Santos, peregrinos e demonófobos: os movimentos messiânicos e milenaristas brasileiros. Entrevista especial com Filipe Pinto Monteiro

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08 Janeiro 2011


Mapa indicativo da cidade de Pau de Colher, na Bahia

O Brasil é marcado por um "conglomerado de cristandades", crenças e utopias, enigmas e mistérios que se afastam da ortodoxia e se manifestam pelo país adentro. Para o historiador Filipe Pinto Monteiro, em Pau de Colher, na Bahia, essa religiosidade popular "associou uma tradição judaica e católica, de fundo escatológico, piedoso e punitivo, com saberes e fazeres afro-americanos e indígenas, transmitidos ao longo de diversas gerações", afirmou ele, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Atualmente, Monteiro realiza uma pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, intitulada Santos, peregrinos e demonófobos, na qual analisa especificamente o movimento Pau de Colher, liderado e animado por Severino Tavares. Severino era reconhecido pelas suas pregações "apocalípticas", em quteoloe o desapego aos bens materiais era uma necessidade premente, assim como as orações, as rezas diárias e a feitura do sinal da cruz. Ele se autoproclamava a "Terceira Pessoa da Santíssima Trindade", juntamente com o Padre Cícero, de quem era "substituto", e Zé Lourenço, do qual se dizia enviado.

Em comunhão com os santos católicos – especialmente Maria e José –, em peregrinação aos lugares sagrados do sertão e em contínua perseguição ao Demônio, isto é, a demonofobia, os integrantes do movimento Pau de Colher são lembrados todos os anos pela Paróquia de São José Operário de Casa Nova e pela Diocese de Juazeiro, Bahia, em uma romaria ao vilarejo de Pau de Colher no mês de dezembro para rememorar os fatos que lá se passaram.

Filipe Pinto Monteiro é historiador, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, e mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ, onde desenvolve a dissertação Santos, peregrinos e demonófobos, sob orientação de Jacqueline Hermann. Tem experiência em jornalismo e história, com ênfase em história moderna e contemporânea, atuando em temas como a religiosidade e o catolicismo popular.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se dá a manifestação de movimentos de caráter messiânico ou milenarista no nordeste brasileiro? Que aspectos sociais e/ou culturais favorecem esses fenômenos?

Filipe Pinto Monteiro – Movimentos sociorreligiosos de caráter messiânico e milenarista tiveram seu ápice no Brasil entre a segunda metade do século XIX e primeira do XX. No nordeste brasileiro, inúmeros foram os casos, como por exemplo, o Caldeirão dos Jesuítas (Serra do Araripe, Ceará, 1926-1936) e Pau de Colher (Casa Nova, Bahia, 1934-1938), este último é tema de nossa dissertação de mestrado na UFRJ. Outras regiões do país também concentraram fenômenos dessa natureza como Minas Gerais, Goiás e os Estados do Sul, mas quando se fala em Nordeste, de fato, podemos identificar determinados aspectos sociais e culturais particulares que favoreceram o aparecimento de personagens e/ou grupos que aguardavam a chegada de um messias e a instalação dos Mil Anos de felicidade e prosperidade na terra (Quiliasmo).

"O fervor religioso e as expectativas escatológicas, foram reforçados pela livre interpretação das escrituras sagradas"

Guardadas as especificidades de cada caso, podemos falar, grosso modo, de uma religiosidade popular, ou, num corte mais profundo, de um catolicismo popular, que no Nordeste associou uma tradição judaica e católica, de fundo escatológico, piedoso e punitivo, com saberes e fazeres afro-americanos e indígenas, transmitidos ao longo de diversas gerações. Eduardo Hoornaert – que organizou a importante coletânea História da Igreja no Brasil: Ensaio de Interpretação a partir do Povo – traduziu bem esse sincretismo, esse hibridismo, quando cunhou a expressão "conglomerado de cristandades", pois foi justamente um agregado de crenças e utopias, de enigmas e mistérios, muito distinto da ortodoxia tridentina, que se estabeleceu na região e, especialmente, nos sertões adentro.

Houve, ao longo da colonização e da formação das sociedades nordestinas, principalmente as interioranas, um movimento duplo. Por um lado, os sertanejos só tinham contato com representantes do "catolicismo oficial" em datas excepcionais, como Natal, Páscoa e Ano Novo, quando vigários ambulantes percorriam os vilarejos em desobriga para celebrar missas, batizados e casamentos. O que não significa dizer que a população prescindisse de sua presença e de seus ensinamentos, que, não raro, sofriam um processo de “omissão, edição e aditamentos”, nem sempre coerentes com a doutrina da Igreja, como bem disse Cândido da Costa e Silva, autor de Roteiro da Vida e da Morte. Um Estudo do Catolicismo no Sertão da Bahia.

Os padres, por sua vez, vendo-se naquela difícil situação e obrigados a dar continuidade ao seu trabalho de evangelização, fomentaram em seus fiéis uma visão de excepcionalidade da disciplina religiosa. Isso por duas ordens de fatores. Primeiramente, porque a pregação estava baseada no seu sentimento de superioridade com a gente "ignorante" do sertão e nas relações pessoais firmadas no autoritarismo e na perversidade do mandonismo local, ou seja, submetiam o crente à obediência cega aos sacramentos, não respeitando um acolhimento livre da doutrina. Segundo, porque os próprios sacerdotes estavam impregnados de uma religiosidade mística e supersticiosa muito distante das sutilezas teológicas recomendadas por Roma, contribuindo assim para a acentuação de um catolicismo "colérico", típico de manifestações como Pau de Colher.

Por fim, pode-se afirmar que o fervor religioso e as expectativas escatológicas foram reforçados pela livre interpretação das escrituras sagradas, em especial as Revelações de São João (O Livro do Apocalipse) e pela circulação de escritos populares no nordeste como o Livro de São Cipriano, o Caminho Recto e Seguro, a História de Carlos Magno e os Doze Pares de França e a Missão Abreviada (este, um guia de orações e prédicas escrito pelo padre Manoel José Gonçalves do Couto em 1867, utilizado no arraial de Canudos por Conselheiro e também em Pau de Colher).

IHU On-Line – Em seu estudo, você aborda a vida de um "enigmático beato" chamado Severino Tavares, que circulou por diferentes espaços dos sertões, entre os quais Caldeirão e Pau de Colher e, possivelmente, Juazeiro do Norte. Em linhas gerais, quem foi Severino e como teve início o seu movimento religioso?


José Lourenço e o jornalista Hidelbrando Espínola

Filipe Pinto Monteiro – Severino Tavares ainda é cercado de mistérios e segredos. É uma dessas figuras difíceis de se rastrear pois não deixou registros de próprio punho, o que nos força a recorrer a outras fontes, como jornais de época. Natural do Rio Grande do Norte, o beato chegou ao Caldeirão com outras famílias fugindo da seca e das lutas entre facções políticas. Encontrou na comunidade conduzida por José Lourenço (que, por sua vez, era pupilo de Padre Cícero) espaço privilegiado para um intenso e ativo aprendizado religioso e popular. Tornou-se um de seus homens de confiança e foi incumbido de angariar fiéis por todo o Nordeste, uma espécie de "relações públicas" do movimento. Suas andanças pelo interior fez dele peça-chave para a compreensão da gênese do movimento de Pau de Colher, onde esteve possivelmente entre 1932 e 1935.

"As homilias de Severino Tavares eram muito severas e amedrontadoras, apontando para a chegada iminente do eschaton final"

Os estudos precedentes ao nosso apenas citam o seu papel como personagem central na dispersão de ideias e crenças gestadas em Juazeiro do Norte (1889-1934) e reformuladas no Caldeirão, mas não aprofundam a investigação de sua história de vida. Além da escassez de fontes ao seu respeito, suspeitamos que isso se deva também ao fato de que o período em que atuou com maior frequência pelos sertões se deu antes do surgimento do movimento de Pau de Colher e as informações produzidas pela mídia impressa e pelos oficiais que participaram da repressão ao movimento – material privilegiado em nosso trabalho – se deram apenas durante o longo e doloroso processo de eliminação da comunidade, entre janeiro e fevereiro de 1938, época em que o paradeiro de Severino era desconhecido. Ademais, ainda que Severino tenha sido assunto de alguns artigos valiosos em jornais de época, a sua itinerância com certeza proporcionou dificuldades extras para jornalistas e curiosos que permaneciam em seu encalço.

As informações que garimpamos sobre Severino, entretanto, permitiram que dedicássemos o primeiro capítulo de nossa dissertação inteiramente à sua pessoa. Tentamos entender a sua atuação e sua importância como personagem que fez o vínculo entre as três manifestações religiosas já citadas. Peregrino inquieto, Severino não parava em nenhum lugar por mais de dois ou três dias, vestia roupa preta, dizia-se viúvo e falava muito em Padre Cícero. Era baixo, calvo, analfabeto, usava alpercata e chapéu grande de feltro. Quando passou por Pau de Colher, causou grande alvoroço com suas pregações "apocalípticas" e estabeleceu forte amizade com um rezador e curandeiro local, conhecido como José Senhorinho Costa, recomendando que ele visitasse o Caldeirão para se inteirar melhor dos assuntos religiosos. Senhorinho tornar-se-ia o principal nome em Pau de Colher e organizaria a sua comunidade de acordo com ensinamentos que aprendera com Severino, daí a importância de se elucidar melhor o papel deste "enigmático beato" para o desenrolar da história.

IHU On-Line – Quais eram os principais conteúdos de fé anunciados por Severino? Em que consistia o núcleo de sua pregação?

Filipe Pinto Monteiro – Suas homilias eram muito severas e amedrontadoras, espetaculosas e barulhentas, sempre apontavam, como não poderia deixar de ser, para a chegada iminente do eschaton final. Quando este viesse, apenas aqueles que seguissem suas rígidas normas de comportamento sobreviveriam. O desapego aos bens materiais era uma necessidade premente, assim como as orações, as rezas diárias e a feitura do sinal da cruz. Se autoproclamava a "Terceira Pessoa da Santíssima Trindade", o que nos leva a crer que as outras duas seriam Padre Cícero, de quem era "substituto", e Zé Lourenço, do qual se dizia enviado.

"O desapego aos bens materiais era uma necessidade premente, assim como as orações, as rezas diárias e a feitura do sinal da cruz"

Um dos registros mais interessantes que encontramos foi em uma reportagem da Gazeta de Alagoas de 1938, que dizia que o beato "lia e relia a Bíblia de cabeça para baixo", o que era algo perfeitamente possível, já que peregrinos como ele, mesmo sendo iletrados, podiam perfeitamente declamar textos inteiros para seus ouvintes só puxando pela memória e baseados no conteúdo repassado por seus mestres. A matéria também faz referência ao conselho de Severino para que seus adeptos comprassem grande quantidade de sal que deveria ser enterrado em sacos. Afirmava ele que aqueles que assim procedessem ressuscitariam três dias após a morte. O sal é valorizado por diversas religiões, crenças e práticas mágicas, utilizado tanto para sacrifícios humanos como para ritos de purificação. Hebreus e católicos tratam dele, que é inclusive citado na Bíblia, como forma de conexão com a esfera do sagrado. Os habitantes de Pau de Colher, no momento do confronto com as tropas militares em 1938, se atiraram frente aos soldados, sem medo da morte, tendo a certeza de que retornariam da pós-vida. O sal era abundante na formação geológica de Casa Nova, e deve estar relacionado com esta atitude curiosa dos catingueiros, pois poderia – de acordo com a reportagem supracitada – os trazer de volta à vida.

No periódico O Jornal, do Rio de Janeiro, encontramos outro texto de 1938 que confirma as previsões nada alentadores de Severino. Uma "chuva de sangue" iria inundar o sertão nordestino e quem almejasse a redenção deveria acompanhá-lo. Os ricos seriam obrigados a distribuir suas riquezas aos menos afortunados e os pobres, por sua vez, deveriam se reunir e seguir para junto do beato Lourenço no Caldeirão a fim de perseguir o Anti-christo. Aqui aparecem dois elementos essenciais e que se farão presentes em Pau de Colher: a ideia de Peregrinação ao sítio do Caldeirão e a perseguição ao Demônio, isto é, o sentimento de demonofobia que tomou conta dos membros da irmandade em seus momentos finais e gerou em Pau de Colher e nos arredores uma onda de violência e agressividade até então inéditos.

IHU On-Line – E como a fé era vivida na prática do movimento Pau de Colher? Existia alguma forma de organização ritualística ou "eclesial"?

Filipe Pinto Monteiro – Aqui a história toma um rumo interessante. Após o contato estabelecido entre Severino e Senhorinho, este último mobilizou amigos e familiares e reuniu todos em seu sítio para dar início às rezas e penitências. Raymundo Duarte, antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia, foi o primeiro pesquisador a trabalhar com Pau de Colher. Na primeira exposição que fez sobre o assunto, intitulada Notas Preliminares de Estudo do Movimento Messiânico de Pau de Colher, de 1969, diz ele que Senhorinho já era admirado por seus compadres, pois tinha sido criado dentro do mato e aprendido a ler sem ter ido à escola. Era um "macho na leitura" e usufruiu de sua fama para espalhar a Boa Nova: em Pau de Colher, permaneciam todos juntos aguardando o dia do Juízo Final e a volta do Salvador.

Como dissemos anteriormente, o modelo de vivência religiosa que se estabeleceu nos sertões, resultado das leituras, traduções e interpretações das pregações dos vigários e dos textos religiosos, ou de seus fragmentos, favoreceu a manutenção de um disciplinamento rígido e repressivo. O respeito cego à hierarquia era uma das premissas respeitadas, valorizadas e temidas, e a comunidade de Pau de Colher assim se organizou. Senhorinho, investido da liderança suprema, era o "cabo-verde", "falante", "bem apessoado", que sabia "dar entrada e saída de tudo", frequentador assíduo das romarias à Juazeiro do Norte e do Bom Jesus da Lapa. Seus auxiliares diretos foram selecionados com base nas relações de parentesco e amizade, como Ana Mariinha, sua mulher e José Camilo, seu sobrinho.

"O respeito cego à hierarquia era uma das premissas respeitadas, valorizadas e temidas, e a comunidade de Pau de Colher assim se organizou"

Senhorinho procurou colar sua imagem na de Zé Lourenço, na de Severino e, principalmente, na de Pe. Cícero, de quem era devoto, exigindo que todos em Pau de Colher andassem de preto e usassem esfinges com imagens do "Patriarca do Cariri". Um dos relatos mais ricos foi feito pelo Coronel Maurino Cezimbra Tavares, comandante do Esquadrão Motorizado da PM baiana, uma das volantes enviadas para eliminar a comunidade em 1938. Em trabalho apresentado ao Instituto Baiano de História da Medicina, em 1954, ele relatou que os moradores do lugar possuíam cruzes e cacetes (arma artesanal) e acompanhavam Senhorinho "cantando e repetindo os textos dos benditos embelezados pelas prédicas bíblicas cuja leitura era feita ao amanhecer e à tarde, à hora da Ave Maria".

IHU On-Line – Como a Igreja Católica da época se posicionava diante do movimento Pau de Colher? Como se dava essa relação?

Filipe Pinto Monteiro – A Igreja da época, como não poderia deixar de ser, se posicionou contrariamente aos eventos em Pau de Colher, tratando a comunidade como um núcleo de fanáticos e apoiando a ação "racional" do Estado quando este decidiu pela sua eliminação. Continuadamente a Igreja estimulava e apelava ao governo pela realização de campanhas educacionais nos lugares abandonados do sertão, pois creditava fenômenos como Pau de Colher a crendices e superstições, à miséria e à ignorância, não reconhecendo o seu papel como difusora de conhecimentos que foram reinterpretados por aquelas pessoas.

Ao lado da figura do fanático – termo que remonta a uma linguagem difamatória do século XVI direcionada aos movimentos religiosos dissidentes do catolicismo, como o anabatismo –, a Igreja também encontrou subversivos na irmandade, entregues a exercícios e práticas comunistas, se posicionando, assim, ao lado das forças do Estado que formularam uma estratégia concisa entre vários órgãos e instituições para a destruição daquela experiência religiosa.

"A Igreja da época tratou a comunidade como um núcleo de fanáticos, apoiando a ação `racional` do Estado quando este decidiu pela sua eliminação"

Isso só mudaria a partir dos anos 1970 com a difusão da Teologia da Libertação, que influenciou, sobretudo, a linha de atuação da Igreja na cidade de Juazeiro da Bahia, que passa a tratar Pau de Colher como uma organização comunitária, múltipla e popular oprimida pelas classes dominantes da região. Interpretação esta, aliás, muito próxima de escritores como Rui Facó, autor de Cangaceiros e Fanáticos, que analisou casos como Pau de Colher a partir das lutas camponesas pela posse da terra e pelo fim da exploração no campo.

IHU On-Line – Em sua pesquisa você aborda três categorias: santos, peregrinos e demonófobos. Qual o significado desses conceitos dentro do contexto do movimento de Pau de Colher?

Filipe Pinto Monteiro – Os conceitos referidos na pergunta e presentes no título da dissertação traduzem as características mais instigantes do movimento. Cada uma dessas denominações utilizadas no estudo está relacionada a um aspecto distinto das manifestações propriamente religiosas na comunidade.

O aparecimento dos santos foi o primeiro elemento que nos chamou a atenção nas fontes primárias. O conjunto documental revelou o surgimento de várias entidades santorais em Pau de Colher, como São Aarão, São João e São Moisés, mas restringimos nosso campo de estudo às duas principais personagens de adoração e fé na irmandade: São José e Santa Maria. Sabe-se que o primeiro foi incorporado pelo líder da irmandade, Senhorinho e, como sua esposa – Ana Mariinha, tida como "Santa Cruz" – era casada e vivia ao seu lado na mesma casa, presume-se que sob essa denominação ela representasse a Virgem, com quem José havia contraído matrimônio e com quem Jesus passara a infância na narrativa bíblica. A comunhão com os santos tornara-se a principal prática de fé do catolicismo implementado na Bahia. Isso porque esses seres especiais eram os únicos capazes de interceder diretamente a favor de seus fiéis e garantir-lhes uma vida feliz no além-túmulo. Herdeiros de uma forte tradição católica e popular, os membros da comunidade sentiam-se pecadores, faltosos, penitentes e recorriam aos santos que podiam lhes oferecer redenção de forma mais imediata e urgente: José, o Patrono dos Agonizantes, e Maria, a mãe espiritual dos discípulos de Jesus.

A existência do peregrinus revela outra face curiosa do movimento e nos oferece subsídios para provar a nossa principal hipótese de trabalho: a autonomia de Pau de Colher frente a Juazeiro e Caldeirão. Convidados por Severino a visitar este último, os habitantes de Pau de Colher ficaram muito abalados com a destruição da comunidade de Zé Lourenço em 1936 (dois anos após o início da concentração no sítio de Senhorinho). Decidiram, então, se mobilizar e rumar para Caldeirão com o objetivo de reconstruí-lo. A peregrinação que demandou longo preparo e zelo por parte dos sertanejos, na verdade, nunca aconteceu, pois, como já foi mencionado, a comunidade foi brutalmente atacada em 1938. Mas notem que eles se articularam durante dois anos para a travessia. Logo, os sentidos e as significações, as injunções e consequências do projeto peregrinatório se tornaram valioso objeto de estudo.

