Conjuntura da Semana. Brasil continua refém do economicismo

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Por: Jonas | 05 Maio 2014

Considerando-se a trajetória das forças políticas que assumiram o Palácio do Planalto, esperava-se uma agenda mais ousada. O que se viu, porém, foi uma pauta conservadora subordinada à lógica imediatista e economicista.  Bandeiras históricas da luta operária e camponesa não entraram na pauta, apenas na retórica. A redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas e a Reforma Agrária nunca foram prioridades. A Era Lula/Dilma não teve coragem de afrontar o capital produtivo e o agronegócio.

 

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN.

Sumário:

O economicismo continua governando o Brasil

Copa do Mundo. Sociedade submetida à lógica do capital
Grandes Projetos. O decisivo está na ‘grande economia’
Mundo do trabalho. Ganhos conjunturais, perdas estruturais
Esquerda no poder. Transformador social ou articulador do capital?

Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

O economicismo continua governando o Brasil

A conjuntura está esquisita. A intuição é do sociólogo Luiz Werneck Vianna em artigo recém-publicado.  Pergunta ele: “A que se devem essa difusa sensação de mal-estar e esses pequenos abalos que vêm surpreendendo a rotina do cotidiano não só nos grandes centros metropolitanos?”.

Como compreender, prossegue Werneck Vianna, a “descrença generalizada nas pessoas e nas instituições diante da Constituição mais democrática da nossa história republicana e das políticas bem-sucedidas de inclusão social levadas a efeito nos últimos governos?”.

O que está acontecendo no país do futebol, a “pátria de chuteiras”, onde a Copa do Mundo, o maior e mais cobiçado evento mundial da bola seja rejeitada por metade da população? E que os militares execrados pela memória coletiva que deles se fez por ocasião dos 50 anos do golpe, continuem sendo mobilizadas para tudo? Como se sabe não haverá Copa sem eles.

E agora, como interpretar no 1º de maio as vaias ao governo que mais teria avançado em conquistas e benefícios aos trabalhadores? Considerando que não há nenhum abalo sísmico na economia, indicadores sob controle, mercado de trabalho estável e milhares ascendendo socialmente, como explicar a sensação de mal-estar generalizado?

Está esquisito, diz Werneck Vianna. A “dificuldade” de interpretar a conjuntura, de compreender o que está acontecendo vem desde as grandes manifestações de junho 2013. Desde aquele momento, o que até então tudo parecia normal passou a escapar à compreensão.

Werneck sugere uma hipótese para a ‘leitura’ da esquisita conjuntura. Segundo ele, é "debalde procurarmos as razões desse estado de coisas na dança dos indicadores econômicos. Elas estão noutra parte, visível o fio vermelho com que ele se liga às jornadas de junho, que denunciaram a distância entre o governo e a sociedade civil, especialmente da juventude".

Na linha de raciocínio do pesquisador da PUC-Rio, as razões do mal-estar não se encontram no “consumidor”, mas no “cidadão”. Segundo ele, “o economicismo, ideologia reinante entre nós, fruto nativo do nosso longevo processo de modernização, retruca com acidez aos argumentos que lhe são estranhos com o bordão ‘é a economia, estúpido!’”.

Em princípio, diz Werneck “isso não era para ser assim, uma vez que o PT tem em suas marcas de fundação a vocação para agir na sociedade civil e favorecer sua organicidade”. O erro maior foi subordinar a política ao economicismo. A Era Lula e agora seguido por Dilma, ainda com mais intensidade, não foi capaz de romper com o economicismo.  O país dialoga muito com o mercado e pouco com a sociedade. Quando muito, a sociedade civil é vista como uma beneficiária indireta dos êxitos da acumulação capitalista resultante dos econômicos bem-sucedidos.

Werneck Vianna dá um exemplo: “O triunfo maior da lógica dos interesses sobre a política veio com a adoção, e o sucesso, do programa Bolsa Família, perfeitamente compatível com os princípios neoliberais de raiz economicista. Sob esse registro, a sociedade não se educou nem se organizou, e corre o risco de se converter na multidão dos profetas apocalípticos que estão por aí”.

Na opinião do sociólogo, “nessa visão rústica da dimensão do interesse, somente o que importa é o bolso, o poder de compra, e as ideias e as crenças de nada valem, dando as costas a lições de clássicos como Weber e Marx, que estudaram seu papel na produção da vida material”.

As forças vivas da sociedade, por outro lado, que poderiam empurrar o governo para além do economicismo foram sendo incorporadas ao Estado. Segundo Werneck, “no governo, porém, essa plataforma de lançamento cedeu, com uma guinada em favor da recuperação da política de modernização da nossa tradição republicana, aí compreendida até a vigente no regime militar. Nos seus fundamentos, passam a ser incorporados elementos da estratégia política de Vargas, com a ampliação do Estado a fim de nele incluir sindicatos e movimentos sociais, em alguns casos mesmo que informalmente, caso do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST)”.

“Ficou esquisito”, conclui Werneck Vianna.

Copa do Mundo. Cidades e sociedade submetidas à lógica do capital

Ninguém sequer imaginava que às vésperas da Copa do Mundo, no país do futebol, o governo precisasse de uma ofensiva publicitária para resgatar o apoio popular ao evento mundial. A Copa, de alavanca para a popularidade de Dilma Rousseff se transformou num problema. O governo assiste atônito e perplexo ao que está acontecendo. Mais do que isso, está com receio do que possa vir acontecer. De grande festa, a Copa se tornou um tormento.

Que o diga o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República Gilberto Carvalho, que tardiamente iniciou um giro pelo país para acalmar os ânimos dos movimentos sociais. Hostilizado em muitas das audiências públicas, o ministro afirmou que está sentido "o pulso de como está uma parte da sociedade” e acrescentou, “isso é um pouco a panela de pressão que explode".

A insatisfação com os rumos da Copa irrompeu em junho de 2013 na Copa das Confederações. Simultaneamente ao evento, ocorreram as grandes manifestações. Os gastos exorbitantes, associados às remoções e a ingerência desmedida da FIFA foi um dos estopins dos atos nas ruas por todo o país.

Os exorbitantes gastos com a construção dos estádios não passou despercebido para o conjunto da população. Num país em que falta dinheiro para suprir as carências de serviços de saúde, educação, saneamento, transporte coletivo, os gastos sem fim com as Arenas foi visto como desproporcional às prioridades do país. O país que adora o futebol não se prestou ao salvo conduto que tudo justifica a realização da Copa.

O sentimento é de que a Copa do Mundo não reverterá para o bem comum, mas que serviu e tem servido para a lógica do mercado e não para avanços sociais. As obras do legado estão distantes de se tornarem uma realidade. Pior ainda, para muitos, a Copa tem sido perversa. Em nome da necessidade de construção das arenas, da reestruturação viária nos seus entorno são vítimas de remoções e até da higienização e esteticização.

Com a Copa o que se assistiu é a dinâmica da sociedade submetida à lógica do capital. A Copa configura-se elitista, privatista e anti-popular.  

#vaitercopa, porém, com a Força Nacional nas ruas.  

Grandes Projetos. O decisivo está na ‘grande economia’

As obras da Copa inserem-se num programa maior: o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC. O programa do PAC, por sua vez, insere-se num projeto de país, o crescimento econômico. A crença do governo é de que as obras do PAC – grandes projetos de infra-estrutura - são indispensáveis para a retomada do crescimento econômico, a geração de emprego e a distribuição de renda.

Por detrás dos grandes projetos está a reedição da concepção desenvolvimentista dos governos Vargas e JK – o Estado como facilitador e indutor do crescimento econômico.  O modelo econômico em curso não rompe com as opções estratégicas de antes: exportações baseadas em commodities minerais e agrícolas, agronegócio, grandes projetos sob a hegemonia de grandes grupos econômicos e financeiros, energia mesmo que ao custo de impactos socioambientais, industrialização e consumismo individual como estratégia maior.

