Os cristãos e o desafio da Babel religiosa. Entrevista com Claude Geffré

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13 Fevereiro 2017

A atual pluralidade de fés religiosas, de crenças e de visões espirituais podem aparecer aos crentes a vitória da confusão. Ao invés disso, de acordo com o teólogo dominicano Claude Geffré [falecido no último dia 9 de fevereiro], ela é uma bênção que responde a um misterioso e sábio desígnio de Deus.

A reportagem é de Brunetto Salvarani, publicada na revista Jesus, n. 2, de fevereiro de 2007. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Teólogo, digno herdeiro da grande tradição dominicana do século XX francês, Claude Geffré reside em Paris e é autor de alguns dos textos mais importantes sobre os efeitos do pluralismo religioso nas Igrejas europeias, além de membro do comitê científico da revista internacional de teologia Concilium.

No seu variado currículo, foi por mais de vinte anos, a partir de 1957, primeiro, professor de teologia dogmática em Le Saulchoir e, depois, de hermenêutica teológica, teologia fundamental e teologia das religiões no Institut Catholique de Paris. Em 1975, tornou-se diretor da prestigiada coleção “Cogitatio fidei” das Éditions du Cerf, enquanto que, em 1996, foi eleito diretor da École Biblique de Jerusalém.

Entre as suas últimas obras traduzidas para o italiano, estão Profissione teologo (San Paolo, 2001) e Credere e interpretare (Queriniana, 2002), enquanto acabaram de ser publicados, em francês, dois dos seus livros que já estão gerando discussões: um diálogo com o filósofo Regis Debray (Avec ou sans Dieu?, Bayard, 2006) e um ensaio de teologia inter-religiosa (De Babel à Pentecôte, Cerf, 2006).

Encontramo-lo por ocasião da segunda edição dos “Cantieri del diálogo”, realizados em Verona há algum tempo. Muito disponível, aceitou sem problemas refletir conosco de modo abrangente sobre as transformações do cristianismo entre presente e futuro, sem se negar diante de temas bastante delicados e complexos. E com o ar convicto de quem soube conjugar na sua vida um sólido compromisso intelectual com uma paixão existencial mal escondida.

Eis a entrevista.

Vamos começar com o tema do pluralismo religioso, descrevendo esse fenômeno e evidenciando o seu papel atual do ponto de vista cristão.

Na minha opinião, neste início do século XXI, o maior desafio para o cristianismo não vem tanto do lado múltiplo da religiosidade de tipo sincrético ou esotérico que passa sob o rótulo de New Age, que também existe, naturalmente, mas sim da pluralidade das grandes religiões não cristãs que estamos conhecendo cada vez melhor e que, muitas vezes, dão provas de uma nova e inesperada vitalidade. Não é de admirar, portanto, que o capítulo relacionado à teologia das religiões já se tornou um dos mais vivos, mas igualmente mais conturbados, da atual pesquisa teológica e um caso sério e realmente estratégico para o futuro do cristianismo.

A ponto de o pluralismo religioso se tornar, como o senhor teve a ocasião de afirmar recentemente, “o horizonte da teologia do século XXI”.

As nossas sociedades pós-modernas se colocam sob o signo do pluralismo de culturas e filosofias: parece quase que o mito genésico de Babel definitivamente triunfou! Por outro lado, acredito que haja um pluralismo bom e um mau. O mau pluralismo é a ideologia do pluralismo, que se desespera diante de toda verdade e de toda hierarquia de valores. Mas há também um bom, que simplesmente testemunha o atual clima cultural que é conjugado no plural e faz da diversidade uma chance para a conquista progressiva da verdade. Portanto, eu falo de bom grado de pluralidade mais do que de pluralismo... E sugiro precisamente, para descrever o fenômeno, o ícone de Babel: que, assim como a confusão das línguas, representa uma maldição, mas, como reconhecimento da necessária pluralidade das línguas, assim como das culturas e das religiões, certamente é uma bênção correspondente a um misterioso e sábio desígnio de Deus.

Discute-se hoje extensivamente sobre identidade e, especialmente, identidade cristã, de tal modo que, às vezes, corre-se o risco de torná-la um ídolo... Pode nos sintetizar os seus pensamentos a esse respeito?