"Ao lado da figura do fanático, a Igreja também encontrou subversivos na irmandade, entregues a exercícios e práticas comunistas"

Duarte e outros pesquisadores enxergaram nesse fato singular um período "transitório" do movimento, já que eles abandonaram a meta de se estabelecer definitivamente em Pau de Colher, o que abriu caminho para uma interpretação que sujeita Pau de Colher às demandas e estímulos vindos do Caldeirão. Assim sendo, Pau de Colher perde-se como estratégia e seus membros tornam-se estrangeiros de sua própria história, como bem definiu a historiadora Ana Lúcia Aguiar, autora da dissertação Movimento de Pau de Colher na Perspectiva dos Atores Sociais: Relações entre Significações da Religião e da Miséria. A nosso ver, a peregrinação não teve nada de "transitório"; pelo contrário, serviu como uma plataforma segura e estável, que dava coesão, harmonia e independência ao grupo, principalmente no que tange ao campo da criação religiosa, o que não significa dizer que suas características de movimento e circulação por espaços diferentes não tenham se preservado. Dito de outra forma, o comportamento peregrinatório de retorno ao Caldeirão, sustentava-se por si próprio, como a crença fundamental e primordial da comunidade. Esta só mantinha sua força e determinação enquanto esse mito não se concretizasse, tendo em mente que o ressurgimento de Caldeirão era considerado o princípio, a inauguração do advento dos mil anos e do retorno do messias, o que teoricamente é o objetivo final do movimento, sem o qual o mesmo não tem sentido de continuar existindo. Tanto é verdade que a preparação da viagem durou algo em torno de dois anos, cercou-se de cuidados intensos e se estruturou como um sistema permanente, estável e persistente.

Uma das consequências mais visíveis do espírito de peregrinação foi uma onda de violência descomedida, uma grande explosão de agressividade, documentada nos primeiros meses de 1938. Os integrantes do movimento, certos de que deveriam ajuntar o máximo de pessoas antes da grande viagem ao Caldeirão, saíram em grupos de assalto pela caatinga na tentativa de convencer mais fiéis a entrarem para a aventura. Quando encontravam alguém pelas veredas sertanejas, perguntavam: "Você é nosso ou de Deus? Se respondem que são Deus, apanham barbaramente, até ficarem sem vida!", como relatou o periódico O Pharol, da Bahia. "Ser" de Deus, ao contrário do que poderia sugerir, significava que a pessoa, possuída por algum ente malévolo, arrependia-se e recebia a morte como forma de se livrar de uma vida impiedosa.

Tratamos essa característica como um conjunto de ações performáticas ligadas a uma visão de mundo demonizada, à crença na presença de forças ocultas que impediriam ou dificultariam a adesão de pessoas ao movimento e a conclusão de todo um esforço de organização para a caminhada ao Caldeirão. Sua gênese está na presença onipresente do Diabo no imaginário popular nordestino, de modo geral, e baiano em particular. Importado da Europa, onde estimulava dissensões e guerras religiosas, encontrou no Novo Mundo uma terra tenebrosa, espaço privilegiado para suas estripulias e peripécias satânicas. Encantando e assombrando o povo do sertão, a forma encontrada pelos sertanejos de Pau de Colher para manter o angelus malignus à distância foi utilizando armas comuns e familiares ao Besta-fera, isto é, a tortura, o sofrimento e a morte, o que explicaria a torrente de sentimentos demonofóbicos que tomou a comunidade.

IHU On-Line – Como o movimento Pau de Colher acabou e que desdobramentos teve? Existem resquícios dessa manifestação hoje?

