O Rap na cultura brasileira. Entrevista especial com Tito Cavalcanti

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25 Mai 2007

Apesar da febre que o Rap causou nos jovens brasileiros no final da década de 1990, esse movimento ainda vem se inserindo dentro da cultura brasileira, primeiramente como movimento em prol dos injustiçados e depois como entretenimento da periferia. “A paixão marginal - O RAP precisa de passagem” foi o tema da palestra que o psiquiatra Tito Cavalcanti apresentou no início deste mês na Livraria Cultura – Paulista, em São Paulo. No evento, Tito desvenda a origem e autores desse movimento e responde a questões como: O Rap pode ser considerado música brasileira? A partir desta discussão, Tito fala sobre a complexidade emocional das relações humanas nas grandes cidades.

A IHU On-Line entrevistou Tito Cavalcanti, por e-mail. Durante a entrevista, Tito analisa o Rap dentro da cultura brasileira e as manifestações culturais que nasceram de movimentos como esse.

Tito Cavalcanti é médico psiquiatra e analista junguiano pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. É autor do artigo intitulado “O três e o Quatro: análise de algumas considerações de Jung sobre o Timeu de Platão”, publicado no livro Hypnos 3 – Ethos, Ética (São Paulo: Editora Palas Athena, 1997), editado por Rachel Gazolla de Andrade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O Rap vem de uma cultura marginal que canta e reivindica os direitos e a cidadania de um grupo marginal. Como o senhor analisa o Rap dentro da cultura brasileira?

Tito Cavalcanti – Considero-o como manifestação social e como música popular brasileira. O Rap, que junto com o grafite (1) e a dança break (2), compõe o movimento Hip-Hop (3), começou nos EUA e logo se tornou meio de reinvidicações sociais, principalmente dos negros deste país. Quando migrou para o resto do mundo, tornou-se porta voz de reinvidicações da população excluída de cada país. No Brasil, com a injustiça social enorme que temos, o Rap foi logicamente encampado pela população negra das periferias das grandes cidades. Assim, ele tornou-se porta-voz daquilo que acontece nessas periferias e da luta por uma vida mais justa. Como a música brasileira é muito boa e forte, o Rap feito no Brasil sofre grande influência dos ritmos brasileiros. Acredito que já temos o samba rap, o repente (4) rap, a embolada (5) rap.

IHU On-Line - A complexidade emocional das relações brasileira foi o que impulsionou o Rap, primeiramente nos subúrbios e depois transportando-o para os centros das grandes cidades. Como o senhor avaliaria outras manifestações que nasceram dessa complexidade emocional?

Tito Cavalcanti - O Rap reúne várias questões brasileiras, como o racismo e a falta de Pai (6), que gera o abuso de autoridade, por um lado, e a falta de reconhecimento da autoridade, por outro. Os rappers tentam enfrentar essas questões usando só a palavra como arma. Nesse sentido, é um movimento saudável, se entendermos que a complexidade emocional brasileira pode gerar diversos tipos de violência como o tráfico de drogas e a prostituição infantil. Existe uma tendência a associar Rap e violência, mas, se visto com cuidado, o que fica evidente é a denúncia da violência e não sua exaltação.

break dance

IHU On-Line - O Rap, como outros movimentos semlhantes, pode ser visto como marginal?

Tito Cavalcanti - Não sei se concordo em chamar o Rap de movimento marginal (7). Ele, como outros movimentos, não está localizado fora da cultura. Pelo contrário, os autores dos raps demonstram estar bem informados sobre as questões brasileiras. Acredito que é um movimento daqueles que são injustiçados.

IHU On-Line – Quais são os caminhos que o Rap tem utilizado para se inserir na sociedade?


Tito Cavalcanti –
Para isso, vou te dar um exemplo: acredito que São Paulo possa ser dissociado em dois universos: o da periferia e o do centro. Esse dois universos são tão grandes que é preciso organizar um diálogo urgente. Nas letras de muitos raps, pode-se vivenciar e empatizar o sofrimento humano dos que vivem nas periferias pobres de grandes cidades. A poesia abre caminhos, pois desperta sentimentos que temos em comum , independente de qualquer situação social ou cor de pele.

IHU On-Line - O Rap seria um movimento provindo daquilo que Freud chama de "mal-estar na civilização"?

Tito Cavalcanti - O mal estar-na civilização ocorre pela necessidade que temos de reprimir nossos instintos e impulsos para podermos viver civilizadamente. Não tenho dúvidas de que o Rap é um movimento que traz a discussão sobre a justiça, a dignidade do homem, e, nesse sentido, procura conter impulsos primários do ser humano, tais como a ganância e a violência da lei do mais forte. O Rapper, portanto, sente o mal-estar daqueles que estão na civilização.

Notas:

(1) É a designação para a pinturas feitas em muros e paredes na rua. O grafite salta aos olhos nos grandes centros urbanos. É considerado por muitos como um ato de vandalismo. Está ligado a movimentos como o movimento Hip-Hop.

 

(2) Break Dance é um tipo de dança de originada na década de 1960, quando a onda de música negra assolou os Estados Unidos. A população das grandes cidades sentiu, a partir desse movimento, uma maior proximidade com os artistas produres dessa cultura, principalmente por sua maneira verdadeira de demonstrar a alma em suas canções.


(3) O Hip-Hop emergiu no final da década de 1960 nos subúrbios negros e latinos de Nova Iorque. Estes subúrbios enfrentaram todo tipo de problemas: pobreza, violência racismo tráfico, carências de infra-estrutura, de educação etc. Os jovens encontravam na rua o único espaço de lazer, e geralmente entravam num sistema de gangues, as quais se confrontavam de maneira violenta na luta pelo domínio territorial.

 

(4) É uma tradição folclórica brasileira, cuja origem remonta aos trovadores medievais. Especialmente forte no nordeste brasileiro, é uma mescla entre poesia e música na qual predomina o improviso – a criação de versos "de repente". O repente possui diversos modelos de métrica e rima, e seu canto costuma ser acompanhado de instrumento musical - normalmente o dedilhar de uma viola de sete ou dez cordas.

(5) Tipo de repente nordestino em que o cantador toca pandeiro ou ganzá.

(6) Segundo reportagem do jornal Zero Hora do dia 20 de maio, a cada grupo de 10 adolescentes internados na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Estado (Fase), em Porto Alegre, quatro não conviveram com o pai - porque não o conheceram ou porque eles se ocupavam em roubar, traficar, matar enquanto seus filhos cresciam e se tornavam criminosos. No levantamento realizado, apurou-se que, dos 657 reclusos à Fase na Capital Gaúcha, 104 não levam o nome do pai na certidão de nascimento. Outros 141 viveram parte de seu desenvolvimento longe do genitor porque ele cumpria pena em alguma cadeia gaúcha. Dos 657 jovens com menos de 18 anos recolhidos nas seis unidades da Capital, pelo menos 77 já têm rebentos.

(7) Na cultura brasileira, refere-se a uma pessoa que por algum motivo não esteja inserida no convívio social, como os marginais (delinqüentes e assaltantes, por exemplo, porque não respeitam as leis, abusam do direito de outros cidadãos, causam transtornos e prejudicam a sociedade.). Há, ainda, um outro sentido para o vocábulo marginal quando ele remete a certo desprestígio socioeconômico e cultural (mendigos e pessoas que têm grande pobreza e escassez de recursos) que, muitas vezes, não têm seus direitos respeitados.

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