Duro ou suave, o lugar da China no mundo? Artigo de Francesco Sisci

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “Temos que entrar em sintonia com o caos”, avalia Franco “Bifo” Berardi

    LER MAIS
  • Párocos, franciscanos, ex-núncios: os treze novos cardeais de Francisco ampliam as fronteiras do Colégio cardinalício

    LER MAIS
  • Papa Francisco, uniões civis e o reconhecimento da intimidade. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


20 Abril 2020

"Embora as tensões estejam aumentando, na medida em que o vírus ainda se espalha pelo mundo, temos vivido um momento de calmaria. Os EUA vêm se irritando mais com a China a cada dia, mas até então isto não serviu para definir uma estratégia a empregar no caso do país asiático, nem as lideranças americanas têm ideia do que fazer com a China e o mundo. Isso está mudando", escreve Francesco Sisci, sinólogo italiano e professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China, em artigo publicado por Settimana News, 17-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Em vários países, como Índia, Brasil e EUA, pessoas ou organizações estão começando a exigir da China trilhões de dólares em indenização pelo surto epidêmico em curso.

A acusação é simples: a cidade de Wuhan possui o laboratório mais avançado de guerra bacteriológica do país. De todos os lugares da China, a pandemia veio a eclodir em Wuhan, localizada na província central chinesa de Hubei. Portanto, a explicação mais fácil é que houve um acidente no laboratório. Este acidente não foi relatado, tendo sido, pelo contrário, acobertado pelas autoridades e, depois, derramado nas ruas.

Reforçando essa hipótese, há o trabalho da Organização Mundial da Saúde – OMS, que deu razão aos dados possivelmente irregulares da China sobre o surto do vírus. Essas informações, de cerca de 3 mil mortes e 80 mil infectados, parecem menos credíveis com o passar dos dias. Na sexta-feira, a China corrigiu estes números, adicionando cerca de 30% das fatalidades em Wuhan, mas estes novos dados não se aproximam daquilo que se vê em outros países.

Como pode a Itália, com uma população menor que Hubei, quatro vezes menos densamente povoada e com um sistema de saúde muito mais avançado, ter atualmente mais de 20 mil mortes e vendo a doença ainda se espalhando a todo vapor? Além disso, a Itália cometeu muitos erros ao lidar com a doença, mas reagiu imediatamente. Hoje, está claro que o contágio, na China, durou cerca de dois meses sem prevenção alguma. Então, o número de mortos nesse país deve ser muito maior do que o registrado por Pequim.

A possível subnotificação e o possível encobrimento deste acidente enganaram gravemente muitos países em sua forma de lidar com o contágio quando foram atingidos, segue o argumento. Portanto, algumas organizações acreditam que a China deve pagar uma alta indenização por esse erro grave. A OMS é, de alguma forma, cúmplice nesse encobrimento, sugerem os EUA, que anunciaram que estão retirando seu apoio financeiro da organização sediada em Genebra.

De quanto estamos falando?

Jim Banks, deputado republicano de Indiana, teria dito que Pequim deve perdoar a dívida americana e enfrentar tarifas comerciais por seu papel na disseminação mundial da Covid-19. A China possui mais de 1 trilhão de dólares em dívidas americanas. Essa não é a única exigência. Uma associação de advogados indianos, chamada All India Bar Association – AIBA, possivelmente com o apoio do governo da Índia, e um grupo conservador da ONU, o Conselho Internacional de Juristas – CIJ, apresentaram uma queixa no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, solicitando quantias não especificadas na forma de indenização pela disseminação mundial do coronavírus pela China. [1] Além disso, o advogado americano Larry Klayman e seu grupo Freedom Watch entraram com uma ação num tribunal federal do Texas, buscando 20 trilhões de dólares da China, mais do que o dobro do PIB chinês. [2]

Ações semelhantes foram movidas na Flórida e Nevada. “Até 1952, os EUA normalmente adotavam a posição de que a imunidade dos soberanos estrangeiros era absoluta. Naquele ano, o Departamento de Estado considerou que examinaria mais de perto as reivindicações de imunidade quando o caso envolvesse uma disputa comercial. Isso, por sua vez, levou a Lei de Imunidades dos Soberanos Estrangeiros, conhecida como FSIA em inglês, aprovar, em 1976, um estatuto destinado (nas palavras de um tribunal federal) ‘a proteger os soberanos estrangeiros dos encargos do litígio, incluindo o custo e o agravamento da descoberta’”. [3]

Portanto, a viabilidade legal desses processos está em dúvida e a aplicação de uma eventual sentença seria ainda mais difícil. Mas, na verdade, isto não é o principal. O problema principal, aparentemente, é político: construir um caso massivo e forte para encurralar a China ante os olhos da opinião pública mundial e até chinesa.

E mais: em muitos países, famílias de médicos e enfermeiros mortos na pandemia estão processando hospitais e autoridades de saúde porque estes profissionais não tinham proteção boa e suficiente para lidar com a doença. Isto pode gerar bilhões em indenizações. Será que parte destes bilhões irá se somar àqueles exigidos da China? Alguns advogados têm pensado nesse sentido.

Os chineses zombam das acusações e argumentam que algo semelhante poderia ser feito contra os EUA em relação à propagação da Aids. Mas os falcões americanos dizem que a Aids está no passado, nunca atingiu tão grandemente as economias mundiais e, o mais importante, os EUA nunca encobriram informações relevantes, como a China fez e ainda o faz.

“Uma abordagem desnudada seria um erro. A República Popular da China não é a dinastia Qing e Xi [Jinping] não é Cixi [imperatriz que presidiu as tentativas fracassadas da China de repelir os invasores ocidentais há mais de um século]. Quando o problema chegar, a China reagirá com mais força do que a de um bando de boxeadores armados com espadas, lanças, escudos, orações e rituais mágicos”, explicou Ben Lim, experiente analista de assuntos chineses. [4]

Mas analistas de defesa americanos replicaram: “Pequim sempre fala em revidar, mas percebem eles que isso incendeia os americanos? Os americanos gostam de luta mesmo quando sabem que perderão; os chineses não gostam de lutar e odeiam perder”.

De fato, a China pode ser mais frágil do que alguns outros países. Ele é um país muito mais populoso (isto é, mais exigente) do que outros, com uma dependência maior do comércio exterior, com uma grande classe média cujas vidas estão sendo interrompidas e um sistema político rígido demais para suportar flexivelmente golpes políticos.

Por outro lado, não se trata apenas da China. Talvez a questão para os EUA não seja a de ser “mais duro” ou “mais suave”, e sim o que fazer com a China. E, também, sendo a China uma questão global, a preocupação é o que os EUA querem fazer com o mundo.

“A grandeza das tragédias gregas clássicas reside no seu efeito humanizador sobre o espectador ou leitor – ‘catarse’, a purificação ou purgação de emoções, metáfora usada pela primeira vez por Aristóteles na Poética, para descrever os efeitos da verdadeira tragédia na mente… Não há sinais de que a tragédia que atingiu os Estados Unidos tenha tido algum efeito catártico nas elites políticas do país”, afirma o escritor indiano M.K. Bhadrakumar. [5]

Nem os EUA, nem a China apresentaram um desempenho surpreendente em suas capacidades enquanto líderes mundiais na maior pandemia da história mundial, disse John Pomfret [6]. Devemos esperar um mundo sem líderes? Neste mundo sem lideranças, haverá harmonia ou caos?

Harmonia ou caos

Em um mundo de líderes confusos e confundidos com a maior pandemia da história humana, pode o Espírito Santo ser um guia? Podem as palavras leves e, no entanto, profundas do Papa ser uma inspiração? [7]

“Desde 2013, tem havido uma intensificação do papel do Vaticano e do papa nos assuntos internacionais. Esta intensificação tem raízes históricas profundas: o fracasso na liderança mundial dos EUA, de alguma organização internacional ou de qualquer outro país. A Igreja Católica preencheu um vazio”. [8]

No entanto, mesmo no auge de sua influência, na Idade Média europeia, o papa nunca substituiu as potências temporais, no máximo ajudou a mediar entre elas. Poderá ele agora começar a recuperar parte dessa capacidade de mediação para evitar pelo menos parte do conflito que se aproxima?

Em ensaio recente, o padre Lorenzo Prezzi parece indicar que a Santa Sé está começando a pensar nessa possibilidade. [9]

Na verdade, embora as tensões estejam aumentando, na medida em que o vírus ainda se espalha pelo mundo, temos vivido um momento de calmaria. Os EUA vêm se irritando mais com a China a cada dia, mas até então isto não serviu para definir uma estratégia a empregar no caso do país asiático, nem as lideranças americanas têm ideia do que fazer com a China e o mundo. Isso está mudando. Depois de parecerem distraídos por semanas diante da ofensiva chinesa em doar ajuda e apoio a países em necessidade, os EUA começaram a reagir nos últimos dias.

Centenas de milhões de doações começaram a fluir em todos os lugares, mas o mais importante é que os especialistas americanos estão dizendo que não há problema em receber ajuda da China ou da Rússia; o erro está em fazer uma propaganda ofensiva a partir disso. Possivelmente, será preciso aguardar o resultado das eleições presidenciais de novembro para ver o que os EUA realmente querem fazer.

De muitas maneiras, este pode ser o fim de uma tendência isolacionista dos americanos. Mesmo que Trump se reeleja, como hoje parece provável, não parece que os EUA tentarão se afastar novamente do envolvimento ativo nos assuntos internacionais em geral e na Europa. Bem pelo contrário, a América aparentemente percebeu que não pode se dar ao luxo de se retirar do envolvimento global, para não perder o terreno da sua independência política e econômica. No entanto, ainda não está claro como o país escolherá se envolver de novo.

Enquanto isso, apresentará a China uma nova iniciativa política para antecipar a ofensiva política estrangeira? Geralmente, a China tem sido passiva, e quando tentou ser proativa, como com a Iniciativa Cinturão e Rota, ela falhou em compreender as sensibilidades estrangeiras e ocidentais.

Notas de referência 

[1] Ver artigo “‘Carefully assembled bio weapon’: Another petition filed against China over coronavirus”, disponível aqui.

[2] Ver artigo “$20 trillion lawsuit against China! US group says coronavirus is bioweapon”, disponível aqui.

[3] Ver artigo “No, China Can't Be Sued Over Coronavirus”, disponível aqui.

[4] Ver artigo “US-China ties: Echoes from the Boxer Rebellion”, disponível aqui.

[5] Ver artigo “Covid-19 confronts American exceptionalism”, disponível aqui.

[6] Ver “Does the future still belong to the U.S. and China?”, disponível aqui.

[7] Ver “Il papa confinato. Intervista a Papa Francesco”, disponível aqui.

[8] Ver o meu capítulo 16, intitulado “A History of Italy with Chinese Characteristics”, disponível aqui.

[9] Ver artigo “L’egemonia che verrà e la diplomazia vaticana”, disponível aqui

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Duro ou suave, o lugar da China no mundo? Artigo de Francesco Sisci - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV