“O êxito do cristianismo está em que fez parecer que seus valores são universais”. Entrevista com Tom Holland

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • "É hora de reaprender a arte de sonhar com os xamãs nativos"

    LER MAIS
  • Uma visão do suicídio no Brasil em resposta à outra visão apresentada

    LER MAIS
  • “É triste ver cristãos acomodados na poltrona”. O alerta do papa Francisco contra a acídia

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


13 Março 2020

Em pleno desacreditado e tecnológico século XXI, vem um historiador e divulgador inglês e nos diz que o cristianismo não é somente “a maior história jamais contada”, mas também “a revolução subversiva mais bem-sucedida” que marcou e marca o mundo ocidental. É o que faz Tom Holland, autor premiado por livros como Rubicon e Fogo Persa, em seu livro recém-publicado em nosso país [Espanha], Dominio (tradução de Joan Eloi Roca, Ático de los Libros, 2020). Uma passagem pela história do cristianismo, da Atenas clássica aos dias de hoje, passando por santos, batalhas, papas, Tolkien e The Beatles. E sua busca se torna a das origens da mentalidade ocidental e do mundo.

Tudo isso é realizado por alguém que confessa no livro que, em sua infância e juventude, sua obsessão primeira pelos dinossauros e depois pelas civilizações da Antiguidade, que o tornaram reconhecido, “obscureceram sua confiança na fé cristã”. No entanto, em sua maturidade e na profundidade de seu conhecimento de culturas como Esparta e Roma, começou a percebê-las como culturas predatórias, com as quais é muito difícil se simpatizar, como seria com “um tubarão branco”.

Assim, Holland começou a traçar sua visão do cristianismo, essa religião que parecia marcar tudo: “Tão profundo foi o impacto do cristianismo no desenvolvimento da civilização ocidental, que chegou a um ponto em que passa despercebido. As que são lembrados são as revoluções incompletas. O destino daquelas que triunfam é se tornar uma normalidade”. Em seu percurso, Holland, com um bom impulso narrativo, mistura cultura popular, história e religião, conseguindo um trabalho interessante, contundente e cheio de portas abertas.

A entrevista é de David Yagüe, publicada por 20 Minutos, 12-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Escreve que a história do cristianismo é a “maior história jamais contada” ...

Acredito que é a maior história jamais contada porque é a mais destacável. O cristianismo é a maneira mais transformadora, a mais revolucionária para entender as relações humanas. Emerge de um rincão obscuro de um império antigo cuja figura central é um homem que sofre a morte de um escravo, torturado pela crucificação. É o caminho mais poderoso que se pode tomar para entender a humanidade.

Em pleno século XXI, defender o cristianismo como uma revolução subversiva e bem-sucedida, que continua marcando o mundo ocidental, é provocação ou iluminação?

Penso que é iluminação! Além disso, é uma verdade evidente. O fato de que as pessoas possam pensar de alguma forma que o cristianismo é conservador só demonstra que a revolução que o cristianismo iniciou e manteve continua. Suas próprias ideias e influências ao longo do tempo geram reações contrárias.

É necessário ser crente, espiritualmente falando, para escrever e entender esta obra? Você cita Tolkien com aquilo de que um mito não é necessariamente uma mentira e escreve que, embora “sua fé em Deus havia se dissipado, não tinha deixado de ser cristão”...

Penso que não ser crente de alguma forma desabilita a capacidade de ser objetivo, mas também é ilógico pretender que alguém possa ser neutro em relação a esse tema. Se você é católico, tem uma perspectiva católica, e se é protestante, tem uma perspectiva protestante. Mas se você olha de uma perspectiva progressista, sectária ou humanista, pode moldar e formar suas ideias sobre o impacto do cristianismo.

Considero que o livro é uma inspiração para minha maneira de ser cristão e para as pessoas que compartilham os valores e a ética do cristianismo também. Por isso, acredito que a observação de Tolkien é importante. Em geral, os mitos possuem má reputação, mas um mito pode ser verdade. A forma como vemos o mundo pode não ser uma realidade objetiva, mas, sim, conter uma verdade profunda. Acredito que isso é o cristianismo.

Que momento da história do cristianismo pensa ser fundamental e que se costuma esquecer?

O fundamental é isso, seja o que for, convenceu as pessoas da ressurreição de Jesus. Sem esse convencimento, não existiria o cristianismo. Algo precisou acontecer, um momento significativo e revelador interpretado como ressurreição. Mas considero que o evento sobre o qual menos se fala é o da revolução papal do século XX. Pode ser que pelo seu êxito, por seu grande impacto, não costumamos mencioná-la.

Apresenta um paradoxo interessante: sem descartar que o cristianismo criou formas de terror e dominação, também afirma que as posturas que servem para se opor a essas formas são de raízes cristãs ... E cita, por exemplo, os debates sobre a mulher e o feminismo e os direitos LGTBI...

