Uma Cúria Romana reformada e um novo grupo de cardeais

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13 Julho 2020

"Por mais estranho que possa parecer, há rumores de que a nova constituição está assinada e os anéis para os novos cardeais já foram encomendados", escreve Robert Mickens, em artigo publicado por La Croix International, 10-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Este seja talvez o projeto mais ambicioso do atual pontificado: tentar realmente reformar a mentalidade e as estruturas da burocracia central – e, até Francisco chegar, centralizadora – da Igreja Católica conhecida como Cúria Romana.

Exatamente um mês após sua eleição em março de 2013, o papa argentino criou o Conselho de Cardeais.

Originalmente composto por oito e, depois, nove membros de diferentes partes do mundo, eles receberam a tarefa de ajudar Francisco no governo da Igreja universal.

Eles também receberam a tarefa de elaborar um plano de reforma da Cúria, com uma revisão da constituição apostólica Pastor Bonus, que atualmente regula a estrutura vaticana.

Uma primeira versão desta nova constituição foi apresentada há mais de um ano, mas o papa quis dar às conferências episcopais nacionais, a alguns superiores de ordens religiosas e teólogos, a oportunidade de darem suas sugestões ao texto.

No início do ano, houve boatos de que o documento final seria lançado na Festa da Cátedra de São Pedro em fevereiro ou, o mais tardar, na Festa dos Santos Pedro e Paulo, no final de junho.

Praedicate Evangelium já foi assinada

Mas então, com a chegada da pandemia, o Conselho de Cardeais, atualmente reduzido a apenas seis membros, cancelou as suas últimas três reuniões.

O projeto está em espera então? Não, segundo uma fonte interna do Vaticano afirmou que a nova constituição, Praedicate Evangelium, está pronta e que o Papa Francisco já a assinou.

Pelo que parece, o texto está sendo traduzido cuidadosamente para os principais idiomas. E, uma vez traduzido, será publicado oficialmente.

É natural esperar que esta publicação por vir seja algo fora do comum. Este período, em meio ao verão romano, não costuma ser um momento para lançamentos de documentos importantes de parte do Vaticano e nem para a realização de grandes eventos. Mas esse pontificado não é um pontificado comum.

Não importa quando o novo texto for publicado, suas ramificações serão múltiplas e provavelmente históricas. Uma das primeiras e mais visíveis dessas ramificações será a enorme mudança no setor de pessoal.

Levará meses e mesmo anos para a implementação das mudanças que a nova constituição vier a determinar, e Francisco terá que encontrar aqueles em quem poderá confiar, bem como aqueles que estão em sintonia com suas ideias, a fim de que supervisionem a implementação da constituição.

Cabeças vão rolar

Uma Cúria Romana reformada exigirá um novo comando, com mais de duas dúzias de cardeais que vivem em Roma podendo se aposentar.

O Papa Francisco nomeará um novo prefeito para a Congregação para os Bispos em substituição ao Cardeal Marc Ouellet. Esse religioso, hoje com 76 anos e tendo sido escolhido pessoalmente por Ratzinger, tem ocupado o cargo atual, extremamente importante, nos últimos dez anos. Uma das consequências da aposentadoria do franco-canadense é que ela diminuirá significativamente as suas chances para uma candidatura em um futuro conclave.

Na era pós-Vaticano II, quando passou a ser normal que os bispos se aposentem aos 75 anos ou pouco depois, todos os que se elegeram papa ainda ocupavam um cargo na época do conclave.

Francisco também substituirá o cardeal guineense Robert Sarah, de 75 anos, que excedeu o período de cinco anos à frente da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. João Paulo II trouxe o então discreto Cardeal Sarah a Roma em 2001 para ser o número 2 (arcebispo secretário) da Propaganda Fide.

Depois que Bento XVI o promoveu e lhe deu o barrete cardinalício em 2010, o cardeal vem sendo um dos principais tradicionalistas e conservadores sociais do Vaticano.

O Cardeal Leonardo Sandri, argentino de 76 anos que passou toda a sua carreira eclesiástica a serviço da Santa Sé, será substituído na Congregação para as Igrejas Orientais. Figura-chave no pontificado de João Paulo II, Sandri ocupa o seu cargo atual desde 2007. Porém, o religioso continuará em Roma, já que recentemente foi eleito vice-reitor do Colégio Cardinalício.

A Congregação para a Educação Católica também receberá um novo prefeito. O atual titular, o cardeal italiano Giuseppe Versaldi, já completou o seu quinquênio e fará 77 anos no final deste mês. Depois de passar cinco anos como bispo diocesano no norte da Itália, Versaldi mudou-se para o Vaticano em 2011, no pontificado de Bento XVI.

O Papa Francisco também terá de substituir o Cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero desde o início deste pontificado. Natural da região de Veneto, na Itália, o diplomata vaticano de longa data, que conta com uma grande experiência na América Latina, completa 79 anos em agosto.

A autoridade número 2 do dicastério encabeçado por Stella, Dom Joel Mercier, também deve ser substituído. O francês completou 75 anos no início do ano, poucos dias antes de chegar ao mandato de cinco anos como secretário da congregação.

Espera-se que o papa aceite o pedido de renúncia do secretário da Congregação para as Causas dos Santos. Dom Marcello Bartolucci ocupa o atual cargo há mais de dez anos. Natural de Assis, Bartolucci completou recentemente 76 anos de idade.

Houve rumores de que Francisco colocaria, na Congregação para as Causas dos Santos, Dom Georg Gänswein, secretário pessoal e colega de casa de Bento XVI. Mas isso foi antes de o papa liberar o prelado alemão de seus deveres diários como prefeito da Residência Papal. Gänswein completa 64 anos em 30 de julho. Isso teve algo a ver com o papel que Gänswein desempenhou no caso em que Bento ajudou a escrever um livro polêmico contra a ideia de padres casados junto do Cardeal Sarah

O Papa Francisco precisará também encontrar uma nova administração para o Estado da Cidade do Vaticano.

