De onde vêm os demônios? A força evangélica neopentecostal na América Latina

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 26 Outubro 2018

A onda bolsonarista no Brasil tem entre seus principais impulsionadores as igrejas evangélicas. A participação desses grupos na política não é uma peculiaridade brasileira. Costa Rica, Colômbia, El Salvador, Guatemala, México, Uruguai e até Venezuela são os países da região que o fenômeno religioso toma corpo e força na disputa política. De acordo com uma pesquisa da corporação Latinobarómetro, publicada em janeiro de 2018, a população evangélica da região chega aos 20%. Dentro desse grupo estão os evangélicos tradicionais, como luteranos e anglicanos, mormons e os neopentecostais. Estes surgidos no século XX, sob influência de um sistema econômico moldado pelo ocidente já capitalista e liberal.

Délcio Monteiro de Lima, em livro publicado em 1987 (Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves) buscava explicar o surgimento exponencial de novas igrejas e expressões religiosas na América Latina. Na década de 1980, começou o intenso declínio de católicos na região, Honduras, Nicarágua, Guatemala, Brasil e Uruguai foram os que apresentaram a maior volatilidade. Com exceção do Uruguai, que pendeu ao agnosticismo e ateísmo, todos os outros países demonstravam que a transição da fé católica se deslocava à evangélica, sobretudo neopentecostal.

O livro de Délcio não à toa intitula-se Os Demônios Descem do Norte. O rastreio da origem dessa pulverização religiosa remitia aos estudos do governo de Nixon, registrados no polêmico relatório Rockefeller, de 1969. A constatação do governo Nixon era de que a Igreja Católica era muito forte no continente e ligado à uma esquerda que desestabilizava a força dos EUA na região. A qualificação de “demônios” para a época soaria uma disputa no campo religioso, envergado do viés liberal e capitalista do polo ocidental na Guerra Fria. Hoje, essas igrejas reforçam um novo campo político ascendente, dentro dos países, e disputam o poder no espectro das direitas latino-americanas. Por assim, os demônios não são as igrejas, nem seus fiéis, mas a pretensa “diabólica” de instrumentalização dessa fé.

Na quarta-feira, 24-10, a Frente Parlamentar Evangélica — FPE, no Brasil, que conta com 180 deputados, e prevê crescer 20% na próxima legislatura, apresentou o manifesto O Brasil para os brasileiros. São as diretrizes de atuação da bancada. As propostas reunidas em 60 páginas tem como objetivo o enxugamento do Estado, Reforma da Previdência e a criminalização do aborto e das drogas. O documento foi entregue apenas ao candidato presidenciável do PSL. Segundo o presidente da FPE, o deputado Hidekazu Takayama (PSC-PR) as propostas não ferem a laicidade do Estado: "O povo diz que o governo é laico. Pode ser laico e deve ser laico. Mas tem que saber que o Brasil tem um perfil cristão - 86,8% dos brasileiros são cristãos".

A fusão da fé evangélica com o ideal econômico neoliberal é um programa maior que Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Edir Macedo. Em estudo de Nery Chaves Garcia, cientista político, professor da Universidad Nacional de Costa Rica, a estratégia neopentecostal está descrita por “1) a construção de alianças com setores hegemônicos e neoliberais para compartilhar o poder; 2) a consolidação de uma agenda conservadora em direitos humanos básicos que funcione como catalisador político para imposição de agendas de corte político neoliberal”.

Exemplos dessa composição são mais fortes na América Central. O principal expoente hoje é o presidente guatemalteco Jimmy Morales. Evangélico, foi comediante por 15 anos, até entrar na política. Venceu a eleição presidência em 2015, pelo partido Frente de Convergencia Nacional. O FCN foi declarado extinto pelo Tribunal Supremo Electoral da Guatemala por ser financiado ilegalmente por grandes empresários do país.

Um dos principais aliados de Jimmy é o “apóstolo” Juan Carlos Eguizábal, pastor e líder da igreja Ministerio Internacional Dios es Bueno, uma espécie de filial da igreja Ministerio Internacional El Rey Jesús, com sede em Miami e administrada pelo pastor Guillermo Maldonado. Em 2016, ambos pastores promoveram o “Encuentro Sobrenatural”, um culto para mais de 35 mil pessoas, televisionado para todo o país. O culto contou com a presença de Jimmy Morales e o embaixador de Israel, Mattanya Cohen.


