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Por: André | 26 Agosto 2015

A guerrilha colombiana condenou o assassinato do dirigente étnico e comunitário Genaro García, reconhecendo que contradiz a busca de solução para o conflito. As negociações em Havana prosseguem.

A reportagem é de Katalina Vásquez Guzmán e publicada por Página/12, 25-08-2015. A tradução é de André Langer.

Enquanto as negociações de paz prosseguem na capital de Cuba, esta semana começou com um sabor amargo: as condolências que os insurgentes deram aos afrodescendentes do sul da Colômbia, cujo líder – Genaro García – foi morto a balas no dia 03 de agosto passado. Uma vez mais, as FARC se lamentam em Cuba pelo desfecho das ações armadas de seus homens na Colômbia. Desta vez, o Estado Maior do Bloco Ocidental, Comandante Alfonso Cano, fez um pronunciamento para reconhecer que, como afirmavam na comunidade do povoado de Tumaco (sul), Genaro foi assassinado por seu exército rebelde.

“Como nos havíamos comprometido, realizamos investigações internas e no terreno sobre o mencionado caso, que levam à conclusão de que efetivamente unidades da Coluna Móvel Daniel Aldana encontram-se envolvidas em tão condenável ato”, disse Pablo Catatumbo ao microfone que, cada manhã de trabalho de negociações, os guerrilheiros usam para se pronunciar publicamente. Ao seu lado estava, calado, outro integrante do Secretariado das FARC, Rodrigo Granda. Ao dar suas desculpas e comprometer-se a “condenar o ato e a tomar as disposições e medidas correspondentes para evitar sua repetição”, ambos deixaram o espaço sem receber perguntas.

Os insurgentes se afastaram das câmeras, entraram no recinto de reuniões do Palácio de Convenções e depois deles, sem se importar com o crime apenas segundos atrás reconhecido, subiram os plenipotenciários do governo: Humberto De La Calle, Sergio Jaramillo, o general do Exército Jorge Enrique Mora, o general da Polícia Oscar Naranjo, e a representante das mulheres María Paulina Riveros. Que ironia, ouviu-se entre os correspondentes que registravam como, uma vez mais, as FARC reconhecem seus erros enquanto conversam com o Estado. “Para isso é o processo, para que não haja mais sangue”, replicou um compatriota do hoje morto Genaro que defendeu até a morte o seu território e sua cultura afro.

De acordo com o jornal El Tiempo, o crime deste defensor dos direitos da população foi um “assassinato infame”. No dia em que foi morto, Genaro participou, junto com dois companheiros, de uma reunião na zona rural do município de Tumaco para, supostamente, conversar com uma associação camponesa e “levar a acordos com as FARC”. No caminho, alguns rebeldes fizeram-no descer do carro e, na frente dos seus acompanhantes, atiraram contra ele até matá-lo.

Dias depois, 16 de agosto, na mesma esquina e no mesmo microfone do Palco de Havana, Cuba, a guerrilha afirmou: “Rechaçamos e condenamos categoricamente o assassinato do dirigente étnico e comunitário Genaro García. Não é política da nossa organização atentar contra a vida de líderes e dirigentes sociais ou políticos”. Na segunda-feira, eles tiveram que reconhecer que, como garantiram os defensores dos direitos humanos de Tumaco e outras regiões do país, a guerrilha, sim, assassinou este líder social.

De acordo com um investigador social de Tumaco, “a história de Genaro é a história de outros líderes que não aceitam as imposições das FARC. Elas insistiram em tirar poder dos conselhos comunitários e quem se opôs foi ameaçado, transferido e morto”. Para este líder, que pediu para não ser identificado, por temor das represálias da guerrilha neste povoado onde os próprios insurgentes causaram o maior dano ambiental com petróleo da última década há um mês, a morte de Genaro poderia ter outra explicação. Segundo contou ao Página/12, por trás do silenciamento pela força do afrocolombiano estaria a pressão das FARC sobre os Conselhos Comunitários para apoiarem um candidato à Prefeitura de Tumaco imposto pela guerrilha.

Genaro coordenava o conselho comunitário de Alto Mira, isto é, dessa região de terras exuberantes nas margens mais distantes do rio Mira, que desemboca no mar, recentemente mergulhado no petróleo devido a um atentado ao oleoduto que deixou 180.000 pessoas sem água – a maioria pobres, desempregados e afrodescendentes – por mais de uma semana. “O fato de as FARC agredirem o povo, os líderes, não é nova. Sabe-se que há anos estão trazendo camponeses cocaleiros de Putumayo para criar novas associações que suplantem os conselhos comunitários promovidos pela Lei 70”, garante um líder para quem, por exemplo, está claro que a Associação Asominuma é controlada pelas FARC.

Para este homem que anda pelas ruas da cidade tumaquenha e nas margens dos rios apoiando o povo empobrecido não só pela ausência de Estado, mas também pela grande presença de cultivos (legais) de palma e da folha de coca (ilegais), a conjuntura política por conta das eleições e pelo giro que tomam as negociações em Havana afetam cada vez mais a população civil desta parte do Pacífico da Colômbia. A ONU disse recentemente que está preocupada com o fato de que não apenas os líderes, mas o povo em geral, estarem tão desprotegidos e vulneráveis em seus direitos.

Em Havana, a guerrilha não pôde senão reconhecer a contradição que tantos colombianos têm dificuldades para compreender: enquanto falam de paz na ilha, derramam sangue inocente em sua pátria. “Fatos como este, que afrontam diretamente os processos de organização e de luta popular com os quais nos sentimos identificados, contradizem a política das FARC-EP sobre o comportamento com a população civil e o respeito às comunidades étnicas, o que constitui um preocupante agravante à luz da nossa legislação interna”, disse o comandante Catatumbo, que, junto com os outros negociadores, estará discutindo a portas fechadas as questões de paz durante toda esta semana.

Entretanto, as mulheres guerrilheiras e outras que chegaram de diversas organizações civis da Colômbia continuam em sessões também privadas e apresentaram nesta terça-feira os avanços da Subcomissão de Gênero da Mesa de Diálogo de Havana.

Enquanto isso, em Tumaco, outros líderes que se negaram a falar a este jornal por medo de perder a vida nas mãos das FARC, pedem que se diga, isso sim, que esperam que os rebeldes se integrem novamente à vida civil, que ajudem a reparar o dano ambiental, que, talvez, os perdoem uma vez mais, mas que, por favor, “respeitem as nossas vidas e a nossa dignidade, caso realmente estiverem comprometidos com a paz”.

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