Trabalho e crise no RS. Entrevista especial com Ricardo Franzoi

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29 Abril 2009

O IHU Ideias, evento do Instituto Humanitas Unisinos-IHU, promove hoje, véspera do dia do trabalhador, uma palestra intitulada "Crise econômica e seus impactos no mundo do trabalho". A IHU On-Line, nesta conversa com Ricardo Franzoi, buscou trazer alguns pontos para discutir o tema. Desta forma, Franzoi trouxe um breve panorama da situação do trabalho no Rio Grande do Sul hoje em função da crise. Ele aponta que as medidas tomadas pelo governo do estado não são próprias, mas sim surgem a “reboque do governo federal”. Segundo Franzoi, “novamente estamos incentivando setores que não deveríamos mais incentivar. Precisamos dar incentivos para setores que produzam para o mercado interno e que gerem postos qualificados de emprego”. A entrevista foi realizada por telefone.

Ricardo Franzoi é graduado em Administração Pública e de Empresas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É especialista em Negociação Coletiva,  pela International Labor Organization, na Itália, e mestre em Economia Política, pela Universidad Nacional Autonoma de México. Atualmente, trabalho no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o grande desafio que temos de superar diante desta crise?

Ricardo Franzoi – O grande desafio que temos, e estamos avaliando, é a questão do mercado de trabalho. O Brasil vinha vivendo um período que há muito tempo não vivia. Para nós, a preservação do emprego e da renda constituem a dimensão mais importante para o enfrentamento da crise. Eles não são apenas bens individuais, mas bens para a classe trabalhadora e para a sociedade. Nós, que somos defensores dos trabalhadores, defendemos uma sociedade do trabalho. Assim, o grande desafio nesse momento é fazer com que todas as políticas governamentais estejam ligadas a essa dimensão do trabalho e da renda.

IHU On-Line – Quais os impactos mais importantes dessa crise no mundo do trabalho gaúcho?

Ricardo Franzoi – O impacto direto foi na questão da ocupação, ou seja, dos números dos postos de trabalho que foram afetados diretamente, principalmente àqueles ligados à indústria. O posto de trabalho tem uma certa durabilidade. Ninguém contrata na indústria para trabalhar por um curto espaço de tempo, como acontece no comércio ou no setor de serviços. O posto de trabalho industrial tem mais qualidade e

Tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul, o setor industrial foi o mais afetado e se tornou o efeito mais grave da crise no estado

investimento na qualificação, respondendo com um salário melhor. Tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul, o setor industrial foi o mais afetado e se tornou o efeito mais grave da crise no estado.

IHU On-Line – Por que razões o desemprego no Brasil e, consequentemente, no Rio Grande do Sul, está se concentrando mais em alguns setores, como o automotivo?

Ricardo Franzoi – Estávamos tendo um crescimento bastante acelerado no mundo. No Rio Grande do Sul, 1/3 da nossa geração de riquezas está ligado ao setor de exportação e agropecuário e dependem de crédito de longo prazo. E a origem da crise começou no setor creditício, que, de uma hora para outra, teve uma paralisia nos fluxos de crédito. Os setores que ela mais afetou estão ligados à exportação e àqueles que dependem de crédito de longo prazo.

IHU On-Line – Qual a situação das empresas gaúchas, atualmente?

Ricardo Franzoi – O que vimos é que houve um efeito imediato a partir de outubro e novembro de 2008, quando aconteceu a paralisia no setor creditício mundial. Então, os setores que mais foram afetados dependiam de crédito. Também não podemos esquecer que vínhamos de um período de crescimento acelerado, ou seja, as empresas vinham fazendo estoque e contratando pessoas porque tinham a expectativa de que o crescimento continuasse. O PIB do Brasil, no terceiro semestre de 2008, estava em crescimento de quase 7%. Há muitos anos, não tínhamos um período tão duradouro de taxas de crescimento expressiva. No entanto, no último trimestre houve essa queda e, então, as empresas diminuíram seus estoques. Aqui no Rio Grande do Sul, o setor metalúrgico foi o mais afetado.

