Movimento dos Sem Mídia: propostas e indagações. Entrevista especial com Eduardo Guimarães

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28 Outubro 2007

Um novo movimento acaba de surgir: é o Movimento dos Sem Mídia. Foi fundado por Eduardo Guimarães, um vendedor de autopeças que sempre esteve ligado, como leitor/receptor, às várias mídias, a partir de um blog onde contestava certas manifestações da mídia que defendiam interesses apenas dos donos das empresas de comunicação. Depois de um caloroso debate e de muitos adeptos ao seu sentimento de "sem mídia", Eduardo convocou os leitores de seu blog para organizarem uma manifestação em frente à Folha de S. Paulo, que aconteceu no dia 15 de setembro. A partir daí, tornaram o movimento legal e fundaram uma ONG. O intuito de Eduardo, com este Movimento, é lutar por uma mídia plural e ética. "Hoje, a imprensa coloca o país contra a parede, fazendo com que se tenha medo da desmoralização", contou-nos em entrevista realizada por telefone e concedida com exclusividade à IHU On-Line.

Durante a conversa, Eduardo falou sobre como surgiu o movimento, de suas primeiras manifestações e críticas em relação à mídia e da proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo. Para ele, o movimento é uma forma de canalizar um sentimento que está sendo guardado pelas pessoas que estão preocupadas com os rumos que os grandes veículos de comunicação estão dando ao País.

Eduardo Guimarães é o criador do Movimento dos Sem Mídia, tem 47 anos e não tem ligações profissionais com o jornalismo. É gerente de exportação de uma fábrica de autopeças no interior do estado de São Paulo. Ele contou-nos que é casado há 25 anos e tem quatro filhos e uma neta. "A mais velha já é casada e a mais nova tem oito anos e nasceu com paralisia cerebral", disse.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como nasceu a idéia de organizar o Movimento dos Sem Mídia?

Eduardo Guimarães – O Movimento dos Sem Mídia (MSM) começou a fermentar na minha cabeça nas eleições presidenciais de 1989, quando eu percebi que a imprensa do País inteiro fazia campanha para o Fernando Collor de Mello. No primeiro turno, eu havia votado no Mário Covas e, no segundo, optei por votar no Lula, porque eu não confiava no Collor. Naquele tempo, eu percebi que acalentava uma idéia de que o PT era um partido muito radical, ao contrário do que se diz hoje. O apoio aberto da mídia ao Collor, me deixou muito inconformado, porque eu comecei a ver que não se conseguia ler nada de forma imparcial. Na época, eu era leitor do Estadão, e então comecei a tomar contato com o que eu julgava ser uma forma da mídia de impor suas idéias e esmagar as divergências.

Nos anos seguintes, eu fui vendo que o processo era esse mesmo. Em 1994, eu comecei a escrever cartas para os jornais e durante todos esses anos eu vim me saturando cada vez mais com a mídia, não só por questões políticas, mas por questões culturais. Isso porque a mídia brasileira é muito ruim. Passamos por campanhas eleitorais, como, por exemplo, a de 1994, na qual a mídia teve um papel preponderante, no meu entender, para eleger o Fernando Henrique Cardoso. Em fevereiro 2006, eu criei um blog no qual passei a abordar, a partir da minha ótica, o tema “imprensa”. Como a questão política se tornou muito destacada nesse processo midiático, eu foquei muito mais no tratamento que a mídia dá à política, sobretudo a mídia jornalística. Esse blog passou a se dedicar a denunciar procedimentos e tudo isso porque eu e muita gente entendiamos que o País estava sendo atrapalhado em relação a sua governabilidade. O País, inclusive, chegou a ser colocado em risco. Eu percebi, inclusive, torcida de alguns veículos para que o País ficasse mal, para que o risco-país e a economia piorassem, porque essas pessoas que controlam a mídia no Brasil, por conta de suas motivações político-ideológicas, me parecem muito mais preocupadas com a política do que com o Brasil em si.

Como muita coisa que possa acontecer ao País não as afeta diretamente, me parece que se chega a querer ver o País num estado ruim para que vejam prevalecer os seus desígnios políticos. Quando nós chegamos, há pouco tempo, na época do julgamento dos 40 denunciados pelo Procurador Geral da República no escândalo do Mensalão, aconteceram atos chocantes, como a invasão do notebook do ministro Levandowski. Isso é uma espécie de pressão da mídia sobre Supremo e me colocou em estado de alerta. Porque estamos falando da Suprema Corte do País, ou seja, um poder da República encostado na parede por meia dúzia de empresários do setor de comunicação, isso é muito sério. É a Folha espionando o Ministro do Supremo, e a Globo monitorando o Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência. Isso me parece coisa de um estado policial e praticado não pelo Estado, mas sim por uma empresa privada contra o Estado, contra gente que foi eleita, que galgou carreira. Então, eu acredito que a imprensa chegou a um ponto onde passou a perder os limites.

Ninguém votou no dono da Veja, no dono da Globo, no dono do Estadão, ninguém deu um voto a essas pessoas. Como é que eles têm mais poderes do que aqueles que governam o País? A imprensa de qualquer lugar do mundo tem obrigação de fiscalizar o poder, mas dentro de limites. O respeito às autoridades é uma condição dos regimes democráticos. No dia primeiro de setembro de 2007, um dia posterior à reportagem da Folha sobre o caso do Ministro do Supremo, eu escrevi um artigo intitulado “Isso tem que parar”, onde ao final do post eu convocava os leitores a tomar uma atitude de cidadãos e protestar contra isso. A idéia de que não adianta mandar e-mails se fortaleceu, pois para os meios de comunicação, em geral, nós não temos voz, não temos direito de criticar. Não há um veículo de comunicação que se disponha a repercutir esse sentimento do movimento que idealizei. O MSM está atraindo outras pessoas com o mesmo sentimento que eu tenho em relação às mídias. Esse é o mesmo sentimento daqueles brasileiros que reelegeram Lula e ignoraram solenemente uma campanha de quase dois anos da mídia para desmoralizar o governo.

Esse sentimento difuso na sociedade precisa ser canalizado, e nós temos que unir essas pessoas de todas as partes do Brasil que estão inconformadas, que já perderam o bom humor e a paciência. Foram algumas dessas pessoas que participaram da manifestação diante de um desses veículos, que foi a Folha. Mais de 200 pessoas disseram que estavam dispostas a fazer essa manifestação. Nossa preocupação, inicialmente, era como fazer a manifestação. Levar carro de som? Megafone? Eu disse: “Olha, qualquer um manda qualquer coisa, R$ 10, R$ 5, vou comprar um megafone, vamos para frente da Folha, com um manifesto, e vamos ver se adianta”. Foi o que eu fiz. Eu escrevi um manifesto de cerca de sete laudas, e cada um enviou uma quantia de dinheiro, compramos o megafone mais potente que eu encontrei no mercado e fomos com 200 pessoas para diante da Folha. O pessoal parecia aliviado, feliz. E lá tinham de médicos a pedreiros. Algumas pessoas vieram de outros estados para participar da manifestação. Foi então que nasceu o movimento. Propriamente dito nasceu no dia seguinte à publicação pela Folha de uma notinha de 15 linhas ao pé de uma reportagem de mais ou menos 150 linhas, ou seja, 10 vezes maior, de uma manifestação que reuniu 200 pessoas no mesmo dia, só que na Avenida Paulista, para protestar contra um político com o qual a imprensa trava uma queda de braço, que é o Renan Calheiros. Aquilo foi uma bofetada no rosto de cada um que foi lá, porque, se você tem duas manifestações do mesmo porte e apenas uma ganhou uma cobertura de todos os jornais, precisa noticiar as duas da mesma forma.

A manifestação que foi feita diante do maior jornal do Brasil recebeu uma notinha dizendo que fomos para a frente da Folha para protestar contra a mídia e criticar o PT, uma coisa desse gênero. Em nenhum momento se disse isso. Esse manifesto está em vários lugares, e o que dizemos é que a mídia deve e pode criticar qualquer instância de governo, qualquer político, desde que se critique todos da mesma forma, desde que noticie e se ache culpados para o acidente com o avião da TAM, mas também para o buraco do mêtro em São Paulo, onde uma rua inteira afundou. Duas semanas depois o assunto sumiu da imprensa e até hoje não se sabe o que aconteceu. Essa foi uma tragédia com uma obra de engenharia. Eu consultei diversos engenheiros a respeito disso e verifiquei que esse tipo de obra só afunda por duas razões: catástrofe natural ou erro de projeto. Que eu saiba naquela rua onde tinha a obra da linha 4 do mêtro não houve furacão, tufão, terremoto, então, houve um erro no projeto e alguém tinha que ser responsabilizado por isso. A atitude que a gente precisa tomar tem que ser mais séria e eu propus que nós criássemos uma organização não governamental, e, assim, demos uma forma jurídica ao movimento. A partir de agora, vamos fazer mais manifestações, sempre sem insultar ninguém, sem danificar patrimônio público. Vamos fazer tudo dentro da maior legalidade. Nossas faixas na última manifestação diziam: “Não sou contra ninguém, mas a favor do jornalismo sério” e “quero que a mídia fale, mas não me cale”. Não se está pedindo muito, penso eu.

IHU On-Line – É certo que a mídia brasileira não é comprometida com o povo, com aqueles que adquirem cultura, entretenimento e informação a partir dela. Por onde o Brasil deveria começar uma reforma em relação aos seus veículos de comunicação?

Eduardo Guimarães – Essa é uma fórmula difícil de ser achada. Eu acredito que a proposta do Conselho Federal de Jornalismo tenha sido boa, mas claro que os grandes meios de comunicação, que estão fazendo o que querem e da forma que querem, calando e censurando, não gostam da proposta. Eles bombardearam o governo Lula, acossado por um escândalo, que, inclusive, evidentemente, tinha alguns fundamentos, ainda que eu não acredite que sejam aqueles que a mídia apresenta, e então se enterrou esse conselho que seria um caminho para que tivéssemos a quem recorrer. Todas as categorias têm um órgão regulador e a mídia não tem.

