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Mudanças demográficas e a realidade dos idosos no Vale dos Sinos

A realidade do Vale dos Sinos revelada através da análise do Observasinos, um programa do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no dia 04/09/2010, intitulada “Vale dos Sinos: Que realidade temos e que realidade queremos nesta região?”, que tematizou algumas das mudanças demográficas na região, foi debatida por Sonia Bredemeier, assistente social e presidente do Conselho Municipal do Idoso de São Leopoldo, e Eloir Vial, enfermeiro e trabalhador da política de saúde de Canoas

E importante destacar que um dos indicadores apontados naquela análise foi o aumento da expectativa de vida na região, que também ocorre no Rio Grande do Sul e no país. Este é um dado que apresenta novos e importantes desafios, conforme destaca Vial:  “Um dos itens importantes é o novo perfil demográfico que vem se desenhando. Foi referido que ‘Todas as cidades contaram com crescimento da população do sexo feminino, e, Sapucaia e Esteio tiveram crescimento negativo da população masculina’.  Este quadro de crescimento negativo, associado com ‘a ampliação da expectativa da vida da população’, também citada na publicação, caracterizam que em breve teremos uma população predominante de idosos”.

Conforme dados do IBGE, o índice de envelhecimento aponta para mudanças na estrutura etária da população brasileira. Em 2008 eram computados 24,7 idosos de 65 anos ou mais para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos. Em 2050, o quadro deverá mudar e estima-se que para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172,7 idosos.

Os avanços da medicina e as melhorias nas condições gerais de vida da população repercutem no sentido de elevar a média de vida dos brasileiros (expectativa de vida ao nascer). Em 1940 a expectativa de vida era de 45,5 anos de idade. Em 2008 eleva-se para 72,7 anos, totalizando um acréscimo de 27,2 anos de vida.

Segundo a projeção do IBGE, o país continuará alcançado elevações nestes índices, atingindo em 2050 o patamar de 81,29 anos, basicamente o mesmo nível atual da Islândia (81,80), Hong Kong, China (82,20) e Japão (82,60).

Neste cenário de mudança demográfica, através do aumento da população idosa, foram conquistadas legislações que propõem um conjunto de garantias dos direitos desta população. Um delas, em especial, é o Estatuto do Idoso, que foi promulgado em outubro de 2003 e estabelece uma série de direitos fundamentais para a integridade do idoso.



Apesar desta conquista, observa-se ainda a desvalorização e discriminação dos mais velhos por parte da sociedade, que podem ser justificadas pela ocidentalização da cultura moderna. O mesmo não acontece em muitas sociedades “ditas” tradicionais como as indígenas, onde os mais velhos são vistos como os detentores da sabedoria e os jovens pedem conselhos nas diversas situações: políticas, religiosas e outras.

Ao mesmo tempo são muitos os limites para a efetivação dos direitos dos idosos através das políticas públicas, seja em relação à saúde, segurança, proteção, renda, moradia, etc. É esse um desafio apresentado por Bredemeier: ”No que tange às políticas para a pessoa idosa, por exemplo, os principais problemas trazidos ao Conselho do Idoso têm em sua base as falhas, as lacunas, o desrespeito ao que já está sobejamente estabelecido nos planos, programas existentes”. Outra questão diz respeito à necessária infra-estrutura para garantir a vida dos idosos nas cidades. Eloir Vial comenta: “Talvez o maior desafio que se apresente é o de infra-estrutura. Enquanto que em países como da Europa levaram anos para chegar ao perfil demográfico com predominância de idosos, no Brasil este processo vem se dando de forma rápida, não havendo tempo para um preparo, nem político, nem cultural, nem de gestão”.

Em termos quantitativos a região do Vale dos Sinos apresenta um número de 126.721 pessoas com mais de 60 anos, constituindo-se em 9,2% da população desta faixa etária do estado do Rio Grande do Sul, que é de 1.376.950 pessoas.

No gráfico abaixo está apresentado o quadro comparativo do número de idosos por município da região.


Fonte: FEE 2009

Os municípios com maior densidade populacional de idosos são: Canoas que tem um total de 27% da população idosa da região. Seguida dos municípios de Novo Hamburgo e São Leopoldo, representando respectivamente 19,7 e 16,1% da população com mais de 60 anos da região.

Esses dados são significativos para a construção e efetivação das políticas públicas, que necessitam ser materializadas, conforme afirma a presidente do Conselho do Idoso. “Com base nas experiências que tenho vivenciado atrevo-me a afirmar que um grande desafio que identifico é a efetivação , operacionalização das políticas públicas que existem, ou seja, que já receberam o "aval" de todos os segmentos governantes para serem postas em prática. Seria o grande passo. Em estas se concretizando teremos aberto os caminhos para atender as atuais demandas urgentes e para criar novas políticas para as demandas que vierem surgindo”.

A transformação da realidade demográfica exige informação, transparência e controle social das ações por parte dos gestores, profissionais e cidadãos. Sonia destaca: “Quanto aos profissionais e suas necessidades acredito que a informação, o conhecimento, o acesso à  ‘toda a engrenagem’ na qual atuam, a visível e a invisível, a ocupação dos espaços deliberativos, é fundamental”.

O novo contexto da sociedade aponta para mudanças culturais importantes. Eloir coloca que: “Uma das mais emergentes é iniciar por um processo de remodelagem cultural e industrial ao mesmo tempo, para que não cheguemos a um momento onde a população idosa fique excluída dos processos sociais”. Destaca ainda que: “Hoje os idosos que mais aparecem são aqueles que estão em condições de serem consumidores, naquilo que se chama de “melhor idade” ou “terceira idade” ou outras denominações. Esta fatia atualmente é um grande consumidor de turismo. Porém, a tendência é de que com o passar dos anos, e em breve, dado que já estamos em certas situações com crescimento negativo como mostrado acima, comece a aparecer aquele idoso, e em grande número, localizado em regiões pobres. Se não tivermos uma infra-estrutura adequada, estes ficarão excluídos”.

Todos os envolvidos na construção da sociedade que vem surgindo devem estar preparados para esta novidade. Eloir destaca: “os setores mais emergentes: apenas alguns exemplos: os transportes serem fabricados para idosos. Não bastam alguns acentos de outra cor. São necessários veículos muito mais confortáveis, desde a altura dos ônibus ou o passeio da rua, poltronas estofadas, dadas as condições físicas desta idade. Ruas e calçadas adequadas, dados os riscos de quedas e fraturas, com graves conseqüências. Espaços públicos com incentivos e formação para o voluntariado, atividades de esporte e lazer”.

Em vista desta mudança é necessário, como afirma Eloir Vial: “Um olhar sério para as condições de saúde. Os centros de atenção, com profissionais qualificados para este olhar”. Sonia Bredemeier refere ainda que a nova realidade demográfica faz exigências de qualificação e atuação intersetorial: “Defrontamo-nos com problemas de gestão,  desvio de verbas para prioridades que são estabelecidas à revelia dos segmentos vulneráveis. Então, complementando faz parte deste desafio a concretização de mecanismos que qualifiquem a gestão. Lembrei-me que um caminho pode ser a intersetorialidade”.

Os diferentes indicadores da realidade demográfica apontam exigências de análise e qualificação das políticas públicas. Estado e sociedade civil estão desafiados à avaliação das práticas realizadas, em vista da construção de novas possibilidades para a vida  do cidadão e da sociedade que acontece em cada território e região.


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