Filipe Pinto Monteiro – Pau de Colher terminou de forma trágica. O então prefeito de Casa Nova, Raimundo Santos, decidiu organizar uma expedição contra o reduto. No dia 10 de janeiro de 1938 uma diligência formada por quatro praças da polícia militar e 30 civis, sob o comando do terceiro-sargento Geraldo Bispo dos Santos alcançou Pau de Colher. Do confronto saíram mortos dois soldados, quatro civis, além de Ângelo Cabaça e João Damásio, tidos como "subchefes" do movimento, Pedro Benvenuto, importante colaborador e o próprio Senhorinho, líder do movimento. Com o insucesso da primeira expedição, autoridades estaduais e federais se mobilizaram e, em um inédito esforço em conjunto, reunirem tropas policiais e militares de três estados distintos: Bahia, Pernambuco e Piauí. O Destacamento do Vale do São Francisco englobava, entre as várias volantes, a Brigada Militar de Pernambuco, sob o comando do Capitão Optato Gueiros, delegado regional de Petrolina e também um dos responsáveis pela caçada a Lampião.

"A comunhão com os santos tornara-se a principal prática de fé do catolicismo implementado na Bahia"

No dia 19 de janeiro, às 10 horas da manhã, Pau de Colher foi atacado de surpresa pela força do capitão Optato, que alcançou a comunidade antes do restante do destacamento. Sucedeu-se um conflito que perdurou por dois dias e duas noites, deixando por volta de 400 vítimas fatais, entre homens, mulheres e crianças. Após a barbárie, que terminou às 6h da manhã do dia 21 de janeiro de 1938, alguns "caceteiros" conseguiram fugir para a caatinga e se reorganizar em pequenos grupos dispersados pela região. Os remanescentes foram caçados pela Companhia de Fuzileiros da Policia Militar da Bahia, sob o comando do Tenente Zacarias Justiniano dos Santos. O último foco de resistência, portanto, caiu em 12 de fevereiro de 1938, com a prisão de José Camilo, único membro da liderança que sobreviveu.

Entre os desdobramentos desse fenômeno religioso, uma situação política muito peculiar se formou no município de Casa Nova a partir do momento em que Pau de Colher se tornou uma ameaça às forças do Estado brasileiro. Em 1937, com a implementação do Estado Novo, o interventor federal baiano, tenente Juraci Magalhães, nomeado por Vargas no início dos anos 1930, pouco tempo após a Revolução de Outubro, pede exoneração do cargo, pois não concordava com os rumos ditatoriais do governo. É nomeado em seu lugar o coronel Antônio Fernandes Dantas que aproveita o aparato militar mobilizado para destruir Pau de Colher e o utiliza para alijar do executivo municipal casanovense o grupo de políticos chefiados pelo prefeito Raymundo Santos, ligado ao ex-interventor. Acusados de participarem da organização do movimento religioso e de envolvimento com marxistas, que teoricamente seriam as cabeças pensantes por trás de Pau de Colher (o que não era verdade), toda a chefia da cidade foi presa.

Vale ainda lembrar que todos os anos a Paróquia de São José Operário de Casa Nova e a Diocese de Juazeiro, Bahia, promovem uma romaria ao vilarejo de Pau de Colher no mês de dezembro para rememorar os fatos que lá se passaram. O evento faz parte de um esforço de estudiosos e religiosos comprometidos com um projeto de ação pastoral, educação de jovens e adultos e desenvolvimento regional do sertão do São Francisco. Tem rezas, muita música, conversas de compadres e comadres e bodegas improvisadas para venda de cachaça e outras bebidas. A iniciativa já teve participação de pesquisadores como Maria Alba Guedes Machado Mello (Universidade do Estado da Bahia – UNEB) e Gilmário Moreira Brito (UNEB). Outros importantes incentivadores são Roberto Malvezzi (Comissão Pastoral da Terra – CPT), Luiz Gonzaga Gonçalves (Universidade Federal da Paraíba – UFPB) e Elita Maria Jönk, uma de suas principais coordenadoras.

"Todos os anos, na Bahia, promove-se uma romaria ao vilarejo de Pau de Colher no mês de dezembro"

Existe também um curta-metragem de 18 minutos sobre o movimento produzido em 1987 por Auterives Maciel Jr. com o título A Nova Canaã; mas não está disponível em VHS ou DVD. Temos conhecimento de que atualmente a prefeitura de Casa Nova está produzindo um documentário sobre os acontecimentos de 1938 focado no depoimento de uma das últimas sobreviventes, Maria da Conceição Andreza, que neste ano de 2010 foi tema de reportagem do jornal A Tarde, de Salvador, e do programa Bahia Meio Dia, da rede Bahia, filial da Rede Globo em Salvador.

