"O leilão da Vale não foi ético, dizia D. Luciano Mendes de Almeida". Entrevista especial com Dom Pedro Luiz Stringhini

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02 Setembro 2007

No último dia 17 de agosto, morria Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. Uma pessoa singular pelas ações de solidariedade que organizava e pela bondade que espalhava por onde passava. Foi bispo auxiliar de São Paulo. O Papa João Paulo II o nomeou arcebispo de Mariana no dia 6 de abril de 1988. Foi secretário geral e presidente da CNBB, na Cúria Romana, membro da Comissão Pontifícia Justiça e Paz e membro da Comissão do Secretariado para o Sínodo. Além disso, foi vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano. “Ele foi uma pessoa de uma grande bondade e santidade, de grande amor pelo ser humano e de uma grande sensibilidade para com o sofrimento dos mais pobres”, contou-nos em entrevista, realizada por telefone, Dom Pedro Luiz Stringhini.

Na conversa que segue, Dom Pedro Luiz fala sobre sua convivência com Dom Luciano, dos momentos mais marcantes e de como Dom Luciano é ainda lembrado por onde passou. “Ele acreditava de fato de que um novo mundo, um novo país é possível e nós continuamos na esteira dele que foi um grande discípulo de Jesus Cristo e nós continuamos acreditando em tudo o que ele nos deixou como exemplo”, afirma.

Dom Pedro Luiz Stringhini é bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo – Região Episcopal Belém. É também responsável pela Pastoral Carcerária e pela Comissão Episcopal, Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB.

Eis a entrevista.

IHU On-Line – Há um ano, morria Dom Luciano Mendes de Almeida. O senhor o conheceu pessoalmente quando ele era bispo-auxiliar aí em São Paulo. Como o senhor o conheceu e como o define?

Dom Pedro Luiz Stringhini – Dom Luciano se tornou bispo em 1976. Eu o conheci quando eu era estudante de Teologia e vivia na região que ele tomava conta – Região Episcopal Belém – em 1977. Portanto, no ano passado quando ele morreu, fazia 30 anos que ele era bispo e fazia 29 anos que eu o conhecia. Ele esteve durante 12 anos em São Paulo, depois em Mariana e ainda esteve durante 16 anos na CNBB.

Antes de tudo, ele foi uma pessoa de uma grande bondade e santidade, de grande amor pelo ser humano e de uma grande sensibilidade para com o sofrimento dos mais pobres. Ele não media esforços, nem seu tempo, nem seu desgaste para estar a serviço dos mais pobres de forma concreta e não apenas organizando os serviços, o que já é uma grande coisa, porque ele foi um grande organizador de trabalhos sociais. Dom Luciano foi um grande articulador da ação social da Igreja, da dimensão sociopolítica da ação transformadora da Igreja. Mas ele não agiu só assim no nível macro, que, repito, já é uma grande coisa. Ele agia pessoalmente em cada ação. Cada pessoa podia falar com ele, podia encontrar nele um pai, um apoio, um amigo. Quantas pessoas ele ajudou com a construção de casas, com tratamento de saúde, com alimentação, com cobertores no frio!

IHU On-Line – O senhor pode contar algo peculiar sobre a sua relação com Dom Luciano?

Dom Pedro Luiz Stringhini – Ele me ordenou Diácono em 1980, depois eu fui ordenado padre por Dom Paulo Evaristo Arns (1) e pude estar com ele muitas vezes e ver tudo isso que ele realizava muito de perto. Quando ele chegava a sua casa, em São Paulo, muito tarde da noite encontrava um grupo grande de pobres que estavam à porta esperando para serem atendidos. Lá, servia refeições, acolhia essas pessoas. Ele ainda era uma pessoa muito inteligente, chamado para proferir palestrar em tantos lugares sobre a vida da Igreja, sobre a Teologia, sobre Filosofia.

Eu tive a oportunidade de presenciar alguns desses momentos. Num deles, eu levei-o até Campinas e ele nem sabia bem sobre o que queriam que ele falasse. Chegando lá, lhe disseram que a palestra deveria ser dada em espanhol porque os presentes entendiam melhor a língua espanhola. Dom Luciano fez a palestra com a maior tranqüilidade e com todo o brilhantismo que lhe era peculiar. Dom Luciano dormia muito pouco, e por isso durante as reuniões ele estava sempre cochilando e as pessoas menos avisadas tinham a impressão de que não estava acompanhando a conversa. De repente, ele se levantava, ia até o quadro negro e esquematizava tudo o que estava sendo falado e clareava as reuniões. Ele era uma pessoa completa, em todos os sentidos, humano, intelectual, de modo muito especial no sentido da sua vocação sacerdotal e no sentido da sua missão como alguém da Igreja.

IHU On-Line – Quais são as recordações mais marcantes da personalidade, do trabalho e da espiritualidade de Dom Luciano?

Dom Pedro Luiz Stringhini – Ele era um jesuíta e era uma pessoa de ação e oração. Ele dormia duas, três horas por noite, e ficava só trabalhando, inclusive com relações internacionais, pois era conhecido pelos governos da Itália, do Líbano, e esteve em países muçulmanos. Nós nos perguntávamos como é que uma pessoa com tantos afazeres ainda conseguia rezar. Mas ele foi um padre que não deixou de rezar a missa nenhum dia, a menos quando estava em coma no hospital. Ele carregava o seu livro de orações, A liturgia das horas, o todo tempo e, nas brechas de uma viagem ou de um compromisso, estava rezando. Depois, ele ainda fazia atendimento pastoral em Belém e Mariana (que era uma diocese ainda maior, com muitas paróquias, com cerca de mil comunidades), crismava as pessoas, celebrava, visitava comunidades. Em toda a sua vida de bispo, ele crismou cerca de 120 mil jovens. São muitos acontecimentos. Tanto que hoje já está se escrevendo um livro chamado Deus é bom, porque essa era uma frase que ele dizia muito nos últimos momentos da sua vida e há também um outro livro que reunirá artigos de pessoas que escreveram sobre Dom Luciano por ocasião de sua morte. E há ainda um terceiro livro, chamado Dom Luciano, o irmão do outro, que traz fotografias e histórias escritas por seu irmão (2), que faz parte da Academia Brasileira de Letras.

Uma outra frase típica de Dom Luciano era "Em que posso ajudar"? As pessoas o procuravam e sua frase era sempre essa ao atendê-las. Esses livros trazem suas histórias e sua memória que continua viva no olhar de cada criança, porque ele teve um carinho especial para com as crianças, com a juventude, com a Pastoral do Menor que criou. Então, sua presença é ainda muito viva na missão, no esforço, na luta de todos aqueles que querem construir um país justo e fraterno. Ele, mais do que ninguém, lutou por isso, falou firme, defendeu os índios também. E, se hoje temos uma avanço no aspecto da demarcação de terras indígenas – em especial na terra da Raposa do Sol, em Roraima -, grande parte da conquista foi por causa de sua intervenção.

IHU On-Line – Um ano depois de sua morte, como Dom Luciano ainda é lembrado nas regiões onde foi bispo?

Dom Pedro Luiz Stringhini – Ele é lembrado em São Paulo, em Mariana, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, enfim. Mais do que a recordação, é o sentimento de que ele está vivo e que continua inspirando tudo aquilo que é bom e toda a ação em beneficio de um mundo melhor. Ele acreditava de fato de que um novo mundo, um novo país é possível, e nós continuamos na esteira dele, que foi um grande discípulo de Jesus Cristo. Ou seja, continuamos acreditando em tudo o que ele nos deixou como exemplo.

IHU On-Line – Quais são suas expectativas em relação ao plebiscito sobre a reestatização da Vale do Rio Doce?

Dom Pedro Luiz Stringhini – É um pleito legítimo da sociedade, uma vez que este leilão não foi, como disse Dom Luciano, ético. No leilão, a Vale foi vendida por um preço muito menor do que aquele que realmente valia. Além disso, era um bem patrimonial do Estado, da Nação, e devemos nos perguntar se algo dessa magnitude deve ser vendido. Neste sentido, é um anseio legítimo da sociedade que os bens da nação fiquem nas mãos do povo brasileiro e não na mão de interesses privados, particulares, que utilizam a Vale para lucros próprios.

IHU On-Line – Como o senhor acredita que Dom Luciano Mendes estaria envolvido nesta luta?

Dom Pedro Luiz Stringhini – Ele foi uma das vozes que mais chamaram a atenção para o problema, que mais denunciaram e alertaram para que não se fizesse esse tipo de operação. Na época em que as privatizações aconteciam abundantemente, Dom Luciano fez uma ressalva importante e interessante: em se tratando de uma empresa estatal, nacional e que o que estava em jogo era a dilapidação do solo, ele dizia que da mesma forma a água e o ar não podem ser privatizados, tampouco o solo e os minérios.

Hoje, há uma problema sério também em relação à água, que também vai se tornando escassa. Ora, sabemos que tudo aquilo que vai se tornando escasso tende a atrair a ganância dos mais poderosos.

IHU On-Line – O senhor é, atualmente, o presidente da Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, e assim é responsável pelo Setor Pastoral Social da CNBB. Quais são as grandes linhas de ação da Pastoral Social para os próximos quatro anos?

