‘Na pandemia, descaso do governo impacta mais a favela’

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26 Março 2020

Ativista do Complexo do Alemão, no Rio, conta como as favelas têm se organizado para combater a pandemia do coronavírus sem receber auxílio do poder público.

A entrevista é de Arthur Stabile, publicada por Ponte, 25-03-2020.

Isolamento e lavar as mãos são algumas das iniciativas para combater a proliferação do coronavírus. Mas como evitar o contágio nas favelas, em locais com várias pessoas e a maioria trabalhadora, que não pode interromper seu ganha pão senão não terá o que comer? Ações para incluir a favela no combater a pandemia são levantadas por Raull Santiago, ativista do Rio de Janeiro que mora e atua no Complexo do Alemão, zona norte da capital fluminense.

Carros de som, cartazes e faixas são uma das formas de informar as pessoas. Coletivos das próprias comunidades têm feito essas ações, sem contar com ajuda do poder público. “Como sempre, o senso de comunidade, um pelo outro, é o que tem crescido, todos juntos, mas cada um no seu quadrado, se fortalecendo. Tenho visto mais avanço das iniciativas das próprias pessoas que vivem essa realidade da dificuldade”, afirma Raull.

Raull (à dir.) segura faixa colocada em uma das entradas do Alemão. (Foto: Beto Fábio/Coletivo Papo Reto/Facebook)

Segundo o ativista, a falta de água e a fome, que começam a se intensificar nas casas mais pobres, são alguns dos principais pontos a serem combatidos, seja pelo poder público, que tem sido omisso, segundo ele, ou pela própria comunidade. “A pandemia veio para expor a gravidade do país, o quanto a desigualdade é gritante. Ficamos em segundo plano tendo que sobreviver por conta própria, pedindo doação para o mundo inteiro”, lamenta.

Eis a entrevista.

Como as favelas estão se organizado para combater o coronavírus?

Fundamos no Complexo do Alemão um gabinete de crise. Uma moradora ativista da luta por moradia, Camila Santos, provocou alguns de nós, como Voz das Comunidades e o Coletivo Papo Reto e outras pessoas foram se aproximando. Esse gabinete evoluiu para fortalecer um movimento anterior que existia através da junção de várias instituições do Alemão, chamada Juntos Pelo Complexo do Alemão. E aí o movimento começou a fazer duas frentes de trabalho: uma de conscientização interna sobre a importância de fazer o máximo para evitar que o coronavírus chegue na realidade da favela, e outra, com uma pressão para fora, para o poder público e a sociedade perceberem a gravidade e a diferença, a marca da desigualdade social na realidade do tratamento do corona na favela para dentro e na favela para fora. Para isso também começamos a pedir algumas doações.

O que pode ser feito para evitar a disseminação?

O que acontece: primeiro que a distribuição de água aqui no Complexo não é regrado, algo diário em que todos os dias as pessoas têm água. Tem muitos pontos que faltam água. Inclusive hoje postei no meu Facebook pedindo para a galera comentar onde não tinha água e houve vários comentários de muitos pontos. Então a gente não consegue seguir as dicas básicas da Organização Mundial da Saúde, do Ministério da Saúde sobre, por exemplo, lavar as mãos o tempo inteiro quando chegar ou sair para a rua, quando tiver contato com outra pessoa. Essa higienização básica de lavar com água e sabão, que é mais barato do que o álcool em gel, nem todo mundo consegue fazer nesse momento. Já tem essa marca da desigualdade.

Há outras questões?

Tem muitas famílias extremamente pobres, que vivem uma vida muito difícil e não têm condições de comprar sabonete antisséptico, álcool gel e todos esses materiais indicados por serem substâncias capazes de remover ou evitar que o coronavírus entre no corpo dessas pessoas. Não tem água e para muitos desses mais pobres também não existe grana para comprar esses materiais, então fica esse limbo de dificuldade. Ainda nesse conjunto de pessoas extremamente pobres, muitas delas sobrevivem de seu trabalho diário: camelôs, catadores, reciclistas, pedreiros, a tia da cantina. Várias pessoas que têm no seu dia a dia a sua renda principal, desde a proposta de quarentena e isolamento, estão começando a passar dificuldade. A pessoa vive do dinheiro que entra todo dia para suprir suas necessidades mínimas. Hoje, tanto no Voz da Comunidade e no Papo Reto, temos recebido muitas pessoas falando da dificuldade e da fome. Não é a completa fome, mas gente que não tem mais arroz, tem só o feijão, e não tem o dinheiro para comprar. Começa a essas faltas acontecerem.

Como combater?

Temos feito uma mobilização para ajudar nas pressões públicas importantes que estão surgindo, como a renda básica: um projeto de lei, iniciativa de várias instituições, pressionando o Estado para garantir a renda mínima dessa pessoas, mas também doação de dinheiro e de produtos como água sanitária, álcool em gel e alimento. Alimento por quê? Porque acreditamos que uma das coisas que pode gerar contaminação é a quantidade de pessoas que ainda estão na rua. Por mais que esteja diminuindo, que a conscientização tenha avançado, são muitas pessoas na rua. Mas elas estão na rua pela necessidade, são as que dependem do dia a dia para gerar uma renda e comprar comida. Elas que estão vagando aleatórias, esperando fazer um bico, um trabalho qualquer, uma ajuda que venha para conseguir ter o que comer.

