A Igreja Católica e o desafio da pandemia. Artigo de Marco Marzano

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02 Setembro 2020

Neste artigo, Marco Marzano, sociólogo italiano, analisa como a Igreja Católica italiana se comportou no período do lockdown que foi necessário devido à pandemia da Covid-19. Durante mais de dois meses, todas as celebrações e as atividades pastorais foram suspensas, criando assim uma situação difícil para a Igreja Católica, uma vez que os momentos coletivos ligados aos sacramentos são centrais na vida religiosa dos católicos.

Como resultado de uma pesquisa etnográfica breve mas intensa, Marzano, que também é professor da Universidade de Bérgamo, especifica três atitudes gerais que caracterizaram a resposta dos católicos à quarentena: suspensão, reprodução e substituição.

A suspensão consistiu na interrupção de todas as atividades à espera de um retorno à normalidade, enquanto a reprodução foi uma tentativa de reproduzir a atividade litúrgica normal na internet (em particular no Facebook e no YouTube). Já a substituição foi a atividade mais criativa e original, e consistiu em uma tentativa proposta por uma minoria de católicos progressistas de criar novos ritos mais adequados à situação e que refletiam muitas das conquistas teológicas pós-Vaticano II.

O artigo é publicado na revista Etnografia e Ricerca Qualitativa, 2/2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Introdução

A partir do dia 23 de fevereiro, primeiro na Lombardia e depois em toda a Itália, foram vetadas as celebrações de todos os ritos religiosos. A maioria das igrejas católicas permaneceram abertas, mas eram acessíveis apenas a indivíduos que deviam se ater estritamente às normas de higiene para evitar a propagação do vírus.

As comemorações foram retomadas no dia 18 de maio, mas deviam seguir escrupulosamente as novas regras de segurança decididas pelo governo italiano para conter a pandemia durante uma nova fase, chamada de “fase 2” (medição da temperatura na entrada das igrejas, acesso limitado com base no tamanho do edifício, obrigatoriedade do uso de máscara e luvas, distanciamento de segurança, nenhum contato físico durante toda a duração do rito, higienização após cada celebração).

Para a Igreja Católica, foi uma situação muito difícil, já que os momentos coletivos ligados aos sacramentos são momentos centrais da vida religiosa no catolicismo (Bryant, 2010, p. 326). São as pedras angulares daquela sacralização que torna a Igreja Católica uma sociedade perfeita, como “o exemplo mais elevado de como estar na sociedade e de como governá-la autenticamente” (Pace, 2012).

É precisamente no âmbito dos sacramentos que a Igreja se apresenta como guardiã dos valores de Deus e como executora da sua vontade na terra. Desse modo, a Igreja reafirma a sua centralidade na economia da salvação, sua absoluta indisponibilidade social, o seu caráter de Igreja e não de seita (Troelstch, 1992; Weber, 2019).

Na administração dos sacramentos, reafirma-se o papel central do padre, ministro de Deus, alter Christus e absoluto protagonista do rito.

Nos quase 60 anos desde o fim do Concílio Vaticano II, as tendências mais progressistas da teologia católica tentaram delimitar a concentração nos sacramentos, enfatizando a importância das orações, da leitura das Sagradas Escrituras e de outros momentos da vida da comunidade católica. A tentativa não parece ter sido coroada de sucesso: ainda hoje, os sacramentos são o coração da religiosidade católica, o padre continua sendo a figura central de cada comunidade, e a Igreja, o lugar físico para o rito por excelência.

Por todas essas razões, o confinamento foi um desafio sem precedentes para a Igreja Católica. Para descrever essa situação, ativei uma rede de contatos que criei em mais de 10 anos de constante trabalho de campo sobre o catolicismo (Marzano 2013, 2018). Telefonei (pois não era possível entrevistar as pessoas presencialmente, dada a situação) para um grande número de padres e teólogos com quem tinha contato: pessoas que eu já havia entrevistado anteriormente para outras pesquisas ou pessoas com quem me encontrei durante o debate ou a apresentação dos meus livros. Pedi que me dissessem como decidiram reagir ao confinamento, com quais iniciativas e com quais sentimentos.

