O papa que deixa os livros e se volta à humanidade. Entrevista especial com Felix Wilfred

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17 Mai 2015

"Papa Francisco não está tão focado na impureza da doutrina tanto quanto está interessado na impureza da desumanização", pontua o teólogo indiano.

Foto: ESCOM Online
O que os católicos do mundo todo esperam de um Sumo Pontífice? Para o teólogo indiano Felix Wilfred, a resposta é clara: “O mundo não espera que um papa escreva livros, a partir de seus estudos, explicando a fé cristã e as doutrinas. Há tantas pessoas no mundo para fazer isso! O que o mundo espera de um papa é que ele se dirija à humanidade com uma mensagem de esperança, amor e compaixão”, diz em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. E para ele, nesses dois anos, Francisco tem feito exatamente isso: deixou livros, estudos e se voltou ao povo.

Ao longo da entrevista, o teólogo indiano aprofunda suas impressões sobre a recepção do Papa Francisco no oriente. Também avalia suas visitas a Filipinas e Sri Lanka, com uma perspectiva de pontuar as diferenças entre Bergoglio e seus antecessores nos aspectos do diálogo inter-religioso. “O papa Francisco assume uma abordagem diferente para com as religiões. Ele enfatizou a importância da união das religiões pela causa da paz e para responder às questões candentes da humanidade de hoje”, destaca.

Felix Wilfred é chefe do Departamento de Estudos Cristãos, Faculdade de Filosofia e pensamento religioso, da Universidade de Madras, Chennai. Também é presidente da Revista Internacional de Teologia Concilium e colaborador da Enciclopédia Católica Nova, Lexikon für Theologie und Kirche, Quaestiones disputatae, ambas publicações alemãs. Além disso, contribui para Os teólogos modernos (Cambridge, UK) e Dicionário do Cristianismo Cambridge, Universidade de Cambridge, Reino Unido.

Confira a entrevista.

Foto: Ecumenics.ie
IHU On-Line - Como você avalia os primeiros dois anos do pontificado de Francisco? Quais são seus principais pontos positivos e quais seus desafios?

Felix Wilfred - Sinto que o Papa Francisco tem trazido uma primavera de alegria e esperança para a igreja Católica. Nós estamos acostumados a associar o papado à infalibilidade, à excomunhão e aos anátemas. Há uma notável transição no que diz respeito ao novo papado do Papa Francisco. Isso pode ser caracterizado como uma transição do anátema ao “quem sou eu para julgar?”. Isso diz tudo sobre o Papa Francisco e seu pontificado. Ele é um papa humilde e quer abandonar a imagem de uma igreja arrogante e onisciente que finge poder tudo julgar. A humildade do Papa Francisco pôde ser vista já a partir do momento em que ele apareceu no balcão da basílica de São Pedro, inclinou-se diante do povo e pediu que eles o abençoassem. Esse foi um gesto revolucionário inédito na história do papado. 

Em sua recente visita às Filipinas, ele se encontrou com crianças de rua vivendo em uma pobreza abissal. Quando uma garotinha narrou seus sofrimentos e tormentos em meio a lágrimas e perguntou ao Papa por que Deus permite que ela sofra, Francisco abraçou-a e admitiu que não sabia a resposta. Esses e muitos outros gestos do Papa revelam sua personalidade como um humilde servo de Deus e de seu povo. Sua humildade e abertura são encantadoras. Sem nenhuma inibição, ele pode encontrar as pessoas, ouvi-las e participar em solidariedade de seus sofrimentos. Ele consegue se colocar na posição do imigrante pobre ou do refugiado e falar de nossa fé a partir daquela posição. Isso torna a fé viva e cheia de sentido.

IHU On-Line - Bergoglio é um papa latino-americano e argentino. Qual a influência que isso tem em suas relações para com o Oriente? Como o mundo oriental — dentro e fora da Igreja — acolhe os discursos e atitudes de Francisco?

Felix Wilfred - É verdade que o Papa Francisco pode não ter muita experiência com a Ásia, suas civilizações, religiões, etc., ainda que em certo ponto de sua trajetória ele tenha querido ir como missionário para o Japão — algo que não foi possível devido à sua saúde. Para ser franco, pela primeira vez, nós sentimos que aqui está um papa que pode nos entender e entender a nossa situação na Ásia, que pode vibrar conosco.

Isso está em forte contraste com os dois papados anteriores. João Paulo II [1] vinha de um país comunista e tinha como sua maior agenda salvar a Igreja e o mundo de uma ideologia ateísta. O papa Bento XVI [2] tinha como agenda salvar a Europa da ideologia e do secularismo. Gostaria de lembrar aqui que um dos teólogos asiáticos — Balasuriya [3] — foi mesmo excomungado sob o governo do papa Bento XVI. Papa Francisco não está tão focado na impureza da doutrina tanto quanto está interessado na impureza da desumanização. Ele se mostra como sendo um papa verdadeiramente pastoral, e não um papa doutrinal.

Ainda que ele não seja um especialista em religiões asiáticas, sua abordagem aberta, humilde e pastoral causa grande impacto nos povos de outras tradições religiosas. Quando o Papa João Paulo II visitou o Sri Lanka em 1995, houve um enorme protesto liderado pelos monges budistas. A razão foi que o Papa João Paulo II havia expressado, em uma entrevista, que o Budismo não é uma religião, mas uma filosofia negativa. Para ele, assim como para o Papa Bento XVI, religião significa doutrinas e crenças. Papa Francisco assume uma abordagem diferente para com as religiões. Quando ele encontrou-se com representantes de outras tradições religiosas no Sri Lanka durante sua recente visita, ele enfatizou a importância da união das religiões pela causa da paz e para responder às questões candentes da humanidade de hoje. 

O mundo não espera que um papa escreva livros, a partir de seus estudos, explicando a fé cristã e as doutrinas. Há tantas pessoas no mundo para fazer isso! O que o mundo espera de um papa é que ele se dirija à humanidade com uma mensagem de esperança, amor e compaixão. E isso é exatamente o que o Papa Francisco faz.

 

"Sinto que o Papa Francisco pode não ser capaz de reformar efetivamente a igreja, a menos que ele também revise o Código"

 

IHU On-Line - Qual a relevância do Papa Francisco para a vida das igrejas na Ásia?

Felix Wilfred - No passado, muitos bispos asiáticos, apesar do ensinamento da colegialidade, sentiam que eles não eram realmente ouvidos e entendidos por uma burocracia curial romana centralizada. As igrejas da Ásia queriam liberdade para ser capazes de perseguir suas missões em contexto, em um continente com uma pequena minoria cristã. A centralização romana era um obstáculo real à missão da Igreja na Ásia. A liberdade e a ação legítimas dos cristãos asiáticos não podiam se expressar.

A situação era provavelmente a mesma nas outras partes do mundo. Sentindo o mal feito pela centralização, o Papa Francisco, já dentro do primeiro mês após sua eleição, anunciou a reforma da Cúria Romana como uma agenda das mais importantes. Foi igualmente importante para ele ter um grupo de colaboradores pastoralmente orientados para assisti-lo na realização de sua missão pastoral para a Igreja.

Esperança asiática

Na Ásia, nós ficamos muito felizes com essa agenda reformista do Papa. Houve no passado alguns esforços para reformar a Cúria Romana. Essas reformas foram, na maioria das vezes, internas, de reorganização de um aparato burocrático para seu melhor funcionamento. O Papa Francisco, ao contrário, quer uma profunda e radical reforma da Cúria Romana, uma transformação em suas atitudes, valores, pessoal, modus operandi, etc. O fato de que ele possua um grupo de consultores advindos de diferentes partes do mundo é um bom presságio sobre como a governança da Igreja se tornará menos legalista e mais pastoral.

Atualmente, eu sou o presidente da Revista Internacional de Teologia Concilium. Nós temos um número especial sobre “A reforma da Cúria Romana” para apoiar essa agenda do Papa Francisco. Nós também mandamos cópias em italiano e espanhol para ele. Eu sinto que as igrejas na Ásia e em outras partes do mundo irão ganhar muito se o Papa Francisco também fizer uma revisão do atual Código de Direito Canônico, aumentando o poder das conferências episcopais. Sinto que o Papa Francisco pode não ser capaz de reformar efetivamente a igreja, a menos que ele também revise o Código. Nós, na Concilium, decidimos fazer um número especial sobre “A revisão do Código de Direito Canônico”. Esse número, que ainda devo editar, sairá no final de 2016.

Por João Vitor Santos e Patricia Fachin / Tradução: Gabriel Ferreira

Notas

[1] Papa João Paulo II (1920-2005): Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana de 16 de outubro de 1978 até a data da sua morte, sucedeu ao Papa João Paulo I, tornando-se o primeiro Papa não italiano em 450 anos. (Nota da IHU On-Line).

[2] Bento XVI, nascido Joseph Aloisius Ratzinger (1927): foi papa da Igreja Católica e bispo de Roma de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, quando oficializou sua abdicação. Desde sua renúncia é Bispo emérito da Diocese de Roma, foi eleito, no conclave de 2005, o 265º Papa, com a idade de 78 anos e três dias, sendo o sucessor de João Paulo II e sendo sucedido por Francisco. (Nota da IHU On-Line)

[3] Tissa Balasuriya (1924-2013): foi sacerdote católico e teólogo no Sri Lanka. Em 1971, fundou o Centro para a Sociedade e Religião; quatro anos mais tarde fundou a Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo. Em 1990, publicou o livro Balasuriya Mary and Human Liberation. Em 1994, os bispos do Sri Lanka advertiram que o livro incluía conteúdo herético porque ele deturpou a doutrina do pecado original e lançou sérias dúvidas sobre a divindade de Cristo. Balasuriya apresentou uma defesa teológica de 55 páginas à Congregação para a Doutrina da Fé, que a rejeitou. (Nota da IHU On-Line)

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