Biopolítica e pós-humanismo, hoje. Entrevista especial com Oswaldo Giacóia

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20 Setembro 2010

"Não me parece que estejamos diante de um mecanismo determinista, que nos retira qualquer dimensão de alternativa. Pergunto-me, porém, se podemos hoje dizer que essa nova dimensão seja ainda a dimensão do sujeito, tal como o compreendemos como sujeito assujeitado das ciências humanas, das disciplinas e da regulamentação previdenciária", pergunta Oswaldo Giacóia, professor do Departamento de Filosofia-IFCH da Universidade Estadual de Campinas, em entrevista concedida, por email, à IHU On-Line.

Oswaldo Giacóia é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1976), em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1976). Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983) e Doutor em Filosofia pela Freie Universität Berlin (1988). Pós doutorado pela Freie Universität Berlin (93-94), Viena (97-98) e Lecce (2005-2006). Atualmente é professor Livre-Docente do Departamento de Filosofia-IFCH da Universidade Estadual de Campinas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em regra geral, como se imbricam biopoder e pós-humanismo em nossa época? Quais são os principais limites e possibilidades que ficam evidentes quando se fala no pós-humano?

Oswaldo Giacóia - Penso que podemos detectar a zona de confluência entre o biopoder e o pós-humanismo acompanhando a série de movimentos detectáveis na constelação que deu forma à sociedade política. Se interpretarmos a autocompreensão da modernidade cultural em termos de humanização da natureza e naturalização das relações humanas, de acordo como programa filosófico e ético-político do Esclarecimento; se percebemos que a essa autoconsciência está ligado o nascimento das ciências humanas, com seus operadores e verdade e efeitos de poder; e se acrescentarmos a isso a apropriação política da vida biológica pelo tipo de soberania que se forma no capitalismo contemporâneo, então podemos vislumbrar alguns dos limites desse humanismo nos processos atuais de instrumentalização da base somática da personalidade humana, da gestão econômica da vida em termos de biopolítica e dos processos de auto-transformação do gênero humano, em sua autocompreensão. Livros como A Condição Pós Moderna de J. F. Lyotard, O Futuro da Natureza Humana de Jürgen Habermas, O Princípio Responsabilidade de Hans Jonas e O Poder Soberano e a Vida Nua de G. Agamben são indicadores expressivos desses limites, bem como de possibilidades de pensar e agir.

IHU On-Line - No pós-humanismo o homem pensa paradoxalmente em abandonar a sua condição humana. Como podemos compreender essa aspiração tendo em consideração a radicalidade da nossa condição “humana, demasiadamente humana”?

Oswaldo Giacóia - Essa aspiração à superação da condição humana é uma fantasia antiga. Uma de suas figuras é a hybris. Talvez possamos pensar as fantasias tecnológicas de onipotência, que atualmente nos assaltam, como uma variante dessa desmesura. Num artigo de jornal do ano de 1959 (1), Heidegger escreveu: "No início do ano, a propósito de um foguete espacial russo, o presidente do conselho soviético declarou: ‘nós somos os primeiros no mundo a ter impresso no céu, da terra à lua, uma trajetória de fogo."

O editorial de um dos grandes jornais da República Federal da Alemanha, em sua primeira frase, comentou isso da seguinte maneira: "Ninguém pode refutar a jactância de Nikita Khrouchtchev - o fato de que a União Soviética conseguiu imprimir no céu, da terra à lua, uma trajetória de fogo.’O autor do editorial tem razão em pensar que ‘ninguém pode refutar’ essa pretensão." Porém, o que significa aqui refutação? Antes de tudo, torna-se necessário para nós pensar o conteúdo da declaração de Khrouchtchev, no qual, em verdade, ele próprio não pensa: não existe mais nem ‘a terra’, nem ‘o céu’, no sentido da habitação poética do homem sobre essa terra.

A exploração realizada pelo foguete é a concretização, há três séculos, daquilo que acha-se disposto (gestellt), sempre mais unilateral e deliberadamente como sendo a natureza, e que, no presente, foi instalado (bestellt) como fundo de reserva universal, interestelar. A trajetória dos foguetes lança brutalmente no esquecimento ‘terra e céu’. Os pontos entre os quais ela se desenrola não são nem uma nem a outra. O artigo em questão deveria começar assim: "não há senão um pequeno número de homens - e eles não dispõem de poder -, que têm hoje a capacidade e a resolução para pensar, e para fazer pelo pensamento a experiência de uma mudança do mundo, que ‘não inicia uma nova era’, mas conduz uma época já estabelecida em direção de seu extremo acabamento.”  Eu acredito que análises como essa nos dão muito a pensar.

IHU On-Line - Outros teóricos afirmam que o pós-humanismo seria uma espécie de celebração da hibridação, a consciência de que o homem não é a medida do mundo, nem de si mesmo. Nesse aspecto, representaria um sem-limite de possibilidades criativas, ocupando inclusive o lugar de Deus. Qual é a sua percepção dessa faceta “transcendente“ do pós-humanismo?

Oswaldo Giacóia - É nesse horizonte que se inscrevem as perspectivas pós e transhumanas, a troca de carbono por silício, que tornaria potencialmente imortal o corpo orgânico. A isso, poderia se aliar uma reconfiguração da consciência, descentrada de sua identificação com a unidade subjetiva, ultrapassando o atrelamento aos cinco sentidos, conectada em redes neurais, simultaneamente com a miríade de centros virtuais de registro e processamento de informações. Para os membros do Extropy Institut, fundado pelo filósofo e cientista Max More no Vale do Silício, USA, a atual base somática da personalidade pode ser considerada como ‘hardware’ em processo de obsolescência, que deve ser substituído por um equipamento de tipo homo roboticus, imune a panes e disfunções orgânicas, capaz de desenvolver autoconsciência, ultrapassar e substituir o homo sapiens, como este o fez com o australopitecus na trajetória ascendente da escala evolutiva (cf. http://www.extropy.org).

Por outro lado, dentre as tentativas contemporâneas de uma ética da finitude à altura dos desafios da sociedade tecnológica, a posição de Hans Jonas é emblemática. Jonas assume precisamente como tarefa a urgência de estabeleccer limites ético-jurídicos para a pesquisa tecnológica, em rompimento com a postura antropocêntrica e a concepção instrumental da técnica. Ele se pergunta: até que ponto é éticamente justificável tornar disponível a base somática da personalidade? Para as futuras gerações de humanos, quais seriam as consequências éticas e existenciais implicadas na modificação tecnológica das condições e referências tradicionais, que até hoje determinaram a autocompreensão e a autoestima da humanidade, com seus aspectos positivos e negativos, luminosos e sombrios?

IHU On-Line - Se o ser humano é seu próprio experimento, qual seria o espaço de Deus na atualidade?

Oswaldo Giacóia - Que o ser humano possa fazer experiências consigo mesmo não só não é nenhuma novidade, como também não constitui nenhuma razão suficiente para que do horizonte da aventura humana na história desapareça o âmbito e o espaço do divino, e portanto da experiência religiosa.

IHU On-Line - Por outro lado, qual é o espaço para uma existência trágica e mais autêntica, como aquela teorizada por Nietzsche remetendo-se aos gregos, numa sociedade cada vez mais controlada pelo biopoder?

Oswaldo Giacóia - Acredito que, do ponto de vista de Nietzsche, uma das figuras do trágico em nossos dias consiste em que possamos nos alçar à consciência sem véus da extensão e do significado de nossa conquistada potência de autodeterminação. Precisamente no ponto mais avançado dessa experiência é necessário evitar dois extremos: o recurso a valores que não oferecem mais sustentação, por sobrevividos, por um lado; por outro lado, adquirir uma potência de segundo grau que torna possível resgatar uma noção de medida e domínio de si, evitando o delírio infantil de onipotência.

IHU On-Line - Como podemos pensar a subjetividade e a alteridade nessa perspectiva de (des)governo biopolítico?

Oswaldo Giacóia - Tomo a liberdade de responder citando uma passagem da comunicação que apresentei na Unisinos no evento que teve por tema O (des)governo biopolítico da vida humana: "Que forma poderia ter um programa emancipatório renovado, capaz de restaurar a energia e o poder de libertário das forças verdadeiramente revolucionárias, evitando as insidiosas armadilhas da política? Num posicionamento recente, Giorgio Agamben se refere a uma tarefa e a uma tática que produz a inversão do que denomina a biopolítica maior, aquela do Estado e do direito, em prol de uma biopolítica menor, chamada de resposta ou de reapropriação: “`É a partir desse terreno incerto, da zona opaca de indiferenciação que nós devemos hoje reencontrar o caminho de uma outra política, de um outro corpo, de uma outra palavra. Eu não poderia renunciar sob nenhum pretexto a essa indistinção entre o público e o privado, corpo biológico e corpo político, zôè e bios. É aí que devo reencontrar meu espaço – ao ou em nenhum outro lugar. Só uma política partindo dessa consciência pode me interessar.`”

Essa biopolítica menor parte de um problema que também Foucault havia tratado com escrupulosa atenção: a questão do sujeito. Agamben, porém, pretende que a questão do sujeito, hoje, especialmente em vista de uma nova biopolítica, só pode ser colocada em termos de processos de subjetivação e de dessubjetivação, ou antes, como um resto, um afastamento, uma distância aberta entre processos de subjetivação e dessubjetivação.

IHU On-Line - Sob quais aspectos o biopoder é um mecanismo determinista? Nessa lógica, qual é o espaço da autonomia e da liberdade para nós, sujeitos a ele submetidos?

Oswaldo Giacóia - Não me parece que estejamos diante de um mecanismo determinista, que nos retira qualquer dimensão de alternativa. Pergunto-me, porém, se podemos hoje dizer que essa nova dimensão seja ainda a dimensão do sujeito, tal como o compreendemos como sujeito assujeitado das ciências humanas, das disciplinas e da regulamentação previdenciária. E, a esse respeito, acredito que seja válido um recurso a Foucault para indicar na direção de novos devires, de processos de subjetivação como ascese, como relação consigo e cuidado de si. Foucault não emprega a palavra sujeito como pessoa ou forma de identidade, mas, ao invés disso, prefere os termos `subjetivação`, processo e `Si`, no sentido de relação (relação a si), para designar uma relação da força consigo mesma, uma `dobra` da força, um movimento de re-flexão, que tem um matiz fundamentalmente re-volucionário.

IHU On-Line - Quais são as maiores diferenças entre o conceito de grande saúde de Nietzsche com essa normalização e normatização promovidas hoje, reflexivas do biopoder?

Oswaldo Giacóia - O conceito de grande saúde em Nietzsche é uma recusa da normalização e normatização, tal como a empreende a modernidade política. Ela é o conceito de uma estilística da existência, de uma vinculação profunda entre filosofia e vida - em particular na forma da existência filosófica. Portanto, um ethos do cuidado consigo e com o mundo.

IHU On-Line - Seria o mundo (des)governado pela biopolítica o solo propício para grassarem o último homem e o niilismo? Por quê?

Oswaldo Giacóia - O solo do desgoverno biopolítico é o espaço sócio-histórico e político dos últimos homens, por que nele vem à luz, como figura do mundo, a experiência do cansaço, do tédio do homem em relação a si mesmo, daquilo que Nietzsche caracterizou como `desejo do fim`. Uma das acepções do niilismo é essa: o ideal do humano reduzido à intensidade minimalista da sobrevivência; o ideal de felicidade rebaixado ao hedonismo consumista, à incapacidade de elaborar uma experiência de sofrimento, ao desejo obsessivo de bem-estar, conforto burguês e segurança, o acobertamento no anominato do coletivo, a diluição de toda verdadeira personalidade, a negação da diferença pela tirania identitária do uniforme.

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