Eu acredito que o melhor caminho, se é que existe um melhor caminho, seria desconcentrar a propriedade da comunicação no Brasil e instituir apoio a quem queira abrir meios de comunicação. No entanto, tudo isso é muito complicado, pois se corre o risco, se o Estado for provedor desses recursos, de financiar veículos que lhe sejam simpáticos e isso é uma bomba ao invés de ser uma solução. A situação é muito complicada.

Talvez a justiça devesse olhar melhor o que a mídia está fazendo com o País, para que ações na justiça redundassem em penalização para certo tipo de conduta irresponsável. Hoje, a imprensa coloca o País contra a parede, fazendo com que se tenha medo da desmoralização. Existe uma ameaça contra as autoridades por parte da mídia, de que, se eles não votarem como a mídia quer, haverá a desmoralização. Eu não encontro um caminho fácil, mas um primeiro, que precisa acontecer urgentemente, para que se tenha algum começo, seria o Conselho Federal de Jornalismo. Significaria um começo e se poderia discutir as formas de se diluir a concentração da mídia em poucas mãos.

IHU On-Line – De que forma é preciso rediscutir a liberdade de expressão e de imprensa?

Eduardo Guimarães – O próprio MSM se propõe a isso. Nós estamos nos propondo a ir às universidades, sindicatos, toda organização, instituição, aonde for possível, porque nós somos sem mídia, então nós aceitamos qualquer mídia. Eu estou até passando por um processo muito desagradável. Eu acabei de falar com dois jornalistas do Portal Imprensa, porque eu fui entrevistado por esse veículo antes da manifestação, conversei com uma repórter que poucos dias depois da manifestação publicou um artigo tratando de um texto meu que saiu no site do José Dirceu. Antes de ceder uma entrevista a essa repórter, eu fui procurado pela assessoria do José Dirceu por e-mail, pedindo que eu escrevesse um artigo falando sobre o MSM. Na matéria que o Portal Imprensa publicou, saiu: “José Dirceu encabeça o Movimento dos Sem Mídia”. Essa reportagem foi publicada pela mesma repórter que me entrevistou. Posteriormente, ainda, o Portal Imprensa mudou o título da matéria para “José Dirceu convoca internautas a apoiarem Movimento dos Sem Mídia”. O que também não é verdade, porque eu escrevi um artigo cujo título é Apóie os Sem Mídia, e o José Dirceu não falou uma palavra sobre este assunto. Ele abriu o mesmo espaço que você está abrindo e que outros veículos abriram para que eu dissesse coisas como as que estou te dizendo. Isso é tão complicado. Dentro da Assembléia, que nós fizemos para definir a diretoria, havia um jornalista da Editora Abril incógnito, ou seja, que tem medo de participar de um movimento como esse porque ele pode perder o emprego. São essas situações que estão assassinando o sonho dos jovens jornalistas, por exemplo. Isso é democracia? Nós saímos de uma ditadura militar de 20 anos para chegar a esse ponto?

Eu estou muito preocupado com o que está acontecendo com o Brasil. Eu viajo pela América Latina, meu trabalho é vender autopeças em outros países, várias vezes ao ano, e vejo o mesmo processo acontecendo na Venezuela, na Bolívia, no Equador, na Argentina, no Uruguai. Eu gostaria de saber onde é a matriz disso tudo, porque há “filiais” em todos os países da América do Sul, pelo menos. Eu quero tomar atitudes, pois não me conformo mais em ser pisado nem pela vida nem por ninguém. Eu acho que o País precisa de gente que se engaje, de gente que tome atitudes, porque se ficarmos esperando que alguém faça algo por nós, eu não seu onde vamos parar.

IHU On-Line – Pode falar melhor do que você chama de Missão Globo?

Eduardo Guimarães – É uma espécie de aquecimento. Eu vou convocar pessoas que supostamente nos seguem, já que agora nós temos um movimento com cerca de 300 filiados, gente que manifestou intenção de contribuir com R$ 20, todos os meses para financiar o processo de criação da Ong Movimento dos Sem mídia e gente que está disposta, por estar mais próxima de São Paulo, a ir às manifestações e tentar conseguir mais associados. Nós precisamos informar as pessoas que nós existimos, mas aí estamos numa "queda de braço", em que a grande mídia esconde e a imprensa alternativa difunde. Essa imprensa alternativa está na internet, ou seja, não conseguimos sair da internet. Isso atinge uma parcela da população que já está convertida. Desse modo, estamos pregando apenas para convertidos. Nós queremos não só sensibilizar pessoas que não têm a opinião formada, expondo nossos argumentos, como também queremos falar para outras que estão insatisfeitas, têm queixas e que não sabem como canalizar e, muitas vezes, se sentem oprimidas. Em certos setores da classe média, algumas pessoas têm medo de assumir suas opiniões porque existe um certo patrulhamento. Nós queremos que elas tenham coragem de dizer o que estão sentindo. A mídia apresenta um consenso que é forjado, mas muita gente acredita. Eu digo que hoje aquele que lê jornal, assiste noticiário é muito mais desinformado do que aquele que nunca chegou perto de um periódico.

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