O atual governador é o Cardeal Giuseppe Bertello, diplomata papal de carreira que está no cargo desde 2011 e que está a apenas três meses de completar 78 anos.

E o secretário-geral, desde 2013, é Dom Fernando Vérgez Alzaga, arcebispo espanhol de 75 anos e membro da Legião de Cristo. Tanto Bertello e quanto Vérgez serão substituídos.

O Cardeal Mauro Piacenza, um dos mais antigos e fortes aliados do Vaticano sob o comando de Bento XVI, também será dispensado de suas obrigações. Padre de Gênova, formado nos moldes do falecido cardeal conservador Giuseppe Siri, Piacenza atualmente chefia a Penitenciaria Apostólica.

Francisco o colocou aí tão logo tornou-se papa em 2013, tirando o italiano do cargo de prefeito da Congregação para o Clero já no terceiro ano de mandato, que seria de cinco anos.

Outras autoridades com 75 anos de idade ou mais, e que serão substituídas ou simplesmente irão se aposentar após ser publicada a nova constituição da Cúria Romana, incluem o Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. Este famoso biblista italiano, que se mudou de Milão em 2007 para assumir o atual cargo no Vaticano, completa 77 anos em outubro.

E o Cardeal Angelo Comastri, italiano que virou o arcipreste da Basílica de São Pedro poucos meses antes da morte de João Paulo II em 2005, completará 76 anos em setembro.

Dom Brian Farrell, que tem feito um trabalho notável desde 2002 como secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, já tem 76 anos. Se Francisco estiver pensando em renovar totalmente a Cúria Romana, é provável que ele aceite o pedido de renúncia deste membro da Legião de Cristo.

E embora o presidente deste pontifício conselho, o Cardeal Kurt Koch, tenha apenas 70 anos, ele ocupa o cargo desde 2010. Provavelmente, Koch será transferido ou se aposentará antes do tempo.

Existem alguns outros cardeais que já atingiram a idade da aposentadoria e cujo futuro é incerto.

O Cardeal Stanislaw Rylko, arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior, há pouco completou 75 anos, em 4 de julho. Padre de Cracóvia, Rylko foi trazido ao Vaticano em 1987 por aquele que o ordenou presbítero, João Paulo II.

Como parte da chamada “máfia polonesa”, Rylko passou toda a sua carreira romana no hoje extinto Pontifício Conselho para os Leigos, tendo presido o órgão entre 2003 e 2016. Esse é o dicastério responsável pela aprovação dos novos movimentos eclesiais, os quais João Paulo tanto apoiava. Será surpresa se Francisco o destituir do posto, que é, em grande parte, apenas cerimonial.

O outro cardeal que já está acima da idade da aposentadoria é Luis Ladaria, atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Este jesuíta espanhol completou 76 anos em abril passado, mas está à frente do “Santo Ofício” há apenas três anos. Francisco parece confiar nele, mas será que tem a confiança suficiente de que Ladaria é a pessoa certa para implementar a reforma à qual este dicastério doutrinário estará submetido?

O destino de Dom Rino Fisichella ainda é desconhecido. Este teólogo italiano, de 69 anos, preside o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização desde 2010, quando Bento XVI criou o departamento.

Mas Francisco está encerrando os trabalhos deste conselho e incorporando-os naquele que atualmente é chamado de Congregação para a Evangelização dos Povos (Propaganda Fide). Mas esta congregação também irá mudar, e o papa recentemente trouxe o cardeal filipino Luis Tagle, de 63 anos, a Roma para encabeçar a nova estrutura.

Também se espera que cinco ou seis dos oito cardeais que compõem o Conselho para a Economia sejam substituídos, por terem mais de 75 anos e já se encontrarem aposentados das principais funções diocesanas. Entre estes religiosos estão incluídos os cardeais seguintes:

John Tong Hon, ex-bispo de Hong Kong, que em breve fará 81 anos;

Agostino Vallini, de 80 anos, ex-vigário de Roma;

Wilfrid Napier OFM, de 79 anos, que deve se aposentar em breve da Arquidiocese de Durban;

Norberto Rivera Carrera, de 78 anos, ex-arcebispo da Cidade do México;

– e Juan Luis Cipriani, de 76 anos, ex-arcebispo de Lima.

O Cardeal Jean-Pierre Ricard também tem 75 anos, mas permanece como arcebispo de Bordeaux e provavelmente continuará no Conselho para a Economia com o Cardeal Daniel DiNardo, de 71 anos, da Arquidiocese de Galveston-Houston, e o com coordenador do Conselho para a Economia, o cardeal, de 66 anos, Reinhard Marx, de Munique.

Naturalmente, o Conselho de Cardeais, órgão que auxiliou o Papa Francisco na elaboração da reforma curial, também precisará ser reabastecido.

É possível que alguns dos novos a ingressar no grupo nem sejam cardeais hoje. Mas é possível que eles recebam o barrete cardinalício mais cedo do que poderíamos imaginar.

Há rumores de que o Vaticano encomendou recentemente que fossem feitos quinze anéis para um próximo consistório. Isso seria uma grande surpresa, especialmente num momento em que até os frequentadores de igrejas precisam respeitar as regras de distanciamento social e usar máscaras faciais. Mas não há nenhum cânone eclesiástico que diga que as cerimônias de criação de cardeais devem seguir todos aqueles protocolos que se firmaram ao longo dos anos.

Criar novos cardeais em um ambiente pequeno, mais calmo, num momento em que ninguém espera? Incomum, sim. Mas não para o Papa Francisco.

 

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