Conjuntura da Semana. O Pós-Consenso de Washington como explicação

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Por: André | 28 Fevereiro 2007

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia" publicadas no sítio do IHU diariamente. A análise toma como referência o que foi publicado de 12 a 25 de fevereiro de 2007, incorporando o feriado de carnaval, semana em que excepcionalmente a “conjuntura da semana” não foi publicada.

Entre os principais acontecimentos do período destacam-se a análise dos rumos da área econômica e política do governo Lula no início do seu segundo mandato, a nova estratégia americana para o continente latino-americano, na qual o Brasil joga um papel decisivo, a reação do movimento social brasileiro ao modelo de crescimento econômico que não leva em conta as conseqüências ambientais e o surpreendente e precário "novo" mundo do trabalho.

Confira a análise:

Brasil. O Pós-Consenso de Washington como explicação

Lula inaugurou na política internacional o que se denominou de Pós-Consenso de Washington, ou seja, a possibilidade de se juntar o social com a ortodoxia econômica. Todo o primeiro mandato de Lula foi isso. Por um lado, a aplicação dos fundamentos da disciplina fiscal e monetária e, por outro, políticas sociais de caráter compensatórias. Lula passou a ser citado como exemplo pelo FMI e pelo Banco Mundial e circulou com desenvoltura pelo Fórum Social Mundial e pelo Fórum Econômico Mundial (Davos).

Agora, no início do seu segundo mandato, Lula surpreendeu a muitos sinalizando para uma possível superação do Pós-Consenso de Washington. O anúncio do PAC; a nomeação do "desenvolvimentista" Paulo Nogueira Batista Jr. para ocupar o cargo de diretor-executivo do Brasil no FMI; a recomposição da diretoria do Banco Central e o anúncio de um "PAC social" foram consideradas iniciativas díspares da fiel ortodoxia econômica até então seguida pelo governo.

Estaria Lula mudando a sua política econômica? Nada permite afirmar que de fato isso esteja acontecendo. Pelo contrário, uma leitura mais apurada revela que Lula resolveu radicalizar o Pós-Consenso de Washington, porém com uma diferença em relação ao primeiro mandato. Agora, na combinação possível, o “Pós” (o social e o Estado) vem ganhando mais espaço que o “Consenso de Washington” (o econômico e o mercado).

No primeiro mandato, o governo esteve por demais preso ao receituário de Washington, agora dá mostras de querer desamarrar-se um pouco. É por isso que indicação de Paulo Nogueira Batista Júnior para o FMI – para substituir Eduardo Loyo, oriundo da PUC-Rio, considerado um dos principais pilares do período mais conservador do governo Lula, que ficou conhecido como Era Palocci - , foi acompanhada de uma certa surpresa pelo noticiário econômico e político como atesta Luiz Gonzaga Belluzzo. Segundo o economista, "normalmente se escolhe para diretor do Fundo um economista mais convencional”. “Eu acho que o Presidente Lula fez um gesto de ousadia e ao mesmo tempo de sinalização de que o papel do Brasil no Fundo vai ser um papel mais ativo, mais crítico”, disse ele.

O mercado financeiro não gostou da nomeação. Segundo consultorias de investimentos, a dúvida é por que o governo escolheria um economista que colide com a ortodoxia da equipe monetária para representar o País no FMI, o templo da ortodoxia econômica.

A reação à nomeação do economista se fez presente também na grande imprensa nacional, associada que sempre foi aos interesses do grande capital. Particularmente o Estadão noticiou que Paulo Nogueira Batista Jr., é "contratado" pelo gabinete do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) ganhando R$ 9 mil mensais sem trabalhar no gabinete do senador. Apesar de legal, algo no mínimo constrangedora para o economista.

No fundo, porém, o que preocupa o mercado é a anunciada mexida no Banco Central - o bastião da ortodoxia econômica. Aqui, Lula revelou todo o pragmatismo de sua política “uma no cravo, outra na ferradura” e evidenciou que o Pós-Consenso de Washington ainda orienta as suas decisões. Lula já sinalizou que vai promover alterações no BC, mas dentro de um equilíbrio de forças. Meirelles continua. “O Meirelles me passa segurança”, teria dito Lula.

O que parece certo é a saída de Afonso Bevilaqua, diretor de Política Econômica do BC. Bevilaqua sempre foi muito criticado pelo PT e pela área política do governo, que o responsabilizam pelo excesso de ortodoxia na condução da política de juros. A sua substituição é certa e há indicações de que Lula gostaria de alguém com um perfil como o do presidente do BNDES, Demian Fiocca. Na opinião de Lula, seria uma forma de "arejar" os debates no BC e de mostrar que o colegiado não representa o chamado "pensamento único" - visão mais ortodoxa e ligada ao mercado que sustentaria, por exemplo, a avaliação de que a queda dos juros deve ser mais gradual do que defendem industriais e sindicalistas. Mas Lula vai com cuidado para não criar arestas e deverá discutir os novos nomes do BC com os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Paulo Bernardo (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda), para chegar a um consenso mínimo.

Os movimentos aparentemente ambíguos de Lula revelam que se por um lado, é fato que o seu governo está mais ousado nesse segundo mandato, por outro, nada permite afirmar que teremos grandes novidades. Como afirmou João Pedro Stédile, “há uma pasmaceira geral na política nacional”. Segundo ele, “olhando no horizonte, segue uma enfadonha calmaria na conjuntura política brasileira, que em nada parece alterar os rumos da nau e da hegemonia do comando político e econômico do país”.

A agenda política. Ninguém mais questiona a política de alianças

Pouca alteração na área econômica e menos ainda no terreno da política. A aparente titubeação de Lula em definir o seu ministério é acompanhada pelo pragmatismo. Lula espera a definição dos “vencedores” nas disputas internas no mundo da política para escolher os seus ministros. O caso emblemático é o do PMDB.

Lula quer saber com que fatia peemedebista poderá negociar de agora em diante, já que duas correntes disputam o comando do partido - uma liderada pelo atual presidente, deputado Michel Temer (SP), e outra por Nélson Jobim (RS), para a qual Lula torce . As principais dificuldades na composição do ministério estão na incorporação do PSB e do PC do B, os dois partidos que apoiaram a reeleição derrotada de Aldo Rebelo (PC do B-SP) para a presidência da Câmara. A disputa deixou “cicatrizes incuráveis” e Lula se esforça em encontrar um band-aid que dê conta do estrago. O problema é que o PSB não admite perder a pasta do Ministério da Integração - que cuida da transposição do Rio São Francisco - e muito menos para o deputado Geddel Vieira (PMDB), um neolulista e ainda mais da Bahia, Estado contrário ao projeto.

Curiosamente, um dos problemas de Lula é o excesso de apoio. Nesse segundo mandato, todos querem apoiar o seu governo... e haja cargos. Até mesmo o PFL e o PSDB estão tímidos e confusos no papel de oposição. A agenda institucional e do Congresso não é nada animadora para os movimentos sociais. O "PAC social" que vem sendo anunciado a conta-gotas é tímido, está aquém das demandas dos movimentos sociais e aprofunda as políticas compensatórias. O próprio ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, afirmou que o Brasil investe pouco no desenvolvimento social. Não se espere “revolução social”, no segundo mandato, apenas um pouco mais.

A emergência dos pobres. Não se pode mais fazer política no Brasil sem levá-los em conta

Uma das explicações para a impressionante derrocada em que se encontra o PFL e o torpor em que se encontra o PSDB, dois dos mais importantes partidos políticos do país, se deve ao fato que a direita nacional não compreendeu um novo fenômeno na sociedade brasileira: a emergência dos pobres. Segundo o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues (foto à esquerda )não se pode mais ignorar os pobres. Para ele os "pobres modernizados, que vêem televisão, expandiu-se ao mesmo tempo que se enfraquecem os controles clientelísticos de clãs oligárquicos que dominavam setores do aparelho de Estado e transformavam municípios e Estados em verdadeiros feudos familiares que lhes garantiam acesso ao governo federal e a verbas públicas".

Por um lado, o PFL, representante da mais genuína direita brasileira ainda está preso à política do clientelismo e do prebendismo. Já o PSDB que sempre se orgulhou de suas raízes acadêmicas e iluministas não se deu conta e não sabe muito bem como lidar com o fenômeno da emergência política dos pobres. Quem vem se "dando bem" com os "pobres modernizados", para usar a expressão de Leôncio Martins Rodrigues é Lula. Não apenas por sua forte identificação com os pobres, mas sobretudo porque tem sido um político capaz de compreender o fenômeno da pobreza e além de saber mediatizá-los, dirige políticas públicas a este setor, como por exemplo o Bolsa Família, o Pro-Uni, entre outras.

Reforma Política. Possibilidades de avanço

A reforma política tantas vezes anunciada e adiada ganhou mais fôlego. A novidade é a informação que o governo está inclinado na Reforma, a incluir mecanismo que facilite convocação de plebiscito. O texto preparado pelo governo – que recebeu forte influência das propostas de Fábio Konder Comparato - inclui também, a proposta de que o Congresso aprove o “recall” - a possibilidade de que, por meio de referendo convocado por iniciativa da própria sociedade, os eleitores imponham aos congressistas o voto revogatório, interrompendo-lhes os mandatos pelo meio. (Na enquete da página do IHU 80% dos internautas aprovam o recall). O documento contempla outras propostas polêmicas como a redução do mandato dos senadores de oito para quatro anos e a eliminação dos suplentes.

As outras propostas já são conhecidas: financiamento público ou misto (público e privado) de campanhas; proibição do troca-troca partidário; fim das coligações partidárias proporcionais; e votação em lista fechada – modelo em que os eleitores votam em partidos, não em pessoas, elegendo os candidatos que estiverem nas primeiras colocações de uma lista elaborada previamente pelas cúpulas partidárias.

Dificilmente a Reforma Política avançará sem mutilações. A possibilidade de uma Reforma que fortaleça a democracia direta e participativa dependerá muito do movimento social.

Estão os movimentos sociais mortos?

Um olhar mais atento às Notícias Diárias das últimas semanas capta um movimento social bastante ativo no Brasil. Surpreende que, de Norte a Sul do País, há ações de resistência e de proposição coordenadas pelos movimentos sociais.

Segue a luta contra a transposição do Rio São Francisco, iniciada pelo Frei Cappio, num contexto de um movimento social que a apóia e a endossa. Na semana passada, o Frei protocolou carta dirigida ao presidente Lula manifesta sua intenção de "retomar o diálogo". Na carta se faz porta-voz de uma convicção dos movimentos sociais de que não se trata de não haver alternativas ao projeto de transposição do governo. O problema de fundo é outro: alternativas há, mas falta uma "atitude política mais lúcida" por parte do governo federal.

Em sua defesa vêm os argumentos apresentados pelo sociólogo ambientalista Adriano Martins, que é membro do Fórum Permanente de Defesa do São Francisco, membro do centro de Assessoria do Assuruá e do Consea - Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Martins acredita que "em relação ao Projeto de Transposição proposto pelo Governo Federal existe uma discrepância muito grande em relação ao que ele na verdade é e relativamente pretende ser. O Projeto de Transposição não visa garantir água para a população em risco hídrico no nordeste, mesmo que o marketing esteja utilizando esse apelo".

Na mesma entrevista, Martins garante que há alternativas às mega-obras do governo federal para levar água ao sertão nordestino, mais respeitadoras do meio-ambiente e que atendam realmente todos os habitantes. Alternativas que passam pelo armazenamento da água, pela reforma agrária, pelo acesso aos meios de produção e por uma educação contextualizada.

Tanto Frei Cappio como Martins sustentam seus argumentos recorrendo às experiências e análises da Agência Nacional da Água, da Articulação do Semi-Árido e do Tribunal de Contas da União.

Nesta segunda-feira, cerca de 300 pessoas participaram de uma manifestação contra a transposição do Rio São Francisco. A mobilização aconteceu sobre a ponte Presidente Dutra, que liga as cidades de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). Participaram trabalhadores rurais, sindicatos, organizações não-governamentais, pescadores e índios.

Na semana passada aconteceu o lançamento, por parte da Igreja católica, da Campanha da Fraternidade, cujo tema este ano é a Amazônia. A escolha pretende fazer a sociedade brasileira e, de modo especial, os católicos, refletir sobre uma região do Brasil relativamente pouco conhecida da maioria dos brasileiros e sobre suas riquezas naturais na perspectiva da fraternidade, bem como sobre o fim do domínio dos grandes interesses econômicos na região, bem como a denúncia das injustiças perpetradas contra indígenas e posseiros na região.

O historiador americano Kenneth P. Serbin, brasilianista e um estudioso das relações entre a Igreja e o regime militar brasileiro, ressalta alguns aspectos penetrantes do texto-base produzido para animar a Campanha da Fraternidade deste ano. Para ele, o tema "vem reafirmar a posição da instituição como voz moral do Brasil e o seu relacionamento destemido, não obstante complexo, com o Estado brasileiro".

Na sua percepção, "a Igreja abandonou seu tradicional papel paternalista na Amazônia em favor da promoção da autodeterminação do povo. Nesse processo, muitos membros do clero e aliados locais se transformaram em mártires, caso do Padre Josimo Morais Tavares, assassinado em maio de 1986, e mais recentemente a Irmã Dorothy Stang, morta em fevereiro de 2005".

Destaca que o texto-base deste ano "emprega ousadamente o método do ver-julgar-agir para analisar a realidade socioeconômica da Amazônia e propor um plano de ação." E conclui afirmando que o texto "é um documento radical".

Estas opções, evidentemente, são incompreensíveis sem a atuação das pastorais sociais e dos movimentos sociais, que se inserem na longa tradição da opção pelos pobres.

No entanto, causa estranheza a forma como foi realizado o lançamento da Campanha da Fraternidade e as circunstâncias em que se deu. A reação das Pastorais Sociais não se fez esperar diante da notícia de que o lançamento da Campanha, que aconteceu numa ilha, para a qual foram levadas em torno de 150 pessoas, foi custeado pela Companhia Vale do Rio Doce, privatizada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Vale lembrar também que o "Grito dos Excluídos", encabeçado pelas Pastorais Sociais e movimentos sociais, que sempre acontece em setembro, será contra a privatização daquela empresa.

Os índios, quilombolas e o MST estão por trás da decisão da Aracruz de iniciar fortes investimentos no Uruguai. Razão? Eles não existem por lá. Para Carlos Aguiar, da Aracruz, o problema dos quilombolas "é ainda mais grave que o dos índios. Para conseguir terra, os índios têm que provar, com estudos, que estavam na área desde o início do País. Agora, para ser quilombola, basta se autodenominar quilombola e assim ter direito a alguns hectares por família".

A reportagem termina afirmando que "no Espírito Santo, existem hoje 100 mil hectares privados ameaçados por quilombolas".

No entanto, nem por conta disso a Aracruz abandona seus investimentos no Brasil. Pelo contrário. Uma nova monocultura está surgindo, com impactos certamente muito mais nefastos ambiental e socialmente. No Rio Grande do Sul, a Stora Enso, Aracruz e Votorantim estarão plantando cerca de 300 mil hectares de eucaliptos, o que equivale a 3% do território do Estado.

No Paraná, a realidade não é diferente. O estudo de Jelson Oliveira e Rogério Nunes, ambos da Comissão Pastoral da Terra do Paraná, descreve a destruição causada pelo agronegócio da madeira no Estado e os investimentos que estão sendo projetados, sobretudo pela Klabin, tanto no plantio do eucaliptos como do pinus. E, como afirmam os autores, com dinheiro público.

Informações dão conta de que o Brasil está se tornando um exportador em aumento de produtos florestais. A Bracelpa (Associação Brasileira de Celulose e Papel) prevê um aumento de 10% das exportações brasileiras de celulose em 2007, em comparação com o volume exportado em 2006.

A fúria do agronegócio da madeira tem despertado a atenção dos movimentos sociais. Deve-se destacar a luta de resistência das comunidades indígenas no Espírito Santo contra a ofensiva da Aracruz Celulose.

No Rio Grande do Sul, por sua vez, deve-se destacar a realização da 30ª Romaria da Terra, acontecida no dia 20 de fevereiro na Diocese de Uruguaiana, na metade sul daquele Estado. Com o tema "Preservar Terra e água: garantia de vida", a Romaria quis chamar a atenção para a problemática da monocultura do eucaliptos.

Merece destaque também a entrevista do Ir. Antonio Cechin, grande lutador gaúcho, dedicado à causa dos pobres e à recuperação da figura de Sepé Tiaraju, morto há 250 anos. Cechin preocupa-se em mostrar a unidade constitutiva entre a história do Rio Grande do Sul, a vida de Sepé Tiaraju, que as visões mais tradicionais querem manter separadas.

Além disso, destaca a importância dos movimentos sociais no resgate e atualização desta história. "O resgate desse início glorioso de nossa terra e povo, foi sendo feito nos últimos anos através dos movimentos sociais organizados. Não foram os historiadores que nos presentearam Sepé Tiaraju como herói guarani, missioneiro rio-grandense, mas, sim, as lutas dos movimentos populares, que se encheram da Mística que se irradia do `Facho de Luz`, tradução exata do nome Tiaraju", alfineta o Ir. Antonio. Os ideais de Sepé são atualizados nas lutas dos movimentos sociais, entre eles a lutas dos indígenas. Ao mesmo tempo, Antonio Cechin, um dos criadores, conforme narra na entrevista, da 1a. Romaria da Terra, constata que "as atuais Romarias estão perdendo bastante da Mística que as originou".

Uma retrospectiva das últimas semanas mostra um quadro esperançoso para os movimentos sociais. Nem todos, evidentemente. Mereceria uma análise mais atenta a razão pela qual outros movimentos sociais mais tradicionais, historicamente fortes, não apareceram neste cenário de lutas. O que está havendo? Que perspectivas aponta esta realidade, ainda que muito conjuntural, para os movimentos sociais? Pode-se admitir um lento reascenso de (novos) movimentos sociais?

Finalizamos esta análise, retomando os "desafios da classe trabalhadora brasileira" apontados por João Pedro Stédile: 1) recuperação do trabalho de base; 2) formação e capacitação de nossa militância social; 3) construção e desenvolvimento de meios de comunicação de massa próprios; 4) debate coletivo de um projeto de desenvolvimento para o país; 5) dedicação à conscientização e organização da juventude trabalhadora; 6) produzir um novo reascenso do movimento de massas.

Que o grito de Sepé Tiaraju - "Esta Terra tem dono!" - siga sendo um grito libertário repleto de indignação ética e de ousadia para resistir e inovar!

O histérico debate sobre a violência

Após décadas sem crescimento econômico e da crescente apartação social, um dos resultados é o recrudescimento da violência. De repente a classe média e os muitos ricos do Brasil “descobriram” um país violento, como se o confinamento de milhares de pessoas nas periferias das grandes metrópoles largados à “própria sorte” não fosse ela também uma manifestação da violência.

A morte violenta do menino João Hélio Fernandes de 6 anos que chocou o país, reascendeu o debate sobre causas, razões e soluções para o problema da violência. Surpreendente, o artigo do filósofo Renato Janine Ribeiro propugna um Estado que dê o troco na mesma moeda, admitindo a pena de morte. Surpreende que um filósofo da qualidade de Janine renda-se a gritaria da classe média, manifestando um ranço conservador mesmo entre os que se dizem esclarecidos. Como afirmou o sociólogo Luiz Alberto Gómez de Souza, “em lugar da apresentação reflexiva de uma realidade dura e absurda, é o transbordamento de uma emoção nas raias do irracional, que vai criando ocasião para reabrir o dossiê da pena de morte ou trazer a tentação dos linchamentos” .

Um exemplo emblemático de como a sociedade vê o problema da miséria pode ser lida na reportagem sobre a política antimendigos.

América Latina: “Já que não saiu a Alca, vamos de álcool”

A afirmação acima de Brian Dean, ex-lobista da Alca e agora lobista do etanol e diretor-executivo da Comissão Interamericana de Etanol (CIE), organização que tem entre os seus diretores, o ex-governador da Flórida Jeb Bush, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Alberto Moreno, e o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues é sintomática da nova estratégia que os EUA desenham para o continente. A estratégia americana é de uma “tripla cajadada”.

Primeiro, apresentar um discurso ao mundo que está preocupado com o aquecimento global, daí o investimento pesado no biocombustível etanol para uma substituição progressiva do petróleo como combustível automotivo. Segundo, substituir sua política beligerante até então utilizada no continente latino-americano por uma aproximação diplomática – saem os falcões e entram os negociadores, e terceiro, neutralizar a crescente influência de Chávez na região. Bush deseja constituir uma espécie de Opep do etanol na América Latina e se contrapor ao peso da PDVSA venezuelana. Na opinião do brasilianista Tom Trebat, “o Brasil será a Arábia Saudita do etanol”.

E nessa estratégia o Brasil joga um papel decisivo. Primeiro o país recebeu as visitas de Nicholas Burns e Thomas Shannon, importantes funcionários do Departamento de Estado dos EUA. Burns afirmou que "2007 é o ano do compromisso dos EUA com a América Latina” e que "vocês – o Brasil - vão ver muitas outras visitas do gabinete”, além da visita de Bush.

Para a sua visita ao Brasil nos dias 08 e 09 de março próximo, Bush vem montando um verdadeiro "Estado-Maior" do etanol. Bush não deve anunciar acordos em sua visita já nesses dias. As ações concretas ficarão para a vinda de Lula aos EUA, prevista para acontecer em 31 de março em Camp David, casa presidencial no Estado de Maryland, vizinho a Washington.

A verdade é que o Brasil foi escolhido como o país estratégico para uma reaproximação dos EUA com o continente latino-americano. A decisão para tanto se deve muito a personalidade de Lula, visto como moderado politicamente e pragmático. O “negócio do etanol” pode ser bom para ambas as partes. Juntos hoje, o Brasil e os EUA produzem 72% do etanol mundial. Do lado brasileiro a grande reivindicação sempre foi a abertura do mercado americano ao biocombustível nacional. Do lado americano, mais particularmente da elite econômica e política que está no entorno do clã Bush, os acordos bioenergéticos entre Brasil e EUA podem vitaminar a médio prazo a candidatura de Jeb Bush candidato natural à sucessão do irmão.

Os verdadeiros motivos da viagem de Bush ao Brasil

Que ninguém se engane sobre a sedutora idéia dos EUA de lançar bases para se implantar na América do Sul e no Caribe um sistema multinacional de produção de biocombustíveis, uma espécie de `Opep do etanol`. Isso é "cortina de fumaça" que esconde outros interesses.

Por surpreendente que possa parecer, é o Estadão em seu editorial nessa semana - reproduzido pelas Notícias do Dia do IHU - que explicita os verdadeiros motivos da visita de Bush ao Brasil e aos países vizinhos. Segundo o Estadão, a viagem do presidente americano "ao Brasil, é antes de tudo uma tentativa de reparar o tratamento negligente e não raro áspero de Washington em relação à América Latina nos últimos anos. Bush não apenas deixou de cumprir a sua promessa da campanha presidencial de 2000 de estabelecer um compromisso fundamental com a região, como ainda - no clima belicoso do pós 11 de Setembro - entregou a condução da sua política latino-americana a alguns dos mais intratáveis falcões da administração republicana, adeptos da rombuda teoria de que os países ou são aliados incondicionais dos EUA ou são aliados objetivos de seus inimigos".

Segundo o jornal, "no caso específico do Brasil, o etanol vem a calhar para essa política de boa vizinhança, já favorecida pelo entendimento pessoal surpreendentemente amistoso entre Bush e Lula. Nem por isso há razões para crer que a retórica da Opep do etanol fará os Estados Unidos abrir efetivamente o seu mercado ao produto exportado pelo Brasil, sobre o qual incide uma tarifa protecionista de US$ 0,54 por galão. Nem um dos mais entusiastas defensores americanos da parceria no setor, o conselheiro da secretária Condoleezza para questões energéticas internacionais, Greg Manuel, admite mudanças na política aduaneira. "As tarifas não estão na mesa de negociações", afirma sem rebuços". Concluí o editorial do Estadão: "A independência americana do petróleo, de que fala Bush, é um "mito político", diz o ex-embaixador saudita em Washington Turki al-Faisal. Ainda não há como desmenti-lo."

O que o Estadão não conta é que outro interesse da visita de Bush ao continente, como já nominado anteriormente é a tentativa de fazer sombra à crescente influência de Chávez na região.

Mas a viagem de Bush não se resume ao Brasil. O presidente americano estenderá o seu roteiro por Uruguai, Colômbia, Guatemala e México, deixando de lado a Argentina, o que destaca ainda mais o papel importante que tem o Brasil no cenário político e econômico para os EUA.

No Brasil, o presidente americano será recebido com protestos pelo movimento social, como também no Uruguai. Tabaré Vázquez, prevê receber o presidente dos EUA, na cidade de Colonia, e não em Montevideo. O objetivo: fugir dos atos promovidos por grupos contrários à visita. Porém, antes do desembarque de Bush em Montevidéu, Tabaré Vázquez recebeu a visita de Lula numa demonstração de inteligência da política externa brasileira.

