''O conflito sobre Lutero se aplacou, mas a unidade dos cristãos continua longe.'' Entrevista com Norbert Lammert

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07 Novembro 2017

“Eu acho que a modernidade de Martinho Lutero está na sua definição do homem cristão, dotado de liberdade e de uma responsabilidade individual que ele não está disposto a ceder a nenhuma instituição ou autoridade eclesiástica, confiando unicamente na própria consciência.”

A reportagem é de Paolo Valentino, publicada por Corriere della Sera, 05-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Até poucas semanas atrás, Norbert Lammert era o presidente cristão-democrata do Bundestag, o Parlamento alemão. Cargo ocupado por 12 anos, os mesmos nos quais Angela Merkel foi chanceler. Graduado em Ciências Sociais, católico, Lammert entrou no Bundestag em 1980 e foi uma das figuras de destaque do grupo CDU-CSU.

Também a partir do segundo cargo do Estado, ele interveio muitas vezes no debate político: em 2010, criticou a política nuclear de Angela Merkel, antes de ver que tinha razão, um ano depois, quando a catástrofe de Fukushima convenceu a chanceler a decidir pelo desmantelamento progressivo de todas as centrais atômicas alemãs. Lammert encerrou em Roma as celebrações dos 500 anos da Reforma luterana, com um discurso proferido na biblioteca da Igreja de Santa Maria dell’Anima.

Eis a entrevista.

A figura de Martinho Lutero foi e continua sendo muito controversa. Tem sentido celebrá-la hoje?

Eu acho que este Jubileu, mas, ainda mais, a década de Lutero que o precedeu mudaram a imagem de Lutero, tanto entre os católicos, quanto entre os protestantes: os primeiros superaram a sua demonização, os segundos, a sua sacralização, em certo sentido humanizando-o, por exemplo, trazendo à tona os seus lados obscuros com os quais certamente não podemos nos identificar, começando pelo seu antissemitismo.

Mas o Jubileu não foi um sucesso. Houve críticas aos custos excessivos, à ausência de uma mensagem, aos poucos visitantes em relação às previsões. O senhor as compartilha?

Se alguém esperava que toda a sociedade alemã se entusiasmasse com o Jubileu dos 500 anos, então essas críticas são justificadas. Mas essas não eram expectativas realistas. Porém, posso lhe dizer que o Estado acompanhou este Jubileu com fortes financiamentos, assim como faz para os Jogos Olímpicos ou para a Copa do Mundo de Futebol, porque é justo e lógico fazer isso nesse tipo de manifestações. Ainda mais que a Reforma foi um evento histórico de importância fundamental para a nossa história nacional e para a história cultural europeia.

Os poucos visitantes ou, justamente, a falta de entusiasmo são um sinal da progressiva descristianização da sociedade? A porcentagem de pessoas que se declaram membros de uma Igreja na Alemanha está no menor nível histórico.

Há muito tempo já, em quase todas as sociedades modernas, certamente na Alemanha, notamos que os vínculos com as instituições se afrouxam. Isso diz respeito não só às Igrejas, mas também aos partidos políticos, aos sindicatos e às associações desportivas. Por toda a parte, a vontade de se vincular a instituições diminui. Mas isso não significa que o interesse pela política, pelo esporte, pela fé diminui. Eu acho que a descristianização é uma conclusão precipitada. É verdade, as pesquisas dizem que a porcentagem daqueles que se dizem vinculados a uma Igreja na Alemanha nunca foi tão baixa, mas, ao mesmo tempo, elas registram uma estável maioria que indica nos valores cristãos a bússola da sua orientação. Essa discrepância é um desafio para todos: Igrejas, partidos e outras instituições.

Por um lado, uma maioria orientada pelos valores cristãos, por outro, uma maioria que, sobre temas como a imigração, reage com fechamentos e rejeições. Eu não falo apenas da Alemanha, é uma contradição registrada em muitos outros países europeus. A aceitação da cultura da acolhida não é um teste da orientação cristã?

O nosso ex-presidente, Joachim Gauck, disse em um discurso dedicado às migrações que “o nosso coração é grande, mas as nossas possibilidades são limitadas”. Não me parece ser uma observação não cristã. Na Alemanha, não há uma significativa minoria que ponha em discussão os princípios da nossa Constituição e os nossos deveres em questão de direitos humanos, defendendo que ninguém, nem mesmo aqueles que são perseguidos, devam encontrar asilo na Alemanha. Mas há um compreensível ceticismo sobre a ideia de que nós devemos acolher ou até mesmo convidar todos aqueles que, mesmo não sendo perseguidos, querem vir viver na Alemanha em vez de permanecerem no seu país. Uma cultura da acolhida, segundo a qual qualquer pessoa que queira vir entre nós é bem-vinda, seria, mesmo que com as melhores intenções, uma visão cristã do mundo não bem ponderada.

O senhor considera uma oportunidade perdida o fato de o Papa Francisco não ter ido a Wittenberg para os 500 anos da Reforma?

Teria sido um grande gesto. Mas também é preciso se perguntar qual teria sido a mensagem. O que faltou no Jubileu, na minha opinião, é a visão comum e declarada de superar o cisma nascido da Reforma. Nem da parte católica, nem da parte protestante, há a compreensão precisa de qual deve ser o resultado do ecumenismo. É por isso que, ao longo do tempo, criou-se um consenso em torno da expressão “diversidade reconciliada”, que, para mim, é uma recíproca declaração de rendição oculta. Ambos os lados abandonaram a superação da divisão e se refugiam nessa expressão. Ora, se isso acontecesse entre as grandes religiões do mundo, a “diversidade reconciliada” seria uma virada epocal para toda a humanidade. Mas, entre cristãos, entre os quais não há mais qualquer diferença de relevo na fé, assumir isso como objetivo é confundir os meios com o propósito. A “diversidade reconciliada” só pode ser um caminho para a superação definitiva da separação iniciada com Lutero. E eu suspeito que essa acomodação não tem mais nada a ver com a fé, mas com a necessidade de autoconfirmação das instituições, que querem ser mais importantes do que o propósito para o qual existem.

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