Como evitar essa situação?

Garantir essa renda mínima e uma cesta básica legal, que dure um mês, que garanta que aquela família e garanta as pessoas. É mais uma ferramenta para que elas não fiquem nas ruas e se concentrem em casa por não estarem passando fome. Temos tentado chamar atenção a isso: não tem como fazer muitas vezes essa higiene minima e é grave evitar que o vírus chegue e se prolifere porque todo mundo que conhece a realidade da favela é que são casas humildes, muito próximas, com poucos cômodos e muitas pessoas. A possibilidade de quarentena, de isolamento do indivíduo, é algo impossível. Na minha própria casa, se alguém de nós fica doente não tem possibilidade de isolamento, moro com cinco pessoas. Não tem como destinar um cômodo para uma só pessoal.

Quais ações para informar as pessoas?

Um processo é a tentativa de fomentar uma comunicação interna que dialogue de forma profunda com a realidade da favela. Ainda hoje, muita pessoas não têm televisão, não têm acesso à internet. Mesmo as dicas básicas que nem sempre se encaixam na nossa realidade, tem gente que nem isso acessa. O que fizemos? Usamos a principal estratégia que dialoga com todo mundo dentro da favela, que é colocar faixas nas entradas, colar cartazes com dicas em pontos estratégicos, como o moto-táxi, de transporte alternativo, farmácias e também circular um carro de som com as dicas e as indicações da OMS [Organização Mundial da Saúde] e Ministério da Saúde, mas também dicas locais, como doar água para o vizinho que não tem, fomentando a coletividade.

E o que tem visto entre os moradores?

Nas comunidades e favelas tem rolado muito essas iniciativas de conscientização coletiva. Um pelo outro, um pela outra, monitoramento dos idosos… Vejo algumas pessoas andando pela rua e quando passam por um idoso perguntam para onde estão indo, fala para tomar cuidado. Usando a leveza da fala, mas por um cuidado real. Nos grupos de WhatsApp tenho visto crescer os áudios das pessoas, não os compartilhados, mas gravados por elas mesmas, chamando a atenção para o cuidado.

Vêm algo por parte do governo?

Efetivamente, de ações do governo, não tenho visto coisas reais acontecendo. Estamos vendo proposta de PL [Projeto de Lei], um monte de reunião, de vai, não vai, mas nada avançando, pelo contrário. Quando observamos a nível federal, a nível Jair Bolsonaro, temos um completo descaso, ouso dizer até um crime, o que tem sido trazido de discurso pelo presidente do país que trata o coronavírus, que tem matado tanta gente no mundo, inclusive no Brasil, como “viruzinho”, uma coisa que vai passar… Esse desdém é triste. Há mais um descaso do governo, se somando a todo histórico de desigualdade que a gente já vive, na pandemia, especificamente, um descaso e desrespeito com a sociedade como um todo, mas que impacta mais a favela.

Mas há alguma ação de fora?

Como sempre, o senso de comunidade, um pelo outro, é o que tem crescido, todos juntos, mas cada um no seu quadrado, se fortalecendo. Tenho visto mais avanço das iniciativas das próprias pessoas que vivem essa realidade da dificuldade, mais algumas pessoas parceiras do mundo artístico, com alta visibilidade, do que estratégia do governo, que está batendo cabeça. O governo sabe que a histórica desigualdade da favela não será resolvida de uma vez, não dará para fazer de uma vez tudo o que não foi feito para ajudar essas pessoas. A pandemia, falei isso hoje, veio para expor a gravidade do país, o quanto a desigualdade é gritante. Ficamos em segundo plano tendo que sobreviver por conta própria, pedindo doação para o mundo inteiro.

Aviso com informe de como as pessoas devem se proteger. (Foto: Bento Fábio/Papo Reto)

Como vê propostas como as de mandar pessoas doentes para navios ou para estádios?

Sobre mandar para navios ou estádios, é muito grave. Nos outros países do mundo, quando estão mandando pessoas contaminadas ou para hotéis ou para navios, não tem uma distinção se é rica ou pobre. As pessoas são tratadas como iguais em um serviço para a coletividade. Aqui, não. Há um recorte específico para a populações negras, periféricas, faveladas. Me preocupa quais as condições e formatos de acompanhamentos das pessoas nesses espaços, se é um local de isolamento, aprisionamento desses corpos que “precisam sair de circulação porque não são bem vistos na realidade que vivemos, estão vamos isolar elas daqui”, ou qual outro motivo? É muito preocupante essa ser a principal solução e, ao mesmo tempo, escancara o quanto o distanciamento social é grande no nosso país.

 

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