O modelo em curso repete até mesmo os equívocos do modelo da ditadura em que o preço a ser pago pelo desenvolvimento vitima aqueles que se interpõem no seu caminho. A ideia é de que o ‘Brasil Grande’ não pode parar.

Na opinião de Eduardo Viveiros de Castro esse modelo está preso a uma lógica economicista. Segundo ele, “a esquerda em geral, tem uma incapacidade congênita para pensar todo tipo de gente que não seja o bom operário que vai se transformar em consumidor. Uma incapacidade enorme para entender as populações que se recusaram a entrar no jogo do capitalismo”.

Nessa perspectiva, diz ele, “quem não entrou no jogo – o índio, o seringueiro, o camponês, o quilombola –, gente que quer viver em paz, que quer ficar na dela, eles não entendem. O Lula e o PT pensam o Brasil a partir de São Bernardo. Ou de Barretos. Eles têm essa concepção de produção, de que viver é produzir”, diz Viveiros.

O Brasil poderia ter optado por um modelo diferente, apostado numa economia mais plural, porém, apostou todas as suas fichas e potencialidades no modelo produtivista-fordista. Descartou o seu potencial num modelo de ‘civilização ecológica’, como sugere Bruno Latour.

Latour afirma: “Penso que deve haver uma verdadeira revolução ecológica, não somente no sentido de natureza, e o Brasil é um ator importante”. Para ele, “a esperança do mundo repousa muito sobre o Brasil, país com uma enormidade de reservas e de recursos. Se fala muito do movimento da civilização na direção da Ásia, o que não faz muito sentido do ponto de vista ecológico, pois quando se vai a estes países se vê a devastação. Não se pode imaginar uma civilização ecológica vindo da Ásia”.

De novo o que se vê é um país subsumido à lógica economicista que sequer abre-se para outras possibilidades.

Mundo do trabalho. Ganhos conjunturais, perdas estruturais

A perplexidade, o “está esquisito” de Werneck Vianna não termina aí. O mal-estar se fez presente também no dia 1º de maio. As vaias ao ministro Gilberto Carvalho nos palanques do Dia do Trabalhador em que pese a disputa pré-eleitoral e o oportunismo da Força Sindical, também sinaliza algo.

Os mais de 11 anos do governo petista no Brasil “resultaram em mudanças no desenvolvimento nacional e na possibilidade de recomposição do mercado de trabalho, sobretudo quando se levam em conta as estratégias de valorização do salário mínimo, certo aumento na formalização do mercado de trabalho e a redução de desigualdade de renda corrente”, afirma Claudio Dedecca um dos entrevistados pela revista IHU On-Line dedicada à reflexão sobre o mundo do trabalho nessa última década de governo petista.

Considerando-se, porém, a trajetória das forças políticas que assumiram o Palácio do Planalto, esperava-se uma agenda mais ousada. O que se viu, porém, foi uma pauta conservadora subordinada à lógica imediatista e economicista.  Bandeiras históricas da luta operária e camponesa não entraram na pauta, apenas na retórica. A redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas e a Reforma Agrária nunca foram prioridades. A Era Lula/Dilma não teve coragem de afrontar o capital produtivo e o agronegócio.

Na opinião de Ricardo Antunes, “naturalmente, sabemos que durante esse período foram criados inúmeros empregos, e, sob este ponto de vista, comparado ao governo Fernando Henrique Cardoso, não há dúvida de que os governos Lula e Dilma foram superiores ao anterior. Digo que no conjunto é negativo, porque o Brasil não sofreu mudanças estruturais no que concerne ao trabalho”.

O problema, diz ele é que “o Brasil não sofreu mudanças estruturais no que concerne ao trabalho”. Segundo Antunes, “o governo Lula foi uma surpresa muito bem-sucedida para os grandes capitais”. Essa interpretação é corroborada por Cesar Sanson, professor de sociologia de trabalho da UFRN, para quem “são inegáveis os ganhos dos trabalhadores sob a hegemonia do PT nesses doze anos de poder. Houve conquistas conjunturais, porém, mudanças substanciais de natureza estrutural que poderiam dar ganhos perenes aos trabalhadores não foram realizadas”.

Na opinião de Dedecca, “as alterações mais substantivas no mercado de trabalho dependerão da manutenção das políticas públicas em favor do emprego e da renda, as quais necessitam ser incorporadas como parte de uma estratégia de um padrão de investimento nos próximos anos”. O problema, porém, diz ele, é que “estamos atrasados nesta empreitada”.

Segundo Dedecca, “a maioria dos economistas crê que o crescimento depende do bom manejo das políticas econômicas básicas (fiscal, monetária e cambial), dando pouca ou nenhuma importância às políticas setoriais, sociais, de inovação e de trabalho. De fato, precisamos ter virtuosidade na condução das políticas fiscal, monetária e cambial. Porém, não serão elas que poderão viabilizar um crescimento mais acelerado com redução da desigualdade”, afirma.

De novo, o aprisionamento ao economicismo que impede políticas mais ousadas. “Por incrível que pareça, diz o professor do Instituto de Economia da Unicamp, o aprisionamento pelas questões de curto prazo e pelo crescimento passado não se constitui em uma situação restrita ao governo Dilma. Ela também atinge os partidos de oposição e as representações patronais e dos trabalhadores, que nada ou pouco têm a dizer sobre questões estratégicas para o desenvolvimento brasileiro. Ao aprisionar governo, oposição e atores sociais, o debate político se empobrece, característica que promete dominar as eleições de 2014. Neste sentido, sou pessimista de que venhamos a superar a situação crítica em que se encontram o debate e as iniciativas em favor de um desenvolvimento com redução da desigualdade para o país”.   

Embora o governo carregue consigo certo sentimento de “tarefa cumprida” na relação com o mundo do trabalho em função do aumento real do salário mínimo e da maior criação de empregos com carteira de trabalho assinada, o pós-junho de 2013 fez o governo perceber que nem tudo é “céu de brigadeiro”.

O mercado de trabalho brasileiro é acentuadamente precário. Mais de 90% das ocupações criadas na última década são de até 1,5 salário mínimo. Persistem muitas ocupações precárias e o desemprego disfarçado em que pessoas entram nas estatísticas como ocupadas, mas na verdade estão em situação precária, procurando novas ocupações, percebendo rendimentos do mercado informal, e muitas vezes sequer recebendo.

Outro dado significativo é de que parte substantiva dos empregos gerados é terceirizada, e emprego terceirizado é, via de regra, emprego precário. Estudos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Dieese, revelam que o trabalhador terceirizado fica 2,6 anos a menos no emprego, tem uma jornada semanal de trabalho de três horas a mais e ganha 27% menos. Ainda mais, a cada 10 acidentes de trabalho, oito ocorrem entre terceirizados. Pior ainda, a terceirização presta-se como mecanismo de desrespeito aos direitos dos trabalhadores. Faz-se necessário observar ainda que perduram os altos índices de rotatividade no trabalho, e o que é pior, crescimento assustador do número dos acidentes de trabalho e das doenças ocupacionais.

O que se constante é que mesmo e apesar do êxito econômico no mundo do trabalho, permanecem contradições, como destaca o pesquisador do Cesit Dari Krein. Não acompanharam o boom econômico, medidas e iniciativas estruturais que poderiam imprimir outra dinâmica à realidade do trabalho. O que é mais grave, não se viu planejamento estratégico que visasse em longo prazo alteração de rumo à precarização reinante na sociedade do trabalho.

De novo, aqui a intuição de Werneck. O mal-estar tem a ver com o “fio vermelho com que se liga às jornadas de junho’, principalmente entre os jovens. A sociedade do “pleno emprego” brasileira esconde a precarização no trabalho.  Aqui, muitos jovens embora tenham concluído o ensino médio e até mesmo a faculdade, acabam se sujeitando a condições de trabalho que não combinam com as promessas de ascensão social prometida.

Esquerda no poder. Transformador social ou articulador do capital?

A questão de fundo que se apresenta, a esquerda - em mais de uma década de governo - não ousou romper com o ‘círculo giz econômico’. A ascensão da esquerda ao governo foi cercada de enormes esperanças e expectativas na efetivação de reformas estruturais e vigorosa resposta ao Consenso de Washington traduzida nas políticas neoliberais que castigavam o país e todo o continente latino-americano.

Na análise de Werneck Vianna em entrevista à IHU On-Line nº 413 “o PT veio ao mundo com uma missão, a de transformar, mas aos poucos foi capitulando”. Segundo ele, o PT “foi se tornando uma presença tradicional na política, o que não quer dizer que não ative ainda reformas, só que reformas pontuais, porque na verdade, o PT se tornou o grande operador do modo do capitalismo brasileiro”.

Na análise do sociólogo Ivo Lesbaupin, “os governos do PT indubitavelmente deram mais atenção ao social que os governos anteriores, como o aumento real do salário-mínimo e o programa Bolsa-Família, e reduziram fortemente o desemprego”. Porém, diz ele, “se examinarmos mais de perto, o que nos impressiona não são as diferenças com os governos anteriores, são as semelhanças – cada vez maiores, à medida que o tempo passa”.

Segundo o assessor de movimentos sociais, “o governo FHC é considerado uma ‘herança maldita’, mas a política econômica que privilegia o capital financeiro permanece de pé: os bancos tiveram mais lucros nos governos do PT do que antes”. Não opinião de Lesbaupin, “não foi feita nenhuma reforma estrutural nas estruturas geradoras da desigualdade no país, no entanto, foram feitas reformas estruturais para atender aos interesses do capital, como a reforma da previdência do setor público, aprovada no primeiro ano do governo Lula”.

O filósofo Vladimir Safatle na IHU On-Line é outro que partilha da ideia de que o PT ficou distante da realização de um governo que possa ser chamado de esquerda. Em sua análise, faltou ousadia ao PT. Diz ele: “Qual deveria ter sido a função de um novo momento [o PT no poder] do ponto de vista econômico e social no Brasil? Era fazer um investimento maciço na construção de grandes sistemas de serviço público. Lutar pela construção de algo parecido a um Estado do bem-estar social. Isso não foi feito e nem existe um plano do governo que diga, por exemplo, que daqui a 15 anos teremos todo um sistema de ensino médio público”.

O projeto desse modelo, destaca o sociólogo José de Souza Martins “é apenas ou sobretudo incluir e integrar, não se trata de superar e de transformar, mas de aderir". O risco foi a adoção de um modelo de inclusão via mercado – o consumo como critério de inclusão – e não via resolução de seus problemas estruturais.

É essa lógica que não foi rompida. O economicismo continua governando o Brasil.

Conjuntura da Semana em frases

Desmonte

“A função dos partidos sociais-democratas resume-se, atualmente, a desmontar o sistema de seguridade social que eles próprios construíram há décadas, isso por meio de um reformismo infinito que parece terminar só na autoimolação dos trabalhadores” – Vladimir Safatle, professor de Filosofia – Folha de S. Paulo, 15-04-2014.

Saia logo!

“Já deveria ter ido” -  Elvino Bohn Gass, deputado federal – PT-RS, referindo-se, exasperado com a demora na renúncia do correligionário André Vargas (PR) ao mandato – Zero Hora, 17-04-2014.

Banda limpa

“O isolamento de André Vargas deveria ter vindo quando ele atacou Olívio Dutra, a banda limpa do PT” – Elio Gaspari, jornalista – Correio do Povo, 16-04-2014.

PT

“Pela primeira vez desde 2005, quando surgiu o escândalo do mensalão, o PT enfrenta uma divisão perigosa. De um lado, a turma do "partir para cima", defendendo qualquer companheiro, em qualquer situação, liderada pelo deputado Cândido Vaccarezza. De outro, o grupo que prefere jogar alguma carga ao mar. Nele, fica o presidente do partido, Rui Falcão. Falta pouco para que se possa dizer que a nação petista tem dois blocos: um com alguma ideologia e algum fisiologismo; outro, só com fisiologismo” – Elio Gaspari, jornalista – Correio do Povo, 20-04-2014.

Mensalão? Não houve

"O mensalão teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica. O que eu acho é que não houve mensalão" – Lula, ex-presidente da República – O Estado de S. Paulo, 28-04-2014.

Pinga ni mim

“Paulinho da Força comprou três garrafas de tequila Revolucion para a festa da central e, às 11h, já circulava com um copo à mão. Disse que era para "calibrar o discurso". Acabou dizendo que Dilma deveria estar na Papuda. A fala preocupou advogados da central” – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 02-05-2014.

Contra-ataque

“Auxiliares de Dilma ficaram indignados: "Isso é linguajar de quem está muito doido, fora do juízo. Esse deputado deve ter enchido a cara antes do ato" - Paulo Bernardo, ministro das Comunicações – Folha de S. Paulo, 02-05-2014.

2018

"Ele não pensa em nada a não ser em 2018" - Luiz Carlos Barreto, o Barretão, produtor, dizendo-se convencido de que Lula não quer ser candidato neste ano – Folha de S. Paulo, 02-05-2014.

Janela de oportunidades

“Nos demos conta de que cometemos erros no processo todo, em não fazer um investimento para valer na comunicação. Deixamos de informar o cidadão sobre o que significa a Copa na sua inteireza. Permitimos que se criasse uma visão parcial e distorcida, de invasão da Fifa, de gastos malucos com estádios. E a Copa não é só isso. É uma enorme janela de oportunidades para o país” – Gilberto Carvalho, ministro – Zero Hora, 15-0-2014.

Tá tudo bem?!

“Gilberto Carvalho e a Dilma tem que se manifestar com relação a isso e com urgência. Esta é a Copa que JÁ está acontecendo.... é a tentativa louca, depois da falência de uma política de pacificação vazia (cuja única linha de intervenção social circula no céu dos teleféricos), de impedir pela guerra aos pobres de lutar por uma verdadeira paz ! Ontem no Alemão mataram uma senhora. Hoje feriram (parece que já faleceu) um manifestante. Na Pavuna tbm houve um jovem assassinado e a revolta popular. Como pode o governo federal pensar que "tá tudo bem", só porque tem algums Ninjas-Fora do Eixo mercenários dizendo que eles representam o movimento? Enlouqueceram? Não conseguem ver que depois de junho foi tudo ressignificado? Que hoje a multidão dos pobres ousa saber e também sabe ousar?” -  Giuseppe Cocco‎, sociólogo, Universidade Nômade – Facebook, 29-04-2014.

Rica de marré deci

"A Fifa distribuiu US$ 37 milhões em bônus para os seus executivos em função dos resultados obtidos ano passado" - Ancelmo Gois, jornalista - O Globo, 23-04-2014.

Menos subsedes

"Qatar desistiu de construir 12 estádios para a Copa de 2022. Vai fazer somente oito. É para evitar desperdício de dinheiro. Já..." - Ancelmo Gois, jornalista - O Globo, 23-04-2014.

Sem diplomacia

“Em meio à crise entre São Paulo e Acre pelo envio de imigrantes haitianos sem aviso, a secretária de Justiça paulista, Eloisa Arruda, acusa o governador Tião Viana (PT) de agir como "coiote" e facilitar a ação de aliciadores de trabalho escravo ao "soltar nas rodoviárias" da capital paulista os refugiados "que não falam a língua nem têm documentação trabalhista". "Eles se tornam vulneráveis para aliciadores. Um governo não pode patrocinar uma ação dessa, não pode agir como coiote" – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 26-04-2014.

