A dimensão racional da técnica e a modelagem da vida. Entrevista especial com Umberto Galimberti

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26 Outubro 2014

“Nós usamos instrumentos técnicos, mas não temos condições de possuir suas técnicas”, afirma o filósofo.

Foto: www.lookfordiagnosis.com

O olhar quase sereno de Umberto Galimberti esconde um sujeito que não tem nada de comedido quando se trata de defender suas posições teóricas e sua análise sobre as sociedades tecnocientíficas. Em quase uma hora de entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, durante sua visita ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o italiano tratou de defender seu conceito de técnica de forma entusiástica, objetiva e contundente. “Não temos que entender a palavra técnica como máquinas, isso é tecnologia. Temos que entender a palavra técnica como um tipo de racionalidade, que consiste em alcançar os máximos objetivos com o emprego mínimo dos meios”, explica Galimberti.

“Tudo aquilo que não entra neste tipo de racionalidade é expulso das nossas vidas. Somente o mundo da vida prevê o irracional, como o amor, o sentimento, a dor, e tudo isso, do ponto de vista técnico, é insignificante e é visto como um elemento de distúrbio”, aponta o professor. Na opinião de Galimberti, o momento de transição que vivemos jogou fora tudo aquilo que não parte de uma visão calculista/utilitarista do mundo. “A técnica não é uma entidade, é uma racionalidade de visão generalizada. É por isso que eu entendo o que é útil e necessário, mas não compreendo o que é bom, o que é belo, o que é verdadeiro, o que é santo e o que é justo. Todos esses valores se perdem e resta somente o valor da utilidade”, lamenta.

Para o teórico, a cultura do domínio judaico-cristã venceu a cultura grega e é por isso que a ciência e a técnica que conhecemos são manifestações desse domínio, pois surgem no impulso destas tradições. A questão que se impõe, entretanto, é: “O Ocidente vai sobreviver até o fim do cristianismo? Ou vice-versa, o cristianismo vai sobreviver ao fim do Ocidente? Em todo caso, a ciência e a técnica são produtos da cultura de domínio”, provoca. O autor ainda sustenta que não há, sequer, o desejo humano de se opor à técnica. “Não há uma oposição, porque os homens desejam a técnica mesmo que tenham medo dela. Podemos atingir um objetivo se tivermos um meio técnico de alcançá-la. Mesmo que tenhamos medo do aparato técnico, nós o desejamos”, argumenta.

Umberto Galimberti é italiano e professor titular de História da Filosofia e Psicologia Geral da Universidade de Veneza – Itália. É discípulo e tradutor das obras de Karl Jaspers e Heidegger, a quem dedicou três de suas obras, além de ser estudioso de Antropologia Filosófica e Psicologia Analítica. Atualmente, é colunista de um dos maiores jornais da Itália, o La Repubblica. É reconhecido por seu conhecimento circular notável, do mito à Ciência, da Filosofia à História, da Psicologia à Sociologia, da Filosofia da língua à Teologia, da Antropologia à Introdução da técnica, até a obscuridade e o relacionamento técnico dramático do homem. Será publicado, em breve, o texto “O Homem na Idade da técnica”, no Cadernos IHU ideias. O professor tem 17 obras publicadas, inclusive algumas editadas em francês, espanhol, alemão, grego e português. Entre elas estão Cristianesimo. La religione dal cielo vuoto (Milano: Editora Feltrinelli, 2012), Il viandante della filosofia (com Marco Alloni. Roma: Editora Aliberti, 2011) e Psiche e Techne. O homem na idade da técnica (São Paulo: Paulus, 2005).

Foto: Julian Kober/IHU

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A técnica em nosso tempo foi ontologizada? Ela se tornou um ente superior? Por quê?

Umberto Galimberti – Não temos que entender a palavra técnica como máquinas, isso é tecnologia. Temos que entender a palavra técnica como um tipo de racionalidade, que consiste em alcançar os máximos objetivos com o emprego mínimo dos meios. Tudo aquilo que não entra neste tipo de racionalidade é expulso das nossas vidas. Somente o mundo da vida prevê o irracional, como o amor, o sentimento, a dor, e tudo isso, do ponto de vista técnico, é insignificante e é visto como um elemento de distúrbio. A técnica não é uma entidade, é uma racionalidade de visão generalizada. É por isso que eu entendo o que é útil e necessário, mas não compreendo o que é bom, o que é belo, o que é verdadeiro, o que é santo e o que é justo. Todos esses valores se perdem e resta somente o valor da utilidade.

IHU On-Line - Em que sentido a técnica, invenção humana, saiu do controle do seu criador?

Umberto Galimberti – Nós usamos instrumentos técnicos, mas não temos condições de possuir suas técnicas. O celular contém uma concentração de inteligência humana que supera as minhas competências cognitivas e de conhecimento. Eu posso usar os instrumentos técnicos, mas não tenho o conhecimento técnico destes aparatos. A técnica já superou a capacidade individual de conhecimento.

“A técnica já superou a capacidade individual de conhecimento”

IHU On-Line - Por que a técnica é o destino das sociedades ocidentais avançadas? Estamos diante de um beco sem saída?

Umberto Galimberti – Estamos, sim, diante de um beco sem saída e é inútil que tenhamos esperança, porque a ciência e a técnica nasceram no ocidente por meio do impulso da cultura judaico-cristã. No Gênesis, Deus diz a Adão: vais dominar a terra e os animais; os peixes nas águas e os pássaros no céu. Mas os gregos não pensavam assim. Platão, por exemplo, disse “não pensa, homem mesquinho que esta natureza foi criada para ti. Tu serás justo e vais te ajustar de forma harmônica à natureza”. A cultura do domínio é a cultura judaico-cristã, ela venceu a cultura grega e é por isso que a ciência e a técnica, que são a manifestação desse domínio, nasceram através do impulso desta tradição. Como o Ocidente é cristão, também os ateus são cristãos, os agnósticos são cristãos, porque o cristianismo não é somente uma religião, é uma cultura. O problema que temos é: o Ocidente vai sobreviver até o fim do cristianismo? Ou vice-versa, o cristianismo vai sobrevier ao fim do Ocidente? Em todo caso, a ciência e a técnica são produtos da cultura de domínio.

IHU On-Line - A partir desse cenário, como podemos compreender que nos tornamos objetos do grande sujeito da história no qual se converteu a técnica?

Umberto Galimberti – Porque o homem foi sempre pensado como o padrão do universo. Quando a ciência foi criada, em 1600, Descartes dizia que através da ciência o homem se torna o dominador do mundo. Isso porque a essência do humanismo é a essência da técnica. Entretanto, a técnica quando se desenvolveu e difundiu a cultura da racionalidade utilitarista, reduziu o homem a um operador da técnica. Assim, qualquer trabalho, na fábrica ou no escritório, é responsável pelo protocolo, através das ordens dos superiores. Não é responsável pelos fins de suas atividades, é uma engrenagem do aparato não diferente dos instrumentos que utiliza. Ele não é mais um sujeito de vida, e sim um funcionário da técnica que utiliza. Isso determina também a queda da moral tradicional, porque a moral estabelecia o que é justo e injusto, o que é bom e o que é ruim e depois previa, também, o perdão.

A técnica é mais feroz que a moral, porque se a eficiência e a produtividade não são respeitadas, se está fora do sistema técnico e, automaticamente, do sistema social. Nesse sentido podemos ser imorais porque entra uma sanção técnica mais feroz que a moral.

IHU On-Line - Quais são as implicações éticas fundamentais desse cenário?

Umberto Galimberti – Nós não temos uma moral à altura da Idade da Técnica. Porque a moral cristã é moral da intenção, que te considera bom ou ruim conforme as intenções pela qual os sujeitos agem. Por meio dessa moral nasceu todo o sistema jurídico ocidental, dependendo das intenções de meu delito vou ter um ou outro tipo de condenação; trata-se de uma perspectiva que está relacionada à ética da intenção. Na idade da técnica não é importante o objetivo de por que se faz determinada ação, mas são importantes as consequências das ações. A Oppenheimer não interessava suas intenções quando inventaram a bomba atômica. Importante é o contrário, conhecer as consequências da bomba atômica. Nem mesmo a moral laica está à altura desta razão. Quando Kant queria fundar uma moral apenas sobre a razão prescindindo das religiões, que não podem criar uma moral universal, ele dizia que era preciso tratar o homem como um fim e não como um meio. Hoje esta moral não tem como funcionar, porque na Idade da Técnica tudo é mais complicado. Afinal, o ar é um fim ou um meio a ser protegido? A água é um fim ou somente um meio? A fauna, a flora, a biosfera, a atmosfera são fins ou são meios que devem ser salvaguardados? Nós não temos uma ética que tenha se responsabilizado pela natureza, nós temos a ética para reduzir o conflito entre os homens, mas não para proteger a natureza.

A ética vai funcionar se ela se tornar psique. Se eu estuprar uma moça vou ser percebido como culpado, mas se eu poluo como serei considerado? Max Weber formulou a ética da responsabilidade e disse que era necessário considerar a consequência das ações (até o ponto que essas consequências possam ser previsíveis). O problema é que as consequências da ciência e da técnica não são previsíveis. Aquilo que consideramos como o fim da ciência e da técnica são os resultados dos procedimentos. Não se trata de afirmar algo como “temos que curar o câncer”. A ciência não funciona assim. A tecnociência opera a partir da seguinte lógica: “deve-se estudar certo aminoácido por 20 anos”; “estude esta proteína por dez anos”. Se perguntássemos qual é o objetivo, o cientista responderia “não sei”. Ele argumentaria que é necessário conhecer tudo aquilo que é possível e se com o resultado desses conhecimentos tivermos uma vantagem para a humanidade, ok, mas este não é o objetivo e sim o resultado final de uma série de procedimentos. Ninguém projetou a clonagem humana, apenas viu-se que era possível.

IHU On-Line - Qual é o nexo entre a radicalização da técnica enquanto uma das faces do niilismo diagnosticado por Nietzsche?

Umberto Galimberti – Nietzsche definia o niilismo nos seguintes termos: falta de objetivo, falta de resposta ao “por que”, todos os valores se perdem. Que os valores percam os próprios “valores” não é importante. Porque eles não são entidades metafísicas que descem do céu, são coeficientes sociais nos quais as populações tentam viver da melhor maneira possível. O mais decisivo nesse aspecto é que não há objetivo, porque a técnica não tem objetivos, não tem como objetivo o bem-estar da humanidade, ela não salva, não redime, a técnica funciona. Aquilo que ela determina não é um bem-estar da sociedade, mas, sim, seu próprio desenvolvimento. A técnica quer a si mesma e o seu desenvolvimento independente das condições dos humanos. Dessa forma, o futuro se torna imprevisível e nesse sentido falta o objetivo, falta a resposta ao “por que” — por que estou no mundo, por que estou nessa situação de operador da técnica —, nós não temos nada onde nos agarrar, o que seria o próprio niilismo.

“O problema que temos é: o Ocidente vai sobreviver até o fim do cristianismo? Ou vice-versa, o cristianismo vai sobrevier ao fim do Ocidente?”

IHU On-Line - Em que medida é preciso repensar e até mesmo refundar conceitos como a política, a ética e a religião tomando em consideração o paradigma da técnica em nosso tempo?

Umberto Galimberti – Em relação à política, Platão pensava que a política deveria ser o local da decisão. Ele mesmo chamava a política de técnica régia. A técnica sabe como são feitas as coisas e a política sabe se é necessário e como se deve fazer. A política seria, então, o local da decisão. Hoje a política, ao contrário, não é local onde se decidem as coisas, porque para tomar decisões a política olha para a economia, e a economia para fazer suas coisas olha para os objetos tecnológicos. Nós temos, portanto, a política e a economia e a economia e a técnica. A política aparece na televisão, mas não é mais onde se decidem as coisas. Em relação às religiões, parece que ainda tem futuro, mas somente como um contraponto à racionalidade técnica, porque tudo aquilo que não tem a ver com a racionalidade técnica encontra no cenário religioso um local onde pode ter algum sentido. Porém, este sentido só é entendido na irracionalidade da religião, pois a religião é um local irracional, onde tem consolação, esperança, confiança, que são todos cenários excluídos do horizonte técnico. Mas na luta entre religião e técnica a técnica vencerá.

IHU On-Line - Em que aspectos a desconstrução que o senhor propõe de mitos como o da neutralidade, da instrumentalidade e da não humanidade da técnica representam uma falsa e alienante oposição homem versus máquina?

Umberto Galimberti – Não há uma oposição, porque os homens desejam a técnica mesmo que tenham medo dela. Podemos atingir um objetivo se tivermos um meio técnico de alcançá-la. Mesmo que tenhamos medo do aparato técnico, nós o desejamos. Por exemplo, há 25 anos houve a Queda do Muro de Berlim, e o fim do regime da União Soviética não foi porque as pessoas tinham fome, porque eram controladas, porque não podiam sair do país, não foram as razões humanísticas que determinaram o fim do regime. Em 1960, a técnica da União Soviética era igual ou um pouco superior à técnica de seu antagonista que era os Estados Unidos. De fato, os soviéticos já haviam lançado seu Sputnik ao espaço e, obviamente, o Comunismo não poderia acabar naquela época. Quando, em 1989, a técnica da União Soviética era infinitamente inferior à americana, o Comunismo caiu. Agora a técnica é a condição para realizar os objetivos, então todos desejam a técnica.

IHU On-Line - Qual é o nexo que une a hiper-racionalidade contemporânea, o surgimento e a consolidação da técnica?

Umberto Galimberti – A técnica com sua hiper-racionalidade determina também nosso modo de pensar. Heidegger disse de forma oportuna que o inquietante não é que o mundo se transforme em um grande aparato técnico, o mais inquietante é que não estamos preparados para essa grande transformação do mundo. E ainda mais inquietante é que não temos um pensamento alternativo ao modelo calculista/cartesiano de racionalidade. A técnica não oferece somente instrumentos técnicos, mas nos faz pensar desta forma. Uma vez eu estava em um trem e havia uma moça com uma harpa, um instrumento grande que atrapalha, e um senhor muito distinto começou a conversar com ela, conversaram por meia hora, a moça se sentiu gratificada por alguém interessado por sua arte, depois, no final, este mesmo senhor perguntou: “Onde estão os negócios desta arte?”. Isso nos faz entender que pensamos somente com a categoria do cálculo.

IHU On-Line - Em que medida a ética do viandante serve como contraponto ao status da técnica em nosso tempo?

Umberto Galimberti – A ética do viandante é uma ideia que ainda deve se tornar um livro. O viandante não é o viajante. O viajante vai de um lugar para o outro e todos os interlugares não existem. Viandante é, ao contrário, aquele que caminha, não tem mapa, e caminhando deve tomar suas decisões. Se chega diante de uma montanha, por exemplo, ele deve decidir se vai transpor a montanha ou contorná-la. Se tiver um rio, terá que ver por onde poderá passar. Se atualmente vivemos em um cenário onde não temos mais princípios, não temos mais regras morais, temos que utilizar a ética do viandante, que é a da contínua decisão, mas nela existe um critério, que não é o critério do bem, mas do menor mal. Neste sentido, esta será a ética do futuro, causada pelo colapso de todas as éticas por causa da técnica.

Houve uma época em que se nascia conforme a natureza, hoje as pessoas podem nascer por meio da técnica, assim como se pode morrer. A técnica modifica também todas as regras éticas. A ética diante da técnica se torna patética porque pergunta à técnica o que ela pode fazer, mas sabe que ela não faz tudo aquilo que pode. Isso nunca foi visto na história.

IHU On-Line - O senhor aponta a experiência totalitária do Nazismo como consumação da Idade da Técnica, rumo ao niilismo. As outras experiências totalitárias, de estado de exceção, que vivemos em nosso tempo continuam corroborando sua ideia? Por quê?

Umberto Galimberti – Eu iniciei a Idade da Técnica com as experiências nazistas. Tínhamos as tecnologias e as armas, mas a experiência nazista inventou um modelo que se tornou o modelo da técnica. Günther Anders, que era marido de Hannah Arendt, fala muito bem sobre isso. Há uma bela entrevista de uma jornalista húngara, que faz 170 perguntas a um diretor do campo de concentração de Treblinka e questiona ao nazista o que ele sentia quando fazia aquele trabalho. Ele não responde inicialmente, mas no final, contrapõe: “Que tipos de pergunta você está fazendo para mim? Eu não tinha o dever de sentir alguma coisa, minha tarefa era eliminar 3 mil pessoas até o fim da tarde, porque às 17 horas chegava outra carga que precisava ser eliminada até o dia seguinte. Este era o meu trabalho e eu o fazia muito bem”. Deste ponto de vista, o diretor era um ótimo trabalhador. Isso porque, na Idade da Técnica, as pessoas não são responsáveis por suas ações, mas devem dar conta da responsabilidade à empresa onde trabalham, aos equipamentos, mas não pelo que se faz. A responsabilidade se limita aos superiores. “Eu não sou responsável por minhas ações, mas pela boa execução das minhas ações.” O conteúdo não interessa. O bem e o mal se tornam o bem feito e o mal feito.

