"É preciso entender a Saúde Coletiva como um campo interdisciplinar". Entrevista especial com Thomas Josué Silva

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06 Agosto 2007

Na entrevista especial de hoje, realizada por e-mail, com Thomas Josué Silva,  professor da Universidade Federal de Santa Maria, a IHU On-Line discute um assunto bastante debatido no momento: Saúde Coletiva. Hoje, um dos grandes objetivos da Saúde Coletiva é reconhecer a complexidade da saúde pública no País e no mundo.

Na entrevista, Thomas abre a discussão em que relaciona a arte à doença mental e a importância dessa relação para a área de Saúde Coletiva. “A relação entre estes diferentes campos parece estranha, mas a questão é entender a Saúde Coletiva como um campo interdisciplinar”, afirma. Thomas fala também sobre o importante evento da Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva – Abrasco, realizado, no último mês, em Salvador, discutindo o tema “Eqüidade, Ética e Direito à Saúde: Desafios à Saúde Coletiva na Mundialização”. No evento, Thomas proferiu a conferência “Arte, loucura e Saúde Coletiva”.

Thomas Josué Silva é graduado em Filosofia pela Unisinos. Realizou especialização em investigação em Ciências Sociais e Saúde pela Universidade de Barcelona, na Espanha. O mestrado em Artes Visuais foi feito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o doutorado, em Antropologia, na Universidade de Barcelona. Atualmente, é professor da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, pesquisador colaborador do Grupo de Pesquisa em Políticas de Saúde/Saúde Mental da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador colaborador do Grupo de Trabalho Multidisciplinar em Saúde Mental da Abrasco, vinculado ao Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental da Fundação Oswaldo Cruz. É autor do livro “Saúde Mental: transportando as fronteiras hospitalares” (Porto Alegre: Da casa Editora, 1997).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Na assembléia da Abrasco, o senhor apresentou a conferência “Arte, loucura e Saúde Coletiva”. Como faz a ligação entre esses três assuntos?

Thomas Josué Silva - A relação entre estes diferentes campos parece estranha, mas a questão é entender a Saúde Coletiva como um campo interdisciplinar que busca a renovação constante do campo assistencial como epistemológico. Assim, a arte é um vetor promocional no debate acerca da doença mental na sociedade. Ela é um canal de expressão das representações simbólicas, portanto cultural, além de potencializar as idéias, concepções e valores humanos acerca daquilo que os homens e as sociedades entendem ser a loucura e o louco e a doença mental. Na história universal das artes, foram muitos os casos de artistas que se inspiraram na arte dos loucos para produzir suas obras. A arte é sempre uma via de reflexão da cultura humana. Portanto, a saúde é cultura. Sendo assim, ela, ao mesmo tempo, é polissêmica, proporcionando-nos uma ampla e infinita discussão sobre a  vida e do destino do homem neste planeta. Assim, a Saúde Coletiva é interdisciplinar e a arte é uma grande aliada na propagação cultural sobre a saúde e sociedade, neste caso da doença mental e de suas repercussões na cultura.

IHU On-Line - Em sua opinião, como está a área de pesquisa em Saúde Coletiva no Brasil? Qual é a comparação que o senhor faz da Saúde Coletiva brasileira com a que existe na América Latina?

Thomas Josué Silva - O campo da Saúde Coletiva hoje no Brasil é híbrido. Temos uma riqueza de abordagens, que vão desde uma perspectiva mais tradicional edipemiológica a uma visão mais integral de saúde, que contemplam as Ciências Humanas e Sociais. Atualmente, o debate no Brasil começa a ser mais interdisciplinar, com diferentes linhas de pesquisa. Inclusive, nas próprias agências de fomento no Brasil começamos a vislumbrar isto.

Em comparação ao plano internacional, o Brasil é inovador, mas ainda sentimos resistência por parte de algumas instituições em apostar ou incentivar uma visão mais integral de saúde. Por exemplo, no Uruguai vemos a participação social de artistas e produtores culturais que trabalham com programas de prevenção à AIDS com jovens adolescentes. O mesmo acontece na Argentina, com apoio do estado e de universidades.

