Os escrachos e um novo fenômeno de participação social. Entrevista especial com Ivana Bentes

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23 Agosto 2013

“Estamos diante de uma mobilização global político-afetiva nas ruas e nas redes”, constata a professora da UFRJ.

             Foto: dialogo-americas.com

Confira a entrevista.

“Os desorganizados” são a “novidade” das manifestações que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras nos meses de junho e julho, avalia Ivana Bentes, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Eles entraram em cena com “seus cartazes, memes, fantasias, como se estivessem postando em uma timeline, com expressões singulares e inventivas, muitas vezes sozinhos ou em pequenos grupos de amigos”, assinala.

Na avaliação dela, trata-se de um “momento intenso de potencialização política e da emergência de novos discursos e atores, que usam as redes sociais e se organizam conectando as redes digitais com os territórios e os corpos”. E acrescenta: “Olhando para as imagens produzidas, cartazes, memes na internet, hashtags, vídeos e fotografias, encontramos uma transversalidade e complementariedade desses movimentos e discursos”.

Ivana também analisa as narrativas de comunicação que surgiram com os protestos, e assegura que “a comunicação é a própria forma de mobilização, não é simplesmente uma ‘ferramenta’”. Ou seja, trata-se de uma “esfera midiática ativista”. E dispara: “A comunicação feita em tempo real pela Mídia Ninja, por exemplo, já é uma manifestação política e mobilizadora”. Para ela, a “Mídia Ninja não pode ser reduzida ao campo do jornalismo, mas aponta para um novo fenômeno de participação social e de midiativismo (ativismo e protestos), que utilizam a mídia e as redes sociais e celulares móveis e outras tecnologias para produzir um estado de comoção e de mobilização”.

Ivana Bentes é graduada em Comunicação Social, mestre e doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Atualmente leciona no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade, onde também é diretora da Escola de Comunicação. É autora de Cartas ao Mundo: Glauber Rocha (Companhia das Letras, 1997) e Joaquim Pedro de Andrade: a revolução intimista (Editora Relume Dumará, 1996). É co-editora das revistas Cinemais: Cinema e outras questões audiovisuais e Global (Rede Universidade Nômade).

Confira a entrevista.

                Foto: www.iabrj.org.br

IHU On-Line - Que análise faz acerca do uso das imagens e das redes sociais nas manifestações que ocorreram no Brasil? Quais são os discursos presentes nas imagens e nas redes?

Ivana Bentes - As manifestações e protestos no Brasil que explodiram em junho/julho são um acontecimento no sentido mais radical dessa palavra, expressam uma crise profunda que é quando não suportamos mais aquilo que suportávamos antes e faz ver o que tem de intolerável num determinado contexto ou momento. Ao mesmo tempo é a condição para emergir novas possibilidades de vida, de pensamento político, de formas de convivência. É uma redistribuição dos desejos.

E mesmo os protestos irrompendo de forma imprevisível, já havia um imaginário agindo e mobilizando: a luta contra a usina hidrelétrica de Belo Monte e defesa das terras e cosmovisão indígenas; as Marchas da Liberdade em todo o Brasil em 2011; o movimento de ocupação das praças e espaços público em 2012; a mobilização na Cúpula dos Povos durante a Rio +20; a comoção em torno de Pinheirinho e das mortes de jovens nas periferias do Brasil; as centenas de petições online com milhares de assinaturas em torno das mais diferentes causas; o movimento Existe Amor em SP que mobilizou os coletivos e parte da periferia de São Paulo; os bombeiros do Rio em confronto com o governo; as marchas do MST atravessando o pais, a Marcha das Vadias; a Marcha da Maconha etc.

Destaco a emergência de novas linguagens nesses movimentos urbanos: as mulheres da Marcha das Vadias exibindo seus seios e corpos pintados, reivindicando direitos e liberdade, ou as bicicletadas, com os manifestantes pedalando nus pelas avenidas e ruas de São Paulo e enfatizando a relação do corpo com seu transporte e fazendo do corpo outdoors contra as mortes dos ciclistas numa cultura dominada por automóveis.  Ou ainda os corpos em risco e confronto dos Black Bloc.

Ou seja, falamos de uma reinserção do corpo e dos corpos nas manifestações. Estamos nesse momento intenso de potencialização política e da emergência de novos discursos e atores que usam as redes sociais e se organizam conectando as redes digitais com os territórios e os corpos. Olhando para as imagens produzidas, cartazes, memes na internet, hashtags, vídeos e fotografias, encontramos uma transversalidade e complementariedade desses movimentos e discursos. Trata-se de um momento decisivo em que demandas singulares e plurais se encontram num impulso de mobilização e ação.  Em termos estéticos o que vi nas ruas foi uma espécie de carnaval político com blocos de manifestantes em tornos de causas, geralmente de grupos mais organizados e corporativos, movimentos que já estavam aí.

Desorganizados

Mas a grande novidade foi a entrada em cena dos desorganizados que vieram nas manifestações com seus cartazes, memes, fantasias como se estivessem postando em uma timeline: com expressões singulares e inventivas, muitas vezes sozinhos ou em pequenos grupos de amigos.

Percorrer essa “linha de tempo” nas ruas, com os “posts” passando com seus apelos e formas de comover e buscar a atenção, a necessidade de se fazer um percurso dentro mesmo das manifestações para não “congelar” os sentidos foi uma experiência nova. A violência dos embates dos corpos dos manifestantes com a polícia é outro ponto decisivo. Violência que saiu do cotidiano das periferias para impactar (com imagens chocantes e mobilizadoras) o imaginário do país todo.

O que vi de mais próximo do que está acontecendo agora no Brasil, em termos de linguagem, foram as Marchas da Liberdade, em 2011, que conseguiram juntar e dar visibilidade aos novos movimentos urbanos. Tenho a impressão (ver aqui o texto que escrevi sobre “A Marcha da Liberdade e os futuros alternativos” em 2011 http://www.trezentos.blog.br/?p=5909) que 2013 foi 2011 + 2012 elevado a enésima potência e com a entrada das periferias e dos pobres, a chamada “classe C”, pós políticas de redistribuição de renda e emergência de outros imaginários nas disputa das cidades.

Retomo a questão que emergia em 2011, de um movimento de movimentos, transversal, que não tinha nem tem um objetivo único, mas diferentes reivindicações, muito pontuais de um lado e muito amplas, como a liberdade, a participação direta, as políticas de descriminalização das minorias, das drogas e de comportamentos. Ou seja, demandas pela ampliação das liberdades e dos direitos.

Linguagens

Outro ponto em comum em termos de linguagens e que marcam as Manifestações de junho/julho: abolição dos carros de som (que monopolizam os discursos), o surgimento de micro grupos com seus pequenos megafones, músicas e paródias. Cartazes escritos à mão, colaborativos e singulares, muitos feitos apenas momentos antes, na rua mesmo. Uma “postagem” coletiva na rua, conectada aos territórios e às timelines, com grupos conectados às lutas históricas e o afluxo de uma outra multidão, dos “desorganizados”, a grande novidade dessas manifestações

2011/2012 foi em parte um ensaio geral para 2013, inclusive em termos de uso das redes sociais e as transmissões ao vivo pela internet com uso de celulares e 3G na mão dos manifestantes postando fotos nas redes sociais, chamando para as ruas no Twitter, com os debates sobre as marchas e mobilizações na Postv.org .

Foi nessas manifestações que vi, pela primeira vez, o poder e a potência do ao vivo, funcionando não como “jornalismo” ou reportagem, mas como mídia de comoção e de mobilização, como midiativismo, como vimos agora, realizados pelo mesmo grupo que está na base da Mídia Ninja, a rede Fora do Eixo articulada com muitos outros movimentos e coletivos de São Paulo.

Panela de pressão

É importante destacar que foi a luta pelo barateamento dos transportes públicos, tendo como horizonte a Tarifa Zero, em termos políticos e de imaginário, que fez explodir essa panela de pressão, a luta dos 0,20 centavos do Movimento Passe Livre - MPL de São Paulo. Um movimento com oito anos que sempre saiu às ruas, que ganhou essa dimensão massiva, como a gota d’água, que faz explodir e inundar o país em torno de uma questão decisiva, material, mas que incide no cotidiano de milhões de brasileiros.

A vitória do Movimento Passe Livre em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades, forçando os governantes a revogarem o aumento na tarifa de ônibus, trem e metrô diante das mobilizações nas ruas, não parou os protestos. O que mostra que o nível de insatisfação e as pautas eram muito mais amplas: os gastos com os mega-eventos e a Copa do Mundo, as remoções dos pobres de suas casas, projetos de gentrificação das cidades, a criminalização de comportamentos (gays, mulheres, minorias), o “estado de exceção” nas periferias com morte cotidiana de Amarildos etc.

Ao mesmo tempo, a violência da polícia nas manifestações em São Paulo e depois no Rio de Janeiro e em todo o Brasil foram decisivas para mobilizar e indignar, mesmo depois que o MPL saiu da organização dos protestos e juntou-se às demais manifestações, a indignação explodiu e as pautas se ampliaram e alastraram de forma plural.

Violência

Esse efeito de indignação passa pelas milhares de imagens postadas em tempo real das caras e corpos violados por balas de borracha que atingiram os rostos de manifestantes e jornalistas, as bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta atiradas contra a multidão, sem nenhuma interlocução.

A violência da polícia (como na repressão da Marcha da Maconha em 2011) fez explodir um contra-discurso em tempo real, ao vivo e em fotos e mensagens postadas nas redes. A rejeição e indignação se tornou viral com milhares de denúncias de uma polícia militarizada e bélica, vinda do modelo e mentalidade da ditadura militar atuando de forma radical e excessiva nas manifestações de ruas.

A violência da polícia nas manifestações de junho/julho fez entrar em cena a estratégia Black Bloc de ataque aos signos e simbologias das corporações, marcas, bancos e a emergência de uma linguagem da violência, politizada, com seus participantes de negro, coturnos e máscaras cobrindo o rosto.

Sobem os cartazes feitos à mão na sua singularidade e se baixam as bandeiras prontas e os cartazes massificados por quem tem estrutura e organização. É sintomático que nas primeiras manifestações, em São Paulo, a hostilização das bandeiras partidárias e de seus filiados tenha criado um constrangimento novo, que apontou para a crise e limites da democracia representativa. Um conflito que se distensionou adiante, mas não desapareceu.

Popularização dos “Escrachos”

Em termos de linguagens os protestos de junho/julho popularizaram os “escrachos” ou “escraches”, nome dado a uma estratégia de constrangimento e pressão em que os ativistas se dirigem para a casa ou lugar de trabalho de alguém que querem denunciar e que simboliza uma causa. Essa estratégia/linguagem surgiu na Argentina, para expor, em frente as suas casas, para a sua vizinhança.

Acho importante destacar que o escracho força os limites do público e do privado ao levar os protestos e constrangimentos para a casa, vizinhança, locais da vida privada de personagens públicos, inclusive de forma violenta. Destaco ainda o uso de fantasias, máscaras, encenações, música, performance, confrontos com vítimas, e o humor. No Brasil o escracho aos militares que comemoraram o Golpe de 1964 no Clube Militar do Rio de Janeiro com projeção das imagens das vítimas da ditadura em 2012 é um exemplo.

Durante as manifestações vimos um momento extraordinário de escracho com o evento/protesto mobilizado pelas redes sociais chamado “O Casamento de Dona Baratinha”, convidando os manifestantes a participarem da festa de casamento de Beatriz Barata, neta do maior empresário de ônibus no Rio de Janeiro, Jacob Barata, um dos alvos dos protestos contra a precariedade e privatização dos transportes públicos no rastro do Movimento Passe Livre - MPL.

O escracho começou na cerimônia de casamento na Igreja do Carmo, com cartazes e manifestantes vestidos de noivas e acabou numa manifestação performance de humor e constrangimento na porta do Hotel Copacabana Palace, signo do luxo e da elite no Rio de Janeiro. O nível de violência simbólica e real nesse escracho, com a abordagem dos convidados nos seus carros importados chegando à festa numa data simbólica, o 14 de julho da Revolução Francesa.  

A “tomada” do Copacabana Palace (com um pequeno grupo protestando na sua entrada) foi um dos menores atos em termos de números de pessoas, mas significativo em termos de guerrilha simbólica. Manifestantes vestidas de noivas e de garçons, buzinaço, panelaço, referências às marcas e imaginário de luxo e das socialites (Louis Vuitton, Chanel, champanhe, Botox, carrões, desfile de roupas e ostentação etc.) foram se contrapondo às performances, falas e atos que se referiam ao mundo dos busões, tarifas, precariedade, lotações, esperas e indistinção que marca o serviço de transporte público oferecido a população.

Tudo isso com transmissão online pelos canais da Mídia Ninja, que enfatizava de forma humorada, mas constrangedora, a relação da elite carioca e seu governante Sérgio Cabral com os empresários do transporte, e escrachava esse “casamento” entre diferentes poderes.

Constrangimentos

Os constrangimentos aos convidados que chegavam à porta da Igreja e do Hotel de luxo; a divulgação da lista de caros presentes para a noiva na H. Stern, os custos mirabolantes da festa, produziram fatos que saíram do simbólico: um convidado dos noivos atirando um cinzeiro na testa de um manifestante, um convidado atirando da sacada aviõezinhos feitos com notas de 20 reais e xingamentos e hostilidades entre os grupos.

A cobertura na grande mídia da ação performática acabou focando menos na questão política dos transportes públicos e mais nas estratégias e embates dos manifestantes. Um tipo de esvaziamento constante na cobertura da grande mídia, que contrasta com o papel decisivo e ativo dos midialivristas.

Esse tipo de linguagem, como o evento “Missa de sétimo dia dos manequins da Toulon”, loja destruída durante as manifestações no Rio de Janeiro, chamaram atenção para o desequilíbrio do noticiário sempre em defesa da “privacidade” dos noivos, do patrimônio público, das marcas e lojas afetados pelos protestos, que despolitizam essas ações como “vandalismo”.

Na convocação para a “missa de sétimo dia” para os manequins da loja, o texto do evento no Facebook deixa claro sua ironia e proposta: “Vamos nos reunir para homenagear os manequins queimados, pois são mais valiosos do que as pessoas que foram assassinadas na Maré. Viva o falso moralismo! Pela morte dos manequins. Pelas vítimas da Maré. PEC, Desmilitarização da PM, Impeachment do Sérgio Cabral; Contra a quebra de sigilo na internet imposta pelo Cabral”.

Ainda no campo da linguagem e dos escrachos, o acampamento e os protestos diante do apartamento do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, criou um fato político e midiático, em que o Estado mobiliza as forcas policiais e protagoniza um embate campal, com bombas de gás lacrimogêneo, repressão violentíssima, spray de pimenta e prisões em um dos bairros da elite carioca, o Leblon.  A forca simbólica e memética dessas imagens e narrativas foram decisivas para a viralização da indignação.

IHU On-Line - Percebe algo “comum” nas manifestações das ruas?

Ivana Bentes - A forma rede, na sua configuração P2P, cooperativa, desindividualizada, não responde mais aos atos de fala e de comando vindos de uma centralidade qualquer (partidos, mídia, ONGs, grupos já previamente organizados etc.), mas emerge como uma rede policêntrica ou distribuída, capaz de se articular local e globalmente, numa conexão máxima e capaz de rivalizar (inclusive por sua imprevisibilidade) com as redes constituídas dos poderes clássicos. Ao mesmo tempo, acho equivocada a crença de que os grupos que se auto-organizam consigam se manter sem uma força aglutinadora  e sem trabalho de organização.

IHU On-Line - No caso específico da articulação durante as manifestações, que semelhanças e disparidades percebe entre a divulgação de informações pelas redes sociais e pelas mídias tradicionais? Percebe que os jovens, por exemplo, articulam-se pelas redes, mas a grande massa ainda é informada a partir da imprensa tradicional? Como essas duas formas de interação e informação repercutem nas manifestações?

Ivana Bentes - Vimos a passagem entre esses dois sistemas, que são complementares. Pois da mesma forma que a mídia tradicional informava o grande público, essas mesma matérias repercutiam nas redes e eram criticadas, desconstruídas, analisadas, confrontadas com outras informações e análises.  O que vejo de semelhanças é o reconhecimento da força do ao vivo. A grande mídia custou para perceber que a intensidade do que se passava tinha que ter um fluxo de transmissão direta.  Já nas redes esse fluxo do ao vivo e a possibilidade de transmitir os embates quando os jornalistas já tinham se retirado (confrontos da policia com os manifestantes, portas de delegacia, pequenos acontecimentos de resistência) foram o diferencial das mídias livres. Outra diferença foi a participação dos espectadores nos chats de transmissões das mídias livres, informando, comentando, orientando as transmissões de forma realmente interativa e intensa.

Fenômenos como a Mídia Ninja estão para as novas mídias como a informalidade do Pasquim no jornalismo alternativo dos anos 1970, ou um programa como o Abertura do Glauber Rocha, desengessando as regras da imprensa e da televisão.  As redes criam pautas novas, que foram incorporadas pela grande mídia e ao mesmo tempo repercutiram, desconstruíram e resignificaram as matérias da TV. A linguagem desengessada e urgente fala diretamente para os jovens e para todos que buscam linguagens experimentais próximas do cotidiano e da vida.

IHU On-Line - Pode nos explicar em que medida as imagens, as redes sociais e a mídia de guerrilha estão no centro dos acontecimentos?

Ivana Bentes - Estamos diante de uma mobilização global político-afetiva nas ruas e nas redes. O 15M espanhol torna-se decisivo como referência, ao transmitir ao vivo durante centenas de horas ininterruptas e com milhões de visitas e acampados virtuais, utilizando ferramentas de geo-referenciamento para fincar bandeiras e cartografar acampamentos em praças reais e virtuais por toda a Espanha, e depois pelo mundo com o Occupy Wall Street, e as manifestações de junho e julho no Brasil.

Também no Brasil foram utilizados as mais diferentes ferramentas e linguagens (imagens viralizadas, vídeos, postagens, tweets, hashtags,) para criar ondas de intensa participação, em que a experiência de tempo e de espaço, a partilha do sensível, a intensidade da comoção e engajamento, são construídos num complexo sistema de espelhamento e potencialização entre redes e ruas. Nesse sentindo a comunicação é a própria forma de mobilização, não é simplesmente uma “ferramenta”, esse é o sentido dessa esfera midiática ativista. A comunicação feita em tempo real pela Mídia Ninja, por exemplo, já é uma manifestação política e mobilizadora.

IHU On-Line - Que novas formas de mídia surgiram por causa das manifestações? Qual a peculiaridade e atuação da Mídia Ninja no Facebook e no Twitter? A partir da experiência da Mídia Ninja, que potencial vislumbra para as redes sociais enquanto instrumento para participação política?

Ivana Bentes - Em primeiro lugar a Mídia Ninja não pode ser reduzida ao campo do jornalismo, mas aponta para um novo fenômeno de participação social e de midiativismo (ativismo e protestos), que utilizam a mídia e as redes sociais e celulares móveis e outras tecnologias para produzir um estado de comoção e de mobilização.

A Mídia Ninja - Narrativas Independentes Jornalismo e Ação cobriu, colaborativamente, as manifestações em todo o Brasil, "streammando" e produzindo uma experiência catártica de “estar na rua”, obtendo picos de 25 a 100 mil pessoas online, o que é inédito para uma mídia independente feita em sua maioria por jovens que não são jornalistas, mas ativistas.

A Mídia Ninja, assim como as dezenas de outras iniciativas de mídia autônoma, fez emergir e deu visibilidade ao “pós-telespectador” de uma “pós-Tv” nas redes, com manifestantes virtuais que participam ativamente dos protestos/emissões discutindo, criticando, estimulando, observando e intervindo ativamente nas transmissões em tempo real e se tornando uma referência por potencializar a emergência de “ninjas” e midialivristas em todo o Brasil.

Indo além do “hackeamento” das narrativas, a Mídia Ninja passou a pautar a mídia corporativa e os telejornais ao filmar e obter as imagens do enfrentamento dos manifestantes com a polícia, a brutalidade e o regime de exceção (policiais infiltrados jogando coquetéis molotov, polícia a paisana se fazendo passar por manifestantes violentos, apagamento e adulteração de provas, criminalização e prisão de midiativistas, estratégias violentas de repressão, gás lacrimogêneo e balas de borracha etc.).

Ninja Somos Todos, o midialivrismo e o midiativismo se encontram numa linguagem e experimentação que cria outra partilha do sensível, experiência no fluxo e em fluxo, que inventa tempo e espaço, poética do descontrole e do Acontecimento. A Mídia Ninja explodiu porque são símbolos de uma Mídia da Multidão, pois também criam fatos políticos, intervém nos fatos, e se tornam parte das notícias (os integrantes do Mídia Ninja foram detidos e presos pela polícia acusado de incitarem as manifestações).

Midialivrismo

A Mídia Ninja é a face mais visível de um fenômeno mais amplo de midialivrismo, que conseguiu provar, através das filmagens ao vivo, a existência de policiais infiltrados nas manifestações, policiais à paisana cometendo atos de violência e fora da lei. Ou seja, além de produzirem fatos e participarem das manifestações mostrando as causas, pautas e motivos dos protestos, a Mídia Ninja passou a pautar a mídia corporativa e os telejornais (como o Jornal Nacional, da Globo, e jornais) ao filmar e obter as imagens do enfrentamento dos manifestantes com a polícia.

Essa prática, de vigiar a polícia com câmeras e fotos, é conhecida como “Copwatch”, é uma estratégia midiativista de usar transmissões online para expor e monitorar polícia online. Essa é a diferença do miditivismo para o jornalismo de relato que dá a notícia e vai embora, alheio as suas consequências. Além de "sofrerem" todas as arbitrariedades e violência junto e de dentro das manifestações, o "pós-jornalismo" e midiativismo usa o poder/potência de exposição online das autoridades policias, delegados, ao monitoramento dos muitos e a multidão em tempo real.  

Foi com essa estratégia que a Mídia Ninja foi para a porta da 9a. DP do Catete no Rio de Janeiro, e depois seguiu para a porta do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro depois da prisão de dois dos seus integrantes e manifestantes. A Mídia Ninja transmitiu online a prisão de um de seus integrantes, fez plantão até que 11 deles fossem liberados, e ainda permaneceram numa vigília midiativista em frente ao Tribunal de Justiça - TJ do Rio de Janeiro até o habeas corpus do último deles, levado para Bangu.

Na madrugada, com uma multidão ao vivo e outra online, colocaram nos TTs mundiais a hashtag #BrunoResiste e pela manhã #BrunoLivre, referindo-se ao jovem acusado sem provas de portar explosivo e que passou a ser acompanhado pelos ativistas e manifestantes e pela Ordem dos Advogados do Brasil - OAB.

Dossiê público

As manifestações de junho/julho no Brasil reinventaram a prática do Copwatch (também Cop Watch) já existente como uma rede de organizações ativistas nos Estados Unidos, no Canadá, e na Europa, com objetivo de observar e documentar a atividade policial, enquanto procura sinais de má conduta, brutalidade e arbitrariedade policial.

A OAB, por meio das dezenas de advogados que prestam auxílio jurídico aos manifestantes, e nos embates com a polícia, vem adotando essa prática e solicitando que manifestantes filmem e subam nas redes os vídeos, fotos num inédito dossiê público audiovisual que servirá como documentação e prova das arbitrariedades cometidas pela polícia.

Trata-se de usar o efeito-mídia não simplesmente de forma sensacionalista, mas ativista e consequente. O monitoramento da atividade policial nas ruas é uma forma de expor, desconstruir e acabar com a brutalidade policial que, no Brasil, ainda adota o símbolo da "caveira",  da guerra brutal contra “inimigos” e não a policia cidadã. O Copwatch foi iniciado em Berkeley, Califórnia, em 1990, e está sendo reinventado no Brasil neste junho/julho de 2013 e depois.

A Mídia Ninja catalisou esse "contra-discurso" ao mostrar a brutalidade e o regime de exceção da polícia, com policiais infiltrados jogando coquetéis molotov, políciia à paisana se fazendo passar por manifestantes violentos, criminalização e prisão de midiativistas, estratégias violentas de repressão com gás lacrimogêneo e balas de borracha etc. Enquanto a mídia corporativa mostrava apenas as razões para reprimir, a Mídia Ninja mostrou as razões para protestar.

Estamos vendo surgir uma nova forma midiática de intervenção política e participação social, um novo midiativismo e a possibilidade de criação de uma rede de Pontos de Mídia articulada de forma horizontal e distribuída em todo o Brasil. Ou seja, a Mídia Ninja é uma ativadora de desejos e de mundos, disputando narrativas, memes, causas e dando visibilidade a pluralidade de mundos e projetos políticos.

IHU On-Line - O que significa pensar uma consciência em rede? Desta consciência, pode surgir uma consciência política?

Ivana Bentes - Exprimir o “grito”, como escreveu Jacques Ranciere, tanto quanto dar a palavra a outros sujeitos políticos é o modo de desestabilizar a partilha do sensível e produzir um deslocamento dos desejos e constituir o sujeito político multidão. Trata-se de política como comoção, catarse, mas também negociação e mediação.

Essa mobilização política-afetiva (processo e irrupção de um acontecimento diferencial das lutas políticas desse início de século), sua capacidade de contágio, levou multidões às praças e ruas e constituiu um só fluxo, intenso, com os manifestantes acampados da Porta do Sol aos manifestantes nas ruas das cidades brasileiras nas Jornadas de Junho, derrubando e destruindo os símbolos de corporações, dos governos e do Estado.

IHU On-Line Quem são os Black Bloc e como a atuação deles é interpretada nas manifestações?

Ivana Bentes - Os Black Bloc são uma estratégia de ação, uma tática desenvolvida por manifestantes, grupos políticos e ativistas desde os anos 1980, na Alemanha, presentes nos anos 1990, em Seattle, e nos protestos antiglobalização, táticas que “viajam” de forma cada vez mais rápida e são incorporadas pelos manifestantes em todo o mundo. É a globalização das linguagens da resistência. Seattle, 1999, Gênova, 2001, Toronto, 2010, Protestos de Londres, Occupy Wall Strett, 2011, Egito, Turquia, 2012, e Brasil, 2013.

É importante ressaltar que utilizam a violência e o ataque a símbolos do capitalismo e destroem e depredam signos (fachadas de agências bancárias, vitrines de lojas, caixas de banco, anúncios e placas publicitárias, outdoors etc.).

Ou seja, trata-se menos de um ataque e “destruição do patrimônio”, como enfatiza a grande mídia, e mais de um ataque e guerrilha semiótica, contra os signos. A estetização e a linguagem começam nas roupas pretas, coturnos, máscaras cobrindo o rosto, que cria um “bloco negro” de proteção entre os manifestantes e a polícia. Essa função de proteção estava na origem da tática nos anos 1980 na Alemanha. Nos anos 1990 surgiram as ações violentas como em Seattle, em 1999, nos protestos contra a Organização Mundial do Comércio – OMC, quando os Black Bloc destruíram o centro econômico da cidade.

O debate sobre o uso ou não das máscaras nas manifestações foi importante para explicitar como o limite do legal e ilegal depende de um Estado e corporações que disputam o monopólio da força e das leis. Tentou-se proibir o uso de máscaras pelos manifestantes e ao mesmo tempo se admitia o rosto coberto e a não identificação de policiais nos confrontos.

Os Black Bloc, com a estética das máscaras e “uniforme”, se igualam simbolicamente aos policiais. E se tornam ao mesmo tempo os protetores dos manifestantes, mas também aqueles que, no imaginário da mídia de massa, são os provocadores da violência e os incitadores. Essa visão, a meu ver, distorcida, dos vândalos, dos depredadores, também foi disputada nas redes, que questionaram a tentativa de criminalizar uma ação política. Também foram as ações violentas dos Black Bloc em represália a repressão policial que tiveram grande repercussão nas redes sociais, como uma violência de resistência com sinal positivo. Acho que podemos dizer que os Black Bloc fizeram emergir uma estética e pedagogia da violência.
    
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Ivana Bentes - A Mídia Ninja despertou um debate nacional sobre o jornalismo clássico e a possibilidade da emergência das mídias da multidão. A entrevista de Bruno Torturra, do Mídia Ninja, e de Pablo Capilé, no Roda Viva, deixaram os entrevistadores da grande imprensa atônitos e logo em seguida o programa disparou não apenas um debate sobre mídia, comunicação e jornalismo, mas  um processo de linchamento público  (vindo do campo conservador e de pessoas nas redes sociais) em torno do Fora do Eixo, que laboratoriou esse projeto (como já expliquei acima, desde as Marchas da Liberdade em 2011).

Vimos outro fenômeno de redes se configurar: a reação das grandes empresas conservadoras, como a Revista Veja e uma espécie de histeria denuncista envolvendo aspectos morais que buscam desqualificar a reputação do Fora do Eixo e desmoralizar uma de suas lideranças de maior visibilidade, Pablo Capilé. As acusações em sua grande parte não tem incidência jurídica, legal, consistente, mas uma espécie de viral de difamação (sem checagem, apenas com base no emocional dos depoimentos de pessoas rompidas com o Fora do Eixo).

Desqualificação violenta da sua forma de organização como de “seita” (quando se trata de uma rede coesa e orgânica), tentativa de criminalizar o sistema de colaboração livre como “trabalho escravo”, malversação dos princípios da economia solidária em “mais valia”.  Quando o que temos são pessoas trabalhando livremente para uma rede que retorna o trabalho em moradia, roupa, serviços, viagens, rede de relações, reputação, formação etc. Desmonetizando as relações e criando um capital coletivo. Criminalização de comportamentos (amor livre, novas relações afetivas, padrões de comportamento desconfigurados) e uma amplificação dos problemas da convivência em grupo (rompimento de relações afetivas, sexuais, de identificação com o grupo), violências subjetivas comuns ao convívio intenso e presentes em todos os grupos sociais (família, escola, empresa, clube, etc.). É um campo para ficar atentos. A difamação na era da velocidade técnica e as formas de construção e desconstrução das reputações em tempo real.

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Os escrachos e um novo fenômeno de participação social. Entrevista especial com Ivana Bentes - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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