Pré-sal: do conhecimento técnico ao desenvolvimento econômico brasileiro. Entrevista especial com Paulo Sérgio Paim e Gerson Fauth

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18 Setembro 2008

A descoberta de uma grande quantidade de petróleo abaixo da camada de pré-sal existente de Santa Catarina à Bahia tem gerado inúmeras discussões no campo econômico e tecnológico. A IHU On-Line conversou com dois professores da Geologia para compreender o proceso que envolve a exploração do petróleo encontrado sob o pré-sal e o que áreas esse processo implicará conseqüências. Para o professor Paulo Paim, em entrevista concedida por e-mail, “a Geologia no Brasil vem, há alguns anos, experimentando um crescimento acentuado e sustentado em termos de geração de empregos e oportunidades. Não apenas a Petrobras vem requisitando geólogos, mas também outras companhias de petróleo, que passaram a investir no Brasil com a abertura do mercado, assim como uma série de companhias prestadoras de serviços”. Já o professor Gerson Fauth, entrevistado pessoalmente, acredita que esse “é um grande marco, porque vai possibilitar com que a gente tenha a oportunidade de formar – e devemos formar! – novos geólogos. Existe hoje na geologia do Brasil um boom geológico, pois as mineradoras estão procurando novos geólogos, e as companhias de petróleo estão entrando no Brasil visando à questão do pré-sal, à questão da água, ou seja, já estão faltando geólogos”.

Paulo Sergio Gomes Paim é graduado em Geologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também cursou o mestrado em geociência. É doutor em Geologia, pela University of Oxford, na Inglaterra. Atualmente, é professor na Unisinos.

Gerson Fauth é graduado em Geologia, pela Unisinos, e mestre em Geociências, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É doutor em Geologia, pela Universitat Heidelberg, na Alemanha. Atualmente, é professor na Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a forma como essa questão está sendo conduzida pelo governo brasileiro?

Paulo Paim – O governo brasileiro vem procurando obter frutos políticos com essas descobertas, fato esse que encaro como normal na medida em que creio que qualquer governo tentaria colar sua imagem a resultados tão positivos. No entanto, cabe ressaltar que essas descobertas fundamentam-se em um trabalho de décadas por parte do corpo técnico da Petrobras, não sendo o resultado da determinação exclusiva de um governo em particular. A fundação da empresa (1953), o monopólio estatal que permitiu seu crescimento e consolidação em um mundo dominado por gigantes, seu redirecionamento para o mar, uma mudança estratégica da empresa iniciada no final da década de 1960, e sua transformação em empresa que tem no governo seu sócio majoritário são, sim, aspectos que determinaram à trajetória desta empresa.

Gerson Fauth – É uma questão muito delicada, mas é um momento muito importante para o país. As descobertas que foram feitas são extremamente relevantes e, desta maneira, não será mais possível tratar o petróleo como era tratado antigamente. Deve e irá haver uma nova ordem, em que novas regras serão colocadas. Agora foi feita uma grande descoberta, e outras grandes descobertas serão feitas, o que causará um grande volume de óleo. No entanto, é importante dizer que o petróleo não é a salvação do país, como estão dizendo. Ele dará novas oportunidades a determinadas pessoas, grupos e profissões, mas não irá resolver todos os problemas de um país como o nosso.

IHU On-Line – Para o senhor, essa questão do pré-sal deve ficar sob os cuidados da União ou deve ser submetida a leilão ou, ainda, deve ser criada uma nova estatal para cuidar dessa questão? Por quê?

Paulo Paim – Trata-se de uma questão que deveria ser amplamente debatida, visando ao esclarecimento público, pois envolve aspectos técnicos, econômicos, políticos, legais e sociais. Acredito, no entanto, que representa uma oportunidade ímpar de dispor de recursos extras de tal monta que, se aplicados de forma inteligente (educação), poderia nos encaminhar para um duradouro ciclo virtuoso. Alcançaremos o Primeiro Mundo não apenas vendendo commodities, mas sim tecnologia e know-how. E, para isto, necessitamos uma inserção social maciça via educação. Assim, a simples entrega para leilão de áreas de enorme potencial geológico e baixo risco exploratório (alta possibilidade de retorno financeiro) não parece a melhor das opções quando pensamos no Brasil e seu povo (cabe salientar que os recursos do subsolo pertencem a União). No entanto, não existe necessidade de se criar mais uma empresa estatal, que seguramente correria riscos diversos frente ao nosso histórico político. Poder-se-ia, sim, apenas aumentar o valor a ser pago pelas empresas que explorariam essas áreas de baixo risco relativo, garantindo assim a injeção dos recursos que propiciariam, então, havendo vontade política e coerção legal para tanto, nos levar a um outro patamar de desenvolvimento.