IHU On-Line – A crise pode servir como uma oportunidade? Que tipo?

Ricardo Franzoi – As oportunidades são muitas. A primeira delas é que precisamos aproveitar essa crise para enfrentar alguns desafios estruturais do ponto de vista do mercado de trabalho, para sair dela com uma política de formalização do trabalho e se utilizar da tributação, do crédito e das contas do governo como forma de melhor a formalização do mercado de trabalho. Outra questão: o Brasil tem uma história de que os setores mais enriquecidos da sociedade vivem de transferências de renda do setor bancário e têm uma lucratividade muito alta, e de que as pessoas enriquecem baseadas num sistema que não gera emprego.

Aqui no Rio Grande do Sul, nós deveríamos pensar numa política de médio e longo prazo para mudança estrutural da produção do estado. Não podemos continuar dependendo tão fortemente da exportação e do setor agropecuário, que está muito vinculado às flutuações dos preços e de um só produto.

E ainda, aqui no Rio Grande do Sul, nós deveríamos pensar numa política de médio e longo prazo para mudança estrutural da produção do estado. Não podemos continuar dependendo tão fortemente da exportação e do setor agropecuário, que está muito vinculado às flutuações dos preços e de um só produto, que é a soja. Devemos nos voltar mais para o mercado interno.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o posicionamento e as medidas tomadas pelo governo Yeda?

Ricardo Franzoi – O governo Yeda tem ido muito a reboque do governo federal. Ele não tem uma medida específica para a questão da crise. A própria governadora declarou que uma das contribuições que o estado está trazendo é a redução de impostos. Na verdade, o estado está agindo de forma passiva e não tem medidas incisivas em relação à crise. Uma medida que considero fundamental, na qual o estado tem todo poder de influenciar, se refere à discussão do piso regional, ou seja, nosso salário mínimo do estado. Precisamos valorizar a renda do mercado interno para que a demanda potencial que temos se efetive. Uma das medidas que o governo Yeda deveria adotar é dar um reajuste substancial para o piso regional, assim como o Paraná deu. Há políticas que o estado deveria adotar, mas não está adotando.

IHU On-Line – Qual o papel do BNDES durante a crise?

Ricardo Franzoi – Ele foi fundamental na medida em que é um banco de fomento. Os países que mais sofreram com a crise tiveram de criar condições para criar esse banco. Nossa vantagem é que já existia um banco para atender esses problemas em função da paralisação do sistema creditício. O BNDES tem ajudado muito nesse sentido, ou seja, de dar fluxo para o sistema de crédito, que é o combustível da economia.

IHU On-Line – A fusão de grandes empresas com o apoio do BNDES é o melhor caminho para o fortalecimento do capital nacional?

Ricardo Franzoi – O que acontece é que, quando se está numa economia aberta, a concorrência é muito forte. Se o Estado não ajudar determinadas concentrações de empresa, fará com que elas virem empresas multinacionais, ou melhor, as multinacionais irão acabar comprando essas empresas. Desta forma, as decisões beneficiam os países onde a empresa tem sede. Dois exemplos: as empresas automobilísticas francesas estão demitindo fora. Lá na França, elas não demitem porque existe pressão interna. Aqui no Brasil, uma empresa de máquinas agrícolas precisou agir conforme as decisões que vieram de fora, sem que a redução tenha sido realmente necessária. É preciso fazer ações de proteção do capital por conta de que nós precisamos ter as decisões, mas não podemos fechar a economia. A concorrência só precisa de regras.

IHU On-Line – O que significa esse apoio que o governo deu a empresas privadas, como a Aracruz?

Ricardo Franzoi – O governo do estado concedeu um conjunto de incentivos. Nós achamos que incentivos devem ser feitos, mas não para uma ou outra empresa, e sim para todo o setor, isto é, não podemos criar desigualdades. Outra questão: realmente nós queremos dar incentivo para um setor que não gera muito emprego e novamente e que vai depender um tipo só de produto? Novamente, estamos incentivando setores que não deveríamos mais incentivar. Precisamos dar incentivos para setores que produzam para o mercado interno e que gerem postos qualificados de emprego.

 

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