Conjuntura da Semana. O Papa Francisco e o ‘magistério das entrevistas’

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Por: Jonas | 15 Novembro 2013

A partir da eleição do Papa Francisco, assistiu-se, nesses meses, um rico, profundo e profícuo debate sobre a Igreja e o modo como está ou poderia estar inserida no mundo contemporâneo. Assuntos muitas vezes deixados nos porões vieram à luz para serem retrabalhados. A imensidade de artigos, entrevistas e reportagens é tamanha que seria impossível reunir em um só texto todos os desdobramentos advindos desse início de pontificado. A performance do Papa Francisco aponta para uma revitalização eclesial e dá sinais de que a Igreja, em seu devir histórico, precisa enxergar e atuar junto às necessidades concretas do ser humano contemporâneo.

 

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia. Para as análises eclesiais conta-se também com a contribuição de André Langer, que realiza traduções diárias para o sítio IHU.

Índice

O Papa Francisco e o ‘magistério das entrevistas’

Por uma Igreja que procura novos caminhos
Em prol de um encontro autêntico e fecundo
Papa Francisco: sinal de contradição
Novo espaço de diálogo entre crentes e não crentes
Pelo fim da ‘corte’ na Igreja
Uso de novos meios de comunicação

Eis a análise.

Nestes primeiros meses de seu pontificado, o Papa Francisco mostrou que é um homem da palavra falada. Privilegia a conversa direta e informal, o telefonema, a homilia e a entrevista. Precisa do calor de seus interlocutores, do contato físico. Talvez porque nele meio e mensagem constituem um único veículo de anúncio da Palavra.

“Para o Papa Francisco não há uma mensagem e um meio. Há uma mensagem que plasma e modela a forma na qual se expressa. A primeira forma é o seu próprio corpo. O Papa Francisco administra a própria corporeidade de maneira naturalmente desbalanceada sobre o interlocutor. Não tem uma compostura rígida, mas é uma flexibilidade que o leva a assumir uma profunda concentração absorvida, como acontece quando celebra a missa, por exemplo; ou um impulso no qual poderia dar a impressão de perder o equilíbrio”, disse o jesuíta Antonio Spadaro sobre o Bispo de Roma.

O recurso aos meios não tradicionais de comunicação eclesial representa uma novidade tão grande que é possível estabelecer um elo de ligação entre dois jesuítas: Matteo Ricci, no século XVI, e o Papa Bergoglio, no século XXI, o que certamente causa “desorientação” em alguns ambientes eclesiásticos não acostumados com as formas mais ‘laicas’ e ‘modernas’ de comunicação. No entanto, teologicamente, a ideia de diálogo volta ao centro do ser ‘Igreja-mundo’ na modernidade. Isso, no entanto, é sem precedentes na história dos Papas.

Nesse dia 13 de novembro, completa-se oito meses daquele momento inaudito na história da Igreja católica. Na sacada da Basílica de São Pedro, o mundo viu, pela primeira vez, apresentar-se como Papa um latino-americano e surpreendeu-se mais ainda ao ouvir ressoar a escolha de seu nome: Francisco, cujo significado já aponta um programa para o seu Pontificado.

A partir da eleição do Papa Francisco, assistiu-se, nesses meses, um rico, profundo e profícuo debate sobre a Igreja e o modo como está ou poderia estar inserida no mundo contemporâneo. Assuntos muitas vezes deixados nos porões vieram à luz para serem retrabalhados. A imensidade de artigos, entrevistas e reportagens é tamanha que seria impossível reunir em um só texto todos os desdobramentos advindos desse início de pontificado. A performance do Papa Francisco aponta para uma revitalização eclesial e dá sinais de que a Igreja, em seu devir histórico, precisa enxergar e atuar junto às necessidades concretas do ser humano contemporâneo. Mais do que um Papa que consegue atrair atenções, Francisco tem demonstrado ser, a partir do que vive, fala, simboliza, uma ponte que conduz ao caminho da reflexão, reavaliação e revigoramento das potencialidades da fé e da esperança, outrora bastante desacreditadas.

Neste sentido, vale a pena retomar, aqui, a carta-resposta e a entrevista do Papa concedida ao fundador do jornal italiano La Repubblica, Eugenio Scalfari, bem como a famosa entrevista que conferiu ao padre Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, simultaneamente publicada em 26 revistas jesuítas, no dia 19 de setembro de 2013. De um modo geral, nessas publicações estão presentes percepções, vivências e concepções que estruturam o modo como o Papa atua e vislumbra a contribuição que a Igreja deveria oferecer ao mundo contemporâneo.

Por uma Igreja que procura novos caminhos

Começando pela entrevista publicada pelas revistas jesuítas, antes de tudo, impressiona a resposta conferida à pergunta de Antonio Spadaro: “Quem é Jorge Mario Bergoglio?” “Eu sou um pecador”, responde o Papa, de imediato. Sim, Francisco expõe abertamente a sua condição de pecador, sem rodeios e sem titubear frente à sedução que talvez pudesse surgir de sua centralidade como chefe maior da Igreja. Não por acaso, sua própria experiência de vida espiritual o ensinou a fundamental importância do discernimento, que sempre leva em conta um coração humilde. “O discernimento no Senhor me guia no meu modo de governar”, aponta.

O Papa, que sente a ferida das limitações do pecado na própria alma, é benigno com as dores do mundo. Diz Francisco: “Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer os corações dos fiéis, a proximidade”. E não há proximidade sem misericórdia, sem a atitude do bom samaritano. Portanto, para Francisco, antes de se colocar à frente das grandes revoluções, “a primeira reforma deve ser a da atitude”, diz.

Durante a entrevista com Spadaro, Francisco não se exime em denunciar as barreiras que impedem essa primeira reforma. Aos que se propuseram servir, sejam ministros da Igreja, consagrados ou consagradas, mas que são incapazes de doar a vida, Francisco prega a pecha de “solteirões” e “solteironas”. Também lamenta a atitude burocrática de muitos pastores. “O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou ‘clérigos burocratas’”, diz.

Audácia e coragem. Estas são as palavras chaves de Francisco para uma mudança de perspectiva no interior da Igreja. “Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuremos ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e irao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente”, afirma o Papa.

Nesse ponto da entrevista, Francisco faz menção aos temas truncados no mundo eclesial, como o da homossexualidade, por exemplo. O Papa relembra o que disse na viagem de retorno do Rio de Janeiro, após a Jornada Mundial da Juventude: “se uma pessoa homossexual tem boa vontade e busca a Deus, quem sou eu para julgá-las?” Também frisa que não se deve continuar insistindo apenas em questões referentes ao aborto, casamento homossexual ou ao uso de anticoncepcionais. Para o Papa, mais importante do que ficar batendo na mesma tecla, é preciso deixar que as consequências morais decorram de uma proposta evangélica “mais simples, mais profunda e irradiante”.

Num outro momento da entrevista, o Papa também lamenta a interpretação equívoca que ocorre, muitas vezes, a respeito do papel dos dicastérios romanos. Quando não são vistos como instâncias de serviço ao Papa e aos bispos, “correm o risco de se converterem em organismos de censura”.

O Papa ressalta que “temos que caminhar unidos nas diferenças: não existe outro caminho para nos unirmos. O caminho de Jesus é esse”.

Entre as lacunas ainda persistentes no mundo eclesial, Francisco cita a ausência de uma “teologia profunda da mulher”. O grande desafio atual está em “refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja”.

Francisco discorre sobre a dinâmica do caminho da fé. Ela se constrói a partir da manifestação de Deus no tempo, estando presente nos processos históricos. Neste sentido, o Papa fala da incerteza. Para Francisco, “se uma pessoa diz que encontrou Deus com uma certeza total e nem lhe surge uma margem de incerteza, algo não caminha bem”. Em seguida, pondera: “se alguém tem respostas para todas as perguntas, estamos diante de uma prova de que Deus não está com ele”. Com isso, o Papa reforça, novamente, a importância do verdadeiro discernimento, uma vez que “temos que ter espaço para o Senhor, não para nossas certezas, devemos ser humildes”, reconhece.

Quando a fé é confundida com a segurança doutrinal, facilmente se converte em mais uma ideologia, nada diferente de outras já presentes na história. Francisco acentua a necessidade de se confiar em Deus, em primeiro lugar. “Deus se revelou como história, não como um compêndio de verdades abstratas”, considera. É por isso que o Papa entende que existem “normas e preceitos eclesiais secundários, já eficazes, mas agora sem valor, nem significado”. O Papa convida a Igreja a “recuperar genialidade e entender cada vez melhor a maneira como o homem compreende a si próprio hoje, para desenvolver e aprofundar seus próprios ensinamentos”.

