A coragem da desesperança

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Por: Jonas | 02 Agosto 2015

“A verdadeira coragem não é imaginar uma alternativa, mas, sim, aceitar as consequências do fato de que não há uma alternativa claramente discernível: o sonho de uma alternativa é um sinal da covardia teórica, suas funções são como um fetiche que evita que pensemos até o final de nossa elaboração. Em outras palavras, a verdadeira coragem é admitir que a luz ao final do túnel é a luz de outro trem que se aproxima de nós na direção oposta”, escreve Slavoj Zizek, filósofo e crítico cultural, em artigo publicado por Página/12, 25-07-2015. A tradução é do Cepat.

Segundo ele, "a história recorrente da esquerda contemporânea é a de um líder ou partido eleito com entusiasmo universal, prometendo um “novo mundo” (Mandela, Lula), mas, então, cedo ou tarde, em geral, após alguns anos, depara-se com o dilema fundamental: atreve-se a mexer nos mecanismos capitalistas ou decide “continuar o jogo”? Se alguém perturba os mecanismos, muito rapidamente é “castigado” pelas perturbações do mercado, o caos econômico e o restante".

Eis o artigo.

Giorgio Agamben disse em uma entrevista que “o pensamento é a coragem da desesperança”, uma visão que é especialmente para nosso momento histórico, quando, em regra geral, mesmo o mais pessimista dos diagnósticos termina com uma insinuação otimista de alguma versão da proverbial luz no fim do túnel. A verdadeira coragem não é imaginar uma alternativa, mas, sim, aceitar as consequências do fato de que não há uma alternativa claramente discernível: o sonho de uma alternativa é um sinal da covardia teórica, suas funções são como um fetiche que evita que pensemos até o final de nossa elaboração. Em outras palavras, a verdadeira coragem é admitir que a luz ao final do túnel é a luz de outro trem que se aproxima de nós na direção oposta.

Não há melhor exemplo da necessidade de tal bravura do que a Grécia hoje.

O duplo giro em forma U que a crise grega teve, em julho de 2015, não pode aparecer apenas como uma passagem da tragédia à comédia, mas também, como apontou Stathis, da tragédia cheia de contratempos cômicos diretamente ao teatro do absurdo (há alguma outra maneira de caracterizar a mudança de um extremo a outro, que pudesse deslumbrar até mesmo o filósofo hegeliano mais especulativo?). Cansado das intermináveis negociações com os executivos da União Europeia (UE), nas quais uma humilhação seguiu outra, o Syriza convocou o referendo do domingo, dia 5 de julho, que perguntava ao povo grego se apoiava o rejeitava a proposta de novas medidas de austeridade da UE.

Ainda que o governo claramente tenha apoiado o Não, o resultado foi uma surpresa para o próprio governo: a surpreendentemente esmagadora maioria de mais de 61% votou Não à chantagem europeia. Os rumores começaram a circular de que o resultado – a vitória para o governo – era uma má surpresa para Tsipras, que secretamente tinha a esperança de que o governo perdesse, de modo que uma derrota lhe permitiria salvar a honra ao se render às exigências da UE (“temos que respeitar a voz dos eleitores”). No entanto, na manhã seguinte, Alexis Tsipras anunciou que a Grécia estava disposta a retomar as negociações e, dias mais tarde, negociou uma proposta com a UE, que é basicamente a mesma que os eleitores haviam rejeitado (em alguns detalhes, ainda mais duras). Em resumo, atuou como se o governo tivesse perdido, não vencido, o referendo:

Como é possível que um devastador Não às políticas de austeridade seja interpretado como uma luz verde para um novo memorando de entendimento? O sentido do absurdo não é apenas um produto desta mudança inesperada. Surge, sobretudo, do fato de que tudo isto está se desenvolvendo diante de nossos olhos, como se nada tivesse acontecido, como se o referendo fosse algo assim como uma alucinação coletiva que terminou repentinamente, deixando que continuemos fazendo livremente o que fazíamos antes. No entanto, pelo fato de nem todos nós termos nos convertido em comedores de lótus, vamos ao menos apresentar um breve resumo do que ocorreu nos últimos dias. Desde segunda-feira pela manhã, antes que os gritos de vitória nas praças públicas do país tivessem desaparecido totalmente, começou o teatro do absurdo.