IHU On-Line – Quais são as maiores semelhanças e diferenças entre os líderes religiosos Severino e Padre Cícero, por exemplo, e entre seus movimentos religiosos?

Filipe Pinto Monteiro – Trabalhamos com a perspectiva de que os ensinamentos de Padre Cícero a José Lourenço foram retransmitidos a Severino Tavares no Caldeirão, que, por sua vez, os disseminou por onde passava pelos sertões, incluindo Pau de Colher. Obviamente, quando olhamos atentamente as características das pregações desses líderes carismáticos, percebemos diferenças quanto ao conteúdo propriamente religioso e também quanto à forma de transmiti-los ao público, o que gerou sérios conflitos entre esses personagens.

Muitos, inclusive, defendem que Padre Cícero não demonstrou ao longo de sua trajetória em Juazeiro sinais contundentes de manifestação messiânica, tal como apareceram no Caldeirão e em Pau de Colher. Estes, entretanto, existiram, mas foram deliberadamente cerceados pelo sacerdote, que acumulou grande prestigio religioso e político. Primeiro foi Jesus Cristo que lhe apareceu em sonho, recomendando que permanecesse em Juazeiro para cuidar de toda aquela gente necessitada. Depois o "Milagre do Sangue", quando a imaculada hóstia oferecida por ele à beata Maria do Araújo, transformou-se em sangue na boca. Ambos os acontecimentos denotavam que Juazeiro deveria ser o lugar escolhido como a terra prometida, onde se daria a volta do Redentor.

"Os ensinamentos de Pe. Cícero à José Lourenço foram retransmitidos a Severino Tavares"

Essas interpretações radicais, levadas a cabo por seguidores e admiradores de Padre Cícero, pareciam não lhe agradar muito. Douglas Teixeira Monteiro, autor de Os Errantes do Novo Século – Um Estudo sobre o Surto Milenarista do Contestado, já dizia que crenças do tipo milenarista e messiânico acentuavam-se em determinados momentos em Juazeiro, para voltar à latência durante longos períodos. O que parece ter acontecido é que Severino, assim como outros beatos, fugiu ao controle de Padre Cícero e reinterpretou à sua maneira os postulados religiosos a que foi exposto. Tanto é verdade que, em carta datada de 1932, Cícero responde a um pequeno proprietário de terras, Félix Virgulino de Sena, que lhe indagava sobre os conselhos de Severino, dizendo que este era um "pobre maluco", que suas “asneiras” não deveriam ser levadas a sério e que nunca lhe dera permissão para falar em seu nome.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Filipe Pinto Monteiro – Cabe apenas destacar que Pau de Colher é um caso de messianismo que oferece muitas possibilidades de trabalho. Estudos anteriores ao nosso, como Pau de Colher: Na Letra e na Voz, de Gilmário Brito, e Memória do Fim do Mundo: Para uma Leitura do Movimento Sociorreligioso de Pau de Colher, de Maria Cristina Pompa, trabalharam quase que exclusivamente com relatos orais de sobreviventes do movimento. Nós, por questões teórico-metodológicas, optamos pelos registros escritos e iconográficos. Há ainda casos mais recentes como o do historiador Francivaldo Mendes da Silva, que analisou as diversas narrativas e memórias para a reconstrução da história da comunidade, a partir de romances e folhetos de cordel. Ou ainda o trabalho mais recente de Ana Lúcia Aguiar, que atualmente trabalha com os órfãos do movimento, adotados por famílias de militares após os trágicos acontecimentos. Enfim, as possibilidades se abrem e se multiplicam a cada olhar que se põe sobre Pau de Colher.

(Por Moisés Sbardelotto)

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