Escolhido por Deus para guiar o Brasil? Da manipulação da religião pela política

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22 Maio 2019

"O uso ingênuo da Bíblia é instrumento que facilmente pode ser usado para manipular mentes e consciências. Ao longo da história, não poucos governos agiram, e ainda agem assim. Nesta hora, é importante resgatar a tradição profética do pensamento bíblico. Na tradição judaico-cristã, o profeta é o enviado de Deus que não teme criticar as falhas e incoerências do líder político", escreve Carlos Caldas, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas em Belo Horizonte.

Eis o artigo.

Religião e política, sabemos, são constituintes inalienáveis da existência humana. Desde sempre, e em toda parte, o humano é não apenas homo sapiens, mas também é homo religiosus. E de acordo com Aristóteles, o homem é zoon politikon – em bom português, “animal político”. Usando a linguagem da antropologia bíblica, é oportuno lembrar que adam, o humano, é religioso e político, político e religioso.

Só que a relação entre política e religião nem sempre tem sido tranquila. Algumas vezes o poder político quer sufocar, reprimir e até mesmo suprimir a religião. Em outras ocasiões ocorre o inverso: a religião determina os rumos da política. Quando assim acontece, temos teocracias. Em outras, acontece como que uma variação do modelo teocrático, e religião e política vivem em simbiose, em retroalimentação, uma aliança, não raro espúria, entre “trono e altar”. Nesta relação o poder político e o poder religioso dependem um do outro, e se beneficiam mutuamente. Conscientemente ou não, um manipula o outro, e ambos saem ganhando. A história está repleta de casos em que aconteceram manipulações desta natureza.

Exemplo concreto de manipulação da religião em benefício do poder político foi amplamente divulgado pela imprensa brasileira nesta semana: no dia 19 de maio o Presidente Jair Bolsonaro divulgou um vídeo em sua conta no Facebook no qual um pastor congolês, por nome Steve Kunda, líder de uma igreja evangélica em Orleans, França, afirma que Bolsonaro, tal qual Ciro (o imperador persa, não o Gomes) foi “estabelecido por Deus” para guiar o país. Kunda, que se apresenta como “apóstolo”, ainda pede a todos, evangélicos, católicos, todos sem distinção, que apoiem Bolsonaro, que ele não seja criticado e que não se lhe faça oposição. No vídeo, enquanto Kunda fala, aparece no canto direito inferior da tela uma foto de um sorridente Jair Bolsonaro. Em sua postagem Bolsonaro afirmou: “não existe teoria da conspiração, existe uma mudança de paradigma na política” e que “quem deve ditar os rumos do país é o povo! Assim são as democracias”.

Não é novidade para ninguém que grande parte da população evangélica do Brasil deu votou em Bolsonaro, e segue lhe dando apoio acrítico. Ele tem sido apresentado como sendo seu segundo nome: um Messias, um enviado de Deus para limpar o Brasil e mudar “tudo isso que está aí”. Não é coincidência que o apelo do pastor do Congo tenha sido postado por Bolsonaro poucos dias depois de centenas de manifestações em todo o país protestando contra a anunciada política de cortes draconianos na educação. Não é coincidência também que, ao postar este vídeo, de um homem que usa linguagem religiosa e cita a Bíblia, Bolsonaro se dirija diretamente aos evangélicos, que, como dito, em sua quase absoluta maioria têm lhe dado apoio sem qualquer crítica. Não é coincidência que isto acontece quando o mesmo Bolsonaro divulga um texto pelo WhatsApp com a afirmação que o Brasil é ingovernável sem conchavos. Não é coincidência que tudo isto acontece quando grupos pró-Bolsonaro convocam manifestações populares para o dia 26 de maio. Não é coincidência que se multiplicam nas redes sociais postagens que, em nome de combate à corrupção, sugerem, insinuam ou abertamente defendem que o Congresso e o STF devem ser fechados. Não é coincidência que, enquanto tudo isso está a acontecer, o Senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair, esteja sendo investigado pela Receita Federal.

A divulgação do vídeo com a fala do pastor congolês é claramente parte de uma estratégia para apoiar o Presidente quando este se encontra desgastado em suas relações com o Congresso. Os evangélicos, e muitos católicos também, são importantes neste movimento de conseguir apoio para o governo. A maioria do povo evangélico apela para leituras simplistas e superficiais de Romanos 13.1-2: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação”.

No pequenino, mas valioso Cristo e política, o biblista luterano Oscar Cullmann, um dos gigantes da teologia bíblica de meados do século passado, afirma que Romanos 13 deve ser lido ao lado de Apocalipse 13: neste capítulo, usando a linguagem simbólica e figurada típica da literatura apocalíptica, João adverte quanto ao perigo destes dois poderes, o religioso e o político, se unirem. O poder político incontestado torna-se totalitário, e assim, instrumento da maldade e da iniquidade. Foi exatamente com base na leitura unilateral de Romanos 13 que boa parte dos cristãos na Alemanha nazista deu apoio total, completo e irrestrito ao Führer Hitler, não questionando nunca nenhuma de suas atitudes ou decisões.

O uso ingênuo da Bíblia é instrumento que facilmente pode ser usado para manipular mentes e consciências. Ao longo da história, não poucos governos agiram, e ainda agem assim. Nesta hora, é importante resgatar a tradição profética do pensamento bíblico. Na tradição judaico-cristã, o profeta é o enviado de Deus que não teme criticar as falhas e incoerências do líder político, e que faz ouvir sua voz não em benefício próprio, mas em benefício das vítimas, dos frágeis, dos que sofrem por causa de um sistema. À luz da tradição bíblica, nenhum governante está acima de críticas, e ninguém que diz falar em nome de Deus pode pedir que não sejam feitas críticas a um líder político, quem quer que este seja.

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