Bispos de língua alemã movimentam-se para assumir o controle das traduções litúrgicas

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10 Outubro 2017

Os bispos católicos dos países de língua alemã da Europa estão em conflito com o Vaticano há anos por uma tradução controversa e nunca implementada do Missal, o protótipo latino para a celebração da liturgia católica romana.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por La Croix International, 09-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Os bispos da Alemanha nem sequer mencionaram a tradução contestada no mês passado, no relatório final do plenário de outono da conferência episcopal do país. Ao contrário, agradeceram ao Papa Francisco por seu recente "motu proprio" Magnum principium, que confere maior autoridade às conferências sobre as traduções litúrgicas.

Também agradeceram ao papa por ter ressaltado novamente, assim como na exortação Evangelii gaudium, de 2013, que a "autoridade doutrinal genuína" das conferências episcopais precisa ser melhor elaborada (EG 32). E disseram que as comissões litúrgicas de todas as várias conferências de língua alemã começariam a discutir Magnum principium e suas consequências detalhadamente.

O presidente dos bispos alemães, cardeal Reinhard Marx, de Munique, disse que a primeira reação sua e de seus confrades ao novo "motu proprio" foi um "enorme alívio".

Durante uma conferência de imprensa no final da reunião plenária de 25 a 28 de setembro, disse que acreditava que a visão da Congregação para o Culto Divino (CCD) sobre as traduções litúrgicas era muito restrita nas normas que emitiu em 2001 com o documento Liturgiam authenticam. O cardeal apontou para as longas e penosas tentativas de produzir a tradução inglesa do Missal, dizendo que achava que era "completamente excessivo" o modo como o Vaticano havia insistido em uma interpretação estritamente literal do latim.

O cardeal Marx revelou que alguns dos bispos falantes de inglês pediram ajuda e que até ele achou difícil rezar algumas das orações do Missal.

"A linguagem está simplesmente inaceitável", disse ele.

"Liturgiam authenticam foi um beco sem saída. Roma é responsável por interpretações dogmáticas, mas não por questões de estilo. Agora, graças a Magnum principium, as conferências dos bispos têm uma liberdade muito maior", acrescentou o cardeal.

Ele concordou que era válido revisar as traduções do Missal a cada 40 ou 50 anos, mas disse que não vê motivo para ter pressa em produzir uma nova tradução alemã. Segundo ele, a tradução atual, que remonta a 1976, não era "tão ruim". No entanto, acrescentou que a comissão de liturgia da conferência discutiria o assunto de uma possível nova tradução em sua próxima sessão.

A maioria dos bispos falantes de alemão sempre foi favorável a deixar a tradução final dos textos litúrgicos latinos para as conferências nacionais. Para a surpresa de alguns, isso também incluiu o falecido cardeal Joachim Meisner, de Colônia, um dos quatro cardeais conservadores que assinou a agora famosa dubia desafiando o documento do papa sobre o casamento e a família.

Ele liderou a comissão de liturgia da conferência alemã por mais de 20 anos (de 1989 a 2014) e também foi presidente de Ecclesia celebrans, o comitê patrocinado pela CCD que é semelhante ao Vox clara (de inglês) e que foi responsável por revisar a tradução do Missal alemão.

O último cardeal e aliado de Bento XVI liderou o primeiro conflito aberto dos bispos alemães com o Vaticano a respeito da tradução dos ritos fúnebres, publicados por Roma em 2009. Depois do surgimento de protestos ao redor de todos os países falantes de alemão em 2010, Meisner anunciou que a nova tradução não estava boa e que os bispos alemães estavam ampliando o uso da versão do início da década de 70.

"Na sua área de linguagem, os bispos têm a responsabilidade final pela liturgia", afirmou ao site domradio.de, na época. E enfatizou que o latim nunca deve ser traduzido literalmente.

Enquanto isso, a nova tradução alemã da Oração Eucarística - que inclui a mudança imposta pelo Vaticano da tradução de pro multis para a versão literal "para muitos" em vez de "para todos" - ainda não foi aprovada pelas conferências dos bispos. No entanto, aparece nas 3,5 milhões de cópias do hinário revisado em alemão, que contém a Ordem da Missa e é conhecido como Gotteslob ("Louvor ao Senhor").

Os novos livros deveriam começar a ser utilizados em todos os países de língua alemã no primeiro Domingo do Advento de 2013, mas a oposição à nova tradução continuou forte.

Já em março de 2012, o então presidente da conferência dos bispos alemães, arcebispo Robert Zollitsch, de Freiburg, disse ao papa Bento XVI, em uma visita a Roma, que o novo texto poderia causar uma divisão nos países de língua alemã. Segundo ele, muitos bispos e sacerdotes não aceitariam "para muitos" e continuariam usando "para todos".

Então, Bento XVI escreveu uma carta de quatro páginas (em 14 de abril de 2012) aos bispos alemães, na forma de uma catequese, explicando em detalhes por que a Santa Sé queria voltar para a expressão "para muitos". Ele pediu aos bispos que usassem sua catequese para preparar os sacerdotes e leigos para a nova tradução.

Alguns meses depois, em outubro de 2012, dois importantes clérigos da Alemanha e da Áustria - o cardeal Karl Lehmann, de Mainz (ex-presidente da conferência alemã), e o arcebispo Alois Kothgasser, de Salzburgo - questionaram a decisão de Bento XVI sobre a questão pro multis.

O cardeal disse à rádio estatal alemã que o aumento da influência do Vaticano era "preocupante". O fato de Roma ter "sutilmente censurado" a tradução do Missal alemão era uma "violação do direito à liturgia", que "não precisamos tolerar". Ele também enfatizou que "o estilo de liderança da Igreja deve mudar".

Por sua vez, o arcebispo Kothgasser disse a um grupo de decanos que a decisão de Bento XVI de reverter a "para muitos" não era uma "decisão oficial" e que ele preferia continuar usando "para todos".

Como a data da publicação se aproximava, alguns sacerdotes tradicionais ansiosos começaram a usar a nova tradução por obediência antecipada. Em abril de 2013, a conferência episcopal austríaca, portanto, emitiu um esclarecimento estipulando que a única tradução permitida de pro multisera "para todos". A conferência enfatizou que o Missal de 1975 permaneceu válido.

Depois, um novo hinário foi finalmente publicado. E contém a tradução nunca aprovada da Ordem das Missas, incluindo "para muitos" na Oração Eucarística. Assim, também inclui um aviso declarando explicitamente que apenas a tradução atual e mais antiga (de 1970) era válida - e não as palavras no novo livro.

Obviamente, isso criou confusão para os membros da Igreja em países de língua alemã. Mas seus bispos parecem convencidos de que podem resolver a situação ao exercer a maior autoridade e liberdade concedida pelo Papa Francisco.

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