Após essa vasta excursão (que consistiu em 27 longas conversas telefônicas de pelo menos uma hora cada), comecei a explorar as atitudes e os comportamentos de alguns fiéis. Estes últimos foram identificados tanto no meu arquivo pessoal de contatos, quanto por meio de um anúncio nos perfis do Instagram de dois estudantes universitários católicos que declararam a sua disponibilidade de me ajudar, usando as suas amplas redes.

Em um curto período de tempo, tentei, o máximo possível, usar a minha experiência pluridecenal no mundo católico para tentar tomar conhecimento das ações e das opiniões de diversos componentes da comunidade católica italiana: do ambiente da direita conservadora que frequenta as missas em latim aos progressistas de esquerda que substituíram as missas por ritos domésticos autogeridos, interrogando também aqueles fiéis que vão à igreja somente porque têm que levar seus filhos à catequese.

Integrei essa série de entrevistas com a observação direta de dezenas de missas online disponíveis no Facebook e no YouTube.

Ao término desse breve mas intenso trabalho de pesquisa, elaborei três diferentes reações ao confinamento, atitudes [1] que caracterizaram a resposta dos católicos à quarentena e à suspensão de todas as atividades religiosas na Itália. A primeira atitude consistiu em uma suspensão, a segunda, em uma reprodução, e a terceira, em uma substituição. Tais atitudes são agora consideradas em detalhes.

A suspensão

Alguns católicos italianos fizeram uma pausa durante o confinamento. Refiro-me, em primeiro lugar, a alguns párocos, muitas vezes idosos, mas não só (incluindo os deprimidos ou exaustos), que nunca se recuperaram realmente do choque inicial da pandemia. Esses padres simplesmente decidiram fazer uma pausa, escondendo-se na casa paroquial esperando que a tempestade passasse e que se pudesse voltar à vida normal. A idade média dos padres italianos é de mais de 61 anos [2].

A notícia relativa à morte de muitos padres (121 na Itália e 25 apenas em Bérgamo, a província onde eu moro) foi referida pelo papa com orgulho, como prova da disposição ao sacrifício de muitos ministros, mas também levou muitos padres idosos a serem ainda mais prudentes e a se absterem de sair das suas casas para qualquer atividade.

O comportamento desses padres espelhava o de muitas pessoas que vão à igreja apenas ocasionalmente: especialmente muitas crianças e adolescentes matriculados na catequese (em vista da sua primeira comunhão e crisma) com seus pais ou casais de namorados que seguem os cursos pré-matrimoniais.

Para a maioria deles, a relação com a paróquia foi interrompida apenas temporariamente. Trata-se de uma população que essencialmente vai à igreja apenas para receber os sacramentos. Um padre veneziano me disse: “Nem todas as crianças matriculadas na catequese participam das celebrações dominicais. Em alguns casos, os pais deixam seus filhos e suas filhas na igreja e vão embora sem participar da santa missa. Contam comigo ou com os catequistas e, quando a celebração acaba, voltam para levar as crianças de volta para casa. Às vezes, os pais chegam tarde, e nós temos que esperá-los por muito tempo na frente da igreja”.

Uma mãe siciliana me disse: “Todos os dias, os catequistas enviam leituras para o meu celular pelo WhatsApp, mas, para ser sincera, eu não as mostro para a minha filha. Ela tem outras preocupações, e eu também. Todo o dia cozinhando e limpando. Eu tento ajudar a minha filha a se concentrar na escola, que eu acho que é mais importante. Eu também vejo que as outras mães da catequese se comportam da mesma maneira, até mesmo uma mãe que vai à igreja todos os domingos e que obrigou o seu filho a ser coroinha. Ela me confessou que, neste período, ela está preocupada com o seu marido que acaba de perder o emprego e com os filhos que não vão à escola. Ela não tem tempo para pensar nas orações ou para acompanhar as missas na TV ou na internet”.

Outra mãe me confidenciou que recebeu uma mensagem no WhatsApp dos catequistas do seu filho e que a havia ignorado, assim como todos os outros pais. Depois de algumas semanas, ela recebeu uma mensagem de repreensão dos catequistas, que se queixaram de não terem recebido uma resposta à sua mensagem anterior. Ela me disse: “Então, eu achei que talvez aquelas pessoas não entendiam a situação. Orações, citações do papa e lembretes de um terço não interessam às pessoas normais. Eu gostaria mais se eles tivessem me perguntado como estávamos indo e se estivessem preocupados com a nossa saúde física e psicológica. Quando eles nos enviaram outra mensagem em que pediam que as crianças lessem um trecho do Evangelho, escolhessem uma frase e a compartilhassem com os outros, eu obriguei o meu filho a responder. Eu disse a ele que fizesse isso, porque eu não queria que ele fosse identificado como o estudante negligente e temia que o marginalizariam por essa razão”.

Outra mãe do Piemonte me revelou que, às vezes, mas apenas por poucos segundos, ela assistia à missa dominical da sua paróquia online: “Eu só queria ver o meu pároco e me assegurar de que ele estava bem. Eu também mostrei para o meu filho, ‘curtimos’ o vídeo e enviamos uma mensagem bem simples, uma saudação e um ‘Amém’. Fizemos isso para sermos educados, para mostrarmos ao padre uma proximidade humana, porque eu imaginei que ele se sentia sozinho. Nós nos conectamos apenas por 30 segundos, e depois deu. Meu filho logo começou a bocejar. De todos os modos, meu filho e eu não sentimos falta da comunhão, e, honestamente, não me sinto culpada por isso”.

Um pai da Puglia, cujo filho está matriculado na catequese, me disse que ele e todos os outros pais estavam mais preocupados com a saúde das suas famílias e estavam muito irritados pelo fato de os bispos italianos parecerem preocupados apenas com a data em que se poderia celebrar a missa de novo.

O pai de outra criança me disse: “Nenhum dos pais dos colegas do meu filho se queixou pelo fato de a celebração da primeira comunhão dos seus filhos ter sido adiada para os próximos meses. Eles riam disso, diziam que economizariam para as roupas, porque o sacramento seria no verão, e eles vestiriam roupas mais leves. Acima de tudo, devo dizer que o meu filho sente falta da igreja e do oratório, porque são lugares de interação social, onde podem encontrar os amigos e brincar com eles. Nas cidades pequenas, é a única possibilidade. Você não pode impedir que os seus filhos vão à paróquia”.

Eu acho que o confinamento religioso não terá um impacto importante sobre esse grupo de fiéis, assim como sobre os ministros “inativos”: assim que possível, passada a emergência, eles retomarão os seus velhos hábitos (ir à catequese, celebrar ritos dominicais, preparar-se para o casamento) com grande entusiasmo. A recordação da longa quarentena e do lento retorno à normalidade representará algo como um “buraco negro” na existência deles, um longo parêntese a ser deixado de lado às pressas, para voltar à vida habitual. Do ponto de vista religioso, a quarentena deles não foi nada mais do que uma suspensão.

A reprodução

Durante a quarentena, outros padres decidiram transmitir as suas celebrações online. Essa decisão foi o resultado de pedidos dos fiéis e, muitas vezes, do apoio voluntário de alguns paroquianos generosos e com experiência em internet.

De repente, o Facebook e o YouTube foram inundados por uma grande quantidade de missas, adorações, meditações e terços gravados ou transmitidos em streaming, a partir da casa dos padres. Às vezes, os padres transmitiam a partir das suas cozinhas ou das suas salas, com hábitos solenes ou roupas modestas.

A realização e a eficácia dessas celebrações eram, de algum modo, questionáveis, pois, obviamente, “não se pode improvisar celebrantes online”, confidenciou-me um pároco emiliano. Na opinião dele, as missas online deveriam ser mais curtas do que as presenciais e ser produzidas com particular atenção aos enquadramentos e aos aspectos técnicos.

A maior dificuldade para os celebrantes é, naturalmente, a ausência das pessoas: “Sinto falta dos olhares das pessoas”, disse-me um padre sobre as celebrações online. “Sinto falta do feedback que eu recebo dos fiéis que estão na missa, a certeza de que as minhas palavras podem chegar aos seus corações e às suas mentes”.

Nesse sentido, uma ajuda parcial para o ministro vem da possível presença de dois ou três paroquianos responsáveis ​​pela gravação de vídeo, ou pela leitura de um trecho da Bíblia, ou pelo canto de um hino durante as celebrações. “Na minha paróquia”, disse-me um padre toscano, “as pessoas presentes na igreja se alternavam. Todos os dias, duas delas vinham me ajudar a gravar a celebração diária e assim formavam o meu público. Era melhor do que nada.”