Secessão

“O senador Jorge Viana (PT), ex-governador do Acre, diz que a prefeitura e o governo de São Paulo precisam de "mais sensibilidade" para a chegada de haitianos à capital paulista. "O governo do Acre não tem condições de abrigar esses refugiados. Como é que a cidade mais rica do país vai expulsá-los?" – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 25-04-2014.

Prepara

“O petista, que é irmão do governador Tião Viana, vai além: "Eles estão no Acre de passagem e querem ir para outros Estados para trabalhar. Se São Paulo acha que 400 pessoas é muita coisa, eles que aguardem. Logo, serão milhares" – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 25-04-2014.

Com papel

“Por determinação de Dilma Rousseff, a Polícia Federal inicia na próxima semana uma força tarefa para regularizar a situação dos haitianos que estão sendo enviados do Acre para São Paulo e não têm toda a documentação exigida pelo país” - Mônica Bergamo, jornalista - Folha de S. Paulo, 02-05-2014.

Queima de arquivo?

"É um fato muito grave. A possibilidade de a morte do coronel (Paulo Malhães) ter ligação com seu depoimento é muito grande. O crime pode ter tido a finalidade de queima de arquivo, para impedir que ele continuasse a falar, ou de intimidação, para impedir que outros falem” - Pedro Dallari, coordenador da CNV (Comissão Nacional da Verdade) – Folha de S. Paulo, 26-04-2014.

Pessoas envolvidas

"Ele ainda não tinha contado tudo o que sabia. Se tinha detalhes dos acontecimentos, também sabia os nomes das pessoas envolvidas neles" - Pedro Dallari, coordenador da CNV (Comissão Nacional da Verdade) – Folha de S. Paulo, 26-04-2014.

Genial

“Foi um gesto genial (de Dani Alves), de uma felicidade ética absoluta. Ele deu um choque. Seu gesto simbólico terá mais peso do que muitos discursos. Fiquei orgulhoso em tê-lo como compatriota” – Roberto Romano, professor de Filosofia – Zero Hora, 29-04-2014.

Inócuo

“A “resposta” do jogador Daniel Alves é análoga à da criança que mostra a língua ao seu desafeto, ou seja, é perfeitamente inócua, não vejo nada de genial num gesto que (tudo bem, foi o que ele conseguiu para o momento) apenas reprisa a marca do improviso e da convencional “malandragem” brasileira (talvez isso tenha provocado essa onda, essa ola de relativo entusiasmo, afinal, trata-se do “nosso jogo de corpo”, longamente festejado) e cujo mérito, segundo a opinião de uns e outros, foi o de “ignorar a ofensa” e seguir jogando como se nada tivesse acontecido” – Ronald Augusto, poeta, músico e ensaísta – Zero Hora, 29-0-2014.

Simples

"Se Francisco canonizasse João Paulo II sozinho, o significado seria diferente. Representaria reconhecer que ele se reporta ao pontificado de João Paulo II, que é controvertido. Ao canonizar junto João XXIII, está dizendo que vem na linha de uma igreja simples" – José Oscar Beozzo, padre, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular - Zero Hora, 27-04-2014.

Jesuítico

"Canonizar João XXIII junto com João Paulo II é portenho, é malandro, é brilhante. É pura inteligência pastoral. Significa uma no cravo e outra na ferradura. Alguém mais sem vergonha diria que é jesuítico" – Fernando Altemeyer Junior, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) - Zero Hora, 27-04-2014.

Dominicano

"Papa Francisco é um jesuíta que usa roupa de dominicano e quer ser franciscano" - Timothy Radcliffe, ex-superior geral da Ordem dos Dominicanos - Le Point, 28-04-2014.

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