Teologia da Libertação: ''uma experiência profunda de Jesus junto aos pobres''. Entrevista especial com Victor Codina

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27 Outubro 2012

“Seguramente, se muitos dos que nos criticaram tivessem vivido na América Latina, teriam entendido melhor as coisas. Havia uma perspectiva muito eurocêntrica, pensando que, se uma teologia não nasce na Europa, ela é suspeitosa”, diz o teólogo radicado na Bolívia.

Confira a entrevista.


Ao refletir sobre os 40 anos da Teologia da Libertação na América Latina, o teólogo Victor Codina considera que ela tem “sido uma proposta muito criativa, que tem levado a conhecer a Bíblia e os ensinamentos de Jesus”. Para ele a contribuição mais significativa da Teologia da Libertação foi a criação de “uma espiritualidade nova, da qual nasceram também uma teologia e uma Igreja novas”. Na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line após a apresentação da sua conferência no Congresso Continental de Teologia, Codina enfatiza que a Teologia da Libertação “só pode ser compreendida como sendo a experiência de Cristo presente junto aos pobres”. Em relação às críticas recebidas ao longo dessas quatro décadas, o teólogo é enfático: “Muitos que vivem fora da América Latina e criticam a Teologia da Libertação, e a veem como marxismo, materialismo e violência – e não sei mais que coisas veem –, o fazem porque no fundo não tiveram uma experiência profunda de Jesus junto aos pobres”.

Ao mencionar os desafios da Teologia da Libertação frente ao neoliberalismo, o teólogo acentua que, diante de uma conjuntura de crise econômica e política, “temos de distinguir claramente que a Teologia da Libertação não é uma práxis política ou social, é teologia. Portanto, não se pode pedir que ela resolva problemas econômicos, sociais e políticos, que correspondem a outras ciências”. E dispara: “A Teologia da Libertação dá uma inspiração e um horizonte, mas não irá resolver os problemas da fome, da guerra, da migração e do terrorismo”.

Na entrevista a seguir, Codina comenta rapidamente a situação política e econômica do governo Evo Morales, na Bolívia. “Há problemas, dificuldades, contradições, os quais temos de tentar superar, porque a proposta é positiva, e o processo de mudança é lento. Mas também temos de ser críticos diante de posições autoritárias em relação aos indígenas, às mulheres”.

Victor Codina, SJ, é licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona, em Teologia pela Universidade de Innsbruck e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Desde 1982 reside na Bolívia, onde alternou a tarefa de professor de Teologia na Universidade Católica Boliviana de Cochabamba com o trabalho de formação de leigos e na pastoral popular. Entre suas últimas publicações, destacamos: Para comprender la eclesiología desde América Latina (Estella: Navarra, 2008); No extingáis el Espíritu (Santander: Sal Terrae, 2008); Una iglesia nazarena (Santander: Sal Terrae, 2010) e Diario de un teólogo de postconcilio (Bogotá: Paulinas, no prelo). Dentre seus livros publicados em português, citamos O credo dos pobres (São Paulo: Paulinas, 1997). Codina esteve na Unisinos participando do Congresso Continental de Teologia, com a conferência “As Igrejas no Continente 50 anos depois do Vaticano II: questões pendentes”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como avalia a Teologia da Libertação nesses 40 anos, e que autocrítica ela tem de fazer?

Victor Codina
(foto) Avalio de forma muito positiva esses 40 anos da Teologia da Libertação, sobretudo no que se refere à dimensão dos pobres, da justiça, de abrir a Igreja ao Reino de Deus, de responder à Igreja dos pobres, como se havia proposto no ideal do Concílio Vaticano II. Essa tem sido uma proposta muito criativa, que tem levado a conhecer a Bíblia e os ensinamentos de Jesus. O mais importante da Teologia da Libertação foi a criação de uma espiritualidade nova, da qual nasceram também uma teologia e uma Igreja novas, com as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, com a leitura da Bíblia por setores populares. Além disso, surgiram bispos defensores do povo, dos índios, como os mártires Romero, e outros que realmente foram pioneiros em quase todos os países. A atuação desses bispos junto aos mineiros, aos indígenas, aos setores populares mudou a mentalidade e a espiritualidade deles. Iniciou-se uma vida nova, que deu origem a uma teologia nova.