A escuta e a apreciação dessas celebrações são difíceis de avaliar com precisão. De acordo com a maioria dos padres que eu entrevistei, o número de visualizações das suas missas no Facebook e no YouTube era inferior ao número das pessoas que normalmente frequentavam a missa fisicamente (esse resultado era amplamente influenciado pela concorrência das celebrações diárias do papa transmitidas em todo o mundo).

Também é importante considerar que o número de visualizações é um índice espúrio de apreciação dessas celebrações, pois o número de visualizações aumenta em poucos segundos de conexão no Facebook e de 15 segundos no YouTube.

As “curtidas” nas missas online são geralmente muito poucas, raramente mais do que 10. Os comentários são curtos e muitas vezes totalmente convencionais, limitando-se a um “oi” ou a um “amém”, a um “aleluia” ou a um emoticon de oração.

Existem alguns padres, poucos, que ganharam popularidade durante o confinamento ou que foram descobertos por um público mais amplo do que os seus paroquianos. Refiro-me àqueles padres que chamaram a atenção por ações extraordinárias durante a quarentena e também àqueles que já eram famosos antes do confinamento (especialmente pelas suas habilidades dialéticas ou pelo seu compromisso com o combate à máfia, pelo seu trabalho de caridade ou por outros motivos). Esses ministros aproveitaram a possibilidade de transmitir online e o fato de que muitas pessoas ficavam em casa para aumentar a audiência da sua missa dominical habitual.

Uma pequena parte de padres está se perguntando como será possível manter esse sucesso (por exemplo, posicionando uma câmera de vídeo na igreja e gravando as celebrações) quando as pessoas voltarem à sua vida habitual.

Um desses padres me disse: “Comecei imediatamente a transmitir online. Eu transmito a missa ao vivo apenas aos domingos, e, nos outros dias, ofereço aos meus seguidores uma meditação sobre um trecho do Evangelho, tudo isso no Facebook. Eu celebro em casa. Montei um ‘altar de emergência’ na cozinha. Coloco uma toalha, uma vela e o missal na mesa de jantar. Muitas pessoas me acompanham. Para a celebração pascal, eu alcancei mais de 1.000 visualizações. Constatei que elas realmente estavam me acompanhando, porque me enviaram reflexões, mensagens, comentários e orações. Eu respondi a elas assim que tive tempo”.

A verdade é que é praticamente impossível para os padres quantificar com precisão o número de seguidores que assistem com atenção às celebrações online.

Entre os fiéis que eu entrevistei, havia 16 pessoas entre os 18 e os 50 anos de idade [3] que declararam assistir regularmente às missas online. Eu pedi que elas me descrevessem essa experiência. Para muitas delas, as missas online não eram substituições suficientes das missas presenciais. Uma delas me disse que se sentia como um doente forçado a assistir às celebrações dominicais na tela; outra comparou a experiência ao fato de assistir a um jogo de futebol na televisão (uma experiência realmente diferente de ir ao estádio). Um fiel achava essa situação semelhante à dos católicos africanos que não podem participar da missa porque não há padres suficientes para celebrá-la.

Muitos desses católicos se queixavam do fato de que “é impossível rezar na cozinha”. Era difícil para eles se concentrarem adequadamente no rito em um ambiente familiar demais como a própria casa. Em tal ambiente, há muitas distrações, como o toque do telefone, o latido de um cachorro, o barulho do cortador de grama do vizinho ou o ruído da buzina dos carros na rua. Uma jovem napolitana me disse: “Eu sinto falta do padre, sinto falta dos bancos da igreja e, acima de tudo, sinto falta do silêncio solene antes de receber a comunhão”. Ela acrescentou: “Não consigo rezar em casa, a missa online me envolve pouco, a ponto de eu não ter o estímulo para acordar no domingo de manhã para assisti-la”.

“Sinto falta da confissão”, disse um jovem da Lombardia. “Sinto falta da possibilidade de me confessar com o meu pai espiritual. Geralmente, eu o encontrava três vezes por mês. Depois de cada confissão, eu me sentia mais limpo e mais à vontade com a minha consciência”.

