Cenas de um filme de terror da vida real. Os 30 anos do massacre de Ignacio Ellacuría e seus companheiros

Por: Texto: Ricardo Machado | Design: Jonathan Camargo | 16 Novembro 2019

[ Cena 1 – A reunião ]

 

// El Salvador – tarde de 15 de novembro de 1989 – por volta das 14 horas //

Oficiais do Exército salvadorenho reúnem-se na Escola Militar Capitão Gerardo Barrios para decidir os rumos das próximas operações. Na pauta, as decisões sobre qual seria o destino de cinco sujeitos considerados subversivos e altamente perigosos para a segurança nacional de El Salvador. O futuro deles seria traçado naquela tarde e noite de novembro, por um grupo formado por oficiais de alta patente a mando do o coronel Inocente Orlando Montano.

Os encontros realizados nas próximas horas serviriam para definir uma série de ações, desde planos de bombardeio a ataques a líderes políticos. O primeiro deles, a ser realizado na madrugada seguinte, tinha como alvo uma residência a menos de três quilômetros de onde as reuniões estavam sendo realizadas. O que os militares não sabiam é que o episódio se tornaria um dos mais emblemáticos da América Central.

 

[Cena 2 – Planejamento da missão]

 

// El Salvador – noite de 15 de novembro de 1989 – por volta das 22 horas //

Na base de operações, a Unidade de Comando dos Atlacatl – que se tratava de um grupo de militares de infantaria para ação imediata, formado por soldados de elite – recebia as instruções de como proceder na operação ordenada pela Tandona, nome dado à cúpula militar salvadorenha que dirigia as ações contra os insurgentes.

Toda operação deveria durar, no máximo, uma hora, contando com a breve viagem de cinco minutos entre a base e o destino final, a Universidade Centroamericana José Simeón Cañas. Tudo havia sido planejado, não haveria problemas no deslocamento, o caminho era controlado pelo próprio Exército, pois se tratava de um perímetro totalmente controlado pelo exército salvadorenho.

 

[Cena 3 – O alvo]

 

// El Salvador – fim da noite de 15 de novembro de 1989 – por volta das 23h //

A reunião que durava mais de nove horas acaba. Quando a porta se abre, o coronel Benavides, a mando de seu superior o coronel Inocente Orlando Montano, sai, olha para os integrantes da Unidade de Comando dos Atlacatl e ordena.

– Ele deve ser eliminado e não quero testemunhas.

Imediatamente um grupo formado por um coronel, dois tenentes, um subtenente e cinco soldados passaram a verificar seus fuzis, munições e ajustar seus equipamentos para o deslocamento. Com tudo pronto, embarcaram na viatura. Deram partida: a operação havia começado. Sessenta minutos. Esse era o tempo máximo para retorno à base.

 

[Cena 4 – Metodologia ]

 

// El Salvador – madrugada de 16 de novembro de 1989 //

A missão era clara. Eliminar o padre Ignacio Ellacuría e seus colegas de residência. Os jesuítas, mesmo desarmados e relativamente velhos, eram pessoas altamente perigosas para os interesses do governo salvadorenho à época. Havia um detalhe que não deveria ser descuidado no cumprimento da missão: a principal arma desses subversivos, o conhecimento, deveria ser neutralizada. Todos os religiosos deveriam ser assassinados com, ao menos, um tiro na cabeça. A morte não poderia se restringir aos corpos, era necessário, também, uma morte simbólica.

 

[Cena 5 – Ação ]

 

// El Salvador – madrugada de 16 de novembro de 1989 //

Depois de um breve deslocamento de viatura, a Unidade de Comando dos Atlacatl chega ao destino. O padre Martín-Baró abre a porta da residência, os militares, todos eles, entram sem nenhuma resistência. De pijamas, recém despertos e tentando entender tudo o que estava por acontecer, os cinco jesuítas – Ignacio Ellacuría, Segundo Montes, Ignacio Martín-Baró, Armando López, Juan Ramón Moreno, Joaquín López y López – que moravam juntos foram levados a um gramado e colocados de bruços. Dois soldados apertaram os gatilhos. A poucos metros, Elba Ramos, que trabalhava na casa, tinha sua filha Celina entre os braços, quando o longo e frio abraço da morte chegou ao estampido do fuzil de outro soldado. Em poucos instantes a missão estava completa.

 

[Cena 6 – O retorno ]

 

// El Salvador – madrugada de 16 de novembro de 1989 //

Apenas o tenente José Ricardo Espinoza Guerra havia se camuflado com tintas escuras. Após os tiros, duas estreitas linhas de rosto limpo riscavam seu semblante, da beirada dos olhos à parte inferior das bochechas. A imagem do padre Segundo Montes, morto aos seus pés, fundia-se com a lembrança de quando o próprio tenente Guerra era aluno, na adolescência, da Escola São José, que Segundo havia sido reitor e quem conhecia pessoalmente. O choro era inevitável.

Retornaram à base. Insuspeitos, trafegaram na região controlada pelo próprio Exército em um caminho inverso. Ninguém havia visto nada. Era um crime perfeito, exceto pelo fato que não há crimes perfeitos.

* * *

As cenas acima foram descritas com base em uma série de relatórios e depoimentos dados à professora Terry Lynn Karl, da Universidade de Stanford, Estados Unidos, baseada nos relatos do coronel Inocente Orlando Montano. O plano dos militares era atribuir o assassinato de Ignacio Ellacuría e seus companheiros à Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional – FMNL. Esqueceram, porém, que se tratava de uma região de controle absoluto do Exército, impenetrável pelas forças rebeldes, o que viria a ser provado mais tarde, sinal de que o argumento não resistiria à mínima investigação.

