Economia, tecnologia e movimentos sociais. Entrevista especial com Luciano Sathler

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23 Fevereiro 2010

Nesta entrevista, concedida pelo professor Luciano Sathler à IHU On-Line, por telefone, a economia e os objetivos dos movimentos sociais são analisados a partir da perspectiva do desenvolvimento das tecnologias. Assim, o entrevistado diz que os movimentos sociais precisam “adotar a web 2.0 de maneira mais intensa” e, para isso, capacitar-se “para entender os problemas da questão dos direitos de propriedade intelectual”. “É hora de aproveitarmos as brechas que a Internet possibilita para enfrentarmos, especialmente, as chamadas indústrias da comunicação”, afirma.

Luciano Sathler é publicitário formado na PUC-Minas, com mestrado e doutorado em Administração, pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor no Grupo Anhanguera Educacional e na Universidade Metodista de São Paulo. É também vice-presidente, na América Latina, da World Association for Christian Communication. Durante o Mutirão da Comunicação, que aconteceu no início do mês, Luciano apresentou a palestra Economia e Comunicação na Era Digital.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como devemos pensar a economia a partir desta era cada vez mais digital?

Luciano Sathler – Na verdade, estamos vivendo na sociedade da informação. Quem tem o poder nesta sociedade é quem domina as tecnologias de informação e comunicação, desde a produção e inovação, até o uso de tecnologias. O poder também está naqueles que são capazes de produzir conteúdo relevante e bem avaliado pelo mercado, e tecnologias que extrapolam a tecnologia da informação e comunicação. Uma das características da sociedade da informação é que a digitalização ultrapassa fronteiras. Temos a digitalização para as questões de biotecnologia, nanotecnologia e robótica, na própria produção das fábricas, nos serviços financeiros, etc. Ou seja, todas as áreas produtivas da nossa sociedade passam a ter que, obrigatoriamente, buscar um diferencial a partir da tecnologia.

Quando falamos de poder, há uma convergência do poder econômico, político e simbólico. Isso tende a convergir nos diferentes tempos da sociedade humana. Hoje, a convergência desses poderes está em poucas mãos, que dominam a questão da tecnologia. Então, o que temos que pensar, em termos de economia e de poder, é que, se queremos uma sociedade mais inclusiva e democrática, e não apenas em termos eleitorais, mas no que diz respeito aos direitos humanos de forma geral, precisamos que a população aprenda, primeiro, a dominar a tecnologia, especialmente o que chamamos de digitalização, e isso significa um domínio da técnica, para que possamos impor valores ético-humanistas cristãos a ela. Não existe técnica amoral ou neutra. A técnica sempre está a serviço de uma ética, e precisamos impor à técnica atual uma ética humanista e cristã, para que possamos ter um mundo diferente.


IHU On-Line – Você já afirmou que digital é convergir. A economia já assimilou essa lógica da convergência?

Luciano Sathler – Sim, a economia já assimilou isso. Atualmente, são raríssimas as empresas que podem sobreviver sem o suporte da informática. Quando falamos de digital, estamos agregando questões da informática, de seu domínio e de qual conteúdo irá compor esse digital. Temos conteúdo de entretenimento, comerciais, militares, entre outros. A economia já é digitalmente convergente nesse sentido. A questão é que nós, dos movimentos populares, ainda não nos preparamos adequadamente para enfrentar essa convergência.

IHU On-Line – Como e quando essa preparação irá acontecer?

Luciano Sathler – Existem diversas formas de atuar. Falo nós, especificamente, enquanto movimentos sociais e de igrejas, que buscam uma transformação do mundo. Assim, precisamos, primeiro, entender uma nova forma de atuação política. Temos que entrar mais firmes na discussão de questões relacionadas à ciência e à tecnologia. Temos que entrar com maior clareza em questões relacionadas à inovação. Temos que entrar com maior competência na luta pela educação e capacitação profissional mais adequada no nosso país. E precisamos entender que a cidadania passa, obrigatoriamente, pela busca da emancipação científica e tecnológica. Isso que temos hoje não é mais o suficiente.

Se lemos Norberto Bobbio [1], percebemos que a máquina do poder, tanto governamental quanto

econômica, tende a deixar as pessoas falarem para não prestarem atenção. Quais são os fóruns que realmente fazem diferença? Temos que aprender a fazer lobby no Congresso. Temos que aprender a usar a comunicação para chegar no povo verdadeiramente, não nos mesmos de sempre. E precisamos ser capazes de entender que, se o nosso cidadão não estiver educado e capacitado para uma emancipação científica e tecnológica, sempre estaremos em uma posição de dependência dos países ricos.

IHU On-Line – De que forma precisamos, então, nos reorganizar?

Luciano Sathler – Precisamos mudar nossa forma de protestar. Precisamos adotar a web 2.0 de maneira mais intensa e nos capacitar para entender os problemas da questão dos direitos de propriedade intelectual. Além disso, é hora de aproveitarmos as brechas que a Internet possibilita para enfrentarmos, especialmente, as chamadas indústrias da comunicação. É conveniente fazer circular um discurso alternativo e que seja compreendido pela população.

IHU On-Line – Que mudanças no ambiente informacional se destacam no que diz respeito ao desenvolvimento dos mercados e governos latino-americanos?

Luciano Sathler – No ambiente informacional, a grande mudança que o mundo inteiro está sentindo é a quebra da cadeia básica de valor nos mercados de conteúdo criativo. Antes da Internet, alguém criava um conteúdo e um outro publicava, já o varejista vendia esse conteúdo e aí vinha o consumidor informacional. Havia, portanto, os intermediários entre uma etapa e outra. A grande revolução que está acontecendo, e isso afeta todos os setores, tanto de educação e de entretenimento, quanto de governos, é que a Internet permite quebrar essa cadeia na medida em que possibilita ao criador de conteúdo falar diretamente com o consumidor, sem nenhum atravessador. Essa é a revolução que vivemos hoje e sobre a qual as empresas e governos  já estão se reposicionando. Portanto, nós, enquanto movimentos sociais e igrejas, temos que assumir uma posição de vanguarda para usarmos bem essa possibilidade.

IHU On-Line – Quais os principais paradigmas da produção descentralizada e não-comercial para a economia atual?

Luciano Sathler – As chamadas rede colaborativas permitem essa produção descentralizada, segundo Benkler [2] radicalmente descentralizada, da informação. E o que mais cresce hoje é a produção descentralizada da informação sem fins comerciais. Para que isso seja promovido por nossas organizações, temos que ter, basicamente, cinco atitudes: 1) envolver as pessoas para que participem das redes colaborativas de construção do conhecimento; 2) estimular as pessoas para criar novos conteúdos dentro dessas redes; 3) os conteúdos também precisam ser discutidos, e a discussão deve ser promovida, não sendo unilateral à criação; 4) Além disso, temos que promover o que foi discutido para a realização de novas audiências e, desta forma, ampliar o alcance da nossa mensagem; 5) e, por fim, precisamos medir o resultado do que estamos promovendo. Isso, hoje, é muito fácil de ser feito por meio de algumas ferrramentas que a própria web 2.0 nos traz. O mais comum antes era as pessoas colocarem um conteúdo no ar e pronto. Não se importavam com quem estava lendo. Agora, temos condições de medir para realmente acompanharmos qual conteúdo está sendo mais discutido, como está sendo discutido, e coisas desse tipo.

Notas:
[1] Norberto Bobbio foi um filósofo político, historiador do pensamento político e senador vitalício italiano.






[2] Yochai Benkler é um professor da Escola de Direito na Universidade de Harvard, que escreve sobre a Internet e o surgimento da economia da sociedade em rede, bem como sobre a organização da infraestrutura, por exemplo, a comunicação sem fios.

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