A bem sucedida visita de Lula foi para reverter o desencantamento do parceiro com o Mercosul. Em um encontro de seis horas com seu colega uruguaio, Tabaré Vázquez, o presidente brasileiro conseguiu afastar, ao menos por enquanto, o risco de que o Uruguai abandone o Mercosul para assinar um tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Segundo a imprensa Lula ofereceu ao presidente uruguaio uma série de alternativas para reduzir as perdas do Uruguai no processo de integração. Entre as propostas, investimentos da Petrobras, facilitação para a entrada de produtos uruguaios no Brasil, parcerias para a era da TV digital, questões tributárias e até alternativas que possibilitem que o BNDES financie empresas uruguaias.

No México, a visita de Bush exporá o drama de uma nação. 11 milhões de mexicanos migraram para os EUA e 28 milhões de pessoas, de origem mexicana, vivem hoje nos EUA. Por detrás da migração massiva nos anos 90 e nessa década, está o acordo do NAFTA que empobreceu ainda mais a população mexicana. Mas não são apenas os mexicanos que procuram desesperadamente os EUA para fugir da miséria. Um grupo de quarenta imigrantes brasileiros foram detidos recentemente no Texas quando viajavam sentadas no chão da carroceria fechada de um caminhão sem janelas. Uma das estratégias americana para conter a imigração é a construção de mais de mil quilômetros de um muro na fronteira.

Na Colômbia, o presidente americano encontrará um presidente fragilizado, Álvaro Uribe, pelas denúncias de envolvimento com os grupos paramilitares e um governo acusado de manipular estatísticas para fazer a Colômbia parecer mais segura do que é.

A tentativa dos EUA de uma reaproximação com o continente latino-americano encontrará resistência, seja das forças sociais, seja de países que assumiram uma postura soberana nas relações externas. Entre eles, a Venezuela, a Bolívia e o Equador. Exemplo de uma política externa autônoma e incisiva nas negociações foi sentida pelo Brasil na negociação da “crise do gás” com a Bolívia. O resultado da negociação e a sua interpretação é significativa. De um lado, Lula diz que o Brasil foi "generoso", do outro, Evo Morales, afirmou que se fez "preço justo".

O mesmo “preço justo” que agora o Paraguai, através do pré-candidato às eleições presidenciais, Fernando Lugo, coloca em pauta nas relações comerciais com o Brasil. Para ele, a energia do Paraguai é vendida ao Brasil pelo preço de custo, e não a preço de mercado e repete Evo Morales, “não queremos um preço solidário, queremos um preço justo”.

O bispo Fernando Lugo, pré-candidato presidencial no Paraguai, ameaçou levar o Brasil à Corte Internacional de Justiça de Haia caso o país se negue a revisar o Tratado de Itaipu. "Vou falar ao presidente Lula que o Brasil não pode se desenvolver às custas do empobrecimento do país vizinho", disse ele.

Aos poucos os brasileiros descobrem que ao seu modo também exerceram e exercem um poder de “micro-império” com os seus vizinhos. Resultado dos anos de chumbo da ditadura e da era neoliberal. A propósito das eleições no Paraguai, é sugestiva a leitura da reportagem “A volta dos jesuítas” publicada pela CartaCapital.

Exemplo de soberania também vem demonstrando o Equador, que deu sinal de que pode deixar de honrar parte da dívida externa do país. O Equador foi na América Latina um laboratório do neoliberalismo de triste memória, com a perda de sua moeda nacional substituída pelo dólar. Agora o país luta para recuperar a sua dignidade política.

Uma última notícia da semana na América Latina publicada pelas Notícias Diárias do IHU, vem da Venezuela: A informação que formaram-se os primeiros "brigadistas" do governo bolivariano. São 480 representantes dos 24 Estados da Venezuela, um pequeno Exército responsável por disseminar a ética e a moral socialista por toda a Venezuela nos próximos anos. A formação dos brigadistas é mais um passo do governo venezuelano rumo ao que denominou de socialismo do século XXI. Na afirmação do "socialismo do século XXI" Chávez promove um debate com setores da Igreja católica sobre Jesus Cristo como o maior socialista da história.

O surpreendente e precário "novo"mundo do trabalho: o toyotismo como expressão máxima

O que a Toyota, a Volkswagen e a Renault tem em comum? As três são montadoras, estão entre as grandes empresas rentáveis do setor automotivo e em comum, com pequenas variações, aplicam o TPS (sigla em inglês para Sistema de Produção Toyota) em seu processo produtivo. O Sistema de Produção Toyota (TPS), ou o toyotismo como é mais conhecido, é a expressão de um novo paradigma na organização social do trabalho em substituição ao modelo taylorista-fordista.

Originário do período pós-segunda guerra tem como base a `produção enxuta` - fabricar com mais rapidez, sem desperdício e com qualidade. Os princípios do toyotismo são o trabalho em equipe; sofisticação dos métodos de controle do trabalho, através da responsabilidade do grupo em se auto-vigiar e se auto-controlar; envolvimento/incitação do trabalhador com a empresa.

O toyotismo se tornou o método de organização de trabalho preferido de 10 entre 10 empresas. Todas o perseguem. Exemplos de inspiração toyotista são entre outros, a indústria de autopeças, e a Volks e sua fábrica de carrinhos de brinquedo, uma mini fábrica que "ensina", os preceitos do toyotismo. Na lista de melhorias divulgada pela montadora está até a economia de sola do sapato dos operadores. Com novos locais de estoque de peças e posicionamento dos trabalhadores, o deslocamento dentro das fábricas foi reduzido em 605 quilômetros em 12 meses. "São ganhos importantes de competitividade para a montadora", diz um executivo da empresa.

O sucesso do toyotismo é o sucesso sem precedentes da montadora japonesa Toyota que registrou lucro recorde no ano passado e está para bater a produção de 9 milhões de veículos anual, deixando para trás a gigante americana General Motors que sempre se manteve no topo.

Sucesso para as empresas, desgraça para os trabalhadores

O método toyota tem deixado trabalhadores e trabalhadoras em frangalhos. Agora, além de utilizar sua habilidade, destreza e força física, o trabalhador também tem de se preocupar com melhorias do processo de produção e dos produtos, que, antes, eram atividades exclusivas de setores técnicos. Márcia Hespanhol Bernardo, que fez pesquisa para doutorado na USP, afirma que apesar do discursos das empresas, os novos métodos organizacionais adotados no chão-de-fábrica não resultaram em melhoria para os trabalhadores.

Uma manifestação da intensificação no trabalho e do clima de competitividade que é instaurado entre os trabalhadores é a onda de suicídios de trabalhadores na Renault. Na França, três trabalhadores num espaço de quatro meses e o quarto desde o fim de 2004 se suicidou. "Cinco empregados do Centro Técnico de Guyancourt tentaram se matar em dois anos, quatro dos quais em seu local de trabalho", conta Michel Fontaine, secretário geral do sindicato na Renault.

O sindicato aponta para as "fortes pressões de rendimento" como causas dos suicídios. A CFDT - central sindical francesa - denuncia "a extrema pressão" exercida sobre os empregados no contexto da última meta em vigor, chamada de "Renault Contrat 2009" pelo presidente, o brasileiro Carlos Ghosn: 26 modelos, 13 dos quais novos, devem ser lançados no mercado dentro de dois anos.

O toyotismo vem abolindo o perfil do antigo operário que se conhecia. Agora o perfil de trabalhador exigido pelo capital passou por uma mudança radical nos últimos 20 anos. A classe operária que as empresas exigem está longe daquele padrão anos 1970. Hoje se exige do operário formação, que o mesmo se torne uma espécie de minigerente. O ambiente empresarial o obriga a elevar o seu padrão de produtividade para sobreviver. Isso significa assimilar os novos padrões organizacionais da empresa em que ele é "convocado" a ser um parceiro. Isso significa dar tudo de si para a empresa. O que se quer é um "operário" que tenha "capacidade de abstrair, entender, somar, dividir" e que também invista em si mesmo. As afirmações acima resultam da interpretação da matéria especial "A nova face do operário" publicado pela revista quinzenal Exame, dirigida ao business empresarial.

Exemplo da loucura dos ganhos de produtividade que lança os trabalhadores à intensificação no trabalho é o exemplo das próprias montadoras. Em 1985, cada trabalhador da indústria automotiva produzia oito veículos por ano. Hoje, produz 30 (nas fábricas mais modernas, chega a 60). É o surpreendente e precário "novo" mundo do trabalho.

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