Gripe suína: "A população sente-se enganada e cresce a fúria social". Entrevista especial com Jenaro Villamil

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01 Mai 2009

A população mexicana sente-se enganada pelo governo e cresce a fúria social. A afirmação é do jornalista mexicano Jenaro Villamil. Acrescido à falta de transparência sobre a crise suína, o governo mexicano omitiu e procurou relativizar os efeitos da crise econômica sobre o país. O sentimento é de desorientação e desconfiança por parte da população, afirma o jornalista em entrevista especial concedida, por e-mail, à IHU On-Line. A entrevista foi feita por Cesar Sanson, pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT, parceiro estratégico do IHU.

Jenaro Villamil, jornalista, colaborador do jornal La Jornada, repórter da revista Proceso e professor de jornalismo político na Escola de Jornalismo Carlos Septién. O jornalista é autor, entre outros, dos livros A Televisão que nos governa e a Guerra suja de 2006.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como tem sido a reação da população mexicana à epidemia do vírus da gripe suína? Alterou-se o comportamento social? Instalou-se o pânico? É verdade que a sociedade mexicana paralisou?

Jenaro Villamil – A primeira reação foi de surpresa dada às circunstâncias em que foram anunciadas as primeiras medidas de emergência. Na quinta-feira, dia 23 de abril ,às 23h, o Secretário de Saúde, José Angel Córdova, anunciou na televisão que as aulas do Vale do México – Distrito Federal e Estado do México, o mais populoso do país, estavam suspensas porque se tinha confirmado a presença de um novo vírus de origem suína, que se transmite pelo ar. Na manhã do mesmo dia, Cordova havia negado a existência de uma nova epidemia. Nunca ficaram claramente esclarecidas quais eram as fontes de informação para a tomada de tais medidas. Na sexta-feira, houve uma desorientação total. No sábado e no domingo se generalizaram às medidas preventivas, mas, na segunda-feira as atividades profissionais sofreram mudanças no Distrito Federal e o pânico se generalizou. Entre segunda, terça, quarta e,até o momento (quinta-feira, dia 30-04-2009), assiste-se a uma corrida aos supermercados da capital. Foi uma reação natural de medo da população devido às incertezas. Desde sábado, a mídia eletrônica tem sido saturada com informações sobre a gripe, mas não tem ajudado a criar clareza. Há muitas especulações. Este é o resultado de dois fenômenos: a falta de credibilidade do governo mexicano e a saturação dos meios de comunicação que não processam bem as informações.

IHU On-Line – Há transparência por parte do governo mexicano sobre o tema?

Jenaro Villamil – Este é o ponto principal do problema. O governo federal e os governos estaduais têm tratado a informação com um elevado grau de opacidade. Os meios de comunicação informaram que, pelo menos desde 10 de abril, as autoridades sanitárias tinham confirmado a existência de um novo vírus da gripe, mas a informação foi ocultada. Algo que foi negado até o dia 22 de abril. Em meio à epidemia, não há certeza de quem já morreu, quantos anos tinham estas pessoas, onde elas trabalhavam, onde moravam, por que morreram e se já se tinha o antibiótico.

IHU On-Line – Quais são as interpretações no México para a origem do vírus?

Jenaro Villamil – A falta de informações científicas claras tem gerado uma extraordinária quantidade de especulações sobre a origem do vírus. Existe muito pouca consciência e informação sobre os efeitos de resíduos agroindustriais que poluem vales e grandes áreas do país. Estes são focos contínuos de vírus e epidemias. Os cientistas mexicanos ainda não sabem explicar como surgiu a mutação que levou ao vírus da gripe suína. A primeira reação foi a de pensar que comer carne suína causaria a infecção. Obviamente, vem se tentado esconder o escandaloso nível de poluição das suinoculturas no país, especialmente a Granjas Carroll, subsidiária da empresa norte-americana Smithfield Foods.

IHU On-Line – Como reagiu a empresa?

Jenaro Villamil – Com o escândalo gerado pela confirmação de um caso de gripe suína na comunidade vizinha de Las Glorias, desde o dia 02 de abril, a Granjas Carroll Farms organizou uma visita para a imprensa, terça-feira, dia 28 de Abril. Foi uma medida de relações públicas para insistir que eles não têm qualquer relação com a origem do vírus nem com a alta incidência de gripe e pneumonia na região de Perote, Veracruz (onde fica a fazenda de criação intensiva de porcos). As outras empresas ainda não disseram nada. Mantém-se no silêncio. A entidade oficial responsável por verificar estes lugares COFEPRIS (anexa ao Ministério da Saúde) não forneceu informações precisas.

IHU On-Line – A sociedade mexicana. além da crise mundial, convive com a violência do crime organizado. Sustenta-se a tese de que os aparelhos de segurança e os governos municipais, estatais e federais estão cooptados até a medula pelo narcotráfico. Quais as conseqüências sociais disso tudo somado agora ao problema da gripe suína? Como o movimento social reage a esses fatos?

Jenaro Villamil – Há uma saturação na mídia de informações negativas. Em primeiro lugar, a guerra contra as drogas lançada pelo governo de Felipe Calderón. Segundo, a epidemia de gripe. Em ambos os casos, a minha impressão é de absoluta falta de estratégia para combater de forma eficaz os cartéis da droga, inclusive para dar segurança às pessoas, e fazer com que as medidas sanitárias adotadas sejam vistas pela população como as mais adequadas. Em ambos os casos o que se vê são “golpes” midiáticos, ou seja, se governa pensando-se nas pesquisas, uma vez que a percepção pública é altamente suscetível aos meios de comunicação. No México, 90% das pessoas se informam apenas através da televisão comercial aberta, controlada por duas empresas aliadas ao governo: Televisa e TV Azteca. O grande problema é a crise econômica e o seu impacto na sociedade mexicana. Primeiro, se minimizou o impacto da crise nos Estados Unidos. O governo acusava de "catastrofistas" aqueles que afirmavam que o nosso país iria viver uma situação muito crítica. "No máximo teremos uma gripe e não uma pneumonia", disse numa infeliz metáfora o responsável pelas finanças públicas, Agustín Cartens, em janeiro deste ano. Agora resulta que temos uma verdadeira crise de pneumonia, não metafórica, e que a economia mexicana terá uma diminuição de 4,8 pontos (números divulgados nessa semana). O panorama é de pessimismo extremo. A população sente-se enganada e cresce a fúria social.

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