E se as reformas não chegarem e uma nova primavera for mera ilusão? Os desafios de um pontificado. Entrevista especial com Vito Mancuso

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04 Junho 2015

"Estamos efetivamente diante de um fenômeno paradoxal: o crescimento contínuo do favor popular em relação ao Papa Francisco e, contextualmente, o crescimento igualmente contínuo da oposição interna a ele", avalia o teólogo italiano.

Foto: nuevodiarioweb.com.ar
A característica “mais notável” do pontificado de Francisco pode ser reconhecida na linguagem adotada pelo Papa, diz Vito Mancuso em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail. Para o teólogo, a “escolha dessa linguagem é uma expressão direta do conteúdo que ele está dando ao seu pontificado”. É como se sua mensagem fosse orientada diretamente pelos princípios discursivos que adota em suas ações. Nesse caso, para entender o Papa, é tão importante olhar a mensagem e a forma como é transmitida. No entanto,

Apesar de o Papa ter adotado uma linguagem mais próxima do povo, Mancuso afirma que “ainda é cedo para estabelecer se Francisco conseguirá ser realmente reformista ou mesmo revolucionário, porque a sua ação ainda deve se fundamentar em atos de governo concretos e em reformas introduzidas”, pondera.

O teólogo italiano também desenvolve a ideia de Francisco como “um fenômeno paradoxal”. Isso porque ao mesmo tempo em que tem adesão ao povo cada vez mais maior – que adota e se identifica com sua linguagem – desperta dúvida e certo descrédito no episcopado – que é para quem a linguagem surpreende e desloca. É o que tipifica como uma “oposição interna por parte da ala intransigente da Igreja Católica, da qual fazem parte cardeais importantes, incluindo o prefeito a Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller, bispos, teólogos, responsáveis de movimentos eclesiais, líderes de opinião e episcopados importantes, como o polonês e o italiano”. Para Mancuso, somente “depois do encerramento do Sínodo em outubro próximo, teremos ideias mais claras sobre quanto pesam os opositores do Papa Francisco entre as hierarquias católicas”.

As influências e leituras do Concílio Vaticano II e os significados de conceitos abordados por Francisco também aparecem nessa entrevista, entre outros temas. Ao abordar do tem das “reformas de Francisco”, o teólogo faz uma provocação: “levando em consideração a hipótese de que Francisco fracassasse. O que aconteceria se as reformas desejadas não chegassem ao fim e as expectativas de uma nova primavera se revelassem como apenas ilusões?”.

Vito Mancuso é teólogo italiano. Atualmente é professor de “História das Doutrinas Teológicas” na Universidade de Pádua. Ele é autor de uma vasta obra teológica. Destacamos algumas como Il principio passione. La forza che ci spinge ad amare (Milano: Garzanti, 2013); La vita segreta di Gesù. I vangeli apocrifi spiegati (Milano: Garzanti editore, 2014); Io Amo. Piccola filosofia dell'amore (Milano: Garzanti editore, 2014) e Questa Vita (Milano: Garzanti editore, 2015). A obra Eu e Deus. Um guia para perplexos (São Paulo: Paulinas, 2014) foi publicada em português.

A entrevista foi publicada na revista IHU On-Line, no 465 e que tem como tema principal E sopra um vento de ar puro... Os dois anos de Papa Francisco em debate

Confira a entrevista.

Foto: franzmagazine.com
IHU On-Line - Quais são os aspectos positivos do pontificado de Francisco e quais aspectos mereceriam mais atenção?