Jimmy Morales na abertura do Encuentro Sobrenatural, na Guatemala. Foto: Reprodução Youtube

Jimmy, Cohen e Eguizábal estiveram juntos em outra ocasião emblemática: a inauguração da embaixada guatemalteca em Jerusalém, transferida de Tel Aviv, em maio de 2018, o segundo país a fazer esse movimento, alguns dias depois dos EUA fazer o mesmo ato — essa mesma proposta aparece no plano de governo de Jair Bolsonaro.

O fenômeno religioso também foi presente nas eleições costa-riquenhas deste ano. Fabricio Alvarado venceu o primeiro turno com discursos inflamados contra os direitos de LGBTs e mulheres. O candidato que perdeu a eleição no segundo turno, é pastor evangélico e cantor gospel.

Alvarado empreitava na Câmara dos Deputados e com maior ênfase na campanha eleitoral uma frente contra os “Guías sexuales” – a versão costa-riquenha do “kit gay”. Alvarado acusava publicamente o Ministerio de Educacion Publica de promover uma ideologia de gênero, e, portanto, se eleito presidente, seu primeiro decreto seria bani-la. Repetidas vezes Alvarado disse que “não estava promovendo discurso de ódio a ninguém”.

Embora Fabricio não tenha sido eleito presidente, seu partido, da Restauracion Nacional, formou a segunda maior bancada no legislativo. O líder do partido é Carlos Avendaño Calvo, pastor evangélico e líder por vinte anos da Assembleia de Deus na Costa Rica, uma igreja própria do país, da mesma genealogia do braço brasileiro, do pastor Silas Malafaia: o General Council of the Assemblies of God, criado em 1914, no estado de Arkansas, EUA.

Na Nicarágua, a primeira-dama e vice-presidente Rosario Murillo é outro símbolo de liderança neopentecostal. O governo Daniel Ortega, embora tenha origem ligada à Teologia da Libertação, há muito tempo está em conflito direto com a Igreja Católica. Em 2017, o casal participou de um culto da Iglesia Hosana transmitido em televisão aberta de benção ao governo e à Nicarágua.

O pastor responsável pelo culto e líder da igreja, David Spencer, estadunidense, foi condecorado com a Ordem Rubén Darío, concedida a intelectuais destacados como “a máxima distinção cultural da Nação”.

Seguindo a linha religiosa, diariamente Rosario Murillo publica uma mensagem no site oficial do governo, El 19 Digital, com constantes exaltações a Deus.

Voltando ao Sul da América Latina, a Venezuela também teve seu personagem evangélico em disputa eleitoral. Nas contestadas eleições presidenciais de 2018, Javier Bertucci, ficou em terceiro lugar. Bertucci é pastor e líder da Iglesia Cristiana Maranathá Venezuela. Uma de suas propostas era de diariamente fazer transmissões ao vivo na televisão de leitura da Bíblia. Em entrevista ao jornal El Estimulo, de Caracas, concedida em fevereiro de 2018, disse que se eleito governaria o país como administrou a sua igreja.

Na vizinha Colômbia, as igrejas neopentecostais demonstraram força na rejeição ao acordo de paz do Estado com as FARC, em 2016. Estima-se uma população de 10 milhões de evangélicos no pais. As igrejas pentecostais armaram uma frente de repudio ao acordo, acusando como uma ameaça às famílias colombianas. As confederações das igrejas da Colômbia estimaram na época que dos pouco mais de 6 milhões de votos contrários ao acordo, pelo menos um terço veio de cidadãos evangélicos.

Uma bancada evangélica surgiu até mesmo no Uruguai, o pais menos religioso da América Latina. Entre os nomes de destaque está a senadora pelo Partido Nacional Verónica Alonso, e pré-candidata à presidência nas eleições de 2019. Verónica é participante da igreja Misión Vida, tem como aliados os dirigentes espirituais, o deputado e pastor Álvaro Dastugue e Jorge Márquez fundadores da igreja. Apesar de pequena representatividade, a bancada evangélica travou por um ano a Lei de Transgêneros, recentemente aprovada.

Espalhados pela América Latina, as igrejas neopentecostais surgem com um projeto de poder defendido nas urnas. Os demônios que Décio Monteiro prenunciava são a vigência da ordem neoliberal legitimada e sustentada pela fé.

Jair Bolsonaro é apenas uma das representações desse modelo que se constrói a décadas no continente.

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