Ordenação de mulheres na Igreja Católica: "Acho que é uma questão de tempo". Entrevista especial com Marinez Rosa dos Santos Bassotto

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08 Setembro 2008

Há nove anos como Deã da Catedral da Igreja Anglicana de Porto Alegre, Marinez Rosa dos Santos Bassotto defende a ordenação de mulheres. Otimista, ela diz inclusive que é uma questão de tempo a Igreja Católica também ordenar mulheres aos seus ministérios. “É uma questão de abertura teológica, de perceber que Cristo esteve acompanhado por mulheres e fez questão de chamá-las para o grupo que o acompanhava”, disse.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Marinez analisa os avanços e os debates dos anglicanos durante a Conferência de Lambeth, que ocorreu recentemente, e assim refletiu também sobre a ordenação de homossexuais e o diálogo inter-religioso, temas que, para ela, são ainda pouco discutidos por haver muito preconceito. Marinez acredita que, “com relação à ordenação de homossexuais, a coisa é um pouco mais complicada, porque não há ainda uma posição final da Igreja a esse respeito”, mas que, sempre, é preciso levar em conta “a postura de Jesus diante das relações repressivas e de discriminação”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A Igreja Anglicana é bastante autônoma. Dom Orlando Santos de Oliveira, bispo anglicano da diocese de Porto Alegre, nos disse que as Igrejas Anglicanas são Igrejas Nacionais. Qual a relação desta autonomia com a ordenação de mulheres e homossexuais?

Marinez Rosa dos Santos Bassotto – Com relação à ordenação de mulheres, posso dizer que houve muita discussão dentro da Comunhão Anglicana durante um período longo. Esse tema foi muito importante dentro do anglicanismo. Depois de muito debate, se começou a aprovar esse tipo de ordenação. Porém, a primeira mulher foi ordenada antes da aprovação. Era chinesa – se chamava Li Tim Oi – e fazia parte da diocese de Hong Kong. Foi ordenada como diácona durante a Segunda Guerra Mundial, quando os homens estavam lutando e não havia quem atendesse pastoralmente as comunidades. Em 1944, foi ordenada como presbítera.

No entanto, na Conferência de Lambeth de 1948, declararam nulas as ordens dessa mulher. Apenas em 1968, a comunidade anglicana começou a discutir mais efetivamente a ordenação de mulheres, inclusive ao Episcopado. A Conferência daquele ano declarou que toda Igreja Anglicana deveria estudar o assunto da ordenação feminina. A partir daí, em várias partes do mundo, o debate iniciou e várias províncias chegaram à conclusão de que em nenhum lugar das Sagradas Escrituras havia algo que impedia as mulheres de terem acesso às ordens sagradas. Então, em 1970, as dioceses de Hong Kong e Macau aprovaram a ordenação de mulheres ao presbiterado e reconheceram como válidas as ordens de Li Tim Oi. Em 1972, a Igreja estadunidense aprovou a ordenação de mulheres e um ano depois a igreja do Canadá fez o mesmo. E, desta forma, sucessivamente várias províncias foram aprovando.

Ordenação de mulheres no Brasil

O Brasil aprovou em 1985. A primeira mulher ordenada aqui foi a segunda na América Latina. A Igreja Anglicana brasileira aprovou a ordenação de forma bastante ampla, interessante, importante e avançada. Ela permitiu, de uma só vez, a ordenação de mulheres às três ordens sagradas. Em outras províncias isso ocorreu em etapas. Há províncias, ainda hoje, dentro da Comunhão Anglicana, especialmente as africanas, que não aceitam a ordenação de mulheres. Contudo, de uma forma geral, a ordenação já é aceita, mesmo que ainda sofra resistência, especialmente na relação ecumênica.

Ordenação de homossexuais

Com relação à ordenação de homossexuais, a coisa é um pouco mais complicada, porque não há ainda uma posição final da igreja a esse respeito. Algumas dioceses e províncias ordenam, como foi o caso da consagração de Gene Robinson, nos Estados Unidos. Sua ordenação gerou a grande polêmica a respeito deste assunto, porque ele foi ordenado bispo enquanto era assumidamente homossexual. Isso gerou várias controvérsias, e alguns grupos minoritários se separaram da Igreja Anglicana. A Conferência de Lambeth prometeu discutir o assunto, o que levou alguns bispos, principalmente da África do Sul, a boicotarem o evento. Mas parece que dentro da comunidade anglicana o total de províncias que se colocam frontalmente contra são cinco. O Conesul da América é uma delas. A discussão é mais recente. Quem fala sobre este assunto o coloca sob um viés pastoral, pois uma das características da Comunhão Anglicana é a convivência entre diferentes. A discussão tem caminhado nesse sentido, mas se pede que nenhuma diocese tome uma decisão que possa ferir a unidade.

Durante a Conferência de Lambeth, pediu-se para discutir o tema com cautela e, desta forma, discutir mais profundamente sobre a ordenação de homossexuais, a fim de se chegar a um consenso ou, pelo menos, à posição geral da comunidade anglicana. Sabemos que ordenações acontecem, principalmente em relação a pessoas que não se declaram oficialmente, para que possam proteger as suas próprias vidas. Sabemos que mesmo dentro de outras Igrejas isso também existe.

Esta é uma realidade da sociedade atual, que está se abrindo com relação à aceitação das diferenças e do diferente. A Igreja não podia ficar fora disso e fazer de conta que este assunto não existe. A discussão às vezes é dolorosa, mas acredito que o processo vem crescendo e segue para uma questão pastoral e para o reconhecimento do ministério para além da orientação sexual, porque uma pessoa não é menos ou mais vocacionada por causa da sua orientação vocacional.

IHU On-Line – Estamos passando por inúmeras transformações no mundo contemporâneo. Como são realizadas as reflexões sobre o desenvolvimento da Igreja Anglicana durante a Conferência de Lambeth?

Marinez Rosa dos Santos Bassotto – A Conferência de Lambeth sempre vai tratar de temas muito atuais ligados a várias áreas e em a relação à própria Igreja diante destes temas. Desde as primeiras conferências ocorreu desta forma, tendo o intuito de tratar de temas da atualidade, que digam respeito à vida das pessoas e estejam em consonância com o mundo – como ética, justiça social, guerra, condenação de totalitarismo, abertura da igreja e até dívida externa. Os assuntos têm a ver com a realidade mundial e com temas que nos afligem.

A Conferência não tem caráter administrativo, nem de ingerência sobre as províncias e dioceses. Os representantes presentes no evento trabalham mesmo em caráter consultivo, mas a Igreja se posiciona e toma decisões a partir de seus bispos. As conclusões chegam a nós posteriormente, porque todo o material que foi feito lá é, depois do evento, elaborado e enviado para todas as províncias e, então, emitido a todas as dioceses. Hoje, esta comunicação está diferente, pois os meios de informar estão mais avançados. Esta conferência, por exemplo, nós acompanhamos pela internet. Além disso, tínhamos uma forte expectativa com relação às decisões que seriam tomadas na conferência. A partir dessas discussões e do processo de reflexão e oração que é feito lá, a Igreja se posiciona e se transforma. Isso segue acontecendo.

IHU On-Line – Um dos principais temas tratados nesta conferência foi a Bíblia, que foi usada para fundamentar valores e conceitos éticos em torno de alguns temas. Como a senhora avalia questões como o casamento, o posicionamento das mulheres e a homossexualidade dentro da Bíblia?

Marinez Rosa dos Santos Bassotto – Temos de compreender qual é a visão que a Igreja tem a respeito da Bíblia. É preciso deixar claro que a Bíblia é um dos pontos que identificam a nossa fé. Uma das conferências de Lambeth determinou quatro pontos que seriam marcas da unidade dentro da própria Igreja e que poderiam dirigir a nossa relação até na área ecumênica. A Bíblia como suficiente regra de fé é uma delas. No entanto, precisamos deixar claro que nossa visão sobre a Bíblia não é fundamentalista; ela é a palavra de Deus e revelação da manifestação de Deus na história de um povo. A Bíblia é atual para nossos problemas, mas Deus segue se revelando na história da humanidade. Ela é a palavra de Deus, mas foi escrita por mãos humanas e traz consigo a cultura de quem a escreveu.

Devemos considerar todas as essas coisas e cada vez mais na Comunhão Anglicana está se procurando não deixar de olhar o texto no seu contexto. Tudo isso nos leva a olhar adiante para que possamos ver o que Deus está revelando hoje para nossa história. Isso fica evidente quando percebemos a postura de Jesus em relação àqueles que eram discriminados e desconsiderados na sociedade hebraica da época, que disseminava o mandamento supremo do amor e da unidade. A Bíblia está cheia de elementos que nos levam muito mais à aceitação das diferenças, à busca de um convívio fraterno e a perceber, principalmente para nós, cristãos, a postura de Jesus diante das relações repressivas e de discriminação. Esse é um testemunho de como Ele se posicionava. Eu vejo a Bíblia como luz. A discussão é feita com base nela, mas também a partir da revelação de Deus na história atual, porque segue acontecendo.

IHU On-Line - Que divergências permanecem abertas?

Marinez Rosa dos Santos Bassotto – A Comunhão Anglicana é como uma grande família e como tal ela não tem muitas áreas centralizadoras. Ela é formada por forças internacionais e regionais autônomas. O que nos une é uma disciplina de amor fraterno. Então, na qualidade de irmãos e irmãs, nós corremos o perigo de desentendimento, de conflitos, de posicionamentos divergentes e irredutíveis quanto a questões às vezes secundárias. Isso acontece em todas as famílias e é natural. Nós não somos seres humanos perfeitos; somos pecadores. Nesse sentido, várias questões vão ficar em aberto, como a sexualidade humana e a ordenação feminina.

O grande testemunho que a Igreja Anglicana tem a oferecer à Igreja Cristã é o fato de, mesmo quando vários grupos acreditavam que a Comunhão Anglicana acabaria e de que essa Conferência de Lambeth marcaria o fim da Comunhão Anglicana, houve uma reafirmação de que se quer continuar em comunhão. Então, o que a Igreja Anglicana tem a oferecer como cristandade é a possibilidade de conviver na diferença, ou seja, a unidade da diversidade. Eu posso, por exemplo, não pensar como tu pensas, mas sento contigo e sou capaz de comungar e celebrar contigo, mesmo não concordando. Acho que esse é um marco da Comunhão Anglicana, ou seja, a capacidade de estar junto, mesmo não sendo igual.

Nessa conferência, as questões que ficaram abertas foram as da homossexualidade e da ordenação de mulheres, principalmente em relação ao Episcopado. Elas permanecem abertas e vão continuar assim. Há províncias que vão levar muito tempo para aceitar ou talvez nunca aceitem e de qualquer forma seguem fazendo parte da mesma comunhão de igrejas porque essas coisas são secundárias, ou seja, os laços de unidade são mais fortes e mais importantes.

IHU On-Line - Que outros temas a Igreja deveria discutir mais?

Marinez Rosa dos Santos Bassotto – Todos os temas da atualidade. Para mim, um tema bastante importante da Igreja é o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Esses temas são pouco tratados pela Igreja. Acho que a Igreja deve se envolver, sim, nas questões sociais e se posicionar diante delas como testemunho e denúncia. Deve se envolver, por exemplo, com questões ligadas à violência contra a mulher, à pedofilia e à sustentabilidade ecológica. A Igreja até trata desse temas, mas precisa abrir mais espaço para a discussão deles.

O diálogo inter-religioso é pouco discutido, muito pelo preconceito que há em torno dele. Para nós do Ocidente, é mais tranqüilo falar em diálogo inter-religioso. No Brasil, vivemos numa sociedade pacífica, onde, bem ou mal, as pessoas são aceitas e as diferenças também. Mas sei que em outras partes do mundo as relações inter-religiosas estão muito complicadas, gerando mortes inclusive. Para nós, na parte ocidental, é mais fácil conviver com elas. Percebo que às vezes a Igreja fica um pouco temerosa em relação ao diálogo inter-religioso por não saber bem o que ele representa.

IHU On-Line – Como a senhora acha que a ordenação de mulheres na Igreja Anglicana pode influenciar nessa questão na Igreja Católica?

Marinez Rosa dos Santos Bassotto – A meu ver, a ordenação de mulheres na Igreja Católica é uma questão de tempo. Talvez bastante tempo. As Igrejas estão se abrindo para a questão da ordenação de mulheres. É claro que a Igreja Anglicana, ao ordenar mulheres, apresenta um marco forte. As Igrejas Protestantes têm uma caminhada diferente. É uma questão de abertura teológica, de se perceber que Cristo esteve acompanhado por mulheres e fez questão de chamá-las para o grupo que o acompanhava. Muitas delas o acompanharam desde seu batismo.

O texto da Bíblia que traz a descrição da pessoa colocada no lugar de Judas Iscariotes conta que, no momento da ascensão, Jesus chama os discípulos para fora de Jerusalém e, antes de ascender aos céus, diz que enviaria o Espírito Santo, pedindo que eles não fizessem nada até que isso acontecesse. Eles voltam para Jerusalém, e Pedro, dirigindo o grupo dos irmãos, convoca uma grande assembléia da comunidade, reunindo mais de 120 pessoas, como diz a Bíblia. Então, eles resolvem fazer uma escolha de quem substituiria, no grupo dos apóstolos, Judas. Então, Pedro diz quais as condições para isso acontecer e afirma que devem ser pessoas que estavam com Jesus desde o início, descartando várias que não o tinham acompanhado desde o princípio. Ele diz que é preciso ser homem e então resolvem fazer por sorteio. Matias é o escolhido. Isso tudo antes de Pentecostes.

Eu costumo dizer o seguinte: se Pedro tivesse ouvido Jesus, esperado o Pentecostes, quem sabe a escolha tivesse recaído sobre uma mulher. Eles mesmos determinaram quais as características que precisavam estar presentes, ou seja, foi uma decisão da Igreja e não de Cristo. As mulheres estiveram presentes nas comunidades cristãs com liderança muito forte. Há também relatos, que não estão cânon bíblico, de mulheres que tinham função sacerdotal nas comunidades. Acho que é uma questão de tempo e abertura teológica para a ordenação de mulheres.


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