Tecnobiociências. "Diante do menor risco, devemos parar". Entrevista especial com Vera Lúcia Caldas Vidal

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Em busca de cliques, sites e blogs resolveram "matar" Dom Pedro Casaldáliga

    LER MAIS
  • Dentro de um inferno, algo do paraíso não se perdeu. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS
  • “Pandemia causará um desencanto que chegará às ruas”, afirma Mike Davis

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


16 Novembro 2007

Nanotecnologias, Transgênicos, clones, genoma, genética modificada: até que ponto podemos interferir no meio ambiente para o bem do homem? Como relacionar ética, meio ambiente e filosofia? Hoje, vivemos um período de inconsistência epistemológica em relação ao conceito e ao desenvolvimento da bioética . Por isso, a união da filosofia e da ciência seja uma forma de repensarmos nossos avanços, a partir daquilo que fazemos com o meio em que vivemos. Questões como essas foram debatidas com a professora Vera Lúcia Caldas Vidal, na entrevista que segue, em que ela falou também da distância que por muito tempo manteve separadas a filosofia e ciência. Segundo ela, “diante do menor risco, devemos parar. Se não sabemos o impacto das sementes transgênicas nos próximos dois bilhões de anos, então devemos ter cuidado com o que estamos fazendo hoje”, afirmou Vera, durante o encontro com a IHU On-Line, nesta entrevista realizada pessoalmente.

Vera Lúcia Caldas Vidal é graduada e mestre em filosofia, pela PUC-Rio. Obteve doutorado, também em Filosofia, pela Universidade de Paris, na França. Atualmente, atua como pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. É autora de Os enunciados de identidade - Uma análise filosófica (Rio de Janeiro: Gráfica da Puc-Rio, 1977).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A senhora une a ciência e a filosofia. No entanto, essas são áreas que, embora tenham surgido juntas, andavam afastadas. Com a biotecnologia e os avanços desta ciência em relação às pesquisas sobre a evolução do homem, qual é, hoje, a importância de romper esse bloqueio e efetivar a união entre a ciência e a filosofia?

Vera Lúcia Caldas Vidal – Bem, eu estudo a relação da Filosofia com as ciências da vida e da saúde. Desde os cientistas filósofos antigos, que eram uma coisa só, porque não havia diferença entre ciência e filosofia, o filósofo era amigo da sabedoria, um sofhos, um sábio, isto é, aquele que se interessa em conhecer os significados das coisas que nos cercam, do próprio homem e sua relação com o homem, sob todos  os aspectos, como o físico, metafísico, social etc. O filósofo era quem tinha interesse em ter essas respostas da forma mais global possível. Tanto que os filósofos antigos constroem sistemas de interpretação em que todas as questões básicas teriam a resposta para as diversas áreas da relação da filosofia com o mundo e com o homem, com a realidade social, entre outros elementos. Então, você pode dizer, que do início das reflexões do homem sobre si e sobre o mundo até propriamente o início da ciência moderna, no século XVII, a filosofia e a ciência eram a mesma coisa. A ruptura começou no século XVII, por meio das chamadas ciências experimentais, que começaram a desenvolver pesquisas, em que se começava a ter uma comprovação empírica, ou seja, não eram muitos teóricas, utilizando métodos mais ligados à realidade objetiva. Surgiu, pelo menos, o ideal de que o saber científico devia se basear na experimentação científica. Bom, nesse ponto começou a separação. As ciências humanas, a partir do século XVIII, começam a construir uma metodologia própria e a sair do campo da filosofia. Assim, vão surgindo os campos específicos: sociologia, psicologia, antropologia etc. No século XIX, acontece uma bela ruptura geral, e cada saber irá desenvolver sua metodologia própria e querer ser independente, impondo limites ao seu campo. Isso ocorre porque nesse século os métodos elementares começam a se sofisticar por causa das tecnologias e seus avanços. O século XX começa assim com cada um em seu campo. A partir da metade do século XX, começa a se compreender que não é possível se trabalhar sozinho.

A partir dos anos 1970, 1980, inicia-se a grande moda da interdisciplinaridade, da transdisciplinaridade, da multidisciplinaridade e volta a se reunir os campos outra vez, surgindo áreas como a psicosociologia, a fossilbiologia, a psicobiologia. A partir daí, a filosofia começa a fazer uma reflexão sobre a ciência. Essa reflexão evolui com os neopositivistas, com o Círculo de Viena, por volta dos anos 1930, começando, dentro da filosofia, a ter uma partição. Assim, há aqueles que utilizam uma metodologia próxima do discurso da ciência e aqueles que são mais metafísicos e desenvolvem um discurso mais baseado nas argumentações, que não têm relação direta com a observação, isto é, que são mais especulativos. Cada vez mais, é possível perceber que as ciências da vida, as ciências da natureza, as ciências físicas em geral, estão procurando vir à filosofia para ajudá-la em determinados impasses que aqui se encontram na sua prática. Sobretudo, a biologia e as ciências da vida, o desenvolvimento das biotecnociências, a engenharia genética, o mapeamento do genoma humano, as clonagens, começam a levantar uma série de problemas filosóficos. Até onde levar a pesquisa científica? Quais são os limites dela? Qual é o grau de rigor que podemos esperar das nossas previsibilidades para, efetivamente, termos o direito de interferir na vida como estamos intervindo? Como podemos calcular os riscos? Como podemos acreditar nas nossas previsibilidades? As próprias ciências duras começaram a ficar meio inseguras quanto ao valor de verdade dos seus enunciados. Com isso, ocorre uma mudança em relação ao conceito de verdade.