O próprio coronel Montano tentou entrar no Estados Unidos ilegalmente, nos anos 1990, sem informar que havia sido militar em El Salvador. Ele foi preso por falsificar formulários de imigração e, durante seu juízo, os interrogatórios orbitaram em torno das ações de sua carreira militar. No dia 29 de novembro de 2017, Montano foi extraditado dos Estados Unidos para a Espanha onde continua preso.

 

Mártires

 

Pe. Ignacio Ellacuría (1930-1989) nasceu no dia 9 de novembro de 1930, na Espanha. Ingressou na Companhia de Jesus em 1947 e atuou em El Salvador de 1949 até sua morte. Foi incorporado à Universidade Centro Americana - UCA "José Simeón Cañas" em 1967, da qual foi reitor de 1979 em diante. Doutor em filosofia, desenvolveu uma importante contribuição para a Filosofia da Libertação latino-americana. Ellacuría sustentava que o conflito armado em El Salvador era o resultado de uma injustiça estrutural vivida pelo povo salvadorenho, e o único modo de terminar com a guerra era eliminar as situações de injustiça.

 

Pe. Ignacio Martín-Baró (1942-1989) nasceu no dia 7 de novembro de 1942, na Espanha. Ingressou na Companhia de Jesus em 1959 e logo depois foi enviado para América Central. Formado em psicologia e filosofia, aplicou à psicologia social o conceito de "conscientização" de Paulo Freire, promovendo uma psicologia da libertação. Atuou na UCA a partir 1967, inicialmente como professor e mais tarde como vice-reitor. Fundou, em 1986, o Instituto de Opinião Pública, que tinha por objetivo avaliar opiniões e atitudes do povo salvadorenho.

 

Pe. Segundo Montes (1933-1989) nasceu no dia 15 de maio de 1933, na Espanha. Ingressou na Companhia de Jesus em 1950. Fundou o Instituto de Direitos Humanos da UCA, que foi por ele dirigido até sua morte. Tornou-se muito conhecido em El Salvador e nos Estados Unidos por seu trabalho com refugiados salvadorenhos em toda a América Central e América do Norte.

 

Pe. Amando López (1936-1989) nasceu no dia 6 de fevereiro de 1936 e ingressou na Companhia de Jesus em 1952. Foi transferido para El Salvador em 1954. Formado em teologia e filosofia, lecionou filosofia na UCA entre 1973 e 1974. Atuou na Universidade da América Central em Manágua entre 1975 e 1983, da qual foi reitor após o êxito da Revolução Sandinista. Retornou a El Salvador em 1984, passando a lecionar teologia e filosofia na UCA e a atuar na pastoral em comunidades da periferia de San Salvador.

 

Pe. Juan Ramón Moreno (1933-1989) nasceu no dia 29 de agosto de 1933, na Espanha. Ingressou na Companhia de Jesus em 1950 e, logo após, foi enviado para El Salvador. Entre 1970 e 1976, dirigiu o seminário jesuíta de El Salvador e foi professor na UCA. Entre 1976 e 1980, atuou no Panamá, onde criou o Centro Inaciano da América Central e fundou a revista de espiritualidade e libertação Diakonia. Retornou a El Salvador, em 1985, para organizar o Centro de Reflexão Teológica da UCA. Também lecionou filosofia e supervisionou a construção do Centro Pastoral Monsenhor Romero.

 

Pe. Joaquín López y López (1919-1989) nasceu no dia 16 de agosto de 1918, em Chalchuapa, El Salvador. Ingressou na Companhia de Jesus em 1983. Colaborou na criação da UCA e foi o fundador da organização Fé e Alegria, destinada à formação e educação em comunidades empobrecidas, a qual dirigiu até sua morte.

 

Julia Elba Ramos (1947-1989) nasceu em Santiago de María, El Salvador, no dia 5 de março de 1947. Após um período de trabalho no meio rural, passou a trabalhar na residência dos jesuítas a partir de 1985. Foi casada com Obdulio, vigilante e jardineiro da residência universitária.

 

Celina Meredith Ramos (1976-1989) filha de Elba e Obdulio, nasceu em Jayaque, El Salvador, no dia 23 de fevereiro de 1976. Morreu antes de completar 15 anos de idade.

  

 

Do martírio à vida eterna

Fazer memória do trágico episódio ocorrido na América Central significa mais do que lembrar de um evento histórico, implica colocar no chão da vida a existência de Ignacio Ellacuría e sua comunidade. Fazer memória destes e destas mártires é trazer à tona a vida como expressão de transformação da realidade e, ao mesmo tempo, fazer da morte a sublimação de uma missão que sobrevive e é cada vez mais necessária diante da intolerância do mundo contemporâneo e da crescente onda de militarização da política.

No dia 16 de novembro faz-se memória do Martírio de Ignacio Ellacuría e seus companheiros, como celebração da coragem de viver e lutar contra as injustiças. Memória de um passado latino-americano que deveria existir, se tanto, somente nos livros de história, mas cujos espectros do horror vivem a assombrar o tempo presente. Faz-se, por defesa da própria vida, memória à vida.

A reportagem de Ricardo Machado contém informações do The Center for Justice and Accountability, El Faro e El País. Mapas, artes, programação e efeitos visuais Jonathan Camargo.

 

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