Alguns praticantes sofrem mais com a falta da hóstia, outros com a distância da comunidade. Entre os primeiros, uma mulher de Milão me disse: “A hóstia é a coisa menos substituível. É o alimento espiritual mais importante. Você pode fazer todo o resto online, mas não pode receber o corpo de Cristo. O meu pároco nos convida a fazer uma oração no fim da missa, na qual expressamos o desejo de receber o corpo de Cristo: uma prática que serve para nos lembrarmos de que devemos receber a comunhão o mais rápido possível. Eu rezo a oração, mas essa forma de ‘comunhão espiritual’ não é suficiente para mim. Ela satisfaz um pouco o desejo, porque me faz sentir como se eu tivesse cumprido o preceito, mas, quando for possível, vou correr para receber a hóstia”.

Em alguns casos, a impossibilidade de comungar causa grande sofrimento: “Acho que receber a comunhão é um dever moral, uma obrigação. Se não comungo, me sinto angustiada, como se tivesse cometido um pecado. Eu sei que não deveria me sentir assim, mas não consigo fazer diferente. Parece-me que, neste momento, existem muitas palavras e poucos ritos, e eu sinto muita falta destes últimos”.

Outros fiéis sentem mais o aspecto da falta da comunidade: a oportunidade de encontrar os seus irmãos e irmãs, e de participar juntos dos ritos. Eles sentem falta da alegria de compartilhar uma experiência.

Apenas duas pessoas entrevistadas deram um feedback positivo para a missa online: “Eu prefiro mais do que a normal”, disse-me uma mulher de meia-idade da Lombardia.

“Não sou forçada a tolerar quem chega atrasado e pede para se sentar no meu banco, quem fala ou tosse a cada cinco minutos, ou canta desafinado. No meu computador, posso assistir à missa sentada comodamente no meu sofá”.

Outra jovem da mesma região me disse: “Para mim, a missa online é muito melhor. Posso assisti-la quando eu quero e notei que o padre melhorou nos últimos dois meses. Agora, ele celebra melhor do que quando começou”.

Esse segundo grupo de católicos viveu o confinamento e a interrupção da atividade litúrgica ordinária com “reprodução” e a repetição, ou seja, com a transposição online das atividades presenciais. Os padres foram induzidos a transmitir online por causa dos seus medos: o clero temia que os fiéis perdessem o apego à instituição religiosa por causa da suspensão dos seus hábitos de vida sacramentais. Também estavam aterrorizados com o fato de as pessoas se darem conta de que não precisam da Igreja e dos seus ritos. “O jejum pode levar a uma diminuição do apetite”, disse-me um padre.

Para os padres que puderam aumentar a sua popularidade e para os fiéis menos ligados à comunhão ou à comunidade, a missa online foi a oportunidade de descobrir uma alternativa virtuosa à normalidade, um novo modo de acompanhar as celebrações. Para todos os outros, que esperam voltar à vida litúrgica normal o quanto antes possível, a experiência teve um resultado muito menos positivo.

De todos os modos, essa experiência foi uma resposta condicionada para o clero e para os fiéis, uma tentativa de viver durante a quarentena de um modo o menos possível diferente do da vida habitual. Os ministros também tiveram a oportunidade de evitar o isolamento social e a solidão, de afastar a desagradável sensação de serem perfeitamente inúteis quando estão longe dos ritmos frenéticos da “máquina sacramental”.

A substituição

Um terceiro grupo de padres e de católicos reagiu à pandemia substituindo as celebrações litúrgicas tradicionais por outros ritos. De certo modo, eles aproveitaram a situação para introduzir novas práticas litúrgicas e promover uma nova consciência. Seu raciocínio se baseava em uma importante premissa teológica estabelecida pelo Vaticano II: ou seja, o valor fundamental da participação dos fiéis na celebração da eucaristia.

Nessa perspectiva, a Igreja é “o povo de Deus”, e, na eucaristia, o sujeito da celebração é a assembleia inteira. Durante uma inevitável divisão dos papéis, o ministro deveria se limitar simplesmente a presidir o rito.

Os padres “não digitais” querem permanecer fiéis a essa visão e, por essa razão, se recusam obstinadamente a recorrer às celebrações online. “Voltaremos a celebrar quando for possível, sem colocar em risco a nossa saúde e a dos nossos fiéis”, disse-me um deles. Os padres que assumem essa posição culpam os outros padres e as hierarquias eclesiásticas por terem mais medo de perder o seu poder e a sua reputação social do que da crise geral.