Dom Pedro Luiz Stringhini – A Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz é a comissão que reúne as pastorais sociais da Igreja do Brasil. São cerca de quatorze pastorais sociais organizadas nacionalmente e todas elas trazem hoje o grande desafio da questão ambiental. A Conferência de Aparecida trata desse problema também, e nós gostaríamos muito de que essa questão fosse ampliada e que conseguíssemos formar o que ainda não existe, que é a Pastoral da Ecologia. Além disso, temos a instituição, o organismo Cáritas, que ajuda nas situações emergenciais, como agora, por exemplo, a mobilização de auxílio às vítimas do terremoto no Peru. E também o Mutirão de Superação da Miséria e da Fome, cuja inspiração é exatamente em Dom Luciano, com iniciativas no sentido da agricultura familiar, das cisternas, da alimentação alternativa, da segurança alimentar, enfim. E também na Comissão está a Pastoral da Criança, que hoje atende no Brasil cerca de dois milhões de crianças.

IHU On-Line – O que aconteceu com o documento final da 5ª. Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizado em Aparecida? As mudanças introduzidas no texto final foram significativas? Na sua avaliação, o debate originado pelo “imbróglio” terá impacto na recepção do documento?

Dom Pedro Luiz Stringhini – As mudanças não foram significativas, e agora já temos o texto em português. Este texto tem como eixo principal toda a defesa da vida e três elementos básicos, eu diria, fazem parte desse documento. Primeiro: tudo o que se refere à vida e a missão da Igreja, a importância das comunidades todas. Em segundo lugar, a opção pelos pobres que vem ressaltada neste documento e muito evidenciada, ou seja, a atenção que a Igreja precisa ter, o olhar de Jesus Cristo, para aqueles que sofrem mais e não um olhar de quem tem somente compaixão, mas também os ajuda a superar essas situações de exclusão. E o terceiro aspecto abrange os grandes desafios da humanidade, na qual a Igreja está inserida, como, por exemplo, esta questão ambiental e toda a questão da justiça social e toda a sua doutrina de aplicação. Além disso, há os nossos desafios internos, os pastorais: ir ao encontro das pessoas, dos católicos que se afastaram, dos que não estão comprometidos com a vida da sua Igreja e com um testemunho cristão de um novo modo de viver, mais sóbrio, menos consumista. Com isso, podemos ajudar a construir uma vida mais digna para os que são mais pobres. Então, o documento se constitui numa grande riqueza e inspiração para a vida na Igreja.

IHU On-Line – A Igreja no Brasil, especialmente por meio das pastorais sociais, se distinguiu na luta pela reforma agrária, pela demarcação das terras indígenas, pelo emprego e salário justo. Como o senhor analisa a política do Governo Lula para estas três áreas?

Dom Pedro Luiz Stringhini – Ninguém pode negar que o Brasil tem realizado avanços, porque caso contrário seríamos aqueles pessimistas que acham que vamos sempre para trás. Há avanços no que se refere à questão social, mas há também que se promover avanços mais estruturais. É uma multidão de 40 milhões excluídos que vem sendo ajudada pelo Bolsa Família. Precisamos reconhecer isso. O Bolsa Família é uma coisa boa, mas não podemos parar por aí. Aquilo que é ajuda emergencial precisa se transformar em solução estrutural.

A Educação é a base para isso e para aquelas reformas mais difíceis e que os governos não implementam com facilidade, tais como a reforma agrária, a reforma política, a reforma previdenciária. Nós e o governo precisamos estar cientes de que reforma não significa retirar direitos, mas garantir aqueles que os pobres já têm e ampliar os direitos para aqueles que não tem direito algum. Então, o Brasil tem muito que avançar, sem dúvida alguma, no campo da ética, no combate à corrupção (que é essencial).

Então, há grandes passos que o Brasil deu rumo à democracia, há uma pequena distribuição de renda, mas tudo isso tem que ser muito ampliado com a participação de todos.

Notas:
(1) Dom Paulo Evaristo Arns é um frade franciscano, sacerdote católico brasileiro; décimo sétimo bispo de São Paulo, sendo seu quinto arcebispo e terceiro cardeal. Atualmente, é arcebispo emérito de São Paulo. Sua atuação pastoral foi voltada aos habitantes da periferia, aos trabalhadores, à formação de comunidades de base nos bairros, principalmente os mais pobres, e à defesa e promoção dos direitos da pessoa humana. Em 1996, após completar 75 anos, apresentou renúncia ao papa, em função das normas eclesiásticas, renúncia esta que foi aceita. A partir de então, tornou-se arcebispo emérito de São Paulo e foi substituído por Dom Frei Cláudio Cardeal Hummes.

(2) Cândido Antônio Mendes de Almeida é irmão de Dom Luciano. É formado em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil e é o quinto ocupante da cadeira nº 35 da Academia Brasileira de Letras. Além disso, é reitor da Universidade Cândido Mendes.

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