Em prol de um encontro autêntico e fecundo

No mesmo espírito da entrevista concedida às revistas jesuítas, uma prova concreta da abertura do Papa Francisco para o diálogo e o encontro está presente na interlocução que manteve com Eugenio Scalfari, fundador do jornal italiano La Repubblica, que se considera um não crente, fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré, mas, que não busca Deus e que possui uma cultura iluminista.

Em linhas gerais, o Papa reconhece que ao longo dos séculos da modernidade, “entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, de um lado, e a cultura moderna de marca iluminista, de outro, chegou-se à incomunicabilidade”, mas que “chegou agora o tempo, e o Vaticano II inaugurou justamente a sua época, de um diálogo aberto e sem preconceitos que reabra as portas para um sério e fecundo encontro”.

Francisco ressalta que o diálogo com o outro não é um acessório secundário da existência do crente, mas “uma expressão íntima e indispensável dela”. Neste sentido, de acordo com a própria encíclica Lumen Fidei, não há espaço para a atitude arrogante por parte do crente, já que “a fé nos faz participar, em Jesus, da relação que Ele tem com Deus que é Abbá e, nessa luz, da relação que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, no sinal do amor”.

Aprofundando o tema da centralidade do amor para a vida cristã, na entrevista que também é concedida a Scalfari, o Papa apresenta a intrínseca relação entre amor e salvação: “O ágape, o amor de cada um de nós por todos os outros, do mais próximo aos mais longínquos, é, precisamente, o único modo que Jesus indicou para encontrar o caminho da salvação e das bem-aventuranças”.

Por fim, o Papa esclarece quais são as consequências de uma fé baseada neste princípio: “o nosso objetivo não é o proselitismo, mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, do desespero, da esperança. Devemos voltar a dar esperança aos jovens, ajudar os idosos, abrir para o futuro, difundir o amor”.

Diante de todos os aspectos destacados até aqui, percebe-se que para além da percepção barulhenta, ansiosa e descontrolada de muitos analistas da imprensa padrão, está se configurando um pontificado que se solidifica fortemente na autêntica experiência evangélica, conduzido pelas mãos de um Papa que não se encerra em si, mas faz transbordar aquilo que a experiência de fé foi capaz de promover em sua própria existência, sempre numa postura de diálogo e humildade.

Papa Francisco: sinal de contradição

Imediatamente após as entrevistas, vieram as reações. E estas podem ser situadas num arco que vão desde as mais favoráveis às mais críticas: há aquelas que buscam compreender as mudanças, as retomadas, e há aquelas que o fazem no sentido de perceber as descontinuidades (sobretudo em relação aos pontificados anteriores). As primeiras ressaltam a boa nova, a “primavera” de uma Igreja mais evangélica e menos burocrática, ao passo que as segundas descobrem em Francisco, prioritariamente, um desvio justamente da tradição da Igreja e um desprezo ao cargo que ocupa.

O vaticanista Andrea Tornielli destaca a passagem empreendida por Francisco: dos preceitos e das condenações à salvação e à misericórdia. E neste contexto, retoma a imagem da Igreja como “hospital de campanha”, que Francisco usa na sua entrevista. Uma Igreja que cuida dos feridos da alma, mais do que aquela que "às vezes se encerrou em pequenas coisas, em pequenos preceitos". A imagem do hospital, como lembra o teólogo italiano Enzo Bianchi, está “presente na regra de Bento, onde o abade é advertido a se lembrar de que a comunidade é composta por pessoas doentes, frágeis, fracas, necessitadas de serem ouvidas, cuidadas, guardadas, ‘miseradas’, para retomar o ‘miserando’ do lema episcopal de Bergoglio”.

Isso o leva a insistir em outros temas, a propor novas agendas, nem sempre tão caras e sensíveis à imprensa e inclusive a setores dentro da própria Igreja. Com sua linguagem simples, direta, coloquial, “reaproxima a mensagem evangélica” das pessoas comuns. “Ele diz coisas tão normais, segundo o espírito e a letra do Evangelho, que se tornam esquisitices”, diz, por exemplo, Alberto Bobbio.

No caminho da humildade e da misericórdia que ele mesmo trilha, reconhece-se “pecador”. Em teoria, nada de novo. Na prática tudo. Como reconhece o norte-americano Chris Lowney, “enquanto a maioria dos políticos ou celebridades teria dado uma resposta autopromocional a essa pergunta simples, aqui está o que o papa disse: ‘Eu sou um pecador’”.

Novo espaço de diálogo entre crentes e não crentes

Neste sentido, exige também uma nova postura em relação à própria Igreja e sua relação com o mundo e os não crentes. “À sua Igreja, Francisco parece pedir que olhe com mais amizade e envolvimento para o destino da modernidade. Que não diz respeito aos outros (os não crentes). Mas que envolve a todos nós. Justamente porque leva em consideração os destinos do humano, a Igreja não pode se limitar a julgar o mundo. Quase como se estivesse fora dele. Mas ela se sente profundamente envolvida nele, partindo naturalmente do ponto de vista que, para um cristão, é o privilegiado: o dos pobres e dos últimos, não apenas no sentido material. Desse ponto de vista, Francisco não muda, com relação aos antecessores, o seu juízo sobre o mundo. O que muda é somente a abordagem, na convicção de que isso possa se revelar mais profícuo para todos. Segundo o ensinamento do Concílio Vaticano II”. A análise é do sociólogo e economista italiano Mauro Magatti, professor da Universidade Católica de Milão.

Na sua opinião, Francisco parece criar um novo espaço de diálogo entre crentes e não crentes, para além das barreiras ideológicas. “A grande arte de Francisco é saber fazer isso em um nível que não é intelectual. Francisco fala diretamente à vida, que é de todos, do rico e do pobre, do culto e do ignorante”, enfatiza Magatti.

Mas, as palavras de Francisco ditas nas entrevistas, provocaram ruídos em outros ouvidos. Uma das fontes desses ruídos é a seguinte passagem da entrevista do Papa Francisco a Spadaro: “Não podemos seguir insistindo apenas em questões referentes ao aborto, ao casamento homossexual ou ao uso de anticoncepcionais. É impossível. Eu falei muito sobre estas questões e recebi reprovações por isso. Mas quando se fala destas coisas é preciso fazê-lo em um contexto. Além disso, já conhecemos a opinião da Igreja e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário estar falando destas coisas sem cessar. O anúncio missionário concentra-se no essencial, no necessário, que, por outro lado, é o que mais apaixona e atrai, o que mais faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Temos, portanto, que encontrar um novo equilíbrio, porque de outra maneira o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder o frescor e o perfume do Evangelho.”

Essa percepção de Francisco é um divisor de águas em relação aos seus predecessores mais recentes. Havia neles e em outras lideranças católicas “a intuição de que o anúncio do Evangelho, hoje, não pode estar separado de uma leitura crítica sobre a nova visão do homem que se estava desenvolvendo – em radical oposição ao homem criado por Deus à sua imagem e semelhança – e, portanto, sobre a consequente ação de guia pastoral”, conforme expressa o vaticanista Sandro Magister. Além disso, destaca outro ponto de ruptura: “Em sua entrevista à La Civiltà Cattolica há outra passagem chave. Quando o padre Antonio Spadaro lhe pergunta sobre o atual ‘desafio antropológico’, ele responde de maneira evasiva. Ele mostra que não percebeu a gravidade histórica da mudança de civilização analisada e contestada com força por Bento XVI e, antes dele, por João Paulo II. Ele mostra que está convencido de que vale mais responder aos desafios do presente pelo simples anúncio do Deus misericordioso, desse Deus ‘que faz brilhar seu Sol sobre bons e maus, e que faz chover sobre justos e injustos’”.

Sandro Magister volta a criticar outras vezes o abandono daquilo que ele chama de “temas antropológicos” por parte do Papa Bergoglio, referindo-se à indicação de que no seu papado os temas do aborto, do casamento homossexual ou do uso de anticoncepcionais passaram a segundo plano.

Pelo fim da ‘corte’ na Igreja

Também a entrevista que o Papa Francisco concedeu a Scalfari foi motivo de reações. Uma das quais coloca em questão inclusive a confiabilidade da entrevista.

Uma postura mais favorável é a do teólogo suíço Hans Küng, para quem “ao longo de todo o diálogo entre Francisco e Scalfari, não há um único tom equivocado. Pode-se apenas esperar que esse diálogo continue sendo um exemplo para o diálogo entre crentes e não crentes”. Küng destaca também o fato de que os dois interlocutores “enfatizaram que o seu colóquio tinha e teria o objetivo de aumentar o conhecimento com um esforço recíproco. Eles se propunham a fazer isso e souberam fazer isso encontrando pontos significativos de convergência e pontos de desacordo leal”.

Referindo-se às palavras de Francisco sobre a cúria romana, Küng diz: “O papa usou palavras muito duras, palavras que eu não esperava, palavras que poderiam ter causado um extremo desconforto até para mim se eu as tivesse usado: ‘A Corte é a lepra do papado’. Naquele momento do seu diálogo, Francisco e Scalfari realmente captaram o ponto essencial, isto é, que a Cúria romana deve ser posta novamente a serviço do gênero humano, e não a serviço de um sistema romano que não tem nada a ver com a lição do Evangelho”.

A crítica à cúria romana como corte é corroborada também pelo teólogo Walter Kasper: “O Vaticano tornou-se em algumas das suas partes uma corte. Mas ser corte não corresponde nada ao nosso tempo. Mas sobretudo não corresponde nada ao ser Igreja no sentido da Bíblia, da Escritura, dos Evangelhos. A corte, com tudo o que isto importa, não é a Igreja. É uma outra coisa”.

Além disso, Kasper defende o diálogo entre crentes e não crentes. “É um diálogo importante, me parece, porque não pode haver paz no mundo sem este diálogo. Não é suficiente que a Igreja fale e dialogue com as outras religiões e os seus líderes. O diálogo também deve ser, sobretudo, com aqueles que não crêem, com os ateus, até com os indiferentes. Somos todos seres humanos e devemos colaborar sem nos fechar sobre nós”.

Também o político italiano e fundador da Comunidade Santo Egídio, Andrea Riccardi, posiciona-se em relação a este diálogo. “Francisco se apresenta como um cristão e como um bispo. O Anuário Pontifício dedicava uma página inteira aos títulos papais. Na última edição, Bergoglio fez com que todos passassem para o lado de trás da página, exceto um. Hoje, ao nome de Francisco, acompanha-se somente o título de "Bispo de Roma". Assim ele se sente. Ele despojou o papado do aspecto do monarca que o acompanhava há mais de um milênio”, escreve.

E prossegue em suas reflexões: “O Papa Bergoglio realizou uma reviravolta. Talvez lembre a crítica que São Bernardo de Claraval dirigiu ao Papa Eugênio III, no século XII: "Tu pareces não ter sucedido a Pedro, mas sim a Constantino". Francisco disse a Scalfari com decisão: "A corte é a lepra do papado". De fato, ele não gosta do séquito eclesiástico atrás dele. Não é populismo exibido. Ele não se sente soberano”.

E conclui dizendo: “A mudança não será somente estrutural. Há uma visão a mudar. A Cúria ‘vê e cuida dos interesses do Vaticano, que ainda são, em grande parte, interesses temporais. Essa visão Vaticano-cêntrica ignora o mundo que nos circunda. Eu não compartilho essa visão – conclui o papa – e farei de tudo para mudá-la’. A Cúria está a serviço do ‘povo’: não é um slogan”.

Já o vaticanista Sandro Magister critica em Francisco sua visão estreita do primado da consciência. Em seguida afirma que “o segredo da popularidade de Francisco está na generosidade com que se conforma às expectativas da ‘cultura moderna’, e na astúcia com que evita aquilo que pode converter-se em sinal de contradição”. Ou seja, é um Papa modernista que é indulgente com a cultura moderna e que, além disso, não quer ser antipático, como o foram João Paulo II e Bento XVI.

Vale a pena lembrar que as entrevistas, em particular, do Papa Francisco estão deixando as alas mais conservadoras e tradicionalistas da Igreja de cabelo em pé.

Uso de novos meios de comunicação

Possivelmente, uma das marcas destes oito meses de pontificado de Francisco seja a sua forma de comunicação. Ele revoluciona na sua maneira de se comunicar com o mundo ao não se comunicar pelos meios convencionais de comunicação eclesial: a encíclica, a Rádio Vaticano, o jornal da Santa Sé o L'Osservatore Romano. Ao contrário, fala pelos meios 'modernos', 'laicos'. Isso explica grande parte do ‘chiado’ contra o modo de proceder do Papa Francisco. Sandro Magister, mas de maneira irônica, fala em que a encíclica assumiu um novo formato: a entrevista. “E nova também no grau de autoridade, sem dúvida menor em relação aos atos de magistério propriamente ditos, mas sempre reconduzíveis ao ‘múnus’ papal. Desde então, o Papa Francisco parece apreciar, de maneira particular, esta modalidade de comunicação”, acredita.

