Pe. Hans Zollner e o Pacto das Catacumbas: após a crise de abuso, como podemos voltar às nossas raízes cristãs?

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18 Setembro 2018

"Espero que os bispos compreendam agora, de uma vez por todas, que têm de viver o que é a sua missão e responsabilidade - moralmente, canonicamente e espiritualmente. E além da simples e mera conformidade: eles estão determinados e comprometidos, de todo o coração, a fazer o que pode ser feito para que pessoas não sejam mais prejudicadas e todos os que foram prejudicados recebam justiça?", diz Hans Zollner, S.J., membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores em entrevista à Jim McDermott, S.J., publicada por America, 17-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Hans Zollner, S.J., é psicólogo e psicoterapeuta licenciado com doutorado em teologia e é um dos principais especialistas da Igreja na área de salvaguarda de menores. Ele é o presidente do Centro de Proteção à Criança da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e consultor da Congregação para o Clero.

A revista America conversou com o padre Zollner em julho e de novo recentemente, já que a crise dos abusos sexuais nos Estados Unidos continua a perturbar a Igreja. Esta é a primeira de três entrevistas que James McDermott, S.J., está conduzindo sobre a crise dos abusos.

Eis a entrevista;

Qual foi sua reação ao que vimos nos Estados Unidos e em outros lugares durante o último mês?

A impressão mais forte que tenho é que isso agora atingiu outro nível. A discussão, a consciência e a intensidade, especialmente nos Estados Unidos, é muito surpreendente, porque vocês já passaram por isso durante muitos anos. E isso traz à tona as divisões [sociais e políticas] americanas que são visíveis no país e na Igreja.

Mas por que é tão chocante para tantos, sejam da esquerda ou direita? É porque a extensão do encobrimento dos líderes da Igreja no passado e sua corresponsabilidade por isso (não importa qual seja sua convicção ideológica) estão se tornando mais claras agora. E, então, a questão é como as pessoas lidam com todos essas questões hoje.

A questão de McCarrick também vejo de alguma forma ligada ao movimento #MeToo na medida em que o #MeToo deu às pessoas permissão para confrontar realmente os intocáveis, para chegar àquelas pessoas as quais nunca se ousou falar a respeito ou acusar. Aqueles que antes recebiam a atribuição de “personalidades divinas” estão agora ao alcance - perto o suficiente para serem questionados e criticados.

E quando se trata da Igreja, o principal foco não está mais em padres abusivos, mas em bispos que encobriram. Isso é algo muito novo, muito recente. Tem estado lá, sim, mas a intensidade agora mostra que há outro nível de sensibilidade e outro nível de necessidade de transparência e autenticidade.

É interessante ouvir você falar sobre como os intocáveis se tornaram completamente acessíveis agora. Os ataques ao Papa poderiam ser vistos como a expressão máxima disso.

Sim, o Papa não é mais intocável. E acho que isso é resultado, em primeiro lugar, da renúncia do Papa Bento XVI, que mostrou de modo tão claro quanto a luz do dia que um Papa é um ser humano. Ele desmistificou o papado ao exonerar-se; depois o Papa Francisco sendo tão real, tão acessível, é certamente também um dos fatores que permitem que as pessoas se sintam no direito de atacar os papas, muito pessoalmente (e sem, eu diria, o respeito necessário).

E creio que isso está precisamente na linha da compreensão de Francisco do papado, do episcopado e da ordenação - padres sacrossantos são agora coisas do passado. Assim como você pode criticar políticos e outras autoridades se eles não fizerem o que deveriam fazer, você pode falar abertamente sobre as falhas da hierarquia.

Quais você acha que são os próximos passos concretos que a Igreja dos Estados Unidos deve dar?

Eu diria que os bispos precisam se comprometer com um código de conduta e os procedimentos precisam ser implementados caso haja mais alegações de encobrimento.

Poderia ser um modelo para toda a Igreja se eles se comprometessem com um sistema. Por exemplo, há um bispo que é acusado. Ok, vamos convocar um júri, ou qualquer que seja o termo apropriado, de pessoas, uma comissão mista, e eles vão resolver as coisas; eles verificarão a alegação e se houver uma confirmação da alegação, ok, nós reportamos a Roma. Uma consequência de uma proposta como essa poderia ser também a determinação de procedimentos em Roma. O Papa Francisco, com seu motu proprio "Como uma mãe amorosa", deu o pontapé inicial, mas não sabemos se isso foi continuado e que tipo de processo está em vigor no caso de uma alegação surgir.

O que você quer dizer com “uma comissão mista”?

Leigos, padres, bispos - todos especialistas que são capazes de obter indícios. Um dos problemas que temos é que, na lei canônica, não temos uma lista detalhada e claramente definida de punições para crimes claramente definidos, então precisaremos disso. Precisamos saber qual será a medida concreta de punição para um bispo que encobriu os abusos.

Além disso, digamos que você esteja em uma escola católica e é o "Irmão Brown" quem comete o abuso. Para quem você escreve? Não é para a Congregação para o Clero. Não é para a Congregação para a Doutrina. É para a Congregação para os Religiosos, porque estamos falando de um irmão, não de um padre. Mas, novamente, as punições para alguém que não faça parte do clero e que abusou de um menor não são especificadas até agora. Também não há punição especificada pela Igreja para qualquer leigo. Isso também é algo que eu diria que precisamos rever.

Em uma palestra recente, você mencionou o “Pacto das Catacumbas”, da época do Concílio Vaticano II, como um ponto de referência que poderia ser útil aos bispos atualmente. Você poderia elaborar a respeito?

Quarenta e dois bispos do Concílio Vaticano II reuniram-se no final do concílio em uma das primeiras catacumbas cristãs e comprometeram-se com um estilo de vida simples, a abandonar sinais de poder e prestígio, efetivamente abdicar do controle e estimular o envolvimento de leigos e leigas nas comissões de tomada de decisão. E comprometeram-se a priorizar o trabalho pastoral que coloca as pessoas vulneráveis em primeiro plano.

Estamos em um momento de crise real na Igreja. Acho que ninguém pode negar isso. Então o que isso significa? Precisamos voltar às nossas raízes. E as raízes sempre foram o estilo de vida simples, comprometido e consistente que Jesus Cristo viveu e nos pede para viver, focalizando nossa atenção em Deus e no próximo, não em nosso conforto aparentemente indispensável e em sinais de poder, prestígio e privilégio.

Significa realmente compartilhar o poder, pedir conselhos a especialistas leigos e segui-los, ter pesos e contrapesos funcionais na administração da Igreja, não mostrar favoritismo ao escolher o pessoal, promover um feedback honesto e construtivo, renunciar a favores pessoais e privilégios.

Os mártires enterrados nessas catacumbas nos lembram que o Evangelho custa algo, às vezes a morte. Mas mesmo que não haja martírio no sentido físico, pelo menos pode haver algum tipo de evidência em nossas próprias vidas de que seguir Jesus Cristo tem um custo.

O que você deseja que os bispos entendam agora mesmo?

Espero que os bispos compreendam agora, de uma vez por todas, que têm de viver o que é a sua missão e responsabilidade - moralmente, canonicamente e espiritualmente. E além da simples e mera conformidade: eles estão determinados e comprometidos, de todo o coração, a fazer o que pode ser feito para que pessoas não sejam mais prejudicadas e todos os que foram prejudicados recebam justiça?

Acho que já não é mais suficiente investir um pouquinho mais, desculpar-se com palavras diferentes, mostrar mais contrição. Chegou a hora de uma mudança muito mais profunda, em termos cristãos, da “conversão do coração”.

Isso significa seguir, de todo o coração, o chamado de Jesus para colocar os mais vulneráveis no centro de nossa atenção e missão. Isto não é um complemento - como tem sido tratado até agora por muitos - como se fosse uma tarefa adicional que precisa ser tratada agora, mas depois de algum tempo podemos voltar aos nossos ministérios “reais”. Esse é o DNA da Igreja e precisa estar automaticamente em todos os nossos pensamentos, planejamentos e ações.

Minha opinião sempre foi que a lei sozinha não resolve problemas. Sim, precisamos de padrões e estratégia. Mas a cultura come a estratégia no café da manhã e a lei não muda a cultura por conta própria.

As pessoas não estão cumprindo a lei (por exemplo, cometem assassinatos, fraudam, embora saibam que é errado e serão punidas), mas por que não estão cumprindo? Porque elas não estão realmente convencidas. No que diz respeito à salvaguarda, há uma interação entre políticas, normas, procedimentos e diretrizes: por um lado a lei canônica, do outro a atitude e a disposição em cooperar - não porque eu seja compelido, mas porque eu pronta, espontânea e naturalmente faço o que quer que se possa fazer para que os jovens estejam seguros e aqueles que foram prejudicados recebam toda a ajuda e apoio a que têm direito.

Sim, precisamos de leis e, portanto, sugeri aos canonistas que considerem definir claramente o que é punível e como será punido, e não deixar todo o espaço para a discriminação e a tomada de decisões para o juiz sênior, como é agora. Mas precisamos também de uma mudança de cultura e atitude no sentido de “estou preparado para fazer o que puder ser feito e pagar um alto custo, um custo que pode ser tão alto quanto a minha exoneração do cargo, para fazer tudo o que puder para que os jovens estejam seguros”.

Eu ouvi você falar sobre a necessidade de os teólogos também participarem dessa conversa. Você pode explicar isso?

O papel dos teólogos seria e deveria ser que eles refletissem sobre a presença desse mal, todas as consequências para as vítimas, para vítimas secundárias e para a Igreja que é impactada por esta crise de abuso. Como pode que a Igreja de Jesus Cristo tenha criado em seus líderes tanto mal, autopreservação, falta de coragem e negligência das vidas das crianças que passaram despercebidas, reprimidas, negadas ou encobertas?

Além disso, uma grande questão teológica para mim: qual é o papel do padre hoje? O que um padre faz hoje? Vemos na maioria dos países, pelo menos no Ocidente, que eles fazem todo tipo de coisas que não têm necessariamente a ver com o ministério sacerdotal pastoral e espiritual. Eles fazem administração, burocracia e organização, para os quais não recebem treinamento e supervisão específicos. Vocês podem trazer de dentro da teologia do sacerdócio (e vocês podem adicionar o episcopado) o que é essencial e como deve ser definido hoje?

Na mesma linha: como entendemos ser uma Igreja no mundo hoje? O que precisamos aprender em relação à sociedade moderna, ciência moderna, administração moderna? Existe um modelo de teologia que está desconectado de tudo isso e as pessoas podem dizer que a teologia é uma coisa completamente diferente disso, mas não precisamos refletir dentro do contexto da vida cotidiana em que vivemos?

Por exemplo, em uma era de comunicação em massa, de mídia social, de transparência, de autenticidade, etc., não precisamos refletir sobre seu impacto em nossa vida de fé, nas relações entre nós, em nossos relacionamentos com Deus?

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