Gerson Fauth – Até hoje, a Petrobras fez um belíssimo trabalho, porque é composta por pessoas altamente qualificadas e competentes. Para descobrir o petróleo onde foi descoberto, não falando em pré-sal, mas sobre o que foi descoberto até hoje, como tirar óleo de rochas que estão muito profundas, a Petrobras precisou desenvolver grandes tecnologias que só ela detém, mostrando a capacidade de seus profissionais. Então, tirar isso da Petrobras, e criar uma nova empresa, eu acho um pouco arriscado, no sentido de que este trabalho está dando certo e pode dar ainda mais certo. É preciso, claro, criar certos mecanismos como, por exemplo, não concentrar os recursos e o conhecimento nas mãos de algumas poucas pessoas. Esse é o grande problema que pode existir. Agora, tirar da mão de uns e colocar nas mãos de outros, sem saber o potencial desses, é muito perigoso e arriscado.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios tecnológicos que serão enfrentados para que o pré-sal seja extraído de forma sustentável? Que implicações técnicas são necessárias para essa extração?

Paulo Paim – São diversos desafios. Certamente, o grau de confiabilidade do registro sísmico, um dado obtido por uma espécie de sonar que gera uma imagem do subsolo fundamental na exploração de petróleo, após atravessar milhares de metros de rochas salinas (evaporitos), representa um ponto a ser testado. Desafios pertinentes à perfuração de evaporitos, muitas vezes em ambientes sobrepressurizados e associados a altos níveis de corrosão, estão sendo enfrentados no momento, gerando um conhecimento fundamental às etapas futuras de explotação (extração) de hidrocarbonetos. Aspectos relativos à diagênese (modificação dos minerais e dos espaços entre eles, onde o óleo e o gás se alojam) em profundidades tão altas são temas de investigação atual.

Rochas e ambientes tectônicos, até então relegados a um segundo plano, visto o ciclo anterior de descobertas de campos gigantes em turbiditos (depósitos de correntes de fundo que transportam areia e cascalho para o fundo oceânico), voltam a ser considerados de forma mais incisiva (reservatórios carbonáticos e ambiente de riftes). Certamente, outras questões relativas, por exemplo, a estabilidade do fundo oceânico nas condições profundas, onde são feitas as perfurações ou a distância das áreas de produção relativa à linha de costa e zonas consumidoras (armazenamento e transporte), entre outros aspectos, merecem atenção nesta etapa ainda preliminar de investigação e quantificação de reservas.

Gerson Fauth – O grande desafio do pré-sal agora são as águas profundas e a questão da Geologia, ou seja, descobrir como farão a perfuração desse sal. Essa camada não tem alguns metros, pois pode chegar a dois quilômetros. É preciso, portanto, tecnologia da perfuração, porque trabalhar com sal é diferente de trabalhar com rocha. O sal pode ser mais duro, o que pode ocasionar problemas maiores de engenharia. Então, o Brasil “detém” essa tecnologia, mas deve desenvolvê-la mais. Só para ter uma idéia, essa questão do pré-sal passa por uma tecnologia que envolve elementos como a broca, a sonda, além de um novo desenho geológico a respeito do que existe abaixo dessas camadas de sal. Mas são necessários helicópteros de grande porte, que precisam se deslocar entre as bacias e as plataformas. No entanto, não existe um número de helicópteros suficiente para cobrir toda essa área. São coisas que vão de coisas simples a coisas bem mais complexas. São esses os grandes desafios que temos pela frente.

IHU On-Line – O que poderia ocasionar um erro nesse momento?

Gerson Fauth - A indústria do petróleo erra muitas vezes, por exemplo, o local da sondagem, mas, no caso da descoberta do pré-sal, ela sabe mais ou menos onde estão acondicionados esses óleos, o “filão”, digamos assim. O erro já está na ponta do lápis, preestabelecido, tecnicamente falando. Eu vejo como um erro grave, por exemplo, se distribuirmos mal a renda gerada com esse petróleo.

IHU On-Line – O senhor falou em brocas, em helicópteros. Que outras implicações técnicas são necessárias para essa extração?

Gerson Fauth – São muitas, dentre elas a geofísica, aparatos e o conhecimento a respeito das rochas que existem lá embaixo. Não se sabe muito a respeito da micropaleontologia, por exemplo. Isso é o que estamos fazendo aqui nos nossos laboratórios e tem ligação com a Petrobras. Estamos trabalhando junto com ela, pois há total desconhecimento de seus componentes em relação a essa área. Ou seja, ela representa um mundo totalmente diferente. Essa descoberta gerou a necessidade de formação de muitos engenheiros, geólogos e administradores, o que também é uma implicação bastante importante dentro do processo.

IHU On-Line – Para o senhor, o que significa, para a geologia brasileira, o descobrimento dessa quantidade de petróleo na costa brasileira?

Paulo Paim –
A geologia no Brasil vem, há alguns anos, experimentando um crescimento acentuado e sustentado em termos de geração de empregos e oportunidades. Não apenas a Petrobras vem requisitando geólogos, mas também outras companhias de petróleo, que passaram a investir no Brasil com a abertura do mercado, assim como uma série de companhias prestadoras de serviços. Existe também o ressurgimento vigoroso da exploração mineral no país, uma tradicional fonte de emprego para geólogos. Além disso, há diversas questões vinculadas ao meio ambiente e à água subterrânea, dois temas que vêm centralizando discussões mundiais e têm no geólogo um profissional-chave. Obras civis que necessitem de subsídio geológico como suporte para sua edificação tendem também a propiciar uma demanda profissional crescente com a aceleração no desenvolvimento do país.

Gerson Fauth – É um grande marco, porque irá possibilitar que tenhamos a oportunidade de formar – e devemos formar! – novos geólogos. Existe hoje na geologia do Brasil um boom geológico, pois as mineradoras estão procurando novos geólogos, e as companhias de petróleo estão entrando no Brasil visando à questão do pré-sal, à questão da água. Em meio a isso, já faltam geólogos. Antigamente, existia a dificuldade do estudante de Geologia entrar no mercado de trabalho, mas hoje ela não existe mais.

IHU On-Line – Nesse sentido, o que muda no ensino da Geologia?

Gerson Fauth – Há dez anos, não se falava em geologia do petróleo nas faculdades. Esse era um tema restrito apenas à Petrobras. Agora, petróleo no país não é apenas tratado por esta empresa, e, daqui em diante, com o interesse de muitas companhias de petróleo vindo para o Brasil, esse tema será comum nas universidades e fora das universidades. Hoje, já é normal encontrar pessoas que trabalham com petróleo e não são da Petrobras. Então, existe uma nova visão do mercado. Num futuro bem próximo, será bastante comum encontrar profissionais geólogos trabalhando com o petróleo.

IHU On-Line – E, agora com a questão dessa descoberta, que tipo de debate está sendo gerado entre os alunos e professores?

Gerson Fauth – Esse é um debate que está começando. Quando o presidente Lula anunciou, em novembro do ano passado, a existência do pré-sal, trouxe a público a existência de muito petróleo abaixo dessa camada de sal, gerando uma certa surpresa para alguns. No entanto, a Geologia já tinha um certo conhecimento da existência de algo ali embaixo, o que, no entanto, não suscitava debates.

IHU On-Line – É possível comparar complexidade da operação para encontrar e extrair a enorme riqueza mineral do fundo do mar com algum outro tipo de trabalho de exploração?

Paulo Paim –
Digamos que a atividade de busca (exploração) e retirada (explotação) de petróleo e gás envolve uma quantidade muito grande de profissionais de diversas áreas, como geologia, paleontologia, engenharias, química, física, matemática, informática, oceanografia. Em função dos riscos e custos envolvidos, as companhias buscam no conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico formas de diminuir a relação custo/benefício. Nesse sentido, é comum possuírem seus próprios centros de investigação, assim como envolverem-se com universidades e outros centros de pesquisa, aumentando, assim, de forma exponencial, o número de pessoas envolvidas na cadeia. Somam-se a isso os operários próprios ou terceirizados, que atuam diretamente na área operacional, assim como nas atividades meio, ambas essenciais. Acaba-se por ter um universo de pessoas envolvidas que normalmente encontra-se na casa das dezenas de milhares de pessoas em uma mesma companhia. Isto sem contar toda a cadeia industrial e tecnológica envolvida após o produto (óleo ou gás) ser retirado do subsolo.

