Bernie Sanders vai ao Vaticano

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15 Abril 2016

O senador estadunidense Bernie Sanders vai se dirigir do palco do debate nessa quinta-feira à noite para o aeroporto, de onde ele vai voar para Roma, para participar de um congresso que marca o 25º aniversário da Centesimus annus, no Vaticano. A sua aparição em um evento promovido pelo Vaticano levanta algumas questões interessantes, tanto para o senador, quanto para as autoridades vaticanas que pensaram que essa era uma boa ideia.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada no sítio National Catholic Reporter, 11-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao anunciar a viagem, o senador Sanders disse: "Eu acho que o Vaticano tomou consciência do fato de que, em muitos aspectos, os pontos de vista do papa e os meus pontos de vista estão muito relacionados", disse. "Ele falou de uma forma quase sem precedentes sobre a necessidade de abordar a desigualdade de renda e de riqueza, a pobreza e o combate da ganância que estamos vendo em todo este mundo, que está fazendo muito mal para tantas pessoas. Para mim, é uma honra extraordinária receber esse convite."

Em uma entrevista posterior ao programa Morning Joe, o senador observou que "eu sou um grande, grande fã do papa. Obviamente, existem áreas em que discordamos, como sobre os direitos das mulheres ou os direitos dos gays, mas ele desempenhou um papel inacreditável ao injetar uma consequência moral na economia".

Sem dúvida, é verdade que o Papa Francisco elevou a doutrina social da Igreja no que se refere à injustiça econômica de formas novas e convincentes, embora a doutrina exista e se desenvolva há mais de um século. Mas, quando Sanders diz que "existem áreas em que discordamos", ele mostra que entende muito pouco sobre a doutrina social que o Papa Francisco ressalta. O compromisso da Igreja com a justiça econômica e, por exemplo, a sua oposição ao aborto não são questões discretas para o Papa Francisco. São aspectos diferentes da mesma doutrina central, a dignidade da pessoa humana e a necessidade de que a sociedade respeite essa dignidade em seus arranjos sociais, econômicos e legais.

Sanders, que não é católico, pode ser perdoado por não ver a semelhança. Ele tem muitos colegas católicos no Senado que se pronunciam abertamente pela defesa dos nascituros e silenciam totalmente sobre a hipoteca social que se vincula a toda propriedade privada. E ele tem muitos colegas católicos que se importam profundamente com os desempregados e com os sem documentos, mas que são indiferentes à causa dos nascituros. Todos esses colegas acolhem seus palpites das suas filiações partidárias mais do que das suas filiações religiosas. O Papa Francisco, obviamente, não.

O comentário de Sanders sobre a necessidade de uma "economia moral" merece ser explorada. Eu critiquei Sanders anteriormente pelo seu fracasso ao fazer um argumento moral para as propostas que ele apresenta. Ele apela a uma saúde universal e observa que outros países a têm. Esse não é um argumento moral. Ele pede um aumento de impostos sobre os ricos, que eu apoio, mas quais são as suas razões? Ele invoca a palavra "justiça", mas o que ele quer dizer com isso? A igualdade é um objetivo inegável de uma democracia, uma palavra que Sanders cita com frequência, e é também um valor que flui naturalmente a partir da crença religiosa de que todos os homens e mulheres são criados iguais por Deus, mas a igualdade não é o único valor em uma democracia: que limites são impostos com justiça para o alcance da igualdade? Nem todas as pessoas que invocaram igualdade, por exemplo, os jacobinos, foram aquilo que consideraríamos como pessoas moralmente astutas. Eu ficaria muito satisfeito por ouvir o senador Sanders explicar quais são as fontes da sua visão moral, e, talvez, o seu tempo na Cidade Eterna vai produzir essa explicação.

Para os católicos, antes de endossarmos qualquer compromisso com um determinado partido ou mesmo com uma determinada política, deveríamos nos perguntar algumas questões-chave. Uma determinada proposta política dá provas de solidariedade, especialmente com os mais fracos, ou não? Um partido serve aos interesses da dignidade humana, e, se assim for, como e de que modo esse partido não valoriza a dignidade humana?

A melhor exposição de tais questões e da sua relevância para a política pública, na memória recente, se encontra em um discurso do arcebispo Blase Cupich, proferido no ano passado, no qual ele disse:

"Os amigos podem discordar e podem ver as coisas de maneiras diferentes. Evidentemente, essas diferenças podem criar tensões, mas não deveriam romper relações. Em tempos de tensão, eu lhes peço para que tenham em mente que o compromisso da Igreja com a solidariedade com os trabalhadores está enraizada no nosso compromisso com a solidariedade para com todos.

A Igreja se solidariza com os sem documento. Solidarizamo-nos com os pobres e com os sem-teto. Solidarizamo-nos com as crianças nascituras e com as suas mães. Solidarizamo-nos com os desempregados. Solidarizamo-nos com as famílias, com seus filhos e com o seu direito a uma boa educação. Solidarizamo-nos com os idosos e com os doentes.

