Mães-menininhas: uma discussão sobre a gravidez na adolescência. Entrevista especial com Denise Quaresma

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14 Setembro 2007

A entrevista de hoje, realizada por e-mail, é com Denise Quaresma, que defendeu no mês passado a tese de doutorado intitulada “Mães-menininhas: a gravidez na adolescência escutada pela Psicanálise e Educação”, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Denise fala sobre sua pesquisa e os dados que indicam os números crescentes de adolescentes grávidas no Brasil. “Informação todas as meninas têm até demais. Mas este excesso de informação, não ‘cola’; todas alegam uma desinformação sobre como se constitui a feminilidade”, afirma.

Denise Regina Quaresma da Silva formou-se em Psicologia, pela Unisinos, com especialização em Psicanálise, pelo Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul. Realizou mestrado e doutorado, na área de Educação, pela UFRGS. Atualmente, é professora da Faculdade de Educação, Ciências e Letras São Judas Tadeu e do Centro Universitário Feevale.

Eis a entrevista.

IHU On-Line – Por que, em sua opinião, o número de meninas adolescentes grávidas subiu tanto da década de 1980 para a 1990 e 2000?

Denise Quaresma -
Esta problemática não pode ser pensada apenas por um viés, mas certamente as políticas de saúde pública e de educação em torno da questão mostraram-se ineficientes, as próprias jovens entrevistadas na pesquisa de doutoramento que realizei revelam esta ineficiência. Constata-se, no entanto, que as meninas de 10 anos de idade, que anteriormente não constavam nas pesquisas, a partir dos anos 2000 passam a constar e o número de mães-menininhas vem aumentando, consideravelmente. Priorizei por pesquisar estas mães-menininhas, pois inexistem pesquisas sobre gravidez em tão tenra idade.

IHU On-Line - A erotização veiculada pela mídia também tem contribuído para o problema?

Denise Quaresma - Sem dúvida. À medida que há uma erotização dos corpos através dos meios de comunicação, é desconsiderado o quanto estes corpos adolescentes têm, além de uma idade biológica, uma idade psíquica. Há corpos que, biologicamente, têm condições, mas psicologicamente são imaturos. Então, apenas o corpo relaciona-se sexualmente para que possa atender uma demanda que a adolescente recebe da mídia.

IHU On-Line - O aumento do número de adolescentes grávidas é intrigante quando há uma maior difusão de informações sobre métodos contraceptivos. Em sua opinião, quais são as causas da falta de cuidados preventivos entre as meninas?

Denise Quaresma - Justamente escutando estas adolescentes grávidas, entendi que a informação por si só não constrói a formação humana. Informação todas as meninas têm até demais. Mas este excesso de informação não "cola"; todas alegam uma desinformação sobre como se constitui a feminilidade, por exemplo. Na maioria dos casos, tristemente comentam que a mãe não lhes ensinou como é ser mulher ou o quanto a constituição da feminilidade foi e é complexa nas relações familiares.

IHU On-Line - Quanto à formação da identidade das mães-menininhas, o processo de construção é mais frágil?

Denise Quaresma - Não podemos tomar como mais frágil, pois a identificação é um processo e todas se identificam com o feminino que está posto no discurso familiar, nos moldes dados na maioria dos casos pela mãe ou por quem faz a função materna, sendo que este discurso também se faz eficiente nos “não ditos”. A identificação é central na construção do entendimento desta problemática e, no âmbito educacional, encontramos na figura da professora, via transferência, um elemento fundamental nesta construção, para além da família.

IHU On-Line - A gravidez na adolescência pode ser reduzida com políticas públicas ou consciência individual de cada menina?

Denise Quaresma - Sem dúvida que as políticas públicas são fundamentais, mas vemos que não funcionam, pois cada governante que assume o poder "aborta" a política adotada pelo antecessor e isto, historicamente, vem se repetindo a cada governo. Basta nos perguntarmos, aqui no Rio Grande do Sul, inde foi parar o programa lançado pelo governo anterior "Te liga, gravidez tem hora" (1), o qual, inclusive na época do governo anterior, já era um tanto anônimo. Não podemos responsabilizar apenas a consciência das meninas, pois isto seria cobrar uma “adultês” que ainda não existe.

IHU On-Line - Qual é a função da gravidez na vida da adolescente, considerando a influência do contexto familiar e social envolvidos nessa questão?

Denise Quaresma – Compreendi que são vários os destinos de uma gestação nesta idade e o quanto não podemos generalizar a questão, mas permito-me lançar algumas generalidades observadas cautelosamente. Entre estas, percebi ser comum as adolescentes "doarem" seus filhos para suas mães, numa tentativa de receberem, através do filho (a) doado (a), uma maternagem semelhante da própria mãe. Maternagem esta que sentiram e sentem como insuficientes para si mesmas. Também percebi como, em alguns casos, os filhos (as) dão à adolescente o status de adulto, ou seja, o filho (a) dá uma "grife", um status social a ela, no espaço social onde está inserida.

IHU On-Line - A gravidez na adolescência pode ser analisada como um desejo de ser mãe ou desejo de ser mulher? De que fatores ela depende para assumir esse desejo?

Denise Quaresma - Pode ser pensada desta forma, contando que não tomemos este desejo com um olhar reducionista de desejo consciente, pois o desejo é sempre inconsciente, que não se pode saber. Entendo que este desejo pode ser norteado pela construção da identificação, como já coloquei anteriormente.

IHU On-Line - Você pode relatar em que contexto desenvolveu a sua pesquisa?

Denise Quaresma - Minha pesquisa tem um recorte bem específico, pois entrevistei adolescentes grávidas que foram excluídas da família pela ocorrência das gestações e encontravam-se, no momento da pesquisa, acolhidas em uma instituição do Vale do Sinos que acolhe estas mães-menininhas. Priorizei entender o universo dessas gestações, a partir da fala das mães-menininhas.

Notas:

(1) Com o objetivo de conscientizar jovens na faixa etária dos 10 aos 19 anos sobre as conseqüências da gestação precoce, o Governo Germano Rigotto lançou em 2005 a campanha “Te liga, gravidez tem hora”. O programa gerou um projeto de lei que implantou, na época, uma política pública de prevenção da gravidez precoce nas escolas da rede estadual de ensino.

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