Quem também atinou para esta novidade foi o teólogo jesuíta norte-americano John O’Malley. Para ele, “nenhum papa antes jamais havia concedido uma entrevista à imprensa. O evento, como visto na longa história dos sucessores de Pedro, é absolutamente sem precedentes. É igualmente tão sem precedentes para um papa revelar tanto sobre si mesmo como ser humano, falar sobre suas fraquezas e nomear seus erros e expressar arrependimento por eles. Eu poderia continuar. Mas não devemos pensar que a entrevista causou tal sensação”.

E prossegue: “A própria maneira de Francisco falar é não papal e assustador para qualquer um que sinta que um papa lhes deve respostas absolutas e certeza perfeita sobre tudo – e eles têm um direito absoluto a essas respostas absolutas. Agora, nós temos um papa que sabe o seu papel: ser um pastor, um amigo, um companheiro de jornada e um cirurgião no ‘hospital de campanha depois de uma batalha’”.

Também o frei franciscano norte-americano Richard Rohr, diretor fundador do Center for Action and Contemplation, em Albuquerque, Estados Unidos, aponta para esta mudança radical de estilo, de personalidade e de ênfase. “Pela primeira vez, temos um papa falando pessoalmente, honestamente, pastoralmente, sem ser meticuloso e detalhista. Um papa sendo vulnerável! Alguém já ouviu falar disso antes? Será que a história já permitiu isso alguma vez?”, pergunta.

Mas, talvez, seja o historiador italiano e professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Saint Paul, nos EUA, Massimo Faggioli, quem mais agudamente atinou para o alcance da inovação trazida por Francisco. Ele aponta para a relação de continuidade e aprofundamento entre as entrevistas concedidas respectivamente a Spadaro e Scalfari. E faz isso em diversos pontos de vista: da sua autoapresentação, da sua visão de Igreja, das suas referências teológicas e da sua concepção das relações entre Igreja e política.

Para Faggioli, o pontificado de Francisco instaurou-se como um “desvio” incontrolável, entregue à irrupção do Espírito Santo, algo similar ao pontificado de João XXIII: “As consequências desse papado são cada vez mais difíceis de prever: em alguns âmbitos, o choque é palpável, e não faltam aqueles que tentam deslegitimar esse papa, detendo-se somente um milímetro antes da acusação de heresia. É preciso entendê-los: a Igreja, segundo o Papa Francisco, deve voltar à cena sem constrangimentos, sem cautelas, sem álibis”.

Em outro artigo, Faggioli explicita este ponto: “Equivoca-se quem pensava (mesmo entre os cardeais que o elegeram) que se poderia reduzir o Papa Francisco à figura transitória e bondosa de um xerife encarregado de fazer limpeza na Cúria Romana. Bergoglio está fazendo limpeza também na linguagem e no estilo da Igreja, colocando de lado as ideologizações típicas de um catolicismo comunitarista e excludente, e removendo vários álibis: dos profetas da união catolicismo-conservadorismo, dos advogados de uma modernização tout court da Igreja, e daqueles que veem no catolicismo uma tradição apagada, curvada e raivosa com relação a eles e com a complicada vida real  da pessoa humana no mundo de hoje”. O que explica o “efeito de desorientação”, sensível entre os meios mais tradicionalistas, conservadores e também ratzingerianos.

Por fim, Faggioli traça uma linha de continuidade entre Ricci, no século XVI, e o Papa Francisco, no século XXI: “Como o jesuíta Matteo Ricci na corte do imperador da China no fim do século XVI, com o magistério das entrevistas, o papa jesuíta fala ao mundo contemporâneo através dos "mandarins" do areópago da comunicação. Mas não é propaganda ou publicidade o que essas entrevistas transmitem. Teologicamente, a ideia de diálogo volta ao centro do ser ‘Igreja-mundo’ na modernidade. Politicamente, a Igreja volta a se fazer parte com quem não tem parte alguma. Abandonadas as sirenes da apocalíptica, o papado volta à profecia”.

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