por um campo restrito de batalhas ético-culturais? Um jovem que, lembramos, está a anos-luz do militante comprometido dos anos 1970.

O que falta ao catolicismo atual, também e sobretudo ao catolicismo comprometido, é a categoria de “encontro”. Uma categoria que atravessa e supera a distinção entre direita e esquerda, e que permite ir diretamente ao coração do humano.

Como a Igreja pode alcançar esse “coração” hoje? Essa é a pergunta que deve ser feita diante do espetáculo das igrejas ocupadas apenas pelos idosos. Respondendo a ela, o Papa Francisco afirmou, no dia 13 de setembro de 2018: “A teologia, de fato, não pode ser abstrata – se fosse abstrata, seria ideologia –, porque nasce de um conhecimento existencial, nasce do encontro com o Verbo feito carne! A teologia, então, é chamada a comunicar a concretude do Deus-amor. E a ternura é um bom ‘existencial concreto’, para traduzir nos nossos tempos o afeto que o Senhor alimenta por nós. Hoje, de fato, focamo-nos menos no conceito ou na prática do que no passado, e mais no ‘sentir’. Isso pode não agradar, mas é um fato: parte-se daquilo que se sente. A teologia certamente não pode se reduzir ao sentimento, mas também não pode ignorar que, em muitas partes do mundo, a abordagem às questões vitais não começa mais pelas perguntas últimas ou pelas exigências sociais, mas por aquilo que a pessoa sente emocionalmente”.

Aqui o papa faz uma afirmação de grande importância: “A abordagem às questões vitais não começa mais pelas perguntas últimas ou pelas exigências sociais, mas por aquilo que a pessoa sente emocionalmente”. Como se quisesse dizer que a linha de onda ao longo da qual o cristianismo pode encontrar o mundo não é mais a linha filosófica dos anos 1950, marcados pelo existencialismo e pelas perguntas sobre o sentido da vida, nem a política dos anos 1970, marcados pelo compromisso militante e ideológico do marxismo, mas encontra a sua possibilidade em uma sensibilidade nova que caracteriza a hora presente.

Esse é um juízo histórico que motiva a insistência com que Francisco fala da ternura de Deus. O ser humano de hoje, na sua fragilidade, é particularmente receptivo à dimensão afetiva. No “mundo sem laços”, na sociedade líquida, o tema do sentido da vida não representa a conclusão de um raciocínio lógico, mas sim o resultado da descoberta de se sentir amado, queridos.

Hoje, são chamados a essa responsabilidade “afetiva”, in primis, os presbíteros e os religiosos, homens e mulheres. As igrejas estão vazias quando os pastores, em vez de sê-lo, são burocratas, funcionários, empregados. O problema da Igreja atual é que muito frequentemente ela carece de pastores, de pessoas que amam a Cristo e compartilham a vida daqueles que lhes são confiados.

A partir desse ponto de vista, a secularização representa o álibi que esconde o vazio de fé e de ternura, a distância entre as palavras muitas vezes altissonantes e melífluas das homilias, e a proximidade real capaz de saudações e de gestos. Onde o pastor é um homem de Deus que se faz tudo para todos, lá as igrejas milagrosamente voltam a estar cheias. O ser humano atual, o jovem de hoje, não perdeu o senso do amor divino.

 

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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