IHU On-Line - Quais são as potencialidades e limites dos programas da pós-graduação em Saúde Coletiva no Brasil?

Thomas Josué Silva – As potencialidades são muitas, mas ainda vivemos a resistência e o conservadorismo de alguns programas, que não conseguem entender o que seja Saúde Coletiva de fato. Este tema foi amplamente debatido na comissão da qual participei na Reunião da Abrasco, em Salvador, que aconteceu em julho deste ano, com a presença de representantes da Capes e do CNPq, onde discutimos este conservadorismo e a ampliação de linhas de pesquisa que contemplem outras disciplinas, como Arte, História e Antropologia. É o que já vem acontecendo em alguns pólos no Brasil, como na Fiocruz, no Rio de Janeiro, onde participo de um Grupo de Pesquisa em Saúde Mental através da Abrasco. Podemos entender os limites como uma certa tecnocracia da produção científica imposta aos jovens doutores no País hoje. Muitas vezes, tal produção não reflete uma real qualidade epistemológica reflexivo, e o  mais importante é produzir para o chamado Qualis.

Os neo-burocratas da ciência nacional estão de moda em muitos programas de pós-graduação, longe de qualquer valor substancial daquele “sentido” do que seja a ciência ou de desenvolvimento humano. Penso que, neste sentido, o papel das Ciências Humanas é importante para este debate, para o desenvolvimento da crítica tão necessária em tempos de anestesia científica. Penso que temos que refletir sobre as condições reais que os jovens doutores neste País possuem para realizar seus projetos de pesquisa, algo não discutido e ocultado nos fóruns de pós-graduação, um verdadeiro tabu nas discussões institucionais.

IHU On-Line - Como o senhor vê a prática, o debate teórico e o debate político em relação à Saúde Coletiva no Brasil, atualmente?

Thomas Josué Silva - O debate político passa por isto que disse acima. A história da Saúde Coletiva é reflexo das lutas dos movimentos sociais e de intelectuais que pensaram e que continuam pensando e lutando por um projeto de saúde melhor e democrático para os brasileiros. Neste sentido, a Saúde Coletiva é um palco político, mas, sobretudo, acadêmico, cultural e social.

IHU On-Line - O que falta, hoje, nos projetos multidisciplinares de pesquisa sobre práticas de integralidade em saúde?

Thomas Josué Silva - Podemos começar com um forte engessamento da mentalidade biomédica e médico-cêntrica, ainda visível na postura e na mentalidade de muitos profissionais da saúde e de professores destes profissionais.

Existe a presença de uma certa arrogância frágil de um poder-saber, mencionando Michel Foucault, de uma racionalidade moral-biocêntrica, como ele dizia. Tal evidência, notamos ainda mais, naqueles profissionais ou acadêmicos que advogam e não são tão conservadores, mas cujas práticas, no fundo, são repletas de contradições.

Mais uma vez, acredito que a integralidade é uma concepção de homem, portanto ética. Assim, a saúde é uma esfera ética não só biopsicosocial. Necessitamos de muitas disciplinas além daquelas tradicionais do campo, como por exemplo, as Letras, a Comunicação Social, as Artes Visuais, o Cinema, os Multimeios, a História, a Educação Popular e a Antropologia, para que o projeto da integralidade seja algo mais que uma instrumentalização da atenção. A integralidade, na verdade, é uma outra forma de conceber o que seja a atenção em saúde e uma abertura para uma nova visão complexa e não unidimensional de homem na atualidade.

IHU On-Line - Qual é sua avaliação da participação da sociedade civil em relação à Saúde Coletiva?

Thomas Josué Silva – Como eu disse, hoje a Saúde Coletiva é uma conquista social importante e vem se delineando como um campo de novas perspectivas assistenciais e de produção científica. Mas a sociedade civil, através de suas organizações e movimentos sociais, precisa avançar ainda na luta pela democratização e melhoria das condições de vida daquelas populações vulneráveis mais. Ela tem nos oportunizado refletir sobre as condições e limites da saúde no Brasil, realizando, de forma competente, a crítica das desigualdades na saúde e contribuindo para que o SUS deixe de ser uma utopia e exista de fato.

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