Um caminho de acesso a Deus. Entrevista especial com Vitor Galdino Feller

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25 Abril 2008

“O risco possível de desacato à experiência religiosa é fazer da profissão de teólogo apenas um meio de subsistência, sem relações e compromissos com a fé da comunidade a que se serve, um pedestal que o afasta da vida concreta de seus irmãos de fé.” Essa é a constatação do teólogo Vitor Galdino Feller sobre a profissionalização e reconhecimento dos teólogos pelo Estado brasileiro. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Feller falou sobre a presença e o papel da teologia e a religião na sociedade contemporânea e sobre o projeto que tramita no Congresso Nacional e como ele influencia a teologia atual.

Doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Vitor Galdino Feller é, atualmente, diretor e professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, em Florianópolis. Entre suas obras destacamos Jesus de Nazaré – Homem que é Deus (Petrópolis: Vozes, 2004) e Dios Trinidad: la vida en el corazón del mundo (México DF: Dabar, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor, qual é o papel da teologia na sociedade contemporânea?

Vitor Galdino Feller – A religião está na ordem do dia. Está na moda, na mídia, no mercado. Somos constantemente invadidos por notícias, reportagens, espetáculos, eventos que têm no centro a religião. Vivemos em diálogo com pessoas e grupos que seguem religiões diferentes. O pluralismo religioso põe em evidência expressões, fenômenos, doutrinas, éticas, ritos e mitos das mais diferentes religiões ou igrejas. Por isso, juntamente com a filosofia e a ciência da religião, a teologia é chamada em causa para dar o seu parecer sobre tudo isso. Essas três áreas da ciência não podem fugir da questão, sob pena de se negarem como ciência. Com efeito, é próprio da ciência deixar-se questionar, buscar o conhecimento sempre mais amplo e profundo sobre determinada realidade. O campo religioso é algo tão instigante que chegamos a ter três áreas científicas que buscam dar sua interpretação sobre a busca humana do sagrado.

São três os caminhos de acesso a Deus que a humanidade seguiu em sua trajetória histórica; caminhos diferentes, mas complementares. O primeiro é o caminho da razão, sistematizado pela filosofia, que pode levar a um conhecimento das verdades naturais sobre Deus; como a filosofia pensa a raiz das coisas, levantando a questão do sentido, dos valores e dos fins da existência, sendo provocada a questionar-se sobre a existência de Deus e seus atributos. Estamos no campo da filosofia da religião. Embora muitos filósofos não se põem mais essa questão, o fato é que a questão permanece. A filosofia não pode permanecer de viseira baixa, mas sim deve deixar-se provocar por todas as questões, sobretudo aquelas que lhe são mais instigantes. Temos, depois, o caminho das religiões, sistematizado pela nova ciência – as ciências da religião –, que trabalha sobre a busca humana de Deus a partir da história das religiões, bem como dos fenômenos (mitos, símbolos, ritos, doutrinas e ética) e dos fundamentos (filosóficos, antropológicos, sociológicos, psicológicos etc.) da religião. Temos, por fim, o caminho da fé, como resposta à revelação, sistematizado especificamente pela teologia, ciência da fé, que busca entender a automanifestação, a revelação de Deus nas mais diferentes religiões, e a resposta humana a essa revelação. Nesse caminho, é o próprio Deus que se manifesta, que se revela. A teologia cristã explicita a fé em Jesus Cristo como plenitude da revelação divina, uma via acessível a todos, fácil, segura e pura.

Nesse sentido, a teologia, qualquer que seja a proveniência de sua confissão religiosa, é importante para o conhecimento – cada vez mais racional, e, portanto, científico – das diversas religiões que compõem o tecido histórico-cultural da humanidade. A teologia contribui para explicitar e pôr em debate os valores éticos – de liberdade religiosa, dignidade humana, justiça social, paz universal, pluralismo ético e religioso etc., presentes em sua confissão religiosa, que possam ser úteis para a construção da cidadania e a transformação da sociedade.

