Nicarágua. Mais acusações de Ortega contra o clero nicaraguense: “são somozistas”

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 04 Dezembro 2019

A revolução nicaraguense de 1979 derrubou a dinastia Somoza que estava há 40 anos no poder. Em meio à guinada das ditaduras militares e governos autoritários na América Latina, a Frente Sandinista de Libertação Nacional - FSLN poderia ser sinal de esperança para muitos grupos de esquerda da região. Um movimento que era composto por diferentes correntes, dentre as quais lideranças da Teologia da Libertação, tornou-se cada vez mais personificado em uma figura autoritária: Daniel Ortega. Para este, todos os que não o apoiam são “somozistas”. No último final de semana, em um encontro da Conferência Permanente de Partidos Políticos da América Latina e Caribe - Copppal, Ortega voltou a acusar os opositores a sua ditadura, mais especificamente o clero católico, de serem frutos da ditadura passada.

Desde que irromperam as manifestações contra a Reforma da Previdência, em abril de 2018, o clero nicaraguense tem assumido um papel central na resolução dos conflitos no país. Inicialmente, os bispos nicaraguenses buscaram firmar um Diálogo Nacional entre os diferentes setores da sociedade, junto com o governo. No entanto, Ortega se retirou do organismo, afirmando que os “bispos não estavam sendo neutros, mas sim tomando o lado da oposição”.

Nas recorrentes manifestações que ocorreram no país durante os últimos dois anos, os bispos têm atuado na defesa dos opositores ao regime que são violentamente perseguidos por grupos policiais e paramilitares. Em dezembro de 2018, o portal Confidencial divulgou e-mails da primeira-dama e vice-presidente do país, Rosario Murillo, convocando os grupos da FSLN para saírem às ruas e atacar os manifestantes. Em muitos desses protestos, diferentes paróquias e universidades católicas serviram de abrigo contra a repressão.

Logo, os ataques do orteguismo tornaram-se diretos ao clero. Em julho de 2018, a paróquia da Divina Misericórdia, na capital Manágua, foi alvo de tiros. Em outubro do mesmo ano o padre Edwin Román, na Igreja de São Miguel, também na capital Manágua, foi agredido por militantes da Frente Sandinista. Em abril de 2019, dom Silvio Báez, bispo-auxiliar da Arquidiocese de Manágua, foi convocado pelo papa Francisco para morar em Roma, depois das constantes ameaças contra a sua vida. Báez é acusado pelos meios de comunicação do governo – El 19 Digital – de ser fascista e impulsionador de um golpe de Estado. Já no último mês de novembro, foi Rosario Murillo que os chamou de “lobos repugnantes” que falam “em nome da fé” e querem “dividir o país e acabar com a paz”.

As agressões ao clero continuaram sendo parte da política oficial de Ortega. Neste final de semana, em uma reunião da Coppal, realizada na Nicarágua, os canais do governo divulgaram o discurso proferido pelo presidente no encerramento da cúpula. “Como poderíamos crer neles? Eu creio em Cristo, mas não posso crer neles. Sim, eles têm raízes somozistas”, acusou Ortega.

Segundo ele, “o clero nicaraguense vem do Somozismo. Eu me formei no catolicismo, sou católico, mas conforme fui crescendo, entendi que os bispos daqui exaltavam Somoza”. Ortega incluiu no seu discurso ainda uma defesa dos seus militantes. “[Os bispos] fizeram das Igrejas quartéis desde abril. Saía gente armada delas. A Frente nunca invadiu uma Igreja. Durante todo o período de luta, nenhuma Igreja sequer. E nem se ocorria entrar em uma Igreja porque sabíamos que não permitiriam porque são somozistas. No máximo, chegavam grupos culturais da Frente na entrada da Igreja, mas até aí, e dali não passavam”.

Leopoldo Brenes, cardeal e arcebispo de Manágua, respondeu às acusações: “não pretendemos tomar o poder, não somos inimigos do Governo, nem da Polícia, nem do Exército, nem de nenhuma instituição política, nós somos pastores”. Para Brenes, o uso da linguagem “é maquiavélica e por meio dela se destrói qualquer coisa”.

A Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese também emitiu um comunicado motivando para a paz nesse tempo de celebração do Advento e do Natal, mas também denunciando os atos de guerra. “O escandaloso uso excessivo institucional da força, a perseguição seletiva, as torturas e as calúnias, a coerção sofrida pelos funcionários públicos, não contribuem para a paz que aprendemos de Cristo, nosso Mestre", aponta a Comissão. “O sistemático assédio à nossa catedral e templos paroquiais, especialmente o sofrido pelo pároco e fiéis em São Miguel, não contribui para a paz”, continua o comunicado.

Apesar das acusações ao clero, são as práticas persecutórias de Ortega que se assemelham à ditadura somozista. Também neste último final de semana, a oposição iniciou sua campanha de natal. Com o lema “Natal sem nenhuma presa nem preso político”, tem como objetivo garantir liberdade a pelo menos 160 presos políticos, que foram encarcerados desde que as manifestações iniciaram, em abril de 2018.

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