Amoris Laetitia, espírito democrático e coração evangélico. Artigo de Andrés Torres Queiruga

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Por: André | 16 Mai 2016

“Se Deus é amor ou, em tradução melhor, se ‘consiste em estar amando’ (1 Jo 4, 8.16), é teologicamente óbvio que toda doutrina ou explicação que confirme e esclareça esse amor, é por isso mesmo verdadeira. Assim como é falsa toda teoria que o obscureça ou leve à sua negação. Quem não compreender este princípio nunca entenderá as posturas deste papa”, escreve o teólogo Andrés Torres Queiruga, em artigo publicado por Religión Digital, 14-05-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

A nova Exortação do Papa Francisco, como vêm fazendo todos os seus documentos, retrata-o de corpo inteiro. Não apenas no estilo, já inconfundível, mas também na mensagem sobre temas muito decisivos. O faz com espírito evangélico, mais humilde, mas também mais profundo e, sobretudo, mais cristão que as discussões teórico-sistemáticas.

Uma visão global

O olhar se estende sobre o mundo e seus grandes problemas, sem ficar fascinado pelos problemas imediatos. Não foge deles, mas trata-os a seu tempo e com a devida perspectiva. Por isso a extensão, fora do costume neste tipo de escrito oficial.

Falando do amor e suas diferentes realizações humanas, busca oferecer seu significado profundo, insistindo em sua função englobante e estruturante da convivência humana. Ficar preso na imediatez das urgências imediatas desfiguraria a proporção e a levaria a perder-se no barulho midiático, no jogo das disputas abstratas ou, o que é pior, dos purismos burocráticos. As soluções acabariam então longe da vida e incapazes de seguir o ritmo do real e do sentido da história.

Não é por acaso que este papa, apegado à vida, tenha mostrado tanto interesse pela “hierarquia das verdades”, estendendo-a inclusive de modo expresso ao mundo da moral. Somente a partir do centro se pode organizar tudo, sem que a teoria confunda as distâncias ou altere as proporções. E o centro, repete com a paciência incansável de quem vive apaixonadamente o fundamental, é o amor de Deus, sua ternura sempre inclinada sobre a margem do sofrimento e sua misericórdia maior que todas as culpas humanas.

O papa não ignora que estas são muitas e que muitas vezes são cruéis e terríveis até o insuportável. Por isso, olha-as de frente e vai ao encontro das vítimas para tornar visível o horror e clamar pelo remédio. Mas não renuncia à esperança, porque acredita e anuncia que o amor de Deus é tenaz e paciente, maior, apesar de tudo, que as estreitezas, maldades e iniquidades humanas.

O papa de Roma é hoje a sentinela mais alerta e incansável dos problemas do mundo. Mas também, para aqueles que não querem viver com os olhos fechados e o coração seco, o farol mais luminoso e a orientação mais autêntica na urgência do consolo e do longo caminho das soluções, nunca acabadas.

O amor como critério definitivo

O amor de Deus é centro e fundamento de seu apelo. Desde sua chegada não insiste em outro critério. O único capaz de conseguir que diante dos problemas humanos nossos juízos e avaliações, nossos desejos e exclusões permaneçam na órbita evangélica. A partir dela, suas palavras são alarma moral, que pode inclusive vestir-se com tons de enérgica dureza profética: “É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isso não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta de um ser humano” (n. 304).

E, quando o apelo beira a discussão teórica, diante dos princípios abstratos e dos sofrimentos reais, não duvida em apostar nas razões mais fiéis à vida: “Santo Tomás chega a dizer que ‘se chegar a existir apenas um dos dois conhecimentos, é preferível que este seja o conhecimento da realidade particular porque está mais próximo do agir” (nota 348). Probabilismo “jesuítico”, como alguém lhe imputou? Não: pura magnanimidade evangélica.

Permitam-me manifestar a alegria pessoal de ver que um princípio querido e insistentemente repetido há anos encontra garantia e confirmação na doutrina do papa. Cabe formulá-lo da seguinte maneira: se Deus é amor ou, em tradução melhor, se “consiste em estar amando” (1 Jo 4, 8.16), é teologicamente óbvio que toda doutrina ou explicação que confirme e esclareça esse amor, é por isso mesmo verdadeira. Assim como é falsa toda teoria que o obscureça ou leve à sua negação. Quem não compreender este princípio nunca entenderá as posturas deste papa que veio, com o Evangelho debaixo do braço, do contato com o sofrimento dos pobres e a exclusão dos descartados.

Concretamente, não entenderá sua resposta aos problemas concretos que de algum modo motivaram a publicação desta Exortação. Um documento que pede para ser interpretado tendo em conta o duro, às vezes seguramente muito doloroso, realismo de um pastor, cujas palavras e decisões nem sempre podem estender-se até onde ele pessoalmente desejaria. Nesta tensão encontra-se uma chave indispensável para compreender sua mensagem... e interpretar muitas reações.

Respeito democrático e coração evangélico

Nunca na história do papado se proclamou com tão unívoca energia o valor do “sentir dos fiéis” (sensus fidelium) nem exercido com tão clara consequência o direito de serem consultados de maneira expressa. O último sínodo sobre os problemas do amor e da família, com todas as limitações dos inícios, foi neste sentido um começo histórico. Nem nos sínodos anteriores nem, em geral, nas grandes reuniões eclesiais se pôde observar uma presença tão inclusiva nem, muito menos, discussões tão livres e, às vezes, dissensos tão dissonantes.

Por princípio, o direito oficial da Igreja, o Direito Canônico, não admite assembleias deliberativas, e o acordado fica sempre ao arbítrio definitivo da autoridade correspondente a cada caso. De fato, esse princípio jogou muitos jarros de água fria sobre as esperanças que, após o Concílio, havia suscitado a convocação de sínodos universais. Ao final, as conclusões que, na redação final, chegavam ao público eram aquelas redigidas e decididas pelo papa, nem sempre muito fiéis às deliberações da assembleia. O princípio é claramente anacrônico e, a gritos de fidelidade evangélica, pede para ser atualizado: “entre vocês não deve ser assim”.

O Papa Francisco, de acordo com o atual “direito”, estaria capacitado para continuar com o mesmo estilo. Se a boca fala da abundância do coração, cabem poucas dúvidas de que o seu pedia para usar sua autoridade jurídica para ir além dos acordos finais da assembleia. Mas, impedia-o outro princípio, não formalmente jurídico, mas profundamente evangélico: o do respeito aos sensus fidelium. Dito um pouco brutalmente: não podia convocar uma assembleia para depois, indo além do acordado, impor por decreto as próprias conclusões. No entanto, como pastor responsável, também não queria nem podia renunciar inteiramente ao que acredita ser seu dever de proclamar a evidente chamada evangélica de compreendê-lo inteiramente à luz do amor compassivo de Deus.

Sem ser dramático, cabe adivinhar um conflito íntimo entre o respeito ao espírito democrático – “sinodal”, caso se prefira chamá-lo assim – e a generosidade evangélica atenta ao coração. Quando se lê nessa perspectiva, impressiona a finíssima sabedoria pastoral e o profundo acerto teológico da Amoris Laetitia. Acredito realmente que não existe chave melhor para compreendê-la em seu verdadeiro sentido e apreciar o alcance eclesial da sua mensagem.

Nota-se isso em duas aspirações claras. A primeira, a decisão de ser fiel à sinodalidade eclesial, que, em primeiro lugar e como é lógico, manifesta-se na contínua referência às conferências episcopais. Mas que se estende sem limite aos demais membros da Igreja: aos teólogos, aos fiéis em geral, aos pensadores e inclusive aos poetas, como a surpreendente citação de Benedetti, logo acompanhada por outra de São João da Cruz.

Será que alguém observou que, quando se dirige aos fiéis que estão vivendo situações complexas, convida-os a “aproximar-se com confiança para conversar com seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor” (n. 312)? A isso se junta a cuidadosa comunhão com a doutrina de seus antecessores, onde, silenciando aspectos superados pela caminhada eclesial e teológica do tempo, sabe aproveitar aqueles que assinalam a continuidade autenticamente evangélica (leiam-se, por exemplo, sob esta luz suas referências à Humanae Vitae: n. 68 e 82).

A segunda aspiração constitui a nota de fundo que vivifica o tom e marca, sem forçá-la juridicamente, a abertura renovadora. Não quer uma Igreja paralisada pelo juridicismo, mas aberta ao espaço sempre aberto e nunca suficientemente explorado do amor de um Deus que “ama a alegria dos seus filhos”, a alegria de todo “ser humano” (n. 147-148). É dentro desse amor, sem abandoná-lo nem feri-lo, que Francisco busca resposta para os novos problemas.

Assim como Jesus de Nazaré, não cala nem deixa de enunciar cristalinamente o ideal, a meta nunca irrenunciável; mas, como Jesus, é compreensivo com as falhas e as deficiências na realização. Não por resignação passiva ou relativismo acomodatício, mas como chamada e impulso para seguir em frente. Daí que não se furte à exploração de novos caminhos, inclusive em temas tão delicados como os diferentes modos de convivência antes ou depois do matrimônio. E, desde já, sensível à dor de tantas pessoas que, nas difíceis circunstâncias atuais, viram naufragar seu matrimônio, busca e promove a acolhida cordial, a inclusão comunitária e a participação sacramental máxima possível.

Por isso, confesso que não compreendo a insensibilidade daqueles que, sobretudo hierarcas ou teólogos, não conseguem perceber a honestidade do quase impossível equilíbrio de sua resposta. Praticamente a ninguém passou despercebido que, na modesta discrição da nota 351, abre o que é seu claro desejo: sem obrigar a ninguém, enuncia-o e justifica-o, animando todo aquele que em consciência acredita que deve segui-lo: “aos sacerdotes recordo que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor [...] Igualmente destaco que a Eucaristia ‘não é um prêmio para os perfeitos, mas um generoso remédio e um alimento para os fracos’”.

É preciso um coração como o de Jonas e uma autojustiça farisaica para não apreciar o profundo sentido evangélico da proposta. E inclusive, indo um pouco mais longe, não reconhecer aí o respeito à justa autonomia dos pastores e dos direitos fundamentais dos fiéis.

O espanto diante de uma oposição incompreensível e escandalosa

A última observação impõe, embora seja a contragosto, uma alusão ao estranhíssimo fenômeno da aberta oposição à atitude pastoral de nosso papa, justamente por aqueles que deveriam ser os primeiros a imitá-lo e apoiá-lo.

Impossível encontrar algo semelhante na história dos pontificados recentes. Talvez, por isso tenha, apesar de tudo, a vantagem de ser o sintoma que põe a descoberto uma grave deformação que foi se introduzindo nela. Refiro-me ao espírito que cabe qualificar de dogmatismo autoritário, ali onde deveria reinar o livre pluralismo de um diálogo fraterno.

Sem entrar em detalhes, esse dogmatismo pode ser definido como a confusão entre a fé e a teologia. Surge quando a autoridade pastoral, cujo papel específico é o de fomentar os valores evangélicos e sua concretude em pautas de vida cristã, eleva sua teologia para normas teológico-científicas da fé. Apoiada nessa identificação, que acredita intangível e evidente, acode à imposição pela via do poder, sem deixar livre o espaço para o diálogo das razões e o legítimo pluralismo no serviço teológico; serviço chamado tradicionalmente de “magistério da cátedra magisterial”, ao lado do “magistério da cátedra pastoral”. Os numerosos conflitos e as não poucas condenações que afligiram o ambiente eclesial nos últimos tempos são uma prova bem dura dessa situação.

Usando a autoridade como argumento, de forma muitas vezes implacável nos procedimentos e sem dialogar sobre as razões no conteúdo, aprovaram ou procederam com juízos muito sumários e a duras exclusões. A fidelidade ao papa costumava ser o argumento definitivo e inapelável. Mas de repente, exatamente quando aparece um papa com espírito democrático, centrado em seu papel pastoral, entregue de corpo e alma à promoção dos valores do Evangelho e respeitoso do papel e da liberdade do carisma teológico, falam de autoritarismo e, em flagrante contradição com o que até ontem era seu grande e definitivo argumento, se rebelam contra a autoridade do papa.

E para que não fique dúvida sobre seu fundo dogmático, não têm reparos em proclamar-se – inclusive sem rubor diante de sua própria contradição – defensores da fé contra os erros do papa. Fazem-no, além disso, a partir de uma teologia que, crendo ser a única legítima, se mostra, em geral, de um escolasticismo abstrato, uma hermenêutica bem pobre e uma clara falta de sentido histórico.

Estas palavras podem soar duras. Mas querem, sobretudo, chamar a atenção para o problema objetivo; e estão ditadas pela, acredito, necessária e justa defesa de uma Exortação nascida da generosidade evangélica e movida pela urgência de anunciar o amor fiel e incansável do Deus de Jesus. Obscurecer este anúncio com acusações veladas e rebeliões mais ou menos abertas não é bom para a Igreja e, acima de tudo, pode fazer um tremendo mal para o mundo. Sobretudo para o mundo dos humilhados e ofendidos, em uma humanidade muito necessitada de esperança.

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