Avalio que isso é algo que vem de muito tempo atrás. Os humanos não perdem seu apetite pelo poder, pelo controle e, é claro, a igreja foi vítima disso. Uma igreja que consagra reis e sacerdotes como grandes figuras de um império poderoso, um império que crucifica um homem que procura a igreja e diz que “os últimos serão os primeiros”, torna-se responsável por essa morte. Mas todos no mundo cristão devem pensar que um ladrão ou um assassino pode estar mais perto de Deus do que uma pessoa rica ou aquele que envia alguém para a morte. Penso que tem a ver com a autoestima dos poderosos e dos ricos e com a forma de quebrar suas posturas.

Recentemente, o que parece ser um argumento entre aqueles que se definem como progressistas e os de doutrina cristã é um argumento da teologia cristã. Os direitos dos homossexuais são um exemplo clássico disso. O conceito de homossexualidade não existia antes do século XIX. Os romanos, é claro, entendiam que havia homens atraídos exclusivamente por mulheres e homens atraídos por homens, mas isso realmente não definia ninguém. Era como dizer hoje em dia que um homem gosta de loiras ou morenas.

A razão pela qual pensamos que homens e mulheres são dois polos gêmeos é porque São Paulo transmitiu assim em seus escritos. O efeito colateral disso foi uma condenação das relações entre pessoas do mesmo sexo, como se estivessem cheias de pecado.

A pessoa que realmente popularizou a palavra “homossexualidade” foi um psicólogo católico alemão, que no final de sua vida chegou a pensar que, sim, a homossexualidade pode ser entendida como um pecado para a maioria da igreja, mas também pode oferecer um marco estável para algumas relações monogâmicas. O paradoxo da homossexualidade é que é uma combinação de pecado cristão, sodomia e uma virtude cristã, o matrimônio. Por isso, hoje em dia, a cristandade tem uma tarefa muito difícil: a de decidir que posição adotar em relação ao casamento gay.

A mensagem cristã pode ser base para quase qualquer avaliação, perversa ou bondosa?

Não estou convencido de que o cristianismo possa ser usado para justificar o racismo, por exemplo. A ideia de que todos somos semelhantes a Deus é muito cristã.

Então, o cristianismo é o pilar central da cultura ocidental? Mais do que o mundo clássico ou o Iluminismo? Ou é indivisível com os dois?

Sim, acredito que a civilização ocidental é cada vez mais cristã. Eu costumava pensar que suas raízes passavam pela Grécia e Roma, mas agora penso que é impossível entendê-la sem passar por uma espécie de névoa cristã.

Tem futuro como religião ou apenas como origem cultural, moral ...?

O cristianismo continua crescendo e ganhando adeptos na África, por exemplo. Na Europa, quem sabe? ... Pode ser que a cristandade se dissolverá e morrerá, ou pode ser que o desejo de buscar suas raízes o reviverá.

Ao iniciar esta obra, alguém poderia pensar que lembra a sua obra sobre a origem do Islã, ‘A la sombra de las espadas’, mas vai muito além. Por quê? É por causa da proximidade cultural? Ou era impossível fazer um exercício semelhante com o Islã?

Uma das razões pelas quais escrevi Dominio foi porque muitos muçulmanos me perguntaram se eu faria algo semelhante para minhas crenças, buscar minhas origens. Pareceu-me uma pergunta sem sentido. Com o Islã, buscava as suas origens, Dominio é sobre a humanidade e as origens da modernidade.

Como você avalia o multiculturalismo que está nascendo na Europa e em outros países ocidentais? O Ocidente deveria preservar sua essência cristã ou estar aberto à miscigenação, o que parece inevitável?

Penso que o multiculturalismo funciona para que diferentes tradições compreendam os preceitos cristãos. Mas como as autoridades, os governos e a imprensa pretendem que a secularização seja neutra, são impostas normas estranhas para as pessoas de outras religiões, em particular para os muçulmanos.

De alguma forma, as pessoas de outras tradições acreditam pertencer a uma religião culta que pode ter valores procedentes do cristianismo, exceto alguns muçulmanos que rejeitam essa ideia e querem retornar aos valores do século XVIII, quando se mostravam como pertencentes a uma norma e não a uma nação, não a uma religião, mas, sim, a um povo. Em suma, penso que o multiculturalismo é uma questão em aberto.

Tolkien, The Beatles ... Aliados poderosos na cultura de massa foram buscados para expressar a sobrevivência do cristianismo. A chave desse triunfo é estar sem parecer, sem aparente imposição ou instituição?

Avalio que o sucesso que o cristianismo teve em se propagar está justamente em que fez parecer que seus valores não provêm do cristianismo, mas de alguma forma são universais. Conceitos como secularização, direitos humanos e igualdade de gênero, todos eles têm raízes cristãs, mas o genial da sociedade ocidental foi pretender que são valores universais e que todos podem adquiri-los.

Ele escreve que, após escrever sobre Esparta e Roma antiga, não pôde sentir muita empatia porque tinham a ética de um predador. O cristianismo tornou o mundo ocidental melhor e mais humano?

O paradoxo é que tornou a sociedade ocidental mais capaz de conquistar a outros, porque precisamente o prêmio para os conquistados, a universalidade, e a compaixão por eles significa que o Ocidente com êxito como império.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“O êxito do cristianismo está em que fez parecer que seus valores são universais”. Entrevista com Tom Holland - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV