“Lula deveria ter recusado a nomeação como ministro"

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28 Março 2016

Frei Beto é amigo de Lula da Silva desde os seus tempos de sindicalista metalúrgico e chegou a integrar o seu primeiro governo. Mas isso não impede o teólogo de 72 anos de criticar publicamente o ex-Presidente e de se mostrar desiludido com os governos do PT.

Diz que se Lula “tem a consciência limpa e nada a temer, deveria ter declinado a nomeação” como ministro do governo de Dilma Rousseff “e enfrentado a perseguição injusta que lhe move o juiz Sérgio Moro”. Defende que o ex-Presidente é inocente até prova em contrário. “Cabe a quem acusa o ónus da prova. Lembro da revista Forbes acusando Fidel Castro de possuir fortunas em paraísos fiscais e, desafiada a provar, se viu obrigada a recolher-se ao silêncio. Para os conservadores, todos nós progressistas merecemos ser demonizados”, diz nesta entrevista por email ao PÚBLICO. Frade dominicano, mora num convento em São Paulo. Diz que a política lhe interessa porque é “discípulo de um prisioneiro político”: Jesus “morreu como tantos presos políticos na América Latina das décadas de 1960 a 1980: foi preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado a ser assassinado na cruz.”

A entrevista é de Kathleen Gomes, publicada por Público.pt, 26-03-2016.

Eis a entrevista.

Lula da Silva cometeu um erro ao ir para o governo de Dilma?

Considero que Lula contribuiria mais com o governo Dilma como conselheiro do que como ministro. Assim se preservaria para se candidatar em 2018 a Presidente da República. Ingressando no governo como ministro, ele e Dilma passam a ser vistos como tripulantes de um mesmo barco. Tomara que consigam impedir que ele afunde. Mas, para isso, Dilma terá que ceder e mudar a sua política econômica centrada no ajuste fiscal que penaliza sobretudo os mais pobres.

É uma coincidência Lula ter sido nomeado logo a seguir à sua “condução coercitiva” [depoimento sob escolta policial] e ao pedido de prisão preventiva do Ministério Público de São Paulo? Mesmo que tenha decidido ir para o governo por outras razões, ele não deveria ter-se recusado devido ao risco de ser interpretado como uma tentativa de fuga?

Sim, foi uma infeliz coincidência Lula ser nomeado ministro exatamente no momento em que a Operação Lava Jato está no seu encalço. Mas se ele tem a consciência limpa e nada a temer, deveria ter declinado a nomeação e enfrentado a perseguição injusta que lhe move o juiz Sérgio Moro, que centra a sua atuação no PT [Partido dos Trabalhadores] e permite fugas de informação seletivas que desgastam o PT e o governo. Primeiro, o juiz não deveria permitir fugas de informação e agir com autoridade para punir os responsáveis. Segundo, por que os acusados dos demais partidos não sofrem condução coercitiva?

O senhor ainda é amigo de Lula? Falaram sobre a ida dele para o governo?

Somos amigos, mas nem ele nem eu falamos sobre as nossas relações pessoais. Conheci-o em 1980, numa festa sindical em Minas. Como eu já assessorava a Pastoral Operária do ABC paulista, onde ele atuava como líder sindical, passei a frequentar a sua casa e a assessorá-lo nas greves daquele ano. Quando ele foi preso em Abril de 1980 [pelo Dops, a polícia política da ditadura militar, na sequência do movimento grevista que mobilizou milhões de trabalhadores], eu dormia na casa dele. A nossa relação foi muito estreita entre 1980 e 2004, quando deixei o governo.

Qual foi o seu papel no governo de Lula?

Sobre isso escrevi dois livros, A Mosca Azul - Reflexão Sobre o Poder e Calendário do Poder. Lula me convidou para atuar como seu assessor especial no gabinete de Mobilização Social do Programa Fome Zero. Como em 2004 o Fome Zero, um programa emancipatório, foi substituído pelo Bolsa Família, que tem carácter compensatório, discordei da mudança e decidi sair. Hoje sou um feliz ING: Indivíduo Não-Governamental.

Que diferenças existem entre o Fome Zero, que você coordenou, e o Bolsa Família [abono pago pelo governo federal a 13,9 milhões de famílias pobres que, em contrapartida, devem garantir a educação escolar das suas crianças e adolescentes]?

No Fome Zero uma família beneficiária seria atendida por cerca de 60 diferentes programas (recursos hídricos, cursos profissionalizantes, etc.) e em três ou quatros anos estaria em condições de ficar independente do governo e produzir os seus próprios rendimentos. No Bolsa Família, quem ingressa não sai mais, e se deixar de receber o recurso federal corre o risco de retornar à miséria.

Lula tem 70 anos. Terminou o segundo mandato com uma popularidade histórica. Poderia viver apenas do seu legado. Por que é que ele insiste em regressar à atividade política?

Lula é um ser político. É o que melhor sabe fazer e mais gosta. Enquanto viver, dedicar-se-á a essa atividade. Embora sem mandato, jamais abandonou a atividade política.

Qual é a sua opinião sobre as alegadas ligações entre Lula e as empreiteiras Odebrecht e OAS, envolvidas na Lava Jato? Acha possível que o ex-Presidente tenha sido presenteado com um apartamento triplex no Guarujá e o sítio em Atibaia em troca da sua influência política?

O ônus da prova cabe a quem acusa. E Lula insiste que não é dono de nenhum dos dois imóveis.

Lula não tem rendimentos suficientes para ter um triplex no Guarujá ou uma quinta no interior de São Paulo? Por que um ex-Presidente precisa de usufruir de uma quinta pertencente a terceiros, aparentemente comprada com esse intuito?

Usufruir de propriedades de amigos não é crime, ilegal ou ilícito.

Parece-lhe que Lula não quer comprometer a sua imagem de presidente do povo, não quer arriscar ser visto como um novo rico, como alguém que enriqueceu e se distanciou das suas origens?

Essa é uma ilação subjetiva. Ele tem direito de usufruir de propriedades de amigos, como aliás todos nós fazemos quando convidados por uma pessoa amiga que possui uma casa na praia ou uma quinta. A questão é se ele possui tais propriedades e se elas foram aprimoradas por empreiteiras envolvidas em corrupção. Volto a dizer: cabe a quem acusa o ônus da prova. Lembro da revista Forbes acusando Fidel de possuir fortunas em paraísos fiscais e, desafiada a provar, se viu obrigada a recolher-se ao silêncio. Para os conservadores, todos nós progressistas merecemos ser demonizados.

Acha que o PT e Lula têm conseguido explicar-se perante a opinião pública relativamente ao escândalo de corrupção na Petrobras? O partido deveria fazer uma autocrítica?

Sim, o partido deveria fazer quanto antes uma autocrítica, como sugerido por dois líderes fundadores do PT: Olívio Dutra e Tarso Genro. De fato, o PT perdeu os seus três capitais simbólicos: ser o partido da ética; ser o partido da organização política da classe trabalhadora; ser o partido das reformas estruturais.

Em 2002 Lula foi eleito Presidente e propôs governar na base da conciliação – com as elites, com a classe empresarial. Esse pacto permitiu-lhe avançar programas de inclusão social que beneficiaram as classes mais pobres. Mas hoje o clima de ressentimento social no Brasil é notório. Quem está nas manifestações a favor do impeachment acha que o Bolsa Família fez com que muita gente deixasse de trabalhar, que as quotas raciais são desnecessárias, que o PT “financia” a sua base de apoio através dos programas sociais. A conciliação social foi uma miragem?

Todos os organismos internacionais, como FAO, OMS, UNESCO, OIT e outros são unânimes em reconhecer os avanços sociais dos governos Lula, que tiraram 45 milhões de pessoas da miséria. Não é pouca coisa! Porém, o PT cometeu o equívoco de, primeiro, facilitar o acesso da população aos bens pessoais, como TV, celular, computador, carro, linha branca (frigorífico, fogão, microondas, etc.). Deveria ter iniciado pelo acesso aos bens sociais: educação, saúde, transporte coletivo, segurança, moradia, saneamento, etc. Hoje, chegou a fatura, pois não se estabeleceram as bases de sustentabilidade do desenvolvimento brasileiro. Daí o ajuste fiscal draconiano, no meio do crescimento da inflação e do desemprego.

Se Lula tirou 45 milhões de brasileiros da pobreza durante a sua presidência, onde estão essas pessoas agora? Por que não vão para as ruas apoiá-lo?

Porque elas não vivem nos grandes centros urbanos, onde se dão as manifestações, e não podem ir às ruas em dias de semana. Os movimentos pró-governo cometem o erro de convocar mobilizações em dias de semana, ao contrário dos que criticam o governo, que sabiamente convocam sempre aos domingos.

Se Lula fosse candidato presidencial hoje, votaria nele?

Hoje o meu voto é preferencialmente para o Partido Socialismo e Liberdade. Porém, no embate entre progressistas e conservadores, repetiria o meu voto em Lula, como também votei em Dilma.

Como avalia a Operação Lava Jato e as ações do juiz Sérgio Moro?

A Lava Jato é necessária, importante e não deve ser paralisada em hipótese nenhuma, doa a quem doer. Mas não concordo com os métodos autoritários do juiz Sérgio Moro. Ele trata suspeitos como criminosos, adora ser mediático e age como se fosse a encarnação da Justiça brasileira.

O impeachment (destituição) de Dilma é cada vez mais uma possibilidade?

Sim, a base aliada do governo Dilma está esgarçada, o que favorece a aprovação do impeachment.

Por que é que um frade dominicano se envolve tanto na política quanto o senhor?

Porque sou discípulo de um prisioneiro político. Que eu saiba, Jesus não morreu de hepatite na cama nem de desastre de camelo numa esquina de Jerusalém. Morreu como tantos presos políticos na América Latina das décadas de 1960 a 1980: foi preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado a ser assassinado na cruz. A pergunta é outra: que fé cristã é essa que não questiona a desordem estabelecida e ainda canoniza ditaduras e ações bélicas? É bom não esquecer que Hitler, Salazar, Franco e Pinochet se diziam cristãos... Além disso, não há ninguém que não se envolva em política. Há quem, ingenuamente, se julgue neutro, isento ou alheio a ela.

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