O público, ainda em estado de gozo pelo resultado do domingo, observava como o representante de 62% se subordinava ao restante de 38%, no período imediatamente posterior a uma ressonante vitória para a democracia e a soberania popular. Porém, o referendo aconteceu. Não era uma alucinação da qual todo o mundo agora se recuperou. Pelo contrário, a alucinação é a tentativa de rebaixá-lo a um temporário “deixar que se ventile a fumaça antes de retomar o descenso para um terceiro acordo”.

E as coisas seguiram nessa direção. Na noite do dia 10 de julho, o Parlamento grego deu a Alexis Tsipras autoridade para negociar um novo plano de resgate, por 250 votos contra 32, mas 17 deputados do governo não apoiaram o plano, o que significa que tem mais apoio dos partidos da oposição do que de seu próprio partido. Dias mais tarde, a Secretaria de Política do Syriza, dominada pela ala esquerda do partido, concluiu que as últimas propostas da UE eram “absurdas” e que “excedem os limites da resistência da sociedade grega” – extremismo esquerdista? -.

O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), neste caso uma voz do capitalismo minimamente racional, fez exatamente o mesmo: um estudo do FMI publicado no dia anterior, mostrou que a Grécia necessita de muito mais alívio da dívida dos governos europeus do que estavam dispostos a contemplar até agora. Os países europeus teriam que dar a Grécia um período de 30 anos de graça para cumprir com toda a sua dívida na Europa, incluindo novos empréstimos e uma extensão da maturidade dramática.

Não é de estranhar que o próprio Tsipras declarasse publicamente sua dúvida sobre o plano de resgate: “Não acreditamos nas medidas que nos impuseram”, disse Tsipras durante uma entrevista de televisão, deixando claro que a apoia por puro desespero, para evitar um colapso econômico e financeiro total. Os eurocratas utilizam tais confissões com impressionante deslealdade. Agora que o governo grego aceitou as suas duras condições, duvidam da sinceridade e da seriedade de seu compromisso: como pode Tsipras realmente lutar por um programa em que não acredita? Como pode o governo grego estar realmente comprometido com o acordo, quando se opõe ao resultado do referendo?

No entanto, declarações como as do FMI demonstram que o verdadeiro problema é outro: a UE realmente acredita em seu próprio plano de resgate? Realmente acredita que as brutais medidas impostas promoverão o crescimento econômico e, portanto, o pagamento das dívidas? Ou a motivação final da brutal pressão de extorsão sobre a Grécia não é puramente econômica (já que é obviamente irracional em termos econômicos), mas, sim, política e ideológica – ou, como disse Krugman, “a rendição não é suficiente para Alemanha” -, que quer a mudança de regime e a humilhação total da Grécia. E há uma facção importante que somente deseja tirar a Grécia da UE, e mais ou menos daria boas-vindas a um estado falido, como uma advertência para o restante. “Sempre se deve levar em consideração o horror que o Syriza representa para o establishment europeu” (um membro conservador polaco do Parlamento Europeu, inclusive, apelou diretamente ao exército grego para dar um golpe de Estado, com a finalidade de salvar o país).

Por que este horror? Aos gregos, agora, é solicitado que paguem o alto preço, mas não para uma perspectiva realista de crescimento. O preço que lhes é pedido que paguem é a continuação da fantasia de “estender e pretender”. É pedido a eles que aumentem seu sofrimento real, com a finalidade de sustentar o sonho de outros (eurocratas). Há décadas, Gilles Deleuze disse: “Si vous êtez pris dans le rêve de l’autre, vous êtez foutus” (“se você está dentro do sonho de outro, está com problemas”).

Esta é a situação na qual Grécia se encontra agora. Não é pedido aos gregos que tomem muitas pílulas amargas para um plano realista de reativação econômica, é pedido que sofram para que outros possam continuar sonhando seu sonho imperturbáveis. Quem agora necessita despertar não é a Grécia, mas, sim, a Europa. Todos que não estão presos neste sonho sabem o que nos espera se o plano de resgate é promulgado: outros 90 bilhões de euros, mais ou menos, serão arremetidos no cesto grego, aumentando a dívida grega para 400 bilhões (e a maioria deles voltarão rapidamente a Europa ocidental. O verdadeiro plano de resgate é o resgate dos bancos alemães e franceses, não da Grécia), e podemos esperar que a própria crise exploda em alguns anos...

Porém, esse resultado é realmente um fracasso? Em nível imediato, caso o plano seja comparado com o seu resultado real, obviamente, sim. Em um nível mais profundo, no entanto, não se pode evitar a suspeita de que o verdadeiro objetivo não é dar a Grécia uma oportunidade, mas, ao contrário, transformá-lo em um estado quase colonizado economicamente, mantido na pobreza e na dependência permanente como uma advertência para outros. Contudo, em um nível mais profundo, há novamente um fracasso, não da Grécia, mas da própria Europa, do núcleo emancipatório do legado europeu.

O Não do referendo foi, sem dúvida, um grande ato ético-político: contra uma propaganda inimiga bem coordenada que difundia mentiras e temores, sem nenhuma perspectiva clara do que jaz adiante, contra todas as probabilidades pragmáticas “realistas”, o povo grego rejeitou heroicamente a pressão brutal da UE. O Não grego foi um gesto autêntico de liberdade e autonomia, mas a grande pergunta, claro, é o que ocorre no dia seguinte, quando temos que voltar da arrebatada negação ao sujo negócio de todos os dias, e aqui surge outra unidade, a unidade das forças “pragmáticas” (Syriza e os grandes partidos da oposição) contra o Syriza de Esquerda e o Amanhecer Dourado (ultradireita). Contudo, isto significa que a longa luta do Syriza foi em vão, que o Não do referendo foi apenas um vazio gesto sentimental destinado a tornar mais palpáveis os ditames de rendição?

O realmente catastrófico da crise grega é que no momento em que o referendo aparecia como a escolha entre o Grexit (saída da Zona do Euro) e a rendição a Bruxelas, a batalha já estava perdida. Ambos os termos desta escolha se movem dentro da eurocrática visão predominante (recorde que os alemães de linha dura anti-grega, como o ministro de Finanças, Schauble, também preferem o Grexit!). O governo do Syriza não estava lutando só por um maior alívio da dívida e por mais dinheiro novo dentro das mesmas coordenadas globais, mas pelo despertar da Europa de seu sonho dogmático.

Aí reside a grandeza autêntica do Syriza: na medida em que o ícone da agitação popular na Grécia foram os protestos na Praça Sintagma, o Syriza se comprometeu com o trabalho hercúleo de promulgar a mudança de Sintagma ao paradigma que, no longo e paciente trabalho de traduzir a energia da rebelião em medidas concretas, mudariam a vida cotidiana das pessoas. Temos que ser muito precisos aqui: o Não do referendo grego não era um Não à “austeridade”, no sentido dos sacrifícios necessários e o trabalho duro, era um Não ao sonho da UE de continuar com o negócio como de costume.

Varoufakis (o ministro das Finanças que renunciou pouco antes do referendo) repetidamente deixou claro um ponto: não há como se endividar mais, é preciso uma reabilitação global para dar à economia grega a oportunidade de se recuperar. O primeiro passo nessa direção deveria ser um aumento na transparência democrática de nossos mecanismos de poder. Nossos aparatos estatais democraticamente eleitos estão cobertos por uma rede espessa de “acordos” (TISA, etc.) e por órgãos “especialistas” não eleitos, que ostentam o poder econômico (e militar) real. Aqui, o relato de Varoufakis, em um momento extraordinário, em suas tratativas com Jeroen Dijsselbloem:

“Houve um momento em que o presidente do Eurogrupo decidiu atuar contra nós e nos excluiu efetivamente, e fez saber que a Grécia estava essencialmente saindo da Zona do Euro. Há uma convenção que os comunicados devem ser unânimes, e o presidente não pode convocar uma reunião da Zona do Euro e excluir um Estado membro. E ele disse: ‘Oh, estou seguro de que posso fazer isso’.

Sendo assim, pediu uma opinião legal. Criou um pouco de confusão. A reunião ficou paralisada de 5 a 10 minutos, os secretários e funcionários estavam falando entre si, por seus telefones, e, finalmente, um funcionário, algum especialista legal se dirigiu a mim e disse: ‘Bom, o Eurogrupo não existe legalmente, não há um tratado que tenha convocado este grupo’. Sendo assim, o que temos é um grupo inexistente que tem poder maior para determinar a vida dos europeus. Não precisa prestar contas para ninguém, uma vez que legalmente não existe e é confidencial. De forma que nenhum cidadão sabe o que se diz aí dentro. Estas são decisões quase de vida ou morte, e nenhum membro precisa prestar contas”.