Nós somos uma geração feliz, porque, tanto cientistas quanto filósofos, entramos no século XXI e temos consciências de que, mesmo que nossas teorias sejam uma descrição objetiva e fiel da realidade, não sabemos será a mesma coisa no futuro, porque não temos como efetivamente provar se uma teoria corresponde realmente aos fatos. Temos como demonstrar logicamente, empiricamente, os dados, mas isso não garante que uma determinada informação será verdadeira para todo o sempre. Sob esse ângulo, a verdade absoluta já não é mais meta de nenhuma pesquisa científica. A nossa de verdade ficou muito mais light no século XXI. Hoje em dia, não há mais divórcio possível entre filosofia e ciência. Todos estão dentro do mesmo barco,  conscientes da indeterminação das teorias diante dos fatos. Nenhuma teoria pode ser provada, apenas demonstrada, o que implica que eu posso revisar essa teoria um dia e até refutá-la, o que é uma marca do discurso científico, filosófico etc. As fronteiras, realmente, a cada dia, se dissolvem cada vez mais; estamos mesmo na Era de Aquarius. Atualmente, queremos, sobretudo, conhecer. Para isso, precisamos de inúmeras formas de argumentação e de leitura da realidade. Cada um vai apresentar um certo modelo de interpretação da realidade. Os modelos de interpretação podem conflituar, mas passarem bem nos testes empíricos.

IHU On-Line – A ética das ciências da saúde é totalmente filosófica?

Vera Lúcia Caldas Vidal – Você tem uma ética que é filosófica, entre outras: ética médica, ética da veterinária, ética da odontologia etc. Então, você tem éticas que são específicas de cada saber, que são mais ou menos regras e códigos. Mas as especulações sobre o que é ser ético, sobre o bem, como decidir sobre a validade de uma determinada intervenção na vida, trazem questões mais filosóficas. Isso já envolve a ética filosófica. O que quero dizer, com isso, é nem toda ética é filosófica. Quando se fala em código de ética, isso não é filosófico: trata-se de um conjunto de regras daquele saber para nortear moralmente as suas ações.

IHU On-Line – Em sua opinião, que direito o homem tem para poder interferir no meio ambiente?

Vera Lúcia Caldas Vidal – A minha teoria, e cada um terá a sua, pois não há uma teoria unificada, é de que caiu o mito de que o homem é um ser superior capaz de colocar a natureza a seu serviço. Isso é um mito construído, por exemplo, nas religiões, onde o homem é o principal ser e ele é valorizado. Um mito também da época do racionalismo exacerbado, em que o homem é considerado o único ser racional. Desse modo, você concede um poder ao homem por ele ser o único ser espiritual, ligado a uma transcendência, que seria Deus, daí o mito religioso. Os discursos científicos racionalistas irão valorizar o homem, porque ele é o único ser racional capaz de interpretar a realidade. Aí se criou o princípio filosófico de que, na medida em que o homem desenvolveu tecnologias, ele é capaz efetivamente de colocar a natureza a seu serviço. Na época antiga e medieval, o saber era usado para contemplar e não para interferir. A noção de interferência se deu a partir do século XVII, sobretudo com a revolução tecnológica, que deu o poder de interferir cada vez mais. A questão ética precisa ser debatida, portanto, muito seriamente. É preciso avaliar os argumentos e eu, pessoalmente, não vejo nenhum que possa justificar que o homem seja um ser superior, capaz de dominar, transformar, manipular a natureza em seu favor. Tudo isso precisa ser feito com muita consideração ética. Por exemplo, o homem tem o direito, por exemplo, de construir uma hidrelétrica e afetar gravemente o meio ambiente? Se não construí-la, fica-se sem luz e sem ela há um desconforto para ele. Como é que fica? É uma questão extremamente complexa para ser resolvida e, infelizmente, não acaba sendo resolvida em nível filosófico, mas sim nos planos econômico e político. Para mim, diante do menor risco, devemos parar. Se não sabemos o impacto das sementes transgênicas nos próximos dois bilhões de anos, então devemos ter cuidado com o que estamos fazendo hoje. Penso, então, que é melhorar estabelecer um limite.

IHU On-Line – As área de humanas e biociências da saúde estão conscientes dessa interferência que o homem está fazendo na natureza e nas conseqüências que isso pode ter para a Ética Mundial?

Vera Lúcia Caldas Vidal – Eu afirmo o seguinte: todos estão bastante conscientes, pois a mídia tem divulgado os problemas. Uma coisa nem é tanto divulgar o problema, e sim que tipo de teorias se pode desenvolver para atacar esse problema. Eu acredito que as áreas humanas, especialmente a filosofia, ainda apresentam reflexões precárias. Os cientistas de todas as áreas parecem não estar conscientes da necessidade de desenvolver uma sabedoria mais empírica, mais voltada para essas questões. Acaba ficando tudo excessivamente pragmático. Parece que os filósofos estão fora desse tipo de área. Parece implicar em temas menos nobres; eu não sei bem o que acontece. Mas, a bem da verdade, é muito difícil nós encontrarmos filósofos e cientistas humanos sociais que efetivamente sejam mergulhados profundamente nessa questão, tentando desenvolver metodologias de análise, argumentos, concepções que podem efetivamente ajudar a tratar essas questões num nível rigoroso, objetivo, demonstrável e tudo o mais.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Tecnobiociências. "Diante do menor risco, devemos parar". Entrevista especial com Vera Lúcia Caldas Vidal - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV