5o. Congresso do MST. Perspectivas e rumos. Entrevista especial com Vanderlei Martini

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11 Junho 2007

De 11 a 15 de junho, acontece o V Congresso Nacional do Movimento Sem Terra, no Centro Poliesportivo Ayrton Senna, em Brasília. Durante o evento, o MST pretende debater, com suas bases e aliados, um novo programa de reforma agrária para o Brasil. Esse novo programa deseja democratizar a propriedade da terra organizando a produção de uma forma diferente. A IHU On-Line conversou, por telefone, com um dos porta-vozes do movimento, Vanderlei Martini.

Martini foi acampado no Rio Grande do Sul. Em 1998, entrou para o Movimento Sem Terra. Após um ano e meio, passou a atuar pelo estado de Minas Gerais, onde hoje faz parte da direção regional. Filho de um pequeno agricultor da cidade de Hulha Negra, na região de Bagé, no Rio Grande do Sul, Martini diz que entrou para o MST porque a pequena terra de seu pai não era suficiente para a sobrevivência de todos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Nesses últimos 20 anos, desde a criação do MST, o que mudou na estrutura agrária brasileira?

Vanderlei Martini – Primeiramente, ainda não conseguimos implementar, a nível nacional, a reforma agrária originária que o Movimento Sem Terra defende. Só conseguimos mudar, de forma superficial, a profunda concentração da propriedade da terra existente no meio rural brasileiro. No entanto, ainda não conseguimos acabar com as relações sociais que se estabeleceram ao longo desses 500 anos na agricultura brasileira. Quer dizer, ao essencial da questão, que é modificar a estrutura agrária e as relações sociais no campo, nós ainda não conseguimos chegar. De qualquer maneira, através da luta do MST, nesses mais de 20 anos, já obtivemos várias conquistas. Em primeiro lugar, nós conseguimos conquistar terras para mais de 350 mil famílias, o que equivale a uma nova vida para mais de dois milhões de pessoas que antes não tinham onde morar nem trabalhar, tudo em razão da luta do Movimento Sem Terra. A segunda grande conquista é que em nossos assentamentos todo mundo se alimenta pelo menos três vezes ao dia, come o alimento que produz na sua própria terra, um alimento de melhor qualidade. Isso também é uma grande conquista. A terceira grande conquista são as escolas e casas nos assentamentos. Não é tudo ainda, pois, como já falei, muito precisa ser feito, mas, através da nossa luta, vimos que vale a pena mudar e, gradativamente, alterar essa estrutura agrária brasileira que é extremamente injusta.

IHU On-Line - Quais são os principais inimigos da reforma agrária hoje?

Vanderlei Martini – Hoje, podemos dizer que os principais inimigos da reforma agrária são quatro. O primeiro é o capital financeiro internacional, que está representado, na estrutura agrária brasileira, por meio das grandes transnacionais, como a Bunge, a Monsanto e a Cargill. O segundo é o modelo do agronegócio, que vem sendo implementado por essas empresas e pelo governo brasileiro. Esse modelo tem como característica a monocultura, o uso intensivo de veneno e a produção para exportação. O terceiro inimigo é o Estado brasileiro, com suas leis e instituições inoperantes, que não possibilitam o avanço da reforma agrária. Por sua vez, o quarto grande inimigo são os velhos latifundiários, isto é, a oligarquia agrário-rural, coligada com os governantes regionais, os quais, muitas vezes, utilizam táticas de repressão, como o assassinato de trabalhadores. Poderíamos caracterizar esses quatros inimigos como aqueles que impedem o avanço, de maneira mais direta e objetiva, da reforma agrária. De maneira indireta, temos a política econômica do governo, a qual também não possibilita que seja feita a reforma em nossa sociedade. Então, nós achamos que, para fazer a reforma agrária, é preciso mudar o atual modelo econômico, a atual lógica de funcionamento da sociedade brasileira. Ela precisa ser capaz, afinal, de beneficiar diretamente mais de 4,5 milhões de famílias sem-terra e indiretamente mais de 50% da população brasileira.

IHU On-Line - E o governo Lula ainda é um aliado da reforma agrária?

Vanderlei Martini – O governo Lula tem uma história com os movimentos sociais e com a esquerda brasileira. Mas, atualmente, ele está devendo muito para o MST, para os movimentos sociais e, principalmente, para a reforma agrária. Nesses últimos quatro anos, o que nós vimos foi uma prioridade exacerbada para o modelo do agronegócio. Do ponto de vista específico da reforma agrária, Lula já está devendo para o Movimento dos Sem Terra, para as mais de 4,5 milhões de famílias sem-terras que existem na sociedade brasileira.

IHU On-Line – A crise no PT afetou o MST? De que forma?

Vanderlei Martini – Indiretamente afetou, porque o PT é uma ferramenta que foi construída ao longo da história e que faz parte da esquerda brasileira como um todo. Agora, diretamente não, pois o Movimento Sem Terra tem a sua autonomia. Quem dá as cartas na direção do MST são os trabalhadores sem-terra, assim como a direção do PT estabelece seus quadros políticos e seus dirigentes partidários. As direções, portanto, são diferentes. Agora, obviamente a gente fica muito triste, à medida que o PT é uma ferramenta que foi construída a custo de muito suor e sangue. Há muitos militantes que deram sua vida para construir o partido, na expectativa de que quando ele chegasse ao governo, poderia haver as verdadeiras transformações almejadas pela sociedade.  Obviamente, nós percebemos que há uma frustração entre boa parte da esquerda brasileira com os rumos tomados pelo PT. Nós percebemos que indiretamente essa crise do partido afeta a esquerda e o MST como um todo, mas nós precisamos erguer a cabeça e seguir em frente, acreditando sempre nas novas ferramentas de luta que a classe trabalhadora é capaz de criar.

IHU On-Line - Em que contexto surgiu a Via Campesina?

Vanderlei Martini – É um contexto muito importante para a luta de todos os camponeses do Brasil, da América Latina e do mundo inteiro. A Via Campesina começou em 1997 e, portanto, fará dez anos este ano. Ela é, até hoje, uma articulação que reúne diferentes organizações de camponeses dos diferentes países de todos os continentes. Eles discutem a sua situação, enquanto pequenos e médios agricultores, e as alternativas frente ao avanço do capital no campo. Então, o contexto em que surge a Via Campesina deu uma unidade para os camponeses daqui do Brasil. Essa unidade tem dois sentidos: o mesmo capital e os mesmos inimigos - dos quais falei anteriormente -  da reforma agrária e da pequena agricultura, que estão explorando o Brasil e outros continentes, como a Ásia, a África e a Europa. Outro aspecto importante da questão da unidade é que nos possibilita, enquanto categoria de trabalhador, de camponês, articular e aprender com as experiências dos outros povos de diferentes localidades. Como cada povo vem fazendo a sua resistência, construindo suas alternativas e preservando a sua cultura? Então, nesse contexto, é muito importante a articulação da Via Campesina, porque possibilita uma unidade desta categoria de trabalhador fundamental para a continuação da espécie humana. Porque se existirem os camponeses das pequenas e médias propriedades, que são aqueles que produzem os alimentos, obviamente a maioria da população que mora na cidade não teria o que comer. Ainda não inventaram uma forma alternativa de se produzir comida que não seja originariamente vinda da terra.

IHU On-Line - Quais serão as grandes questões debatidas no V Congresso?

Vanderlei Martini – A grande questão é o nosso programa agrário ser apresentado à  sociedade brasileira como uma alternativa ao agronegócio e à forma como o governo vem tratando a questão. Nós temos uma crítica ao agronegócio porque só ele produz para a exportação, degrada o meio ambiente, usa indiscriminadamente os agrotóxicos, não gerando mão-de-obra nem ajudando na distribuição de renda. Ao programa de reforma agrária do governo, a crítica é que de fato não há um. Existem apenas políticas de assentamentos pontuais, resolvidas a partir dos conflitos localizados. É o que a velha corja, representada por FHC, Itamar e Sarney, já vinha fazendo. Esse tipo de modelo de reforma agrária não seve para nós. Qual serve? O nosso modelo, que queremos apresentar para a sociedade, é um capaz de, num curto espaço de tempo, democratizar o acesso à terra, à medida que um dos principais problemas agrários no Brasil é a questão da concentração da propriedade da terra. É necessário que se distribua, de forma massiva, terra para mais de 4,5 milhões de famílias sem-terra. Isso irá gerar empregos, ajudar na distribuição de renda, movimentar a economia do país, sendo, inclusive, o meio mais barato de se fazer isso. Em seguida, é preciso que se invista nos assentamentos, na produção agroecológica, na preservação ambiental, enfim, que se possa fazer de fato com que as pessoas no campo possam viver melhor, preservando o meio ambiente. É preciso, com tudo isso, que o programa possa beneficiar indiretamente toda a população brasileira, uma vez que produziremos alimentos de maneira mais barata e de melhor qualidade. Esse programa será o principal fundo de debate no Congresso e será apresentado à sociedade brasileira. Deve-se dizer que tal programa não deve ter somente a bandeira do Movimento Sem Terra e dos movimentos que fazem a luta pela reforma agrária no campo brasileiro, mas sim ser uma bandeira de toda a sociedade brasileira.

IHU On-Line - Pensando nos próximos dez anos, quais são ou serão os grandes desafios e planos do MST?

Vanderlei Martini – A expectativa e o nosso sonho é vermos a terra repartida. Com isso, gostaríamos que esse novo modelo agrícola fosse implementado e os principais problemas, como desemprego, fome, educação etc., ganhassem solução. Isso porque 18% da população economicamente ativa se encontra desempregada, em torno de 60 milhões de brasileiros se alimentam aquém da necessidade, e mais de 40% da população foi considerada semi-analfabeta. O povo deve construir uma luta que o represente. E, claro, esperamos ver a reforma agrária concretizada, porque isso resolveria muitos problemas que a sociedade vem enfrentando, como o desmatamento, o abuso com o meio ambiente e o uso de venenos. Nós sonhamos com uma sociedade melhor e acreditamos construir um novo cenário através da organização e da luta das famílias dos trabalhadores.

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