"Os elementos que detonaram a crise econômica estão intactos". Entrevista especial com Fernando Mattos

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14 Outubro 2009

Ainda que, segundo o pesquisador Fernando Mattos, os elementos que levaram a crise financeira mundial às proporções que chegou, ele aponta que o panorama atual do mercado de trabalho brasileiro é positivo. “Podemos perceber que o mercado de trabalho brasileiro está se recuperando depois de um período de retração muito violenta”, disse ele durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone. Mattos define o mercado de trabalho do Brasil como bastante flexível. “De fato, é muito barato demitir as pessoas, é muito fácil, o custo de trabalho é muito baixo e a demissão é calculada em relação ao custo do trabalho. É uma pena e um problema isso, porque vivemos situações de oscilações muito grandes no nível de emprego. Ele está sendo retomado agora violentamente, mas porque caiu muito vigorosamente também”, indicou ele, que diz que a economia brasileira deve, no próximo ano, crescer cerca de 5%.

Fernando Augusto Mansor de Mattos é engenheiro químico pela Universidade Estadual de Campinas, com mestrado e doutorado em Ciência Econômica pela mesma instituição. Atua como professor da PUC Campinas e é autor de Flexibilização do trabalho: sintomas da crise (São Paulo: Annablume, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor fala, em um artigo, que mudanças na regulação dos movimentos de capitais são fundamentais para promover melhorias no mundo do trabalho. A crise financeira teve alguma influência nesse sentido?

Fernando Mattos – O que eu disse foi mais ou menos como falam os economistas mais heterodoxos e mais de esquerda, marxistas ou não, os economistas que não são neoliberais. O fato é que o setor financeiro se tornou muito mais autônomo do setor produtivo. Com isso, aquela função precípua do mercado financeiro, que era financiar a produção, a geração de produtos tangíveis ou de produzir bens ou serviços, foi se esvaindo com o tempo em favor de uma situação em que a acumulação de capital é feita cada vez mais sem passar pela produção. Isto é um problema para a geração de empregos, para a acumulação de capital do setor produtivo que gera emprego, é preciso trabalho para movimentar as máquinas. À medida que a acumulação de capital vai se tornando cada vez mais autônoma na esfera produtiva, baseando-se, principalmente, na esfera financeira, temos uma situação não propícia para o emprego, para a mão-de-obra.

IHU On-Line – O senhor pode nos explicar o que fez com que o mercado de trabalho entrasse num processo de degradação?

Fernando Mattos – Esta é uma longa discussão. Na verdade, é resultado dos anos 1990, principalmente no que diz respeito à economia internacional e à queda dos meios de crescimento das economias. A maneira pela qual as empresas se organizaram para enfrentar essa situação, com racionalização produtiva, é com maior mobilidade das forças produtivas. Por exemplo, empresas indo para países periféricos, pagando salários bem menores, ameaçando movimentos sindicais em diferentes lugares com a possibilidade de fechar fábricas e levar para outros países regulamentando o mercado de trabalho, pressionando os Estados nacionais a realizar mudanças na legislação que permitam maior exploração da mão-de-obra, com custo menor, facilitando as emissões e etc. Todos esses elementos concorrem para gerar este problema de degradação do mercado de trabalho.

IHU On-Line – Analisando o nosso tempo, como o senhor vê a questão do trabalho imaterial?

Fernando Mattos – Isto é uma coisa importante, que tem de ser melhor discutida. O grupo do Marcio Pochmann, presidente do IPEA, está pesquisando sobre isso. A questão é que o trabalho, com as novas tecnologias, a geração de produtividade, está tendo um peso cada vez maior nas economias. É muito difícil avaliar, hoje em dia, por exemplo, o que é a jornada de trabalho. O tempo que o trabalhador dedica ao trabalho é muito difícil medir, assim como é difícil medir os ganhos de produtividade destas atividades. Aquela situação antiga de a pessoa sair de casa, ir para o trabalho, trabalhar e voltar para a casa está cada vez mais indefinida hoje, porque, às vezes, a pessoa tem um computador, um palmtop, um laptop, e está sempre disponível ao trabalho, está sempre plugada. Tudo isso tem modificado a maneira pela qual se dá a apropriação dos meios de produtividade dentro da sociedade capitalista.

IHU On-Line – Antonio Negri fala do comum como novo padrão de valor. Como você vê isso?

Fernando Mattos – Li um de seus livros faz um certo tempo. Acho que ele se equivoca quando reduz o papel que teriam os Estados nacionais no momento atual. Acho que os Estados nacionais têm um papel muito importante na acumulação de capital, principalmente dos países desenvolvidos que atuam progressivamente em favor de suas empresas.

IHU On-Line – E neste momento, com o fim da crise, pelo menos aqui no Brasil, o que podemos dizer do panorama atual do mercado de trabalho?