Um padre apuliano progressista me revelou: “Para muitos padres, a missa é um palco narcisista. Para eles, os fiéis desempenham o papel de espectadores que idolatram e aplaudem o ator principal do espetáculo. Durante a quarentena, os padres narcisistas se perguntavam como era possível que o trabalho deles importasse menos do que o de um farmacêutico ou de um atendente de tabacaria (aos quais era permitido continuar desenvolvendo as suas próprias atividades). A transmissão online era a resposta natural ao desejo deles de estarem sempre no centro das atenções”.

Durante o confinamento, os católicos progressistas (padres e fiéis) intensificaram o seu compromisso com as atividades de caridade, às vezes até como voluntários na sua comunidade. Todos desaprovavam a pressão dos bispos sobre o governo italiano para apressar a retomada das missas. Eles olhavam com frieza para o “exibicionismo” e o “tradicionalismo” do papa que caminhava sozinho no centro de Roma e que concedia a indulgência plenária em uma Praça de São Pedro vazia. Eles esperavam que, nas negociações com o governo italiano, a Igreja Católica agisse lado a lado com os outros grupos religiosos, como os cristãos protestantes e ortodoxos e os muçulmanos.

Por isso, parece que, para esse ambiente, porção minoritária mas influente da Igreja Católica, o confinamento foi a oportunidade para desmantelar o “sistema tridentino”, ou seja, a religiosidade tradicional baseada na hegemonia do padre, na centralidade da paróquia como lugar sagrado e na missa como um rito com a comunhão no centro.

As consequências, em termos de perda de poder e de contatos sociais, da queda do “velho mundo tridentino” não parecem assustá-los. “O feiticeiro devia se aposentar”, disse-me um padre lombardo “não digital” referindo-se ao clero.

E continuou: “No fim, as pessoas se deram conta de que isso não era tão necessário. No fim, fomos capazes de levar em consideração a palavra de Deus e a oração como os principais centros da nossa vida religiosa, deixando de lado os aspectos mais sacrais do catolicismo. Muitos de nós descobrimos uma nova forma de espiritualidade, menos formal, mais autêntica e misturada com a nossa vida. Certamente, fizemos um caminho de purificação, um bom retorno às origens do cristianismo, quando a liturgia era feita nas casas, em pequenas comunidades”.

“A situação atual me lembra o Sábado Santo, o dia em que prevalece o silêncio de Deus e no qual não se celebram missas”, disse-me um fiel progressista romano.

E ainda: “Não é um drama, mas a oportunidade para refletir sobre o sentido da nossa liturgia. É também uma oportunidade para melhorar a compreensão dos sofrimentos daqueles católicos que, em muitas regiões do mundo, não podem participar das celebrações dominicais porque não há padres suficientes, e o papa persiste em negar a possibilidade de ordenar homens casados.”

A reação dos católicos progressistas não se limita à suspensão de todas as atividades litúrgicas; consiste também na tentativa de criar ritos alternativos. Tentativas que nasceram sem um plano unitário e preestabelecido. Foram espontâneos e improvisados.

Em algumas paróquias, ofertou-se aos paroquianos um roteiro sobre como planejar ritos religiosos alternativos às celebrações dominicais nas suas famílias. Algumas paróquias progressistas foram ainda mais longe. Por exemplo, considerando as dificuldades de retornar fisicamente às igrejas, imaginaram para a "fase 2” a celebração da missa dominical (com distribuição da comunhão) em jardins privados. “Eu imaginei assim”, disse-me um pároco emiliano que teve essa ideia.

“O processo começa com uma família que se dispõe a oferecer o seu jardim e convida outras famílias para se unirem a ela. A iniciativa se espalha pelas redes sociais, envolvendo, no máximo, 20 participantes. O encontro começa lendo e comentando juntos o Evangelho. Qualquer pessoa pode falar sobre as suas preocupações, sobre os seus problemas e sobre as coisas que aconteceram durante a semana e que as faz refletir. Depois, alguém distribui a hóstia que eu consagrei anteriormente. Podemos chamar isso de um ‘take away’ da hóstia. No fim, os participantes concluem o rito com uma oração de bênção. Eles não precisarão da presença de um padre. Esse será um passo importante para o fim da pretensão do clero de dominar o mundo.”

Conclusão

O último grupo de católicos examinado aproveitou a pandemia para propor um modelo de Igreja que era, pelo menos em parte, inovador em relação ao tradicional: um modelo menos centrado no padre e nos aspectos rituais e sacramentais, mas mais interessado em dar importância aos fiéis, à comunidade e ao mundo. É preciso dizer que esse é o projeto de um modelo mais participativo e democrático.

Na realidade, a maioria dos experimentos tentados na quarentena por esse grupo foram imaginados como “temporários” e “excepcionais”. Seus proponentes também declararam que estavam prontos para deixá-los de lado com o retorno à vida normal.

Este é o problema crucial hoje: quando será possível voltar à normalidade, ao mundo que conhecemos antes? É claro que, quanto mais tempo durar esta situação, mais será possível que as inovações tecnológicas imaginadas e concebidas como temporárias gerarão práticas regulares e estabilizadas, e que as mudanças se tornaram institucionalizadas (Scott, 2013).

Isso certamente diz respeito às missas online e ao funcionamento da “máquina sacramental”, mas, acima de tudo, diz respeito à fé da elite progressista. O que poderia acontecer é que essa elite involuntariamente promova uma espécie de “protestantização” através da constituição de pequenos grupos de padres e de fiéis que, seguindo uma lógica sectária (Troelstch, 1992; Weber, 2019), progressivamente se distancie do catolicismo institucional, rejeitando o modelo sacerdotal e a lógica de compromisso típica da Igreja.

Essas seitas cultivariam cada vez mais a intensidade e a pureza da fé e a corresponsabilidade de todos os fiéis no governo da organização. Por muitas razões (que não posso analisar aqui em profundidade), esse não me parece o resultado mais provável, mas a história humana está cheia de surpresas extraordinárias, de reviravoltas inesperadas. Teremos que esperar.

Por outro lado, não é preciso esperar que a pandemia acabe para afirmar que a etnografia e a pesquisa qualitativa podem sobreviver, especialmente se alguém fizer pesquisas em um campo já conhecido e explorado, mesmo em um momento em que os contatos pessoais são impossíveis ou muito complicados (Bracke et al., 2020; Fine, Abramson, 2020). Em geral, o confinamento reduziu a capacidade de ver, mas fortaleceu a capacidade de escutar. Acima de tudo, não esgotou o nosso desejo de conhecer, compreender e descrever o mundo que nos rodeia.

 

Referências:

Bracke S., R.J. Davidson, P. Geschiere, F. Guadeloupe (2020). “Editorial”, in Ethnography, 21, 2, pp. 149-150.

Bryant, J.M. (2010). “The Sociology of Early Christianity: From History to Theory, and Back Again”, in B.S. Turner (Ed.), The New Blackwell Companion to the Sociology of Religion, Chichester Blackwell Publishing, pp. 309-339.

Fine, G.A., C.M. Abramson (2020). “Ethnography in the time of Covid-19. Vectors and the vulnerable”, in Etnografia e Ricerca Qualitativa, 2, pp. 165-174.

Marzano, M. (2013). “The ‘sectarian’ Church. Catholicism in Italy since John Paul II”, in Social compass, 60, 3, pp. 302-314.

Marzano, M. (2018). Chiesa immobile: Francesco e la rivoluzione mancata, Bari, Laterza.

Pace, E. (2012). Il carisma, la fede, la chiesa: introduzione alla sociologia del cristianesimo, Roma, Carocci.

Scott, W.R. (2013). Institutions and organizations: Ideas, interests, and identities, Los Angeles, Sage.

Troeltsch, E. (1992). The social teaching of the Christian churches (1931), Louisville, Westminster John Knox Press.

Weber, M. (2019). Economy and society: A new translation, Cambridge-London, Harvard University Press.

 

Notas:

[1] Naturalmente, são tipos ideais que, na realidade, podem assumir formas mistas.

[2] Disponível aqui.

[3] Os fiéis mais idosos geralmente preferiam assistir a missa do papa pela televisão. Em vez disso, entre os menores de 18 anos de idade, a opção de acompanhar qualquer tipo de celebração (sem a possibilidade de encontrar os seus amigos) era mínima. Nas suas entrevistas, os pais me confirmaram isso.

 

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