Soa familiar? Sim, para qualquer um que conheça como funciona o poder da China hoje em dia, depois que Deng Xiaoping colocou em marcha um sistema dual único: o aparato e o sistema legal amparam as instituições do partido que são, literalmente, ilegais, ou, como disse He Weifang, um professor de Direito em Beijing, sucintamente: “Como organização, o partido se assenta por fora e sobre a lei. Deveria ter uma identidade legal, em outras palavras, uma pessoa a quem demandar, mas nem sequer está registrado como organização. O partido existe totalmente fora do sistema legal”. É como se, nas palavras de Benjamin, a violência do estado fundador permaneça presente, encarnada em uma organização com um estatuto jurídico confuso:

“Pode parecer difícil ocultar uma organização tão grande como o Partido Comunista da China, mas cultiva seu papel de transfundo com cuidado. Os grandes departamentos do partido, que controlam os meios de comunicação e seu pessoal, mantêm um perfil público deliberadamente discreto. Os comitês do partido (conhecidos como ‘condutores de grupos pequenos’) que guiam e ditam a política aos ministros, que por sua vez tem a tarefa de executá-la, trabalham ocultos. Raras vezes são feitas referências à composição de todos estes comitês e, em muitos casos, inclusive, à sua existência, nos meios de comunicação controlados pelo Estado, isso sem falar de qualquer discussão sobre a forma como chegam às decisões”.

Não é de estranhar que ocorreu com Varoufakis exatamente o mesmo que aconteceu com um dissidente chinês que, há alguns anos, apresentou-se formalmente ao juizado e acusou o Partido Comunista Chinês de ser culpado pelo massacre de Tiananmen. Depois de alguns meses, recebeu uma resposta do Ministério da Justiça: não podem continuar com sua acusação já que não há organização chamada “Partido Comunista Chinês” oficialmente registrado na China. E é fundamental destacar como esta opacidade do poder é falso humanitarismo: após a derrota grega, há, por exemplo, tempo para preocupações humanitárias. Jean-Claude Juncker (presidente da Comissão Europeia) disse, há pouco, em uma entrevista, que ele está muito contente com o acordo de resgate, porque irá aliviar de imediato o sofrimento do povo grego, que tanto lhe preocupava. Cenário clássico: depois de uma repressão política, vem a preocupação humanitária e a ajuda, inclusive postergando os pagamentos da dívida, etc.

O que se deve fazer em uma situação tão desesperada? Dever-se-ia, especialmente, resistir à tentação do Grexit como um grande ato heroico de rejeitar novas humilhações e caminhar... para onde? Estamos entrando em uma nova ordem positiva? A opção Grexit aparece como o “verdadeiro-impossível”, como algo que levaria a uma desintegração social imediata: “Tsipras, aparentemente, deixou-se convencer, há algum tempo, de que a saída do euro era completamente impossível. Parece que o Syriza nem sequer fez um planejamento de contingência para uma moeda paralela (espero descobrir que isto é um erro).

Isto o deixou em uma posição de negociação desesperada”. O ponto de Krugman é que o Grexit é também um impossível-verdadeiro que pode acontecer com consequências imprevisíveis e que, como tal, pode ser arriscado: “todos os chefes sábios dizendo que o Grexit é impossível, que daria lugar a uma implosão completa, não sabem do que estão falando. Quando digo isto, não necessariamente significa que estão equivocados. Acredito que estão, mas qualquer um que confia em algo, aqui, está enganando a si mesmo. O que quero dizer, ao contrário, é que ninguém tem nenhuma experiência do que estamos vendo”. Embora, inicialmente, isto seja certo, não obstante, há muitos indícios de que um Grexit súbito, agora, levaria a uma total catástrofe econômica e social. Os estrategistas econômicos do Syriza estão muito conscientes de que tal gesto causaria uma queda imediata do nível de vida adicional de 30% (no mínimo), levando a miséria a um novo nível insuportável, com a ameaça de descontentamento popular e inclusive de ditadura militar. A perspectiva de tais tipos de atos heroicos é, portanto, uma tentação que deve ser resistida.

Depois existem as convocações do Syriza para retornar às suas raízes: o Syriza não deve se converter em outro partido parlamentar governante a mais. O verdadeiro caminho apenas pode vir das bases, do povo, de sua própria organização, não dos aparatos estatais, o que é outro caso de posturas vazias, já que evita o problema crucial de como enfrentar a pressão internacional em relação à dívida, ou como exercer poder e dirigir um estado. As bases de auto-organização não podem substituir o Estado, e a pergunta é como reorganizar o aparato para que funcione de maneira diferente.

No entanto, não é suficiente dizer que o Syriza lutou heroicamente, provando o que é possível. A luta contínua acaba de começar. Ao invés de insistir nas “contradições” da política do Syriza (após um triunfal Não, aceita o mesmo programa que tinha sido rejeitado pelo povo) e de ficar preso em recriminações mútuas sobre quem é o culpado (a maioria do Syriza cometeu uma “traição” oportunista, ou a esquerda foi irresponsável em sua preferência pelo Grexit), seria necessário se centrar no que o inimigo está fazendo: as “contradições” do Syriza são um reflexo das “contradições” do establishment da UE, que estão minando gradualmente os próprios fundamentos da Europa unida. No disfarce das “contradições” do Syriza, o establishment da UE está simplesmente recebendo sua própria mensagem em sua verdadeira forma. E é isto que o Syriza deveria estar fazendo agora. Com um pragmatismo desapiedado e cálculo frio, deve explorar as menores fendas na armadura do rival. Deveria utilizar todos os que resistem às políticas predominantes da UE, dos conservadores britânicos a UKIP, no Reino Unido. Deveria paquerar descaradamente a Rússia e a China, jogando com a ideia de conceder uma ilha à Rússia com sua base militar no Mediterrâneo, apenas para assustar totalmente os estrategistas da OTAN. Parafraseando a Dostoievski, agora que o Deus UE falhou, tudo está permitido.

Quando se escuta as queixas de que a administração da UE ignora brutalmente a difícil situação do povo grego em sua cega obsessão em humilhar e disciplinar os gregos, que até mesmo os países do sul europeu como Itália ou Espanha não mostraram solidariedade com Grécia, nossa reação deveria ser: é surpreendente tudo isto? O que esperavam os críticos? Que a administração da UE entenderá magicamente a argumentação do Syriza e atue de acordo com ela? A administração da UE simplesmente está fazendo o que sempre fez. Depois, existe a reprovação de que Grécia está buscando ajuda na Rússia e na China, como se a própria Europa não estivesse pressionando a Grécia nessa direção, com sua pressão humilhante.

Existe também a afirmação de que fenômenos como o Syriza demonstram como a tradicional dicotomia esquerda/direita sobrevive. Na Grécia, o Syriza é chamado de extrema esquerda, na França, Marine Le Pen é considerada extrema direita, mas estes dois partidos têm, efetivamente, muito em comum: ambos lutam pela soberania contra as corporações multinacionais. Portanto, é bastante lógico que na própria Grécia o Syriza está em coalizão com um pequeno partido direitista pró-soberania. No dia 22 de abril de 2015, François Hollande disse na televisão que Marine Le Pen, hoje, soa como George Marchais (um líder comunista francês) nos anos 1970. A mesma defesa patriótica da difícil situação dos franceses comuns explorados pelo capital internacional. Não é de estranhar que Marine Le Pen apoie o Syriza, uma rara afirmação que não diz muito mais que o velho liberalismo sábio acerca de que o fascismo é uma espécie de socialismo. No momento em que colocamos sobre a mesa o tema dos trabalhadores imigrantes, todo este paralelo se desmorona.

O problema final é um muito mais básico. A história recorrente da esquerda contemporânea é a de um líder ou partido eleito com entusiasmo universal, prometendo um “novo mundo” (Mandela, Lula), mas, então, cedo ou tarde, em geral, após alguns anos, depara-se com o dilema fundamental: atreve-se a mexer nos mecanismos capitalistas ou decide “continuar o jogo”? Se alguém perturba os mecanismos, muito rapidamente é “castigado” pelas perturbações do mercado, o caos econômico e o restante.