Fernando Mattos – O panorama atual é muito positivo. As contratações estão voltando, o emprego na indústria já subiu no mês passado, o que fazia tempo que não acontecia, se bem é um efeito sazonal, pois, no fim de ano, é sempre assim mesmo, as empresas começam a aumentar a produção, o comércio está fazendo estoque para o natal. Mas, de todo o modo, podemos perceber que o mercado de trabalho brasileiro está se recuperando, depois de um período de retração muito violenta. O mercado de trabalho brasileiro, ao contrário do que muitos apregoam, é flexível demais até. Percebemos isso, pois as empresas recorrem muito à rotatividade, demitem pessoas e, com muita facilidade, recontratam quando a economia volta a melhorar. De fato, é muito barato demitir as pessoas, é muito fácil, o custo de trabalho é muito baixo e a demissão é calculada em relação ao custo do trabalho. É uma pena e um problema isso, porque vivemos situações de oscilações muito grandes no nível de emprego. Ele está sendo retomado agora violentamente, mas porque caiu muito vigorosamente também. Mas, menos mal que a economia está se recuperando, e parece que, para o ano que vem, teremos um crescimento bem expressivo na economia brasileira, talvez 5%, que é um valor muito importante.

IHU On-Line – Pensando nos paradoxos da empregabilidade, podemos dizer que quem está pagando esta crise é o trabalhador?

Fernando Mattos – Seria discurso fácil falar isso. O trabalhador sempre tem mazelas a enfrentar, mas muitas empresas também faliram, de pequenos e médios empresários. Penso que a crise no Brasil até que foi pequena diante do tamanho da crise lá fora. O governo teve muito êxito nas medidas que tomou. Tem o mérito de ter, desde 2003, feito uma política externa de diversificar as ações, ampliando os destinos geográficos das exportações brasileiras. O México, por exemplo, está em uma crise violentíssima, pois depende demais do mercado estadunidense. No Brasil não é assim, aqui tem uma pauta, geograficamente, bastante diversificada com lugares como a Ásia, África e América do Sul. O nosso problema hoje, em minha opinião, é que a moeda está muito valorizada e isso é um problema. Vamos ter que enfrentar esta situação, o que é muito difícil, pois atrapalha muito a produção e exportação manufatureira. A indústria ainda é, e sempre será, o setor dinâmico de precedência da economia, onde se dá o viés da produtividade e de tecnologia. É a partir da indústria que surgem os outros setores, e, portanto, tudo isso depende do comportamento e evolução das atividades industriais.

IHU On-Line – O trabalho continua a descolar-se da noção que temos de emprego?

Fernando Mattos – Emprego é a relação salariada, por definição, é o trabalho assalariado. Trabalho é um conceito mais amplo, que inclui auto-ocupação. É uma categoria sociológica mais ampla que repercute também uma faceta da vida humana. Neste momento histórico e em outros, sempre houve trabalho, mas, a partir do capitalismo, passa a ser assalariado. As coisas vão mudando, mas a maneira da acumulação de capital continua a mesma. A iniciação da mais valia, como diria Marx, continua sendo igual. Ou seja, uma parte expressiva das jornadas de trabalho do trabalhador não é paga, que é devotado a produzir algo cujo valor é muito maior que o valor da sua própria força de trabalho. O problema é que, com as novas tecnologias de informação e comunicação, já não é mais muito precisa a maneira de se avaliar a extensão da jornada de trabalho. A jornada de trabalho tende a ser maior do que aquela tradicional, que a pessoa executa no seu próprio local de trabalho. A residência passa a ser uma extensão do local de trabalho da pessoa, por causa da forma como as comunicações permitem que ela fique on-line o tempo todo, a empresa pode exigir ou sugerir isso. A questão da jornada de trabalho está muito pouco definida e a legislação e o movimento social devem discutir isso, pois as situações estão mudando, a maneira pela qual se obtém o excedente está se sofisticando.

IHU On-Line – Quais mudanças na regulação dos movimentos de capitais são necessárias para que não entremos novamente numa crise como essa que acabamos de sair?

Fernando Mattos – Acho que deveriam compatimentalizar o mercado financeiro, definir bem o que cada um dos setores do mercado financeiro poderia fazer. Por exemplo, banco de investimento é uma coisa, banco comercial é outra. O segundo ponto é não premiar mais, ou a legislação impedir que se premiem executivos por desempenho, principalmente desempenhos de curtíssimo prazo. Isto estimulava os executivos a realizarem operações arriscadas, que podiam dar, muitas vezes, ganhos expressivos em curto prazo, eles abocanhavam prêmios por conta disso, mas colocavam as economias de uma maneira bastante invulnerável em relação à cena internacional. Acho que infelizmente esta crise, apesar do tamanho, não conseguiu promover outro consenso. Acho que deveríamos controlar rigidamente os movimentos de capitais especulativos de curto prazo, por exemplo, impedir que um aplicador de mercado financeiro jogasse dinheiro no mercado de outro país e que retirasse em poucos dias, fazer um tipo de pedágio, uma quarentena. Ter uma transparência, órgãos de fiscalização mais rígidos, e não vinculados ao mercado financeiro privado, com um recurso burocrático independente, que não pudesse vislumbrar a possibilidade de um dia trabalhar no mercado financeiro para não envolver troca de favores e de conivências. Acho que estas são coisas importantes que deveriam ser feitas, até mesmo para o bem dos negócios do mercado financeiro. Mas tudo que eu falei são coisas que o mercado financeiro não está aceitando. Apesar desta crise gigantesca, e desta aparente normalidade que está voltando agora, isto é um perigo. Está parecendo que a crise já passou, e agora está tudo bem. Mas, na verdade, todos os elementos que acabaram detonando esta crise ainda estão intactos. Não foram feitas medidas muitos expressivas em nenhum país para conter essa especulação e a falta de regras. O que houve até agora é que os estados nacionais puseram bilhões de dólares e de euros, para revigorar os mercados.

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