IHU On-Line – Como essas mudanças propostas pelo MEC e pelo Congresso Nacional afetam a teologia praticada e ensinada hoje?

Vitor Galdino Feller – A possibilidade dada pelo MEC para o reconhecimento de cursos de Teologia provoca os estudiosos da área a buscarem um perfil sempre mais acadêmico e científico para a teologia. Mesmo que toda teologia seja confessional, porque é ciência da fé, dentro uma determinada igreja ou religião, ela tem também uma dimensão racional. Ela deve explicitar a racionalidade e a razoabilidade da fé, com vistas a evitar expressões fundamentalistas, fanáticas, proselitistas, que são contrárias à liberdade religiosa e, portanto, desumanas.

Já os projetos de profissionalização do teólogo em tramitação no Congresso Nacional não batem com a realidade atual, nem com a tradição da ciência teológica. Se aprovados assim como estão, levarão ao descrédito a condição e a pretendida profissão do teólogo. Não se pode pretender que sejam teólogos as pessoas que realizam liturgias, celebrações, cultos e ritos, que dirigem e administram comunidades, que formam pessoas segundo preceitos religiosos das diferentes tradições, que orientam e aconselham pessoas, que realizam ação social na comunidade, que praticam vida contemplativa e meditativa e que preservam a tradição de sua religião. Na Igreja Católica, por exemplo, há uma infinidade de catequistas, ministros, missionários, sacristães, secretários paroquiais, conselheiros, coordenadores de pastorais as mais diversas etc., que nem sequer estudaram teologia. A profissão dessas pessoas poderia ser outra: agentes religiosos. Não se pode considerá-los como teólogos. Além disso, não tiram seu sustento desse serviço, que exercem na forma de voluntariado e gratuitamente. É exigência da Igreja Católica que todos os candidatos ao sacerdócio estudem teologia. Nem por isso os padres são considerados teólogos. Não há que se esquecer, ainda, que, se todas as pessoas que exercem essas atividades se tornarem profissionalmente teólogos, poderão passar a exigir direitos salariais como profissionais. Além de perder-se a dimensão da gratuidade do serviço religioso, todas as igrejas deveriam tornar-se empresas, com uma série infinda de funcionários, o que tornaria inviável o exercício da fé e da evangelização e, portanto, a existência das igrejas e religiões.

Teólogos devem ser os que vivem e se sustentam do trabalho no ensino e no estudo, na pesquisa e na produção teológica. Para isso, devem ter feito, pelo menos, o curso de graduação em Teologia. A exigência de um curso de pós-graduação seria ainda mais conveniente. Em comparação com os que concluem o curso de direito e devem fazer o exame da OAB para serem considerados e poderem exercer a profissão de advogados, também o concluinte de uma graduação em Teologia, para exercer a profissão de teólogo, deve qualificar-se academicamente para isso. A própria palavra “teólogo” traz em si, etimologicamente, a exigência do estudo, da ciência, do pensamento.

IHU On-Line – Os proponentes desse projeto que está tramitando no Congresso Nacional têm trajetórias profissionais como pastores de denominações religiosas que historicamente vêem a teologia com suspeita, como ressaltou o professor Ricardo Willy Rieth. Esses proponentes têm ainda rejeitado a formação acadêmica superior em Teologia. Como o senhor analisa esse fato?

Vitor Galdino Feller – Esses projetos desrespeitam a história da teologia e, portanto, de muitíssimos cientistas que se deram ao trabalho de estudar, ensinar, pesquisar e publicar produções científicas sobre a fé e os fenômenos religiosos. Esses projetos deixam a impressão de que tudo está começando agora. Além disso, esquecem que toda religião tem uma dimensão racional, que precisa ser explicitada, sob pena de ficar no emocionalismo, no devocionismo, ou de levar ao fanatismo, ao exclusivismo. Desvios perigosos para a fé, a religião e a sociedade. Fé sem razão é tão perigosa para o ser humano e a comunidade humana quanto a exacerbação da razão, na forma de racionalismo fechado ao mistério.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o ensino da Teologia no Brasil, hoje?

Vitor Galdino Feller – Há um aumento considerável de cursos de Teologia no Brasil. Quanto mais cursos de Teologia houver, quanto mais pessoas, sobretudo lideranças leigas, fizerem teologia, mais a teologia deixará de ser eurocêntrica, clerical, androcêntrica. Ao mesmo tempo, mais as nossas igrejas e religiões poderão contribuir – para além de sua própria renovação e refundação – para a construção da ética, da solidariedade, da cidadania, do senso e da prática da justiça. Isso é comprovado pelo histórico da teologia da libertação e, agora, dos estudos sobre o pluralismo religioso tão marcante no país.

IHU On-Line – O senhor, certa vez, fez uma reflexão sobre o "chamado". Como reflete sobre essa questão quando pensamos a teologia como teoria, prática e sua presença nas universidades?

Vitor Galdino Feller – Uma verdadeira universidade, para ser fiel à sua finalidade, não pode fugir das questões religiosas, que também fazem parte do universo das perguntas que incomodam e desafiam a razão. A universidade não pode, portanto, descartar a teologia. Afinal, muitas universidades surgiram, na Idade Média, tendo como embrião a teologia. Como ciência da fé e da experiência religiosa, ainda que com métodos diversos das ciências exatas, a teologia tem muito a dar à acumulação e à evolução do pensamento. Já é voz comum, por exemplo, em que pesem os conflitos constantes entre razão e fé, que a ciência moderna deve muito do seu ser, de suas raízes e de suas finalidades, à fé cristã e, portanto, à teologia, como explicitação racional dessa fé. Nesse sentido, todo teólogo é chamado a exercer uma presença pública, a ter voz, a ser provocador, para além de sua comunidade eclesial, também no mundo da universidade, da mídia, da opinião pública.

IHU On-Line - Pensar a teologia como profissão pode vir a ser um desacato à experiência religiosa pressuposta no fazer teológico?

Vitor Galdino Feller - Não creio. Afinal, na prática, a profissão de teólogo já existe. Não é oficializada pelo estado brasileiro, como o é em alguns países da Europa. Mas existe na realidade da Igreja Católica e das igrejas protestantes históricas. Nessas igrejas, a teologia já é uma profissão. Nos dois sentidos da palavra: ocupação, ofício, emprego, que requer conhecimentos especiais; e declaração ou confissão pública da fé, na medida em que se ensina e se publicam textos sobre ela. O risco possível de desacato à experiência religiosa é fazer da profissão de teólogo apenas um meio de subsistência, sem relações e compromissos com a fé da comunidade a que se serve, um pedestal que o afasta da vida concreta de seus irmãos de fé.

IHU On-Line – Que desafios éticos a teologia precisa enfrentar hoje?

Vitor Galdino Feller – Mostrar os valores da própria fé e da experiência religiosa de sua comunidade eclesial, valores que são úteis para o bem comum. Isso ela o fará na medida em que deixar de lado os penduricalhos da fé e for ao profundo da vivência religiosa, na medida em que souber trazer os valores do passado e pô-los na esteira da criatividade, na busca da ressignificação dos ritos, das doutrinas, das funções e ministérios, e dos compromissos éticos.

IHU On-Line – A possibilidade de criação de um Conselho Nacional de Teólogos muda, de que forma, a relação entre a Igreja e o Estado?

Vitor Galdino Feller – Indiretamente, sim, se esse conselho fosse constituído por verdadeiros teólogos – professores, pesquisadores, produtores de conhecimento. Nele deveria ou poderia acontecer maior diálogo entre estudiosos de diversas igrejas e religiões, além do diálogo entre razão-ciência e fé-religião. Isso poderia afetar a relação da Igreja (ou das igrejas e religiões) com a ciência, a academia, e, por extensão, a relação da Igreja com a sociedade (a universidade, a mídia, a opinião pública etc.) e, enfim, com o Estado. Imagino, porém, que isso se daria não na forma de confronto, mas de colaboração e empenho comum pelo bem de todos.


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