Vito Mancuso – Acima de tudo, é uma questão de estilo, que é ainda mais evidente quanto mais o comparamos com os antecessores. Com Francisco, temos outro estilo de se apresentar: não mais Sumo Pontífice, mas “bispo de Roma”, como ele se definiu no dia da eleição; outra habitação: não mais o apartamento Papal e a villa em Castelgandolfo, mas o internato de Santa Marta ; outra cruz peitoral, não mais de ouro, mas de ferro; temos um outro tipo de sapatos, não mais vermelhos, tão excêntricos, mas pretos, tão normais. E ainda as suas viagens em carros pequenos, a escolha de trazer consigo a maleta preta de trabalho e outra gestão do tempo, como quando decidiu faltar a um solene concerto de música clássica que previa a sua presença, o que um cultor da etiqueta como Bento XVI nunca teria feito. Em suma, um estilo de vida austero, bem pouco principesco e protocolar.

A linguagem de Francisco

Mas a característica mais notável diz respeito à linguagem: quanta diferença, não digo em comparação com o rigoroso plurale maiestatis que reinava até Paulo VI, mas mesmo apenas em relação aos longos discursos lidos (muitas vezes preparados por outros) de João Paulo II e de Bento XVI, que, até nas coletivas de imprensa, nunca poderiam ter usado as popularescas expressões de Francisco. Mas assim também se expressa a proximidade total com o povo que esse Papa mostra continuamente.

Mas se Francisco, com a sua linguagem, está introduzindo realmente algo de inédito na história pontifícia, e eu diria até mesmo de escandaloso para o presunçoso protocolo pontifício e para os ouvidos dos católicos tradicionalistas, certamente não é de brincadeira: a escolha dessa linguagem é uma expressão direta do conteúdo que ele está dando ao seu pontificado. Como pode falar um Papa que não quer carros de luxo, que não está no apartamento Papal, que não endossa cruzes e anéis de ouro, que renuncia sistematicamente a todos os sinais do poder? Exatamente como fala esse Papa, que faz da proximidade com o povo a estrela-guia do seu ser pontífice e que, portanto, se alegre por poder relatar que, um dia, em Buenos Aires, a um homem que tentava corrompê-lo, ele teria dado, mais do que de bom grado, “um chute onde o sol nunca bate”.

Ainda mais decisivo é o ponto de vista que muitas vezes o Papa assume: um inédito olhar extra moenia ou “fora dos muros”, que não pensa que o mundo a partir da fortaleza-Igreja, mas, exatamente o contrário, pensa a Igreja a partir do mundo. Nos seus raciocínios, não há vestígios da costumeira perspectiva eclesiástica centrada no bem da Igreja e na defesa a priori da sua doutrina, da sua história, dos seus privilégios, dos seus bens, tão frequentemente objeto de cuidado zeloso por parte dos eclesiásticos de todos os tempos. Ao contrário, há um pensamento que tem como alvo unicamente o bem do mundo. Por isso, o Papa chegou a dizer uma vez que o problema mais urgente da Igreja é o desemprego dos jovens e a solidão dos idosos, ou, outra vez, a declarar como escandaloso o fato de que as mulheres ganhem menos do que os homens.

É esse novo ponto de vista não eclesiocêntrico que o leva à escolha de não insistir nos chamados “valores inegociáveis” de vida-escola-família, tão fundamentais para Bento XVI, e de não querer entrar na vida dos indivíduos como quando, a propósito dos gays, disse: “Quem sou eu para julgar?”. E que gera nele aquele estilo conciliar permanente, desejado, no seu tempo, pelo cardeal Martini, e que o levou a convocar o Sínodo sobre a Família em dois capítulos, precedendo-o com uma consulta popular em todo o mundo sobre os temas espinhosos da moral da família. Ainda nessa perspectiva, obviamente, não deve ser esquecida a repetida preferência pelos pobres e o consequente novo crédito à teologia da libertação condenada por Wojtyla e Ratzinger, o fato de falar da Igreja como de “um hospital de campanha”, o ataque contra o clericalismo e o estilo cortesão da Cúria.

Ainda sou questionado sobre quais aspectos mereceriam mais atenção. A resposta é simples: são esses mesmos aspectos, mas que deveriam ser aprofundados e levados a termo, gerando verdadeiramente aquela reviravolta em nível estrutural de que a Igreja Católica precisa.

IHU On-Line - Como o pontificado de Francisco está sendo avaliado na Itália, entre os católicos e a Igreja italiana?

Vito Mancuso – Entre as pessoas na Itália há muita empatia por Francisco, como, aliás, em todo o mundo. Mas o mesmo não pode ser dito sobre o clero e especialmente os bispos. O episcopado italiano, desde sempre, na sua maioria, em posições conservadoras e tradicionalistas, é um dos mais frios em nível mundial no seguimento do Papa Francisco.

Não devemos nos esquecer de que, historicamente, a Igreja italiana nunca foi livre das fusões com a política. A Igreja italiana, liderada primeiro pelo cardeal Ruini e depois pelo cardeal Bagnasco, deveria recitar não poucos mea culpa por não ter denunciado suficientemente a imoralidade pública e privada de quem governou a Itália durante anos (refiro-me, obviamente, a Berlusconi ), do qual, ao contrário, chegou-se até a contextualizar benignamente as blasfêmias públicas para obter favores políticos, por exemplo, em relação à aula de religião nas escolas públicas.

Agora, com o Papa Francisco, tudo isso acabou na Igreja italiana? Não sei. É verdade que na Itália também há outro governo, mas até agora os homens do poder eclesiástico são quase sempre os mesmos; nem as novas figuras brilham particularmente por inteligência e coragem.

No entanto, uma novidade muito importante diz respeito à luta contra a máfia. O Papa Francisco declarou na Calábria: “Os mafiosos estão excomungados”. Finalmente, a luta da Igreja contra o crime organizado tornou-se mais firme e coerente. O Papa também chegou a dar o nome específico da máfia calabresa, hoje a mais poderosa da Itália: “A 'Ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo pelo bem comum”, e acrescentou: “Esse mal deve ser combatido, deve ser afastado, é preciso dizer-lhe não”. E sancionou a excomunhão. Obviamente, é preciso bem mais do que isso para erradicar o fenômeno, mas, para a Igreja, não se trata de pouca coisa.

IHU On-Line - O senhor menciona a existência de um “fenômeno paradoxal” em relação ao pontificado de Francisco porque, de um lado, há um crescimento popular de aceitação do pontificado e, por outro, o crescimento da oposição interna contra o Papado. Pode nos explicar quais são as razões desse “fenômeno paradoxal” e como ele tem se manifestado ao longo desses dois anos do pontificado?

Vito Mancuso – Estamos efetivamente diante de um fenômeno paradoxal: o crescimento contínuo do favor popular em relação ao Papa Francisco e, contextualmente, o crescimento igualmente contínuo da oposição interna a ele por parte da ala intransigente da Igreja Católica, da qual fazem parte cardeais importantes, incluindo o prefeito a Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller, bispos, teólogos, responsáveis de movimentos eclesiais, líderes de opinião e episcopados importantes, como o polonês e o italiano. Seguramente, depois do encerramento do Sínodo em outubro próximo, teremos ideias mais claras sobre quanto pesam os opositores do Papa Francisco entre as hierarquias católicas.

Tal paradoxo (aumento do favor popular e aumento da oposição hierárquica) é explicado de forma bastante simples: é a perfeita radiografia do descolamento de boa parte da hierarquia eclesiástica em relação à vida real, aquele descolamento do qual o cardeal Carlo Maria Martini falava, dizendo: “A Igreja ficou 200 anos para trás”.

Vícios do clericalismo

No seu primeiro ano, Francisco talvez acreditasse que poderia converter a mente dos prelados, mostrando o que significa ser autoridade na Igreja, com o seu estilo simples e austero de vida. No segundo ano, porém, ele teve que reconhecer que é preciso mais, porque, enquanto ele vive em cerca de 70 metros quadrados, há cardeais que não renunciam em nada ao luxo e, acima de tudo, há muitos outros totalmente contrários a segui-lo nas reformas. Assim se explica, a meu ver, a repetida insistência do Papa contra os vícios do clericalismo, que culminou na pregação à Cúria do dia 22 de dezembro de 2014, com a denúncia dos 15 males da burocracia vaticana, resumíveis em uma só: a identificação com o poder. A batalha, de fato, é entre misericórdia e poder, entre Igreja “hospital de campanha” funcional às necessidades das pessoas e Igreja suma autoridade, à qual as pessoas devem obedecer, entre Igreja dos pobres e Igreja poderosa entre os poderosos. Ninguém sabe como vai acabar essa batalha que começou há dois anos, mas certamente os cardeais e os curiais que se opõem a Francisco são a expressão daquilo que, por séculos, foi o Papado, de modo que reformar a sua mentalidade significa reformar o Papado como poder absoluto.

Com o Papa Francisco, de fato, passou-se de um Papado de perfil substancialmente doutrinário (segundo o qual o Papa é aquele que explica, ensina, corrige e, assim, governa) a um Papado de perfil existencial e espiritual (o Papa é aquele que entende, compartilha, sofre e se alegra com e, assim, governa), mas não está nada claro se essa transformação radical é apreciada e desejada pelos bispos e pelos cardeais. Para além da retórica das declarações oficiais, quantos deles estão dispostos a seguir Francisco até o fim, passando de uma Igreja na cátedra a uma Igreja “hospital de campanha”, a deixar os privilégios do poder e a ter “o mesmo cheiro das ovelhas”? Se fosse preciso realizar o conclave hoje, quantos cardeais eleitores votariam novamente em Bergoglio?

O pontificado, com a conclusão do Sínodo, encontra-se diante de uma prova decisiva: a de ver ou não confirmado o estilo novo por ele impresso na ação da Igreja e, portanto, inevitavelmente, também na sua identidade.

IHU On-Line - Como interpreta a ideia de que o Papa propõe uma “reforma” na Igreja? Em quais pontos o Papa vê a necessidade de fazer mudanças? Quais são os indícios de que essas mudanças estão sendo feitas nos dois últimos anos?

Vito Mancuso – Ainda é cedo para estabelecer se Francisco conseguirá ser realmente reformista ou mesmo revolucionário, porque a sua ação ainda deve se fundamentar em atos de governo concretos e em reformas introduzidas. Até agora, a única verdadeira reforma estrutural me parece ser a que envolveu o Instituto para as Obras de Religião - IOR , o que certamente não é pouca coisa, mas não é suficiente. A Cúria Romana é tal e qual. Também não foram tomadas decisões a propósito dos grandes problemas que dizem respeito à estrutura da Igreja, dos quais é preciso pôr nos primeiros lugares os critérios de nomeação dos bispos, uma real liberdade de ensino teológico, a efetiva promoção da mulher em nível de partilha do poder, abrindo ao menos para o diaconato feminino, a concessão dos sacramentos aos divorciados recasados, o status das pessoas homossexuais e da sua afetividade. Trata-se de tornar o governo da Igreja Católica mais conforme com a vontade do Vaticano II, de incidir na relação com a política, cessando para sempre a compra e venda de favores entre cardeais e ministros, de pôr ordem entre os bispos e os superiores das ordens religiosas, chamando todos novamente a um estilo de vida sóbrio e conforme com os valores evangélicos, de sustentar sobre bases novas o recrutamento e a formação do clero.

Temas éticos

Em relação aos temas éticos, a questão mais candente certamente é a da procriação responsável. Aqui, o Papa, dizendo ter se encontrado com uma mulher grávida do oitavo filho, depois de ter tido sete por cesariana, chegou a afirmar que uma maternidade não controlada e não responsável equivale a tentar Deus (“Mas a senhora quer deixar sete órfãos? Mas isso é tentar Deus”). Como estamos distantes da imagem de mãe tão cara ao catolicismo tradicional, que se sacrifica totalmente pelos filhos, chegando até a morrer para pô-los no mundo! Mas tudo isso ainda permanece apenas em nível de episódio, de “fioretto”, sem encontrar expressão na doutrina, que deve ser completamente revista a propósito do tema específico da contracepção.

Para evitar a procriação indiscriminada condenada pelo Papa, a Igreja hoje propõe os chamados “métodos naturais”, mas se trata de um procedimento que só alguns casais conseguem implementar; as estatísticas dizem que, entre os católicos praticantes, aqueles que o observam variam de 8% a 1%. Consciente dessas coisas, o cardeal Martini, na sua última entrevista, publicada no dia seguinte à sua morte, havia declarado: “Devemos nos perguntar se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria sexual: a Igreja ainda é uma autoridade de referência nesse campo ou somente uma caricatura da mídia?”. Na mesma linha se expressou, em fevereiro 2014, o cardeal Kasper na conferência ao consistório extraordinário sobre a família: “Devemos ser honestos e admitir que, entre a doutrina da Igreja sobre o matrimônio e sobre a família, e as convicções vividas de muitos cristãos, criou-se um abismo”. O Papa sabe muito bem que essa é a situação, mas deve enfrentá-la e, até agora, não o fez.

IHU On-Line - O senhor chama atenção para o fato de que Francisco trabalha com o objetivo de ter uma Igreja que seja aberta ao primado da consciência, à modernidade, e que consulta fiéis sobre temas de moral. Como esses aspectos aparecem no pontificado dele? Pode comentar cada uma delas?

Vito Mancuso – Quando se fala de ética, trata-se, em primeiro lugar, de responder a esta pergunta: existe o bem, o bem como algo universal e objetivo que vale para todos, sem depender das circunstâncias, ou tudo depende das circunstâncias e não existe o bem, mas só o conveniente? Essa é a pergunta número um da teologia moral. A pergunta número dois decorre logicamente: admitindo-se que esse bem universal exista, qual é, como se reconhece, quem o pode reconhecer?

A resposta do catolicismo é simples e clara: 1) existe um bem comum a todos os homens, universal, objetivo, que não depende das circunstâncias, ou dos sentimentos, ou das emoções, mas que se substancia na natureza das coisas; 2) tal bem consiste naquilo que favorece a vida e, como tal, todo homem o reconhece mediante a luz da própria consciência.

A capacidade de conhecer o bem objetivo mediante a consciência subjetiva é expressada pelo catolicismo com o conceito clássico de sindérese, definido pelo Catecismo como “a percepção dos princípios da moralidade” (art. 1.780). A sindérese exprime a capacidade luminosa de cada consciência humana de reconhecer o bem, até prescindindo do próprio interesse e das diversas circunstâncias históricas e geográficas, a capacidade de saber se estamos fazendo o bem ou não, fundando assim a capacidade de juízo responsável, fundamentado, por sua vez, na realidade da liberdade. Normalmente, referimo-nos a essa dimensão dizendo “luz da consciência” ou também “voz da consciência”.

Primado da consciência

O primado da consciência, portanto, não é ontológico, mas gnoseológico. Mas, nesse último nível, ele é absolutamente essencial, expressa o espírito interior mais autêntico do catolicismo. E é precisamente a partir de tal primado da consciência que devemos abordar os temas que a modernidade propõe, sobretudo, em nível ético. Como eu já lembrei, o cardeal Kasper destacou que, “entre a doutrina da Igreja sobre o matrimônio e sobre a família, e as convicções vividas de muitos cristãos, criou-se um abismo”, mas a afirmação de Kasper sobre a família vale, a meu ver, para muitos outros âmbitos da doutrina católica; ou, melhor, eu penso que vale para o próprio conceito de doutrina, entendida como sistema de verdades estabelecidas que o crente é obrigado a professar e sobre a qual supervisiona a Congregação para a Doutrina da Fé, que antes de 1965 se chamava “Sacra Congregação do Santo Ofício” e, antes de 1908, chamava-se “Sagrada Congregação da Romana e Universal Inquisição”.

Listar os muitos elementos que distanciam o ensinamento da Igreja da realidade não é difícil; são aqueles já nomeados acima, a doutrina sobre a regulação da natalidade com o fracasso prático e teórico da Humanae vitae de Paulo VI, a identidade sexual e a homossexualidade, em relação à qual é preciso deixar de falar de doença, como ainda se faz muitas vezes. Depois, há o pântano da bioética, da qual não se sai continuando a repetir “nãos” principalmente à fecundação assistida, o destino dos embriões congelados, o diagnóstico dos embriões antes do implante, o princípio da autodeterminação em nível de testamento biológico.

Depois, há os problemas eclesiológicos que, ainda em 1987, Hans Küng definia como “chatas velhas questões”, sobre as quais também já falei: os critérios de nomeação de bispos, a colegialidade como método de governo, o celibato do clero, a liberdade de pesquisa em âmbito teológico, a questão laical, a questão feminina, a reforma da Cúria Romana, o respeito pelos direitos humanos dentro da Igreja – do qual que “o tráfico de noviços” denunciado pelo Papa é um aspecto desconcertante.

IHU On-Line - Um dos conceitos que Francisco usa é o de misericórdia. Em que sentido o termo é usado nos discursos do Papa?

Vito Mancuso – A misericórdia expressa a identidade da mensagem cristã. É o núcleo daquilo que, classicamente, é chamado de “evangelho” e que, literalmente, significa, como se sabe, “boa notícia”. A boa notícia que a Igreja deve entregar ao mundo é a misericórdia, a ternura do coração, que, antes de ser um sentimento, é uma realidade ontológica, expressa a essência da vida, da qual se compreende a natureza pensando na relação mãe-filha. A Igreja ou está em função desse anúncio fundamental, ou é como o sal que perde o seu sabor e que não serve para nada, exceto para ser pisoteado pelos homens. O Papa está nos ajudando a redescobrir tudo isso.

IHU On-Line - Qual tem sido o papel geopolítico do Papa Francisco? Ao longo desses dois anos, vimos suas intervenções em discursos contra a intervenção militar na Síria, o discurso sobre a necessidade de reconciliação entre Cuba e EUA, por exemplo, seguidos de discursos chamando atenção para as implicações sociais e econômicas da globalização. A partir disso, como avalia a atuação geopolítica de Francisco e qual sua intenção com esses discursos?

Vito Mancuso – O papel geopolítico de Francisco é notável. Pode-se compreendê-lo pelo fato de ele ter contribuído para evitar a intervenção militar ocidental na Síria e, especialmente, pelo fato de ter favorecido a histórica reconciliação entre Cuba e EUA. Até mesmo a dura reação do primeiro-ministro da Turquia a propósito das declarações Papais sobre o genocídio armênio mostra quanta importância é atribuída ao Papa no contexto mundial. Depois, há as passagens de aproximação à China e o fato de ele ter se tornado um farol para o Sul do mundo e para os pobres.

Na Itália, um observador como Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica e não crente, escreveu que, graças a Francisco, “Roma tornou-se novamente a capital do mundo... Roma, a cidade do Papa Francisco, é o centro do mundo”. Scalfari, obviamente, fala da liderança espiritual, da qual o Ocidente tem uma imensa necessidade para continuar acreditando nos grandes ideais da humanidade, tradicionalmente definidos como bem, justiça, igualdade, solidariedade, fraternidade. Em um mundo onde tudo é poder e cálculo, a figura desse Papa faz com que se compreenda que nem tudo no ser humano é redutível a poder e cálculo, que ainda há espaço para a gratuidade, para o amor genuíno, para a vontade de bem pelo bem.

O seu fracasso seria o fim da luz que se acendeu na existência de todos os seres humanos, também em muitos não crentes como Scalfari. Lembram isso os cardeais, os monsenhores e os teólogos que estão fazendo de tudo para bloquear e fazer com que fracasse a ação reformadora do Papa Francisco.

IHU On-Line - Em vários momentos de seu discurso, o Papa chamou atenção para os atos de violência que estão ocorrendo no mundo, mencionando, por exemplo, a morte de mais de cem crianças que foram trucidadas no Paquistão, a cultura de rejeição ao outro, “as formas equivocadas de religião”, lembrou o massacre em Paris, e também comentou a situação dos cristãos massacrados e perseguidos no Oriente, fazendo alusão ao Estado Islâmico. Além disso, reiterou que “jamais se deve permitir que as crenças religiosas sejam usadas na causa da violência e da guerra”. Como o senhor lê esses exemplos?

Vito Mancuso – A questão crítica pode ser formulada deste modo: quem ataca e mata os cristãos pretende atingir a religião de Jesus ou a religião do Ocidente? É claro que, nem em um caso nem em outro, a violência teria a menor justificativa; no entanto, não é de pouca importância saber por que o cristianismo, hoje, no mundo é a religião mais perseguida. Na história, de fato, não foi assim. Nela, as relações entre religiões nunca foram pacíficas, e também no passado podem ser assinalados episódios de violenta repressão da qual os cristãos foram objeto, assim como, aliás, podem ser assinalados episódios em que a violência era exercida pelas Igrejas cristãs, em primeiro lugar pela católica, também em forma institucional e continuada. Volta, portanto, a pergunta: por que, nestes anos, o cristianismo tornou-se objeto de tal violência? Por que justamente hoje? Eliminando os cristãos, pretende-se atingir os seguidores de Jesus ou os representantes do estilo de vida ocidental percebido como uma ameaça mortal para a própria identidade?

Não há respostas fáceis, e eu certamente não as tenho. O que eu gostaria de dizer é que, além de combater o terrorismo com rigor, deve ser empreendida uma grande batalha de purificação do cristianismo, para fazer com que ele se assemelhe cada vez mais à mensagem de Jesus e cada vez menos a uma legitimação do poder. E eu acho que o que o Papa Francisco está fazendo nessa perspectiva é simplesmente extraordinário.

IHU On-Line - Como o cristianismo pode ser uma resposta aos desafios da modernidade? Que respostas o cristianismo tem a oferecer para a modernidade?

Vito Mancuso – Em parte, já tocamos nesses assuntos. No entanto, aproveito para aprofundar o conceito de modernidade. Ele significa, da forma como eu o entendo, o primado da pessoa. Com a modernidade, inicia aquele processo que leva o indivíduo a ser mais importante em relação às organizações estatais, empresariais ou eclesiásticas. Daí a grande dificuldade pela qual passou e está passando a teologia e a moral.

Tomemos a posição católica tradicional em relação tanto às pessoas homossexuais, quanto às pessoas divorciadas e ao papel atualmente ocupado pelas mulheres dentro do governo da Igreja. Por que hoje elas são insustentáveis? Exatamente pelo primado do indivíduo. A esse respeito, de fato, é preciso coerência: não se pode proclamar em palavras o respeito pelas pessoas homossexuais como filhas de Deus de igual dignidade e, depois, julgar a sua condição como condenada pela lei natural e pela Bíblia; ao contrário, se realmente se quer mostrar de modo concreto o respeito de que se fala, é preciso pôr em ação hermenêuticas consequentes tanto da lei natural (que deve ser entendida, em sentido formal, como harmonia das relações, e não como definições de papéis e de comportamentos), quanto das páginas bíblicas que condenam as pessoas homossexuais (relegando tais páginas ao lado daquelas que promovem a guerra ou a inimizade para com as outras religiões e que não merecem ser levadas em consideração). Ou seja, é preciso chegar ao evangélico “não julgar” e “não condenar”.

Do mesmo modo, se realmente se quer que a misericórdia tenha primado para os divorciados em segunda união, é preciso pôr em ação uma disciplina canônica dos sacramentos que lhes concedem se aproximar deles sem qualquer discriminação. Do mesmo modo, por fim, se realmente se quer que a mulher tenha mais poder dentro da Igreja, deve-se proceder em consequência e, como já disse, abrir-lhes ao menos e desde já ao diaconato (o fato de que as mulheres podem ter acesso ao diaconato é testemunhado pelo Novo Testamento, basta lê-lo e aplicá-lo).

IHU On-Line - Quais são as perspectivas para a Igreja com o pontificado de Francisco? Para onde ele está direcionando a Igreja?

Vito Mancuso – Eu não sei aonde Francisco está guiando a Igreja, e talvez nem mesmo ele saiba. Como todo verdadeiro caminho de novidade procede conhecendo apenas o próximo passo e não os passos que virão depois, assim também acontece com Francisco. O importante é caminhar para a frente, sem cair e sem voltar atrás. Está em jogo o papel da Igreja Católica inteira: há o direito dos batizados de terem uma Igreja para confiar, na qual os bispos são escolhidos por efetivas qualidades e não por jogos de poder, e sejam sóbrios como os apóstolos e não opulentos como os magnatas, onde o banco vaticano do IOR esteja ao menos no nível ético de um banco comum, onde não haja a sujeira denunciada na sua época por Bento XVI, onde os homens e as mulheres de hoje se sintam em casa, por serem entendidos também nos seus erros e não julgados por uma mentalidade friamente doutrinal, onde os escândalos de pedofilia não sejam escondidos, e os culpados, encobertos.

O que está em jogo é uma Igreja digna da paixão dos inúmeros sacerdotes honestos que lhe dedicaram a vida, assim como das religiosas e dos religiosos. É por uma Igreja desse tipo que o Papa Francisco trabalha, insistindo no primado da consciência, na abertura à modernidade, na consulta dos fiéis sobre os temas da moral, no novo crédito à teologia da libertação, na preferência pelos pobres, em uma linguagem capaz de chegar a todos. Bergoglio sabe que o primeiro passo da Igreja é voltar a acreditar no Evangelho, acima de tudo na sua cúpula; isto é, ele sabe que a evangelização diz respeito, acima de tudo, à hierarquia eclesiástica.

Quem hoje ainda defende o “não” aos sacramentos para os divorciados em segunda união, o “não” à contracepção, o “não” às relações pré-matrimoniais, o “não” à bênção aos casais gays está fora do mundo, no sentido de que não entende a sua evolução. E, com isso, priva-se da possibilidade da ação peculiar que o Evangelho pede a quem a ele adere, ou seja, o amor.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algo?

Vito Mancuso – Gostaria de acrescentar uma reflexão, levando em consideração a hipótese de que Francisco fracassasse. O que aconteceria se as reformas desejadas não chegassem ao fim e as expectativas de uma nova primavera se revelassem como apenas ilusões?

Eu acho que, para o catolicismo, seria um golpe terrível, porque as enormes esperanças que esse Papa está despertando se transformariam em uma decepção igualmente enorme, e o contragolpe sobre a credibilidade da Igreja poderia ser devastador, se não letal. Não morreria a espiritualidade, que desde sempre está enraizada no coração humano, bem antes do nascimento do cristianismo. Não morreria nem mesmo o cristianismo, que encontraria outras formas para se expressar, como fez em outros lugares do mundo. Ao contrário, nos encaminharíamos irreversivelmente para a morte da Igreja Católica hierárquica assim como a conhecemos, porque ninguém poderá e quererá mais ter confiança em uma estrutura que se demonstrou relutante em seguir um cristão sincero e um homem bom como Jorge Mario Bergoglio. O fracasso do Papa “que veio do fim do mundo” marcaria o fim da Igreja hierárquica e institucional. Não sei se é isso que querem os inúmeros cardeais, bispos e curiais que se opõem a ele, mas acho que é bom que eles saibam disso.

Por João Vitor Santos e Patricia Fachin | Tradução: Moisés Sbardelotto 

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