Qualquer diálogo deve começar a partir de uma identidade: os cristãos podem aceitar um certo pluralismo teológico, mas a sua identidade deve se manter. Na verdade, eu acho que um diálogo bem conduzido leva a uma maior estima e consideração pela própria identidade, até realçar melhor a sua originalidade. O diálogo inter-religioso deve ser considerado como um autêntico sinal de esperança, como uma conversão espiritual e uma cumplicidade entre as grandes tradições religiosas, incluindo nelas também as “religiões sem Deus”, como, por exemplo, o budismo. Eu diria que todas as experiências espirituais são experiências pascais, isto é, uma mortificação de si para alcançar uma abertura a Deus e aos outros cada vez maior...

Um corajoso teólogo canadense, Jean M. Roger Tillard, se perguntara, no seu último livro: talvez sejamos os últimos cristãos? Em outras palavras, ainda há espaço, no futuro da humanidade, para a mensagem evangélica?

A pergunta, certamente, é legítima. Atualmente, a Europa ocidental está atravessando plenamente a era do fim do cristianismo, e as Igrejas não têm mais o controle – nem moral nem cultural – da opinião pública. Na minha França, por exemplo, o cristianismo aparece minoritário não só no mero plano dos números, mas também no plano cultural... Por outro lado, o cristianismo pode ser lido como a religião da saída das religiões, já que hoje assistimos às crenças múltiplas, ao relativismo em chave ética, mas também ao fenômeno de tantas pessoas fascinadas pelo Sermão da Montanha! Acho que se pode afirmar que nos encontramos no fim de uma determinada figura histórica do cristianismo e no início de uma forma nova: mais democrática, mais plural em seu interior, mais aberta às outras religiões.

A pluralidade das interpretações da mensagem cristã, na sua opinião, representa o fim do cristianismo?

Não. Estamos à procura de um povo cristão não mais fundamentado nas paróquias tradicionais, mas em comunidades de escolha. Na Europa oriental, aliás, nota-se um certo redespertar religioso: penso nas Igrejas ortodoxas, apesar de toda a ambiguidade do patrimônio tradicional da Ortodoxia, ou seja, a sua estreita relação com o poder político. Em geral, por fim, a Europa não poderá ainda ignorar por muito tempo a extrema relevância do cristianismo que cresceu fora dela, da América Latina à Ásia, passando pela África: um vasto mundo cristão que deseja o quanto antes obter uma maior autonomia do pensamento teológico ocidental.

Voltemos ao diálogo inter-religioso. Quais são, na sua opinião, as perspectivas de hoje?

Acima de tudo, gostaria de salientar que o diálogo não deve ter como objectivo a unidade – ilusória – entre os membros das diversas religiões, a fim de idealizar uma espécie de super-religião mundial que sacrifique a riqueza das distintas tradições de fé. Ao contrário, o diálogo inter-religioso deve apontar para um melhor conhecimento do outro, captado na sua diversidade, como estímulo recíproco a serviço das grandes causas da comunidade humana. Diante do caráter inacessível da verdade absoluta, que só pode coincidir com o mistério de Deus, gostaria de evidenciar a necessidade de superar uma mentalidade proprietária, tomando consciência de que, se a verdade revelada é única, cada um a possui de maneira parcial, e que a própria verdade não é nem inclusiva nem exclusiva em relação às outras verdades.

E de acordo com a Igreja Católica?

Do ponto de vista católico, parece-me que são dois os pontos de não retorno: o pensamento do Vaticano II sobre as outras religiões, a partir da declaração Nostra aetate, e sobre a liberdade religiosa, a Dignitatis Humanae, por um lado, e o evento extraordinário de Assis do dia 27 de outubro de 1986, por outro. É claro, a Nostra aetate recupera, dos Padres da Igreja, a doutrina das sementes do Verbo, semina Verbi, sem avançar ainda sobre a teologia do pluralismo religioso: lá, evidenciava-se a excelência do cristianismo, mas, ao mesmo tempo, afirmava-se o convite ao respeito e à estima pela porção de verdade e de santidade que se encontra nas outras religiões. Como um balanço, ao menos parcial, eu citaria, além disso, o grande interesse na Europa e nos Estados Unidos pelo diálogo, essa nova forma de ecumenismo que vai além das relações entre cristãos, além do interesse pela história das religiões, pelo Islã, pelo budismo...

Certamente, a Igreja Católica foi pioneira, de alguma forma. No entanto, não lhe parece que o exemplo do espírito de Assis não foi seguido pelas outras grandes religiões?

