O Brasil está oferecendo a sua demanda para a produção internacional. Entrevista especial com Fernando Sarti

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16 Setembro 2011

 

"Deveríamos ter protegido muito mais o mercado doméstico, deveríamos ter potencializado por meio dessa demanda aquecida investimentos vultuosos dentro da economia brasileira, para operar numa escala muito maior". A avaliação é do economista Fernando Sarti, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Na visão de Sarti, a crise internacional afetará a indústria brasileira, sobretudo pelo lado da demanda doméstica. "Utilizar a taxa de juros como forma de desacelerar o nível de atividade para, com isso, combater a inflação é uma política equivocada. A taxa de juros mais elevada acaba promovendo uma enxurrada de dólares para a economia brasileira, fato que leva a uma valorização cambial que, por sua vez, gera uma concorrência desleal em relação aos produtos importados", argumenta.

Fernando Sarti é graduado e mestre em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp com a dissertação Evolução das estruturas de produção e de exportações da indústria brasileira nos anos 80. Ele também cursou o doutorado na mesma instituição com a tese intitulada Internacionalização comercial e produtiva no Mercosul nos anos 90. Atualmente é professor do Instituto de Economia da Unicamp.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor vê a possibilidade de o governo reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados IPI para as empresas que aumentarem o conteúdo nacional, elevarem investimentos e produzirem veículos inovadores? O que essa iniciativa representa para a indústria em termos de incentivo à inovação? Essa medida permitirá à indústria automobilística brasileira competir no mercado internacional?

Fernando Sarti –
Primeiramente, isso está dentro do pacote da política industrial. No entanto, alguns desses mecanismos deveriam ser cada vez mais pensados para o médio e longo prazo. Ainda acho que algumas dessas medidas têm um caráter muito "curto-prazista", imediatista, como se estivesse dando uma compensação por alguma perda. Esse caráter às vezes me incomoda, pois deveríamos estar olhando mais para o médio e longo prazo, pensando em políticas que sejam estruturantes. Dito isso, está claro aqui que o IPI é uma forma de compensar a rentabilidade e oferecer um fluxo de caixa maior para as empresas, dada a pressão competitiva a que estão submetidas hoje por conta do câmbio e das importações.

Não se pode simplesmente conceder a redução do IPI apenas para aumentar a demanda, porque há aqui a ideia de que se faça isso tendo, do outro lado, um comprometimento dessas empresas. Esse comprometimento significa basicamente investimento, um maior nível de gastos em atividades inovativas. Mas eu gostaria de que essas políticas tivessem a durabilidade e a temporalidade para que isso fosse algo mais definitivo e não apenas algo de forma compensatória. Uma política que vise dar incentivos à inovação e ao investimento não pode ter esse caráter curto-prazista. Por outro lado, devem se amarrar e até mesmo criar penalidades para as empresas que, de repente, não cumpram esses compromissos. Nós já vimos, em vários momentos anteriores, que foi dado estímulo às empresas, financiamento a elas para realizar investimento e, apesar de tudo isso, o nível de investimento ficou muito aquém do desejado, tanto é que hoje vemos que a própria capacidade produtiva da indústria avançou muito pouco e o nível de importação está elevadíssimo.

IHU On-Line – Como o senhor vê a importação de automóveis chineses e coreanos no Brasil e o anúncio de que a Chery está construindo uma unidade em Jacarei-SP e de que a Jac Motors pretende instalar uma planta com aportes de 900 milhões de reais?

Fernando Sarti –
Vejo com péssimos olhos. O Brasil está oferecendo a sua demanda para a produção internacional. Não acho isso uma boa medida, pelo contrário. É lógico que o importador vai sempre tentar minimizar esse problema anunciando investimentos. A estratégia dessas empresas, hoje, me parece muito mais de ter uma flexibilidade e ocupar esse mercado, beneficiando-se tanto da demanda aquecida como do câmbio favorável, já anunciando esses investimentos. Mas não acredito que seja nesse volume de 900 milhões de reais, no caso da Jac Motors. Não é esse investimento que nós queremos. Até porque a indústria brasileira já tem uma participação de empresas de tamanho suficiente para esse mercado. A indústria automobilística depende de algumas escalas. Não adianta achar que se está incentivando a competição, e com isso a competitividade. Na verdade, se estará tirando a competitividade do setor a partir do momento em que se reduz muito a própria escala de produção das empresas que estão operando aqui dentro. Nós deveríamos ter protegido muito mais o mercado doméstico, deveríamos ter potencializado por meio dessa demanda aquecida investimentos vultuosos dentro da economia brasileira, para operar numa escala muito maior. Se tivéssemos tido um ciclo de investimento maior nos últimos anos, poderíamos estar falando hoje de uma capacidade de produção maior, com produtos mais inovadores, com escalas produtivas maiores, portanto com eficiência maior, inclusive com volume de exportação maior. Nós perdemos uma grande oportunidade de promover uma reestruturação produtiva e competitiva da indústria automobilística no Brasil.  

IHU On-Line – Por que o Brasil investe mais na indústria automobilística?

Fernando Sarti –
Os investimentos já foram mais significativos do que são agora. Mas realmente esse é o setor industrial que concentra o maior volume de investimentos, pelo seu próprio dinamismo, pela própria escala necessária para produzir, pois é um setor que exige investimentos pesados. Isso é o que o diferencia dos demais.

IHU On-Line – E o que justifica o preço elevado dos automóveis?

Fernando Sarti –
Esse é um problema muito sério. Ou o preço está associado a vários fatores ou, evidentemente, estamos falando de um oligopólio. Em segundo lugar, está o fato de que o preço do automóvel tem uma carga tributária elevada. Juntarmos a carga tributária com a elevada margem de lucro da indústria brasileira; é isso o que faz com que o veículo brasileiro seja relativamente caro para os padrões internacionais.

IHU On-Line – O senhor compartilha da informação de que a indústria de transformação parou de crescer nos últimos três anos?

Fernando Sarti –
Não acho que ela parou de crescer nos últimos três anos, mas o crescimento tem sido cada vez mais localizado em alguns setores. Depois da crise, o setor de bens e capital que vinha liderando esse crescimento perdeu fôlego; e o setor de bens intermediários tem tido crescimento praticamente zero, por conta do crescente coeficiente importado. Se a pergunta estivesse falando em três meses, em vez de três anos, daí sim eu diria que o comportamento da indústria sinaliza uma desaceleração bastante significativa. Nesse ponto, é preocupante fatores como a desaceleração da demanda doméstica, mas também a forte concorrência com produtos importados.

IHU On-Line – A crise financeira internacional pode causar algum impacto no desempenho da indústria brasileira nos próximos anos?

Fernando Sarti –
Certamente. A questão apenas é saber a intensidade desse impacto negativo. O que seria importante para a indústria, hoje, é como essa crise internacional vai nos atingir. A indústria brasileira depende muito do seu próprio mercado doméstico atualmente. E esse mercado doméstico é que está dando sinais de desaceleração, seja do ponto de vista do consumo ou do próprio investimento. A demanda doméstica, que seria o fator-chave para promover um crescimento do setor industrial, um aumento de produção e de vendas e, consequentemente, até mesmo de investimento, vem perdendo força. E isso pode se agravar ainda mais com a crise internacional que, por sua vez, manteria o quadro externo bastante negativo do ponto de vista das exportações, mas também provocaria, via fluxos financeiros, dificuldades para o financiamento, tanto da demanda do consumo como do próprio investimento.

Acho, sim, que a crise internacional afetará a indústria brasileira, sobretudo pelo lado da demanda doméstica. Porque, do ponto de vista da demanda externa, já temos um problema bastante grave que deve postergar ainda mais a retomada dessas economias avançadas e que deve crescentemente afetar também a nossa demanda doméstica. Daí que vejo a importância de reforçar alguns mecanismos que permitam avançar em alguns pontos, sobretudo na questão do investimento. A manutenção de um patamar mínimo de investimento é fundamental para a indústria, porque é esse investimento que vai gerar demanda.

IHU On-Line – A redução de 0,5 pontos percentuais na taxa de juros tem algum significado para a indústria nacional?

Fernando Sarti –
Primeiramente, vamos analisar o diagnóstico que foi feito para essa redução da taxa de juros. Temos o fato de que o próprio Banco Central aponta que a crise internacional é muito mais grave do que se imaginava antes. Por outro lado, essa reversão sinaliza para um quadro interno de menos pressão sobre a questão do câmbio e do financiamento, porque as duas coisas estão muito atreladas. As taxas de juros seguem elevadas. A valorização cambial tem trazido danos importantes para a indústria e a elevação da taxa de juros já mostrava um impacto importante sobre o volume de crédito, sobre o financiamento, desacelerando o consumo e, consequentemente, a produção. O fato de ter reduzido a taxa de juros pode ser que minimize o impacto do câmbio e da desaceleração do crédito. Desse ponto de vista, a medida tem que ser vista como algo positivo, que poderia contrapor-se à demanda doméstica. O diagnóstico que está por trás disso é o agravamento da crise internacional, além do fato de o governo estar se antecipando e buscando minimizar o impacto dessa crise externa sobre a demanda doméstica.

IHU On-Line – De acordo com o ministro Carlos Lupi, a criação de postos de trabalho formais vai ficar abaixo dos três milhões que o governo estava prevendo para este ano. Como o senhor avalia a empregabilidade no Brasil e a que atribui a queda no emprego?

Fernando Sarti –
Essa queda no emprego está associada ao que estávamos falando antes. Havendo uma desaceleração no crescimento, a economia crescendo menos, com menos produção, afeta-se o emprego e a criação de novos empregos fica comprometida. O que se espera é que, pelo menos, se consiga não ampliar o desemprego e que se gere, no mínimo, o número de empregos próximo do que é o crescimento da população economicamente ativa, o que seria em torno de 1,5 milhão de postos de trabalho. Não há dúvidas de que a questão da empregabilidade terá um quadro menos positivo do que vinha tendo até então.

IHU On-Line – A desaceleração do consumo para conter a inflação pode afetar a indústria?

Fernando Sarti –
Afeta. No entanto, eu discordo do diagnóstico. Utilizar a taxa de juros como forma de desacelerar o nível de atividade para, com isso, combater a inflação é uma política equivocada. A taxa de juros mais elevada acaba promovendo uma enxurrada de dólares para a economia brasileira, o que leva a uma valorização cambial que, por sua vez, gera uma concorrência desleal em relação aos produtos importados. Aparentemente, essa sinalização de uma reversão na política de redução da taxa de juros e a indicação de que haverá novas reduções é algo que me parece positivo.

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