Esta teologia só pode ser compreendida como sendo a experiência de Cristo presente junto aos pobres. Muitos que vivem fora da América Latina e criticam a Teologia da Libertação, e a veem como marxismo, materialismo e violência – e não sei mais que coisas veem –, o fazem porque no fundo não tiveram uma experiência profunda de Jesus junto aos pobres.

Evidentemente, nesses anos tem havido evolução, especialmente em alguns momentos mais significativos, como os anos 1990, ligados também à queda do Muro de Berlim, e há todo um conjunto de situações novas que apareciam não somente na América Latina, mas também em todo mundo. A globalização e as novas técnicas configuraram uma problemática diferente, de desconserto e de riqueza, porque se abriu a outras dimensões: de gênero, da mulher, das culturas, da ecologia, das religiões, dos indígenas, dos afrodescendentes.

Autocrítica

Neste tempo também tem havido coisas que podem e devem ser repensadas, elementos que até agora não conseguimos imaginar, visto ter havido tantos ataques de fora que tínhamos de nos defender para sobreviver. Mas, agora sim, temos de pensar sobre uma dimensão ética e voluntarista, espiritualista, litúrgica. A Teologia da Libertação foi iniciada por homens, e depois as mulheres foram participando, mas elas ainda podem participar mais. Também se tinha uma imagem ingênua sobre o Reino, pensando que este seria construído facilmente com nossos esforços; havia aí uma ingenuidade política no sentido de pensar que o socialismo iria chegar a toda América Latina depois da atuação de Salvador Allende, no Chile, mas as coisas não aconteceram assim. Depois, houve também uma compreensão de um cristianismo militante, um pouco messiânico.

IHU On-Line – A Teologia da Libertação recebe muitas críticas por não ser tão atuante hoje como foi nos anos 1980. Como recebe essa crítica?

Victor Codina –
As circunstâncias mudaram muito desde os anos 1980, 1990. Nesse período, a América Latina vivia uma situação de ditaduras, e a Teologia da Libertação atuou como denuncia profética na defesa dos direitos humanos. Hoje a situação econômica da democracia é muito complexa, e temos de distinguir claramente que a Teologia da Libertação não é uma práxis política ou social, é teologia. Portanto, não se pode pedir que ela resolva problemas econômicos, sociais e políticos, que correspondem a outras ciências. A Teologia da Libertação dá uma inspiração e um horizonte, mas não irá resolver os problemas da fome, da guerra, da migração e do terrorismo. Portanto, ela supõe haver pessoas que trabalham nos campos da política, da economia, da sociologia, da cultura. Por outro lado, não existe somente uma teologia, mas muitas teologias que se diversificam e, portanto, a atuação não aparece de uma forma tão visível. Além disso, nos primeiros anos da Teologia da Libertação, existiam grandes “estrelas”, teólogos importantes como Boff, Sobrino, Ellacuría, Gutiérrez etc. Muitas dessas “estrelas” estão desaparecendo e agora existem somente pequenas luminárias que são os jovens, os leigos, os indígenas, que já não se deslumbram mais como antigamente, mas que também têm sua função de iluminar novas propostas, e estão mais próximos da base.

IHU On-Line – De modo geral, os teólogos da libertação apoiaram os governos que tinham um discurso de esquerda na América Latina. Como o senhor avalia o discurso desses governos e como eles se constituem nos diversos países da América Latina?

Victor Codina –
A situação política e econômica da América Latina é muito variada, e os sociólogos e cientistas políticos definem três grandes grupos políticos atuando no continente: o socialismo do século XXI, as perspectivas neoliberais e as perspectivas da social-democracia.

Ao socialismo do século XXI correspondem países como Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia, e o presidente uruguaio também simpatiza com esse modelo. Os países ligados ao neoliberalismo são Chile, México, Colômbia. Depois, Brasil e Argentina tendem à social-democracia. Então, os teólogos têm que ver como atuam em seus contextos, que são muito diferentes. Na Colômbia, por exemplo, a Igreja está facilitando o diálogo com as Farc, porque de fato são 40 anos de guerra e, portanto, na América Central os teólogos estão muito preocupados com a questão da violência. Especialmente no México há uma preocupação com o narcotráfico, com os assassinatos. Na Bolívia, há um respaldo a um projeto que propõe igualdade e justiça entre as culturas, para evitar o colonialismo e respeitar um Estado que é pluricultural, a partir da perspectiva do bem-viver, para que todos possam viver bem. Há uma série de valores que a teologia e a Igreja apoiam.

IHU On-Line – Por que a Teologia da Libertação não foi compreendida pelo Vaticano? Vislumbra a possibilidade de um diálogo?

Victor Codina –
A Teologia da Libertação não foi compreendida por muitos motivos, primeiramente porque faltava a experiência de encontrar Cristo no povo. Muitos dos que nos criticaram teriam entendido melhor as coisas caso tivessem vivido na América Latina. Havia uma perspectiva muito eurocêntrica, pensando que, se uma teologia não nasce na Europa, ela é suspeitosa. A Teologia da Libertação surge num contexto em que as pessoas queriam comer, viver, lutar contra a ditadura.

Houve muito mal-entendido, e as pessoas da América Latina informaram a Igreja de Roma de uma forma totalmente exagerada, faltando diálogo nas instruções. A primeira instrução romana em 1984 foi tão crítica e tão dura, que os teólogos da libertação também se manifestaram, porque nós não considerávamos Jesus um simples revolucionário político. Quer dizer, havia uma deformação total das ideias latino-americanas. Com o passar dos anos, Roma se deu conta da importância da Teologia da Libertação, tanto que publicaram uma carta dizendo que a libertação é um tema básico na Bíblia, e que era uma teologia que poderia dar muitos frutos para a Igreja. O papa, em 1986, disse aos bispos do Brasil, reunidos no Haiti, que uma Teologia da Libertação em continuidade com a Bíblia e a tradição não só é conveniente, mas necessária na América Latina. Acredito que Roma pensa que a Teologia da Libertação já desapareceu com a queda do marxismo. Dizem também que Gustavo Gutiérrez está morto, mas eu, que sou seu pai, ainda não fui convidado para seu enterro.

Hoje, Roma está muito mais preocupada com a Teologia na Ásia. E se a Teologia da Libertação recebe a acusação de marxismo, a Teologia da Ásia recebe críticas por questionar a centralidade de Cristo, a inspiração das escrituras, a revelação etc. Por outro lado, o novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o bispo Gerhard Ludwig Müller, que era companheiro de Bento XVI, é amigo pessoal de Gustavo Gutiérrez, escreveu textos com ele e passou muitos verões na América Latina, trabalhando pastoralmente. Então, não deixa de ser uma fonte de esperança. Dizem que existem duas teologias da libertação: uma boa e outra má. Nós fazemos a boa.

IHU On-Line – A Teologia da Libertação influenciou a Igreja da Ásia?

Victor Codina –
Não, é diferente. A Ásia tem suas questões particulares, enquanto que o problema da América Latina ainda é a injustiça, a pobreza. Claro que na Ásia também têm problemas de pobreza, e nesse sentido a Teologia da Libertação pode ser uma inspiração, mas lá a problemática é o diálogo entre o cristianismo e as outras religiões. Até que ponto Buda é um caminho de salvação? As religiões hinduístas são um caminho de salvação? Portanto, é uma problemática diferente da América Latina.

IHU On-Line – A Teologia da Libertação consegue dialogar com as outras religiões?

Victor Codina –
Creio que sim, e na América Latina o diálogo se dá com as religiões indígenas, originárias, primitivas e a partir disso podem surgir coisas interessantes.

IHU On-Line – Como avalia o governo de Evo Morales? Quais as dificuldades de o governo dialogar com os indígenas?

Victor Codina –
O governo de Morales suscitou muita expectativa, sobretudo para os setores populares, porque a história política da Bolívia era marcada por governos neoliberais, que haviam privatizado grande parte das empresas. Nesse sentido, Morales se apresentou como uma esperança para os setores populares e indígenas, porque ele também tem origem Aimara. Parece-me que havia uma série de elementos positivos em seu governo, como a elaboração de uma nova Constituição, com todas as suas limitações, que admite um Estado pluricultural e plurinacional, a partir do bem-viver, frente ao capitalismo e ao desenvolvimento. Também separou a Igreja e o Estado, o que é algo positivo, já que o Estado é laico e deve respeitar a todas as religiões. Além disso, melhorou a questão da saúde, da educação. Também foram nacionalizadas várias empresas. Então a macroeconomia melhorou muito.

Críticas

Entre os aspectos negativos ou questionáveis, as pessoas esperavam que, com o governo de Morales, todas as coisas iriam melhorar, mas esta era uma visão ingênua. Muitas vezes ele fala coisas, depois tem de voltar atrás, porque não é um político diplomático, intuitivo. O governo já enfrentou várias críticas e conflitos, como o “gasolinaço”, e um conflito com os mineiros, que parece estar solucionado. Também tem o conflito com os Tipnis, por causa da estrada, que irá atravessar as terras indígenas, uma região da Amazônia, por causa de interesses brasileiros. A crítica dos indígenas é dirigida ao governo, porque eles não foram consultados sobre a obra. O governo respondeu ao protesto com repressão e, por fim, o governo decidiu respeitar o território indígena. Mas há também uma divisão entre os próprios indígenas, porque alguns apoiam mais o governo, e outros não. Essa relação com os indígenas tem causado muito mal-estar e, no fundo, o que se defende é um Estado plurinacional.

Há problemas, dificuldades, contradições, que temos de tentar superar, porque a proposta é positiva, e o processo de mudança é lento. Mas também precisamos ser críticos diante de posições autoritárias em relação aos indígenas, às mulheres.

Então, não é fácil encontrar o equilíbrio entre aceitar e respeitar as questões positivas, e ser crítico frente às questões negativas. O perigo é a polarização. O canal do governo é visto como uma maravilha, e os canais da oposição são vistos como um desastre. Para o governo, a Bolívia se converte em uma futura Suíça, e para a oposição, uma Cuba futura. Não é verdade nem uma coisa nem outra.

IHU On-Line – Como a reeleição de Chávez é vista na Bolívia?

Victor Codina –
Imaginávamos que Chávez seria reeleito. Evo Morales tem boa relação com ele, mas essa relação tão estreita entre os dois não é bem vista por todos os bolivianos. Porém, politicamente eles têm uma relação boa, e isso sinaliza que provavelmente o governo Morales está feliz com a vitória de Chávez.

IHU On-Line – Quais os reflexos da Teologia da Libertação na Bolívia?

Victor Codina –
A Teologia da Libertação na Bolívia foi elaborada por estrangeiros. Por isso, no país não surgiu uma Teologia da Libertação “de baixo”. Agora, alguns leigos e leigas indígenas pensam em refletir a partir de sua condição de indígenas, leigos, pobres, e é algo insipiente, mas já há frutos a partir da leitura popular da Bíblia. Ou seja, são elementos da Teologia da Libertação que entraram na Bolívia a partir da práxis. Mas uma reflexão autóctone de bolivianos, que reflitam a partir de sua própria condição, ainda é insipiente.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Victor Codina –
Em relação às críticas e à perspectiva de futuro, penso que o tema do Espírito tem de ser tomado em conta, em parte para corrigir visões voluntaristas, entusiastas, e para dar profundidade à cristologia, à eclesiologia, para dar esperança a fim de melhor compreender esse pluralismo de um espírito que respeita a pluralidade. Esse é um tema que ajuda a recorrer aos valores das culturas, das missões, dos pobres, das mulheres, dos jovens.

 

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