A teologia das religiões é uma especialidade tipicamente cristã, que não se encontra no Islã, no budismo, no hinduísmo, nem mesmo no judaísmo. o próprio Bento XVI é muito consciente do fato de que não há reciprocidade, sob essa ótica. O quadro geral do diálogo inter-religioso, portanto, oferece um panorama de luzes e sombras. Há, sim, uma vontade generalizada de diálogo, existem vários colóquios, encontros, mas o que funciona melhor, na minha opinião, é a positiva emulação sobre de temas mais sociais e políticos: paz, justiça, respeito pela vida, proteção da criação... Parece-me que, hoje, dá-se uma precisa responsabilidade histórica das religiões, em escala planetária, tendo em vista a sobrevivência da humanidade! Refiro-me à possibilidade realista de um humanismo islâmico-judaico-cristão, que deve ser entendido como uma relevante oportunidade para o futuro do nosso planeta.

A teoria supracitada dos semina Verbi – as sementes do Verbo espalhadas pelo mundo, e recapituladas em Cristo – funciona maravilhosamente para as religiões que existem antes do cristianismo: o que pensar daquelas que nasceram depois? Do Islã, em particular, por exemplo?

Eu partiria do fato de que Jesus também é considerado, como se sabe, como um grande profeta do Islã: Isa, justamente. É claro, como cristãos, não podemos admitir que a revelação de Jesus precisasse ser completada pela revelação corânica. No entanto, é possível considerar a revelação corânica como a confirmação das verdades essenciais do judaísmo e do cristianismo. Na minha opinião, o Islã, com o seu absoluto monoteísmo, é a confirmação profética da unicidade de Deus contra todas as formas de idolatria, embora – entenda-se – haja no Islã negações de realidades fundamentais da mensagem cristã, da filiação divina de Jesus ao mistério trinitário. Não deve ser subestimada, de fato, uma eficácia histórica, no Islã, na manutenção em milhões e milhões de fiéis muçulmanos do senso da adoração de Deus, da sua unicidade: a partir desse ponto de vista, trata-se de uma função benéfica em relação ao imanentismo típico da modernidade. Esse é o papel do Islã, hoje, pelo menos daquele fiel à sua tradição: recordar ao mundo que o homem não tem o controle da criação, contra a idolatria da ciência, e que o que foi criado por Deus é sagrado.

Como se inserem, no cenário que estamos descrevendo, os pedidos de perdão feitos por João Paulo II em março do ano 2000, no contexto do Grande Jubileu?

Eu acredito que se trata de um dos gestos mais proféticos do Papa Wojtyla, que, aliás, não teve o consenso unânime mesmo dentro da Igreja Católica. Bento XVI continua hoje [na época da entrevista] o seu percurso, no âmbito das relações judaico-cristãs, contra o tradicional e pernicioso substitucionismo de uma falsa teologia cristã: ele demonstra uma preocupação sincera, relativa ao futuro da identidade católica ameaçada não só pela secularização, mas também por uma excessiva abertura às religiões não cristãs... Esse também é o sentido da Dominus Iesus, um aviso para aqueles teólogos que legitimam muito apressadamente esse processo, em detrimento da identidade cristã e da missão. Por outro lado, se se deve conservar a exigência permanente da missão, é o estilo da própria missão que deverá mudar, para anunciar adequadamente hoje a Boa Nova, o Evangelho, de fato. O objetivo da missão não é aumentar os pertencimentos e as entradas na Igreja, mas sim a possibilidade de tornar visível o Reino de Deus, no espírito das Bem-aventuranças, que, com efeito, não confessam diretamente a Jesus, filho de Deus.

Para concluir, o que o senhor acha dos recentes acontecimentos relacionados com o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, incorporado ao da Cultura, e da transferência para o Cairo do seu presidente, Dom Fitzgerald?

Continua sendo um gesto estranho, que provavelmente deve ser conectado ao pensamento de Bento XVI sobre a teologia das religiões... Parece-me que o atual pontífice [Bento XVI] tende a desclassificar o diálogo com o Islã como diálogo cultural, enquanto, ao invés disso – na minha opinião –, ele é eminentemente um fato inter-religioso: assim como o diálogo com o budismo ou o hinduísmo. Não basta uma atitude moral para respeitar as outras religiões: é preciso um fundamento teológico. O que se coloca, aliás, no espírito do Vaticano II e do encontro de Assis que mencionamos acima. Para sintetizar com um slogan, gostaria de concluir: Cristo é universal, mas o cristianismo histórico não!

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