“Estou contente de estar muito velho, assim não vou poder presenciar o fim do humanismo”

Trabalhadores ou delinquentes

A Itália é o primeiro país que construiu perfeitas minas anti-homens. Como chamamos este operário que fez estas minas, trabalhador ou delinquente? Eu acredito que devemos chamá-lo de operário. Se eu oferecer um trabalho que pague mais, ele vai exercer este outro trabalho. Mas por que devemos considerá-lo um bom operário? Porque ele faz bem, tecnicamente, seu trabalho, mas não é o responsável por ele. A técnica, portanto, reduz a responsabilidade humana. Recordo que, antes da Guerra do Iraque, uma agência do banco nacional do trabalho no Canadá estava ligada ao tráfico de armas que fornecia armamento ao Saddam. O empregado daquela banca é culpado ou não? No primeiro momento ele pode saber, mas se ele sabe não é de sua competência. Eis a limitação da ética que opera na técnica. E o trabalho, que é uma palavra nobre e tem uma grande importância, não é levado em consideração. Quando Bush dizia “Nós iremos embora do Iraque quando tivermos acabado nosso trabalho”, que tipo de trabalho era este? É o de matar os outros. Quando Günther Anders dizia que havia escrito uma carta ao piloto que jogou a bomba sobre Hiroshima e perguntou o que ele sentia quando apertou o botão, ele respondeu: “Nada, isso era o meu trabalho!”. O trabalho se tornou uma coisa neutra em relação ao conteúdo, a avaliação de se é bem ou mal feito diz respeito aos protocolos.

IHU On-Line - É possível vislumbrar uma síntese da dualidade homem e técnica? O que pode emergir a partir dela?

Umberto Galimberti – Sim, uma síntese no sentido de que o homem foi absorvido pela técnica. Por exemplo, eu considero Mussolini, Stalin e Hitler figuras do humanismo. Onde os homens decidem todas as coisas. Hoje, isso não é mais possível. Não podem mais nascer homens que salvem ou destruam um país. Hoje o que existe é o aparato técnico, e o homem é o representante deste aparato técnico. Obama não pode decidir. Ele representa o conjunto de interesses técnicos interpretados como vantajosos. O humanismo acabou, temos que nos dar conta, como já havia defendido Heidegger, Jaspers , Günther Anders. O homem se salva na vida privada. Para falar de um modo simples, somente no final de semana, quando encontra a si mesmo, porque nos outros momentos ele é um funcionário do aparato, mas no final de semana o homem escapa de si mesmo como escapa do pior inimigo, ele se distrai. Está terminando uma época histórica, que é a da primazia do homem sobre a terra. Agora temos a superioridade dos aparatos sobre a terra, da racionalidade elementar, o máximo dos objetivos e uso mínimo dos meios. Uma vez, por exemplo, os celulares eram grandes máquinas que tinham somente uma função, hoje são pequenos e têm mil funções. Esta é a essência da técnica.

IHU On-Line – O que, nesses quase 10 anos de Psique e Techne: o Homem na Idade da Técnica, mudou no seu pensamento acerca das sociedades tecnocientíficas?

Umberto Galimberti – Meu primeiro livro, que escrevi em 1975, quando tinha 33 anos, era intitulado A queda do Ocidente (Il tramonto dell’occidente - Milano: Feltrinelli Editore, 2005), e acredito que tenhamos chegado agora a esta queda. Com a palavra Ocidente, refiro-me à América do Norte e à Europa, mas a realidade do Brasil é diferente, ainda que vocês corram o risco de entrar na racionalidade ocidental a que me refiro e, por isso, eu sinto aqui um mundo e uma vida que se move. O mundo da vida, pela técnica, não é interessante.

Se eu digo “te amo”, do ponto de vista técnico já foi dito tudo, não tenho nada mais a acrescentar, mas do ponto de vista da vida, há milhares de palavras para serem ditas. Todas estas palavras do ponto de vista da racionalidade técnica são inúteis e insignificantes, redundantes, e existe um conflito muito difícil entre a técnica e a vida. E quando nós observamos quem vence, considerando que a terra é vista do ponto de vista técnico — como já dizia Heidegger, em 1927 —, mudamos a percepção da natureza, pois quando as pessoas vão à floresta para ver as árvores, veem móveis, e quando estão diante de um rio não veem a natureza, mas a energia elétrica, se estivermos sob a terra veremos o subterrâneo; o planeta é percebido como matéria-prima. E é nesse sentido que o filósofo alemão dizia que “chegará o dia em que o homem será a matéria-prima mais importante”, não como sujeito da história, mas como matéria-prima da utilização pelo próprio homem. Depois disso temos ainda muito do mundo que ainda não é técnico, mas aqui não há como fazer previsões. Veja que a China e a Índia estão se tornando técnicas e a ideia de que a humanidade pode reapropriar a si mesma, e de que pode usar a técnica a seu serviço, não é mais possível. A técnica não é mais um instrumento nas mãos do homem, mas o homem se tornou um funcionário do aparato técnico.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Umberto Galimberti – Estou contente de estar muito velho, assim não vou poder presenciar o fim do humanismo.

Por Márcia Junges e Ricardo Machado

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