IHU On-Line – O que implica explorar esse material, ou seja, onde começa o trabalho pela extração desse petróleo?

Paulo Paim – Fazendo-se uma aproximação simplificada deste complexo problema, pode-se dizer que o trabalho de exploração parte da bagagem de conhecimentos e dados geológicos, geoquímicos e geofísicos que uma determinada empresa possui, incluindo aí o conhecimento e experiência de seus geólogos e geofísicos. Essa base permite, então, que se determinem áreas potencialmente mais propícias à ocorrência de hidrocarbonetos e que mereçam ser investigadas com maior intensidade via aquisição de novos dados (normalmente sísmica de reflexão). Essas novas informações podem acentuar as suspeitas de ocorrência de óleo e gás via identificação de possíveis armadilhas de aprisionamento desses hidrocarbonetos. É então locado (= posicionado) e perfurado um primeiro poço (pioneiro) para testar a hipótese. Em caso de confirmação, são executados testes de produção assim como locados outros poços para delimitação da extensão do campo de petróleo. Chegando-se a uma definição mais exata das reservas, qualidade e volume recuperável, parte-se então para a fase de explotação (extração) desses recursos energéticos.

Gerson Fauth – É muito caro locar uma sonda para fazer o furo. Fala-se que o aluguel de uma sonda custa 900 mil dólares por dia, então não se pode ficar colocando sonda por aí. Num primeiro momento, é feita uma série de estudos a respeito da geologia da região. Sabe-se muito a respeito, por exemplo, da abertura dos oceanos, de como evoluiu a separação dos continentes do Brasil e África, e se uma determinada região tem mais ou menos petróleo. Há também uma série de trabalhos de geofísica, como colocar uma bomba que emite uma onda que penetra no substrato e volta com um microfone – o geofone. O tempo entre o bater e voltar será processado pelo computador e vai dar linhas embaixo do substrato, de como as rochas estão, a mil, dois mil, três mil, até quatro mil metros de profundidade. Só que quando chegava no sal, a Petrobras, antes, não se interessava muito, por se deparar com uma camada muito espessa. Quando ela começou a ver que embaixo do sal havia outras coisas, então começaram a aumentar a potência da pesquisa.

A geofísica é o primeiro ato, é o que as companhias de petróleo estão fazendo neste exato momento no mar do Brasil, ou seja, tentando descobrir o que mais ou menos teria no mar, como as rochas se comportam etc. Depois disso, é feito um furo exploratório e, com isso, se vê o que existe lá embaixo. Se com isso se descobrir petróleo, ótimo, mas geralmente eles fazem para explorar a região. Então, vem uma amostra lá de baixo e com ela nós fazemos estudos de micropaleontologia, de geoquímica, de sedimentologia, e muitos outros estudos. A Petrobras descobriu em 2007 esse pré-sal, mas já trabalha nessa pesquisa há pelo menos dez anos. Então, não é algo recente.

IHU On-Line – Na área específica que o pessoal da Unisinos estuda, a micropaleontologia, no que ela vai interferir nessa discussão?

Gerson Fauth – Nós temos trabalhado não exatamente com o pré-sal, mas sim com o pós-sal. Nós identificamos alguns “bichinhos” nesse pós-sal, como nanofósseis, foraminíferos, radiolários, palinomorfos, ostracodos. Isso porque todo o petróleo que existe tem uma idade, e esses “bichinhos” nos ajudam a identificar a idade do petróleo. A Petrobras, especificamente, conforme seja a bacia em que ela irá trabalhar, procura rochas de 90 milhões de anos, aproximadamente, só que quando a broca está trabalhando e estão vindo aqueles sedimentos todos, ela não sabe se eles têm um milhão de anos, 20 milhões de anos, cem milhões de anos. Então, junto da rocha vêm os “bichinhos”, e sabermos onde eles existem possibilita que as rochas sejam datadas.

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