Alguns de vocês não vão compartilhar os nossos compromissos com uma ou mais dessas prioridades. Peço que vocês respeitem o fato de que esses compromissos fluem a partir da mesma crença central na vida humana, na dignidade humana e na solidariedade, assim como o nosso apoio aos trabalhadores e aos seus sindicatos. A minha esperança é de que as pessoas vejam que a Igreja está chamando a uma ética consistente de solidariedade que visa a garantir que ninguém, desde o primeiro momento de vida até a morte natural, da comunidade mais rica aos nossos bairros mais pobres, seja excluído da tabela da vida."

Há uma clara visão moral que inclui não só a economia, mas também uma série de questões públicas. Um candidato qualquer que está concorrendo hoje poderia fazer tal afirmação?

Não está claro por que ou como o convite para Sanders surgiu. Alguns deveriam ter sinalizado para isso, porque a Igreja está bem aconselhada para ficar longe das personalidades que estão no meio de uma campanha política. O Papa Francisco ficou longe da sua Argentina natal até que o país completou a sua campanha presidencial. E, certamente, há pessoas mais capazes de abordar essa questão do que o senador. Ele tem algo a dizer, com certeza, mas está longe de ser algo profundo. A campanha de Sanders tem mais a sensação de uma mania pop do que de um sério engajamento intelectual ou moral com os problemas que o país enfrenta.

O bispo Marcelo Sánchez Sorondo, que preside a Pontifícia Academia para as Ciências Sociais, fez o convite. O site Politico relata que o professor Jeffrey Sachs, da Columbia University, facilitou o convite e a sua aceitação. Sachs tem feito um trabalho esplêndido com o Vaticano sobre a questão das mudanças climáticas, mas aqui ele deveria ter levantado uma bandeira vermelha. Quaisquer que sejam os pensamentos do bispo e do professor sobre os méritos relativos da candidatura de Sanders contra a de seus adversários, um destes, a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, ainda tem chance de ser a próxima presidente, e tanto o Vaticano quanto os bispos dos EUA terão um importante trabalho a fazer com o governo dela.

Por que dar essa plataforma para o seu adversário? Eu posso perdoar as autoridades vaticanas por não serem capazes de ler a matemática do processo de candidatura, mas ficou claro há algum tempo que é improvável que Sanders a supere para a nomeação, e Sachs ou alguém deste lado do oceano deveria ter alertado contra esse convite. O objetivo pode ter sido o de fazer com que o Vaticano "fell the Bern" ["sinta a ardência", jogo de palavras que virou o slogan da campanha de Bernie], mas é mais provável que eles vão acabar com azia.

Eu também não vejo como esse discurso vai ajudar Sanders. Nesse fim de semana, a Sala de Imprensa do Vaticano teve o cuidado de observar que o convite não veio do Papa Francisco e que a Pontifícia Academia tecnicamente não faz parte da Santa Sé. Aparentemente, não há nenhuma garantia de que o papa irá cumprimentar o senador Sanders. Não será tomado como uma afronta se não houver uma foto oficial? Sim, haverá uma grande atenção midiática ao discurso de Sanders, mas ele não está tendo problemas para obter a atenção da mídia neste momento, não importa onde ele fale. É melhor falar com alguns católicos em Syracuse do que em Roma nesta semana.

Os católicos estadunidenses, como regra, não olham para os líderes religiosos em busca de orientação na escolha de um candidato em quem vão votar, e as lideranças católicas estadunidenses, com razão, têm sido relutantes ao endossar um candidato em particular.

É verdade, no dia 8 de outubro de 1936, o Mons. John A. Ryan fez uma transmissão de rádio, paga pelo Comitê Nacional Democrata, em prol da campanha do presidente Franklin Roosevelt, mas eu acho que ele não teria feito isso se o Pe. Charles Coughlin, um polêmico padre radialista em Michigan, não estivesse atacando Roosevelt tão ferozmente, chamando o presidente de comunista e de mentiroso.

O cardeal George Mundelein, naquele mesmo ano, indicou mais ou menos que apoiaria o esforço eleitoral do presidente, mas eu suspeito que isso também tinha a ver com a perceptível necessidade de equilibrar Coughlin e de garantir que as pessoas soubessem que Coughlin não falava em nome da Igreja. Nos últimos anos, alguns bispos deixaram clara a sua forte desaprovação em relação ao presidente Obama, mas mesmo assim ele ganhou o voto católico nas duas vezes em que concorreu à presidência.

Esse episódio vai ficar como uma nota de rodapé da história da campanha. Mas as questões que ele levanta são perenes e são as questões com as quais este próprio blog mais regularmente se preocupa: como a religião e os valores religiosos deveriam moldar a política e as políticas? Como definir os valores comuns em uma sociedade pluralista? Quais são as fontes de um pensamento moral em uma cultura que histórica e filosoficamente é desinformada? Quando a Igreja deveria se envolver em política e como?

Essas são as questões, mas eu duvido que a visita do senador Sanders à Santa Sé irá fornecer muitas respostas.

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