Confronto entre Ouellet e Viganò expõe estratégia dos católicos anti-Francisco. Editorial de National Catholic Reporter

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19 Outubro 2018

"Mostrar que as alegações de Viganò são falsas é a parte fácil. Conduzir uma investigação que tenha credibilidade será mais difícil. Será necessário um grau de transparência dentro do Vaticano que talvez não tenha precedentes. Mas tal crise também precisa de respostas sem precedentes", afirma o editorial de National Catholic Reporter, 18-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o texto.

Papa Francisco ouve o discurso do Cardeal Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos (CNS/Vatican Media)

A concisa, mas nítida carta escrita pelo Cardeal Marc Ouellet refutando as infames declarações de Viganò serve para interromper a onda de ataques e teorias da extrema direita católica. Estas sequer dariam uma boa ficção, além de serem facilmente desmascaradas como tentativas desajeitadas de desvalorizar o papado de Francisco.

Em pronunciamento inédito, Ouellet toma uma atitude que cabe bem nesses tempos de sensacionalismo. Ele expõe o fim da pretensão de unidade com a qual a hierarquia tentou mascarar suas divisões durante as últimas décadas.

Ouellet refutou a carta do Arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio nos Estados Unidos, que alegou encobrimento generalizado de denúncias contra o Cardeal Theodore McCarrick. A carta se mostra motivada por questões ideológicas, com acusações que Ouellet chamou de “inacreditáveis e absurdas”, bem como “injustas e injustificadas”.

A carta foi editada com a ajuda de algumas figuras da direita católica que aparentemente tentaram dar razão a Viganò para que pudessem, por sua vez, se aproveitar da autoridade de um ex-núncio para atacar o Papa. Toda a bagunça saiu pela culatra.

Ouellet, no entanto, fala com legítima autoridade na posição de prefeito da Congregações para os Bispos. Ele é capaz de ter uma ideia própria sobre o caso a partir dos documentos que sua congregação possui.

Além disso, Francisco, o Papa que finalmente destronou McCarrick, solicitou uma investigação detalhada de todas as etapas da evolução do ex-cardeal nas posições hierárquicas, uma vez que os rumores sobre seu comportamento sexual inadequado circulavam por toda parte. Aqueles que alegam encobrimento por parte do pontífice devem ficar descontentes com a investigação, visto que a carreira de McCarrick se deu por meio de indicações feitas pelo Papa João Paulo II, que mandou o ex-cardeal comandar a Diocese de Metuchen, Nova Jersey, depois a Arquidiocese de Newark, também em Nova Jersey, e, finalmente, a Arquidiocese de Washington.

Mostrar que as alegações de Viganò são falsas é a parte fácil. Conduzir uma investigação que tenha credibilidade será mais difícil. Será necessário um grau de transparência dentro do Vaticano que talvez não tenha precedentes. Mas tal crise também precisa de respostas sem precedentes.

Deixando a investigação um pouco de lado, a intervenção de Ouellet foi de grande valor. A carta aberta do cardeal também é direcionada aos apoiadores de Viganò nos Estados Unidos: “Em resposta ao seu ataque injusto e injustificado nos fatos, caro Viganò, concluo que a acusação é uma montagem política desprovida de uma base real.”

Viganò foi capaz de causar um mal-estar na Igreja com suas acusações. Falta liderança no excêntrico grupo com o qual ele se juntou. Esse vácuo se dá em virtude do dano comprometedor dos escândalos de abuso sexual nos EUA e pelos efeitos persistentes das indicações episcopais feitas por João Paulo II. É sabido que João Paulo II valorizava muito mais a lealdade do que a liderança dos bispos por ele nomeados. Nos Estados Unidos, isso significou uma Conferência Episcopal, que lutava pelas principais pautas culturais, sendo reduzida a várias disputas internas sobre problemas pequenos.

Outros beneficiados por esse vácuo foram as forças leigas de direita da Igreja. Elas descobriram como manipular a narrativa no país ao fundir uma série de organizações não-governamentais com suas próprias ambições políticas e ideológicas. Uma consequência disso, entre outras, é uma versão do Evangelho descaradamente a serviço dos políticos do Partido Republicano e do capitalismo desenfreado.

Um dos envolvidos mais ousados dessa leva relativamente nova de leigos envolvidos na Igreja é Timothy Busch, fundador do Instituto Napa. Ele é um empresário rico e bem-sucedido que, quando não está na sua vinícola ou envolvido com negócios de grandes valores, está procurando alguma coisa dentro da Igreja que seja convergente com seus interesses. Atualmente, ele está muito interessado na Universidade Católica da América, onde seu nome figura na faculdade de administração e onde faz palestras.

Nós temos denunciado e monitorado as atividades de Busch durante alguns anos, pois ele é um dos mais agressivos nessa casta de católicos americanos cuja ambição principal, é, aparentemente, nos convencer de que o Evangelho de Cristo foi na verdade feito para justificar as expressões mais extremas do estilo americano de capitalismo.

Sua eclesiologia apoiou o clericalismo. Ele era o tipo de bajulador dos membros da hierarquia que tinha muito dinheiro para os cortejar e ostentava reuniões de verão com o alto clero do país no condado das vinícolas da Califórnia.

Mas em algum momento desse ano, ele se deu conta de que os bispos não necessariamente carregam as chaves do palácio, especialmente bispos como o “contratante independente” de seu Instituto, Arcebispo John Nienstedt. Nienstedt renunciou ao cargo de arcebispo de St. Paul-Minneapolis por negligência com casos de abuso sexual e, também, por causa de uma investigação baseada em acusações de que ele próprio teria tido uma má conduta sexual. Recentemente, o Instituto Napa cortou sua ligação com Nienstedt.

Busch não está sozinho entre esses que, tendo ignorado a crise dos abusos sexuais por 30 anos, agora tira proveito da crise para difamar o atual Papa e semear aquilo que seria a Igreja de seus sonhos, ou seja, uma Igreja que, ironicamente, nos levaria de volta às noções extremas de hierarquia e clericalismo que culminaram no escândalo atual.

A nova causa de Busch - a “Reforma Autêntica” da Igreja – é um movimento que usa uma linguagem não apropriada (“Nós somos a Igreja!”, diz ele); usa um modelo inapropriado (ele diz que terá respeito pelo clero “na medida em que eles estão em conformidade com a perspicácia e o comportamento comercial normal”); é tomado por uma birra juvenil beirando a anarquia (segundo ele, acabará com escândalo de abuso “independentemente do que as leis civis e canônicas dizem”). Ele é advogado civil, portanto, é claro, sabe que não fará nada disso.

O que ele fará, como fez recentemente em Washington, é criar novas polêmicas e tomar a frente destes que estão sem credibilidade.

Viganò nos deu uma direção”, declarou Busch, “precisamos segui-la e levá-la adiante”.

Um dos apoiadores de Busch, Patrick Lencioni, fundador da Amazing Parish, que dispõe de serviços de consultoria para paróquias, declarou: “A autoridade moral do Papa Francisco foi gravemente ferida, ninguém tem dúvida disso”. Arrogância incrível, e Deus ajude as paróquias que seguem o caminho de seu consultor.

O bispo de Madison, Winsconsin, Robert Morlino, deu total apoio a Lencioni quando ele postulou que o problema de hoje é que “se fala demais de amor na Igreja e pouco de ódio.”

Morlino e muitos outros que falaram no evento sobre a “Reforma Autêntica” de Busch, estão convictos de que a crise dos abusos sexuais está ligada aos homossexuais no clero.

Claro que esta não é a visão sustentada por especialistas e de alguns membros da cúria que se utilizam de análises médicas e psicológicas. Para eles, a causa da crise não tem nada a ver com a homossexualidade. É, acima de tudo, uma doença que floresceu por causa da indecência e do encobrimento de uma cultura clerical que precisa urgentemente de uma reforma.

À essa altura, saber o que significa ser um católico nos dias de hoje é uma questão essencial.

O trabalho que tem de ser feito é tão sério e crucial que não pode ser confiado a charlatões e falsos religiosos. Estes têm sido, durante todo esse tempo, grande parte do problema. Ficamos felizes ao saber que instituições como a Universidade de Georgetown e a Universidade de Fordham estão promovendo discussões abertas para encontrar formas novas de lidar com os escândalos. Estaremos falando mais sobre esses eventos nas próximas semanas.

O trabalho que tem de ser feito precisará mais do que slogans. Precisará do acesso aos níveis mais profundos de nossa tradição sacramental. Precisará da imposição sem precedentes da prestação de contas por parte dos bispos. Também precisará de bispos com coragem de enfrentar os questionamentos mais duros sobre como chegamos a esse ponto. 

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