O heroísmo do Syriza foi que, após vencer a batalha política democrática, arriscou-se a um passo a mais, perturbando o bom funcionamento do capital. A lição da crise grega é que o capital, ainda que em última instância seja uma ficção simbólica, é nossa realidade. Quer dizer, os protestos e revoltas de hoje se sustentam pela combinação (superposição) dos diferentes níveis, e esta combinação explica sua fortaleza: lutam pela democracia (parlamentar “normal”) contra os regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, sobretudo contra o ódio dirigido a imigrantes e refugiados; pelo Estado de Bem-Estar contra o neoliberalismo; contra a corrupção na política e a economia (empresas contaminando o meio ambiente, etc.); por novas formas de democracia que vão além dos rituais multipartidários (participação, etc.); e, por último, o questionamento do sistema capitalista global como tal, tratando de manter viva a ideia de uma sociedade não capitalista. Duas armadilhas devem ser evitadas aqui: o falso radicalismo (“o que realmente importa é a abolição do capitalismo parlamentar liberal, o resto das brigas são secundárias”), assim como o falso gradualismo (“agora lutamos contra a ditadura militar e pela simples democracia, esqueçam seus sonhos socialistas, isto vem depois, talvez...”). Quando temos que enfrentar uma luta específica, a pergunta chave é: como será nossa participação nela ou a retirada da mesma afetará outras lutas?

A regra geral é que, quando uma revolta começa contra um regime opressivo semidemocrático, como foi o caso no Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com lemas que não podem deixar de se caracterizar por agradar a multidão – pela democracia, contra a corrupção, etc. -. Porém, então nos aproximaremos pouco a pouco de decisões mais difíceis: quando nossa rebelião tem êxito, em seu objetivo direto, percebemos que aquilo que realmente nos incomodou (nossa não-liberdade, a humilhação, a corrupção social, a falta de perspectivas de uma vida digna) continua em uma nova forma. No Egito, os manifestantes conseguiram se desfazer do regime opressivo de Mubarak, mas a corrupção permaneceu, e a perspectiva de uma vida digna se distanciou ainda mais.

Após a derrubada de um regime autoritário, os últimos vestígios da atenção patriarcal para com os pobres podem ir para longe, de modo que a liberdade recém-adquirida se reduz, de fato, à liberdade de escolher a forma preferida da própria miséria. A maioria não apenas continua sendo pobre, mas, para o cúmulo dos males, é dito a eles que, agora que são livres, a pobreza é sua própria responsabilidade. Em tal situação, temos que admitir que houve falhas em nossa própria meta, que a meta não era suficientemente específica.

Por exemplo, que a democracia política padrão pode também ser a própria forma de não-liberdade: a liberdade política pode facilmente proporcionar o marco legal para a escravidão econômica, com os mais desfavorecidos vendendo-se “livremente” à servidão. Portanto, temos de exigir mais que apenas democracia política. Também a democratização da vida social e econômica. Em suma, temos que admitir que aquilo que inicialmente tomamos como um fracasso em realizar plenamente um princípio nobre (o da liberdade democrática), é um fracasso inerente ao seu próprio princípio. Aprender este passo da distorção de uma noção, sua realização incompleta, a imanente distorção desta noção, é o grande passo da pedagogia política.

A ideologia dominante mobiliza, aqui, todo o seu arsenal para nos impedir esta conclusão radical. Começam nos dizendo que a liberdade democrática trai sua própria responsabilidade, que tem um preço, que não estamos ainda maduros, caso esperamos muito da democracia. Desta maneira, culpam-nos por nosso fracasso: em uma sociedade livre, pelo que nos é dito, somos todos capitalistas investindo em nossas vidas, decidindo colocar mais em nossa educação do que em nos divertir, caso queiramos ter êxito, etc. Em um plano político mais direto, a política exterior dos Estados Unidos elaborou uma detalhada estratégia de como exercer o controle de danos recanalizando um levantamento popular para limitações parlamentares capitalistas aceitáveis.

Como se fez na África do Sul, com êxito, após a queda do regime de apartheid, nas Filipinas, após a queda de Marcos, na Indonésia, após a queda de Suharto, etc. Nesta conjuntura precisa, a política emancipatória radical enfrenta seu maior desafio: como levar as coisas para além, após a primeira etapa entusiasta acabar, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”. Em resumo, como se mover para além de Mandela, sem se tornar Mugabe.

A coragem da desesperança é crucial neste ponto.

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