Dom Waldyr Calheiros: um bispo comprometido com os injustiçados. Entrevista especial com Célia Costa

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05 Dezembro 2013

A atuação de Dom Waldyr Calheiros “em Volta Redonda foi sempre marcada pela defesa dos trabalhadores. Um dos episódios mais marcantes da sua trajetória foi sua atuação, em 1988, na greve dos operários da CSN, durante o período de privatização da usina, que culminou com a invasão da Siderúrgica pelo Exército e a morte de três operários”, relembra a doutora em História.

Foto: http://bit.ly/191eK7D

“Um cristão comprometido com a causa dos pobres, injustiçados e oprimidos”. É assim que Célia Costa, uma das organizadoras do livroO Bispo de Volta Redonda: Memórias de Dom Waldyr Calheiros, descreve a atuação de Dom Waldyr Calheiros, bispo emérito de Volta Redonda, que faleceu no último sábado.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, a professora ressalta a atuação de Dom Waldyr durante a Ditadura Militar, num contexto inicial em que a Igreja apoiou o golpe militar. “Durante todo esse período militar, havia um grupo de bispos espalhados pelo país que agiam de forma completamente diferente: apoiavam a ação dos católicos leigos engajados numa luta contra a ditadura e usavam, de forma destemida, o prestígio da Igreja para defender os pobres e perseguidos políticos. Esse foi o caso de D. Waldyr, D. Evaristo Arns, em São Paulo, D. Helder Câmara, em Recife, D. Antônio Fragoso, no Ceará, e muitos outros”.

Célia Costa também lembra a atuação de Dom Waldyr junto à Pastoral Operária e à Juventude Operária Católica – JOC. “D. Waldyr era um bispo de uma diocese essencialmente operária. Volta Redonda, 50 anos atrás, vivia em função da Companhia Siderúrgica Nacional. E como D. Waldyr era um bispo que havia feito uma opção clara pelos oprimidos, que vivia essencialmente os princípios do Vaticano II, em Volta Redonda defendia a luta dos operários. Nesse sentido, estava próximo do Sindicato dos Trabalhadores da Siderúrgica, assim como da Juventude Operária Católica”.

Dom Waldyr faleceu no último sábado, depois de passar o mês no hospital, com uma infecção pulmonar. Comandou, durante 34 anos, a diocese de Volta Redonda, no Vale do Paraíba, estado do Rio de Janeiro.

Célia Costa é graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco, especialista em Sociologia do Desenvolvimento pela Institut d'Ètudes Du Développement Economique Et Social, mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é diretora técnica do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

Foto: Reprodução/TV Rio Sul

IHU On-Line - Como a senhora descreve o bispo de Volta Redonda, Dom Waldyr Calheiros, que faleceu no último sábado?

Célia Costa - D. Waldyr foi uma das pessoas mais dignas e verdadeiras que conheci. Era um cristão comprometido com a causa dos pobres, injustiçados e oprimidos; uma pessoa tranquila, generosa, afetuosa, na sua maneira simples de ser, mas muito combativo quando se fazia necessário. Fomos recebidos, em Volta Redonda, eu e meus parceiros de projeto – Dulce Pandolfi e Kenneth Serbin –, de forma carinhosa e acolhedora.

IHU On-Line - Como foi a trajetória e a atuação de Dom Waldyr na Igreja brasileira?

Célia Costa - D. Waldyr iniciou sua formação como padre no Seminário de Maceió, sendo transferido, posteriormente, para o Seminário do Rio Comprido, no Rio de Janeiro, onde fez sua formação em teologia. Se não me falha a memória, ele ordenou-se padre em 1959 e, em 1964, foi nomeado bispo, tendo atuado dois anos como bispo auxiliar de D. Jaime de Barros Câmara, na época arcebispo do Rio de Janeiro, e, em 1966, assumiu a diocese de Volta Redonda, onde permaneceu até 2001, quando se aposentou. Era bispo emérito da mesma diocese.

IHU On-Line - Dom Waldyr foi nomeado bispo em 1964, ano do golpe militar. Como descreve esse momento e sua atuação como bispo no período da ditadura militar?

Célia Costa - Essa sua questão daria uma tese de doutorado, um livro. Dito de forma resumida, vivíamos um momento de grande conturbação e polarização política. A Igreja, inicialmente, como todos sabem, apoiou o golpe militar. Só com o tempo, quando ela começou a sofrer na pele e ter os seus membros atingidos pela repressão, mudou sua atuação na realidade social e política do país.

Estávamos saindo do Vaticano II, mas o papa João XXIII já não estava mais conosco. A Igreja começava a dar uma guinada para a direita. E no Brasil não foi diferente. Porém, durante todo esse período militar, havia um grupo de bispos espalhados pelo país que agiam de forma completamente diferente: apoiavam a ação dos católicos leigos engajados numa luta contra a ditadura e usavam, de forma destemida, o prestígio da Igreja para defender os pobres e perseguidos políticos. Esse foi o caso de D. Waldyr, D. Evaristo Arns, em São Paulo, D. Helder Câmara, em Recife, D. Antônio Fragoso, no Ceará, e muitos outros.

O nosso projeto inicial era de analisar, por meio do depoimento desses bispos, a atuação da Igreja Católica na luta pela redemocratização do país, a partir da década de 1970. É claro que esses bispos, em sua grande maioria, já atuavam desde o primeiro momento de implantação do regime militar, em 1964.

IHU On-Line - Qual era a participação e influência de Dom Waldyr na Juventude Operária Católica?

Célia Costa - D. Waldyr era um bispo de uma diocese essencialmente operária. Volta Redonda, 50 anos atrás, vivia em função da Companhia Siderúrgica Nacional - CSN. E como D. Waldyr era um bispo que havia feito uma opção clara pelos oprimidos, que vivia essencialmente os princípios do Vaticano II, em Volta Redonda defendia a luta dos operários. Nesse sentido, estava próximo do Sindicato dos trabalhadores da Siderúrgica, assim como da Juventude Operária Católica - JOC. Houve inclusive um episódio envolvendo pessoas da JOC, se bem me lembro, que estavam hospedadas em sua casa e que foram detidas pelo exército. D. Waldyr compareceu ao Batalhão, em Resende, exigindo que os rapazes fossem liberados e, como não foi atendido de imediato, pediu para ficar detido também, até a soltura dos rapazes. Criou a maior confusão. Esse episódio é relatado no livro de memórias de D. Waldyr, que organizamos e publicamos em 2000, pela Editora da Fundação Getúlio Vargas, hoje esgotado.

IHU On-Line - Qual a relação de D. Waldyr com a formação do PT?

Célia Costa - Acho que ele participou das primeiras reuniões da formação do partido, era muito próximo de várias lideranças católicas ligadas ao PT, mas não saberia dizer mais do que isso.

IHU On-Line - Que aspectos mais marcaram a atuação de Dom Waldyr em Volta Redonda?

Célia Costa - Sua atuação em Volta Redonda foi sempre marcada pela defesa dos trabalhadores. Um dos episódios mais marcantes da sua trajetória foi sua atuação, em 1988, na greve dos operários da CSN, durante o período de privatização da usina, que culminou com a invasão da Siderúrgica pelo Exército e a morte de três operários.

IHU On-Line - O que a motivou a organizar o livro “O Bispo de Volta Redonda: Memórias de D. Waldyr Calheiros?

Célia Costa - Esse projeto, como foi dito anteriormente, era mais amplo. Nosso interesse consistia em estudar a ação da Igreja nesse momento de repressão política no país. Nossa intenção era coletar o depoimento de 10 bispos que se destacaram na atuação em defesa dos direitos humanos e a favor da volta da democracia ao país. Infelizmente não conseguimos patrocínio das agências fomentadoras e tivemos que partir para algo menos audacioso. D. Waldyr tinha uma atuação brilhante nesse período, o que, por si só, justificava um projeto de memória. Como Volta Redonda fica distante apenas duas horas do Rio de Janeiro, a FGV [Fundação Getúlio Vargas] resolveu bancar o projeto e a edição do livro. Fizemos 15 horas de entrevista durante o ano de 1999. Em 2000, publicamos o livro.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Célia Costa - Apenas agradecer a oportunidade e dizer que responder a esta entrevista é para mim uma forma de homenagear D. Waldyr, por quem sempre tive um carinho especial.

Quero registrar aqui o prazer enorme de trabalhar em parceria com Dulce Pandolfi, colega e amiga desde os anos 1970, que dividiu comigo as alegrias e angústias desse projeto, e com Kenneth